José Ternes, Foucault, Bachelard, Drummond de Andrade e o embate entre o pensamento clássico e o moderno
30 maio 2026 às 21h00

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Eurípedes Leôncio
Especial para o Jornal Opção
Este artigo visa demonstrar, resumidamente, o embate entre o pensamento clássico e o moderno, ressaltando as teorias de Aristóteles, Descartes, Hegel, Foucault, Bachelard e, consequentemente, o que separa um período do outro. Tendo como orientação o artigo “Modernidade e linguagem: de Bachelard a Foucault”, do professor e filósofo José Ternes. Consultaremos, com destaques: o livro “As palavras e as Coisas”, de Michel Foucault, e poemas de Carlos Drummond de Andrade, além de outras citações relevantes que se enquadram no tema proposto.
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A batalha do ser humano com a palavra
Travou-se, desde os primórdios, uma batalha do ser humano com a palavra. Na verdade, um feito para o outro desde a criação, “no início era a palavra”, mas neste defrontar-se houve um misto de simpatia, empatia e repulsa.
O ser humano buscou a palavra para depositá-la no mundo das ideias, na representação, imitação, mimesis, como nos expõem Sócrates, Platão e Aristóteles, na época clássica. Depois, ela se assentou nos profetas, num discurso revelador de uma verdade universal, através dos provérbios. No Renascimento Classicista, séc. XVI e XVII a arte utiliza a palavra para representar, numa forma medida, racional, dentro das teorias do cartesianismo e ainda, no séc. XVIII, o Enciclopedismo confina a palavra nos dicionários, nas enciclopédias e nas bibliotecas.
O ser humano ficou ausente da expressão artística, pela força do saber científico, na busca da matemática, e somente no séc. XIX, no Romantismo, a palavra como expressão criadora individual caminha rumo a liberdade e finalmente no século XX, transforma-se no cobiçado reino, sem Rei, sem tutor, como explicita com lucidez Foucault:
A partir do século XIX, a literatura repõe à luz a linguagem no seu ser: não, porém, tal como ela aparecia ainda no final do Renascimento. Porque agora não há mais aquela palavra primeira, absolutamente inicial, pela qual se achava fundado e limitado o movimento infinito do discurso; doravante a linguagem vai crescer sem começo, sem termo e sem promessa. É o precursor desse espaço vão e fundamental que traça, dia a dia, o teto da literatura (As Palavras e as Coisas, p. 61)

Em conformidade com as afirmações do grande filósofo francês, pode-se demonstrar que o homem existe como ser pensante, e está além do circundante. Não se exclui a máxima cartesiana, mas a amplia para um plano profundamente metafísico, além do girar, do horizontal para a verticalidade, daí a sua finitude, o abalo que a verdade provocará.
A forma cartesiana valorizou mais o pensamento, a filosofia como prova da existência, muito mais que o próprio homem, produtor e executor dessa verdade agente dessa ação. Nivelar do alto para baixo, ou seja, quem não atinge o saber enunciado fica excluído, juntamente com sua fantasia, no que Carlos Drummond de Andrade, no Modernismo, mostra que a fonte é o coração, a imaginação, a individualidade, a palavra e o ser na simbiose do mundo, do eu-mundo:
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é o meu coração
(Andrade, Oc, 1967, 54)
Contrapondo os versos de Drummond, a lógica cartesiana desencadeará num restrito uso da língua escrita, numa retomada aos padrões clássicos do pensamento e da arte, representando o belo absoluto, mas na restauração das premissas e conclusões silogísticas, mas não escapará dos sofistas redescobrindo o ser, como anti-herói, numa fonte reveladora e criadora da ironia escondida no artista que resultará em discurso, arte, manifestação individualizada, para depois repetida em todos os tempos pelos hinos, cânticos, provérbios, poesia, tornar-se escritura.
Surge, então, “Dom Quixote”, 1605, de Miguel Cervantes, como nó na forma, no equilíbrio, na portentosa representação do belo, dos mitos e da natureza, como ilustra com perspicácia, o Autor de “As Palavras e As Coisas”:
Dom Quixote assumiu sua realidade. Realidade que ele deve somente a linguagem e que permanece totalmente interior às palavras. A verdade de Dom Quixote não está na relação das palavras com o mundo, mas nessa tênue e constante relação que as marcas verbais tecem de si para si mesmas. A ficção frustrada das epopeias tornou-se no poder representativo da linguagem. As palavras acabam de se fechar na sua natureza de signos. (p. 66-67).

