Svetlana Kekova é uma das mais respeitadas poetas da Rússia

Astier Basílio

De Moscou

Aos 75 anos, Svetlana Kekova é uma das mais respeitadas poetas da Rússia. Nasceu em Sacalina (pode onde andou o contista e dramaturgo Tchékhov), numa família de militares.

Doutora em letras pela Universidade de Saratov, onde leciona, Svetlana Kekova defendeu duas teses. Uma sobre Nicolai Zabolótski e a outra sobre Arseni Tarkóvski.

Autora de dezessete livros de poesia, Svetlana Kekova é vencedora de significativos prêmios literários, tais como os que foram promovidos pelas revistas (1995) e Novy Mir (2003),  além do prêmio Andrei Tarkovsky (Kiev, 2009).

Traduzida pela primeira vez em língua portuguesa. São três poemas.

Svetlana Kekova poeta russa 1
Svetlana Kekova, poeta russa | Foto: Reprodução

1

Eu vivo num quartinho e mora aqui do lado

O último poeta, alguém muito calado.

Escreve vírshi¹ à noite , de dia dormirá.  

Ora entra em garrafas, ora ferve chá.

Um verbo quente como um abraço ele fala

Qual verba pra tecido em que sua filha embala-se.

A filha lhe dá flores do campo e aproveita

para lhe fazer kissel² e algum cranberry corta

e ao olhar seu pai ela vê apenas letras,

só letras e mais letras, miseráveis, tortas…

Notas

¹ versos silábicos antigos, comuns na literatura russa, ucraniana e bielorrussa dos séculos XVI a XVIII, geralmente utilizados em conteúdo espiritual ou histórico. Na língua moderna, a palavra é frequentemente usada de forma irônica para designar versos ruins, sem técnica.

² Xarope de sumo de frutos engrossado com uma fécula, que pode ser de batata, de milho (maizena) ou flocos de aveia.

2

Svetlana Kekova jovem 0k89

Estávamos a bordo do imortal “Titanic”,

conforto nas cabines tudo uma beleza

palavras como um pão de mel que se estique 

às vezes nos serviam como  sobremesa.

A onda em gume gela porque ela deseja

saber onde é que estão- Abraão, Noé, Moisés…

Sombras de damas, como lacaios com bandejas

flutuavam nos tapetes de luxo no convés.

Com a sua engomada farda o capitão

partiu para um cochilo, arrumou-se no sofá

e os senhores afeitos ao ato de criação

ficam observando como adormece o mar.

Nossa nação, porém, que no céu tem estado,

diz para a terra que sem ter consolo ouviu:

Aqui a humanidade navega, então, cuidado,

ela vai navegando em um grande navio”.

Svetlana Kekova jovem 0k89

3

A mesa espera e com alinho,

copinho em fila se mistura…

Comemos pão igual passarinhos

a beliscar uvas maduras.

A bétula o ramo solta, lenta,

mas à calçada ele projeta-se…

Assim bebemos água benta

igual abelha bebe o néctar.

Risca no ar um som, um brilho,

o contrabaixo do trovão…

Assim forçamos nossos filhos

feito o beijar que anjos nos dão

Mas como, ensina-nos, no traço

da curva que em duas soa

e assim amar a flor e o pássaro

tal como Deus ama as pessoas?