3 poemas de Svetlana Kekova traduzidos do russo por Astier Basílio
23 maio 2026 às 21h00

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Svetlana Kekova é uma das mais respeitadas poetas da Rússia
Astier Basílio
De Moscou
Aos 75 anos, Svetlana Kekova é uma das mais respeitadas poetas da Rússia. Nasceu em Sacalina (pode onde andou o contista e dramaturgo Tchékhov), numa família de militares.
Doutora em letras pela Universidade de Saratov, onde leciona, Svetlana Kekova defendeu duas teses. Uma sobre Nicolai Zabolótski e a outra sobre Arseni Tarkóvski.
Autora de dezessete livros de poesia, Svetlana Kekova é vencedora de significativos prêmios literários, tais como os que foram promovidos pelas revistas (1995) e Novy Mir (2003), além do prêmio Andrei Tarkovsky (Kiev, 2009).
Traduzida pela primeira vez em língua portuguesa. São três poemas.

1
Eu vivo num quartinho e mora aqui do lado
O último poeta, alguém muito calado.
Escreve vírshi¹ à noite , de dia dormirá.
Ora entra em garrafas, ora ferve chá.
Um verbo quente como um abraço ele fala
Qual verba pra tecido em que sua filha embala-se.
A filha lhe dá flores do campo e aproveita
para lhe fazer kissel² e algum cranberry corta
e ao olhar seu pai ela vê apenas letras,
só letras e mais letras, miseráveis, tortas…
Notas
¹ versos silábicos antigos, comuns na literatura russa, ucraniana e bielorrussa dos séculos XVI a XVIII, geralmente utilizados em conteúdo espiritual ou histórico. Na língua moderna, a palavra é frequentemente usada de forma irônica para designar versos ruins, sem técnica.
² Xarope de sumo de frutos engrossado com uma fécula, que pode ser de batata, de milho (maizena) ou flocos de aveia.
2

Estávamos a bordo do imortal “Titanic”,
conforto nas cabines tudo uma beleza
palavras como um pão de mel que se estique
às vezes nos serviam como sobremesa.
A onda em gume gela porque ela deseja
saber onde é que estão- Abraão, Noé, Moisés…
Sombras de damas, como lacaios com bandejas
flutuavam nos tapetes de luxo no convés.
Com a sua engomada farda o capitão
partiu para um cochilo, arrumou-se no sofá
e os senhores afeitos ao ato de criação
ficam observando como adormece o mar.
Nossa nação, porém, que no céu tem estado,
diz para a terra que sem ter consolo ouviu:
Aqui a humanidade navega, então, cuidado,
ela vai navegando em um grande navio”.

3
A mesa espera e com alinho,
copinho em fila se mistura…
Comemos pão igual passarinhos
a beliscar uvas maduras.
A bétula o ramo solta, lenta,
mas à calçada ele projeta-se…
Assim bebemos água benta
igual abelha bebe o néctar.
Risca no ar um som, um brilho,
o contrabaixo do trovão…
Assim forçamos nossos filhos
feito o beijar que anjos nos dão
Mas como, ensina-nos, no traço
da curva que em duas soa
e assim amar a flor e o pássaro
tal como Deus ama as pessoas?