A revolução de Dom Quixote, séc. XVII, só se obteve resposta acolhedora nos séculos XIX e XX, com o Romantismo e Modernismo.
Antecipando Foucault, o filósofo alemão Hegel, sintetiza o ideal romântico e rompe com a representação clássica, na obra que abre novos rumos polêmicos sobre as artes, a “Estética” (Os Pensadores, pág. 39):
O que exigimos a uma obra de arte é que participe da vida, e à arte em geral exigimos que não seja dominada por abstrações como a lei, o direito, a máxima, que a generalidade que exprima não seja estranha ao coração, ao sentimento, e que a imagem existente na imaginação tenha uma forma concreta. Mas como a nossa cultura não se caracteriza por um excesso de vida, como o nosso espírito e a nossa alma já não obtêm satisfação dos objetos animados por um sopro de vida, não é do ponto de vista da cultura, da nossa cultura, que poderemos apreciar o justo valor, a missão e a dignidade da arte. (Hegel, p. 39).
A partir de Foucault conforme o professor José Ternes, na apresentação do livro de George Canguilhem, Michel Foucault: morte do homem ou esgotamento do Cogito? afirma sobre a revolução que a obra do filósofo francês provocou em todos os quadrantes:
As palavras e as Coisas provocaram, na segunda metade dos anos 60, as mais variadas reações. “Manhã de festa”, para uns. Desprezo e rancor, para outros. Ao já nos aproximarmos de seu 50º aniversário, esse divisor de águas parece manter-se inabalável, com uma diferença importante, no entanto: já não se restringe aos muros da academia francesa. Globalizou-se. A divisão diz respeito, agora, ao mundo.
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Subjugamento e liberdade da linguagem
O Renascimento revelou a certeza de que o eu existo, enquanto pensa, e assim subjuga a linguagem, a palavra como sua escrava, formalmente ao rigor do racionalismo. Linguagem e pensamento se contemplam e se revelam num elo objetivista, num reino pragmático e filosófico.

A vida e o saber científico, retilíneo, pairavam sobre o racionalismo, no Discurso do Método, de Descartes, tudo no mesmo prumo, como afirma na segunda máxima: “caminhar sempre o mais reto possível para o mesmo lado, e não mudá-lo por quaisquer motivos, ainda que no início só o acaso talvez haja definido sua escolha” (Oc., p. 55). Daí o egocentrismo, a busca do belo absoluto, o primado da razão sobre a emoção, o rígido formalismo que tomou o pensamento e a produção artística renascentista, no descortinar da “deusa ciência”, ou do chamado saber científico e o próprio Descartes, na mesma obra, sintetiza o encontro do ser humano com o pensamento e sua lógica materialista: “E ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capaz de lhe causar abalo” ( Oc.. p. 62).
Essa lógica do retilíneo pensar, viver, agir, seguir é contestada por Bachelard, na sua obra “A Intuição do Instante”, argumentando que o passado não existe e que o futuro é uma possibilidade, mas o momento, num clicar do olho é a certeza do existir e ele não se repete, mas pode-se agregar na memória:
O passado é tão vazio quanto o futuro. O futuro está morto quanto o passado. O instante não contém uma duração em seu seio, não impele uma força num sentido ou noutro. Ele não tem duas faces, é inteiro e único. Por mais que lhe meditemos a essência, não encontraremos nele a raiz de uma dualidade suficiente e necessária para pensar uma direção. (A Intuição do Instante, p. 49).
Antes de Bachelard e Foucault, a ruptura dessa lógica retilínea teve início com o Romantismo, influenciado pelo individualismo e as ideias liberais da Revolução Francesa, dando uma guinada na imitação, no formalismo ao colocar a imaginação, a criatividade acima dos valores racionais. O liberalismo foi enriquecido pelas conquistas sociais, ideológicas, científicas, psicológicas que tomaram o século XIX e adentraram ao século XX, culminando e ao mesmo tempo consubstanciando o Modernismo, como consequência de uma ruptura com o passado, numa proposta demolidora, onde a busca do novo saber foi liderado por Gaston Bachelard, como elucida o estudo já citado, do professor Ternes:
O mais fundamental é que encontramos diante de uma filosofia da linguagem, uma certa compreensão da linguagem poética. Contra o atomismo linguístico, Bachelard vê a linguagem poética como um escoar imaginário. Trata-se da linguagem vivida”, e contundentemente assinala que “a linguagem poética é entendida por Bachelard, como sublimação pura”.

Efetivamente, o encontro com a linguagem provocará o nascer de um novo homem, um novo pensamento filosófico, novo saber, onde a linguagem aparece em si mesma, como nos versos de Drummond, “Procura da Poesia”:
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário
(A Procura da Poesia, in A Rosa do Povo, p. 139, oc.).
Depreende-se, nestes versos de Drummond, que o poeta não é mais o senhor do reino da palavra, para perplexidade e desassossego dos céticos, mas impenetráveis, ela o convida, chama ao desafio desde o início dos séculos e são tantos os seres que tentam domá-la, moldá-la como veículo humano, mas, tropeçam, pois sempre ela é um recomeço seduzindo o artista, como as sereias ecoaram um canto embriagador para Ulisses, solitárias para o acasalamento.
Visando espelhar essa volta orbital sobre a linguagem, o pensamento científico, o papel do artista e da arte, na sociedade, Michel Foucault questiona, elucida e contrapõe ao Cogito cartesiano e consequentemente sua influência, quando afirma “..”Eu sou” não foi interrogado nem analisado por si próprio”( oc. p. 429), ou seja não sofreu interrogação interna, psicológica, ou mesmo crítica de si mesmo e não visa o outro, mas se encerra como centro e poder em si e de si mesmo, um caminho para a decadência, ou o retorno anunciado pelo próprio Foucault, pois sem a linguagem, a palavra, não existe o porquê do Homem.
3
O retorno do ser humano e da linguagem
A palavra e o ser humano foram feitos um para o outro, desde o primeiro dia. Ambos não foram concluídos, acabados, mas em multiplicidade. Essa experiência e verdade se manifestam nunca no íntimo de cada ser, mas numa magia interativa de tempo e cenários que se aproximam e se repelem num universo heterogêneo, mas que se unem e se revelam no instante, no poema, mesmo sem a continuidade cartesiana da linha reta. O perigo é o homem, que de sujeito, se viu assujeitado e a palavra um sopro, a procura dele, como alerta Foucault:
É uma criatura muito recente que a demiurgia do saber fabricou com suas mãos há menos de 200 anos: mas ele envelheceu tão depressa que facilmente se imaginou que ele esperara na sombra, durante milênios, o momento de iluminação em que seria enfim conhecido. Certamente poder-se-ia dizer que a gramática geral, a história natural, a análise das riquezas eram, num certo sentido, maneiras de reconhecer o homem, mas é preciso discernir. Sem dúvida, as ciências naturais trataram o do homem como de uma espécie ou de um gênero. (Oc. p. 425)
Assim como Foucault, o poeta Carlos Drummond de Andrade, também, provocou enorme reboliço poético ao se referir à palavra que com seu desprezo afasta-se por um obscuro caminho ausentando-se do ser criado para expressá-la:
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo”.
(Procura da Poesia, p. 139, A Rosa do Povo, Oc.)
Pode-se, concluir que de um lado a ideologia não superou o embate da dialética que vem desde os tempos de Sócrates, Platão e Aristóteles, com suas consequências refletidas no hoje; do outro lado, o conformismo capitalista da exclusão no reinado do salve-se “quem puder” promove a maior de todas as epidemias que assola a face da Terra, a fome, em sombrios dias provocado pela escassez de alimentos e trabalho, o que motiva novamente a preocupação e alerta do filosofo francês e nos toca ao afirmar que o homem acabará, sendo expulso desse globo, onde foi colocado: “E o homem, como realidade espessa e primeira, como objeto difícil e sujeito soberano de todo conhecimento possível, não tem aí nenhum lugar” ( Oc., p. 427)
Retomando a temática, verifica-se que a palavra dá nome aos seres, as coisas, e ao que permeia todo o universo. No contraponto temporal, no hoje, as coisas refletem um caleidoscópio carnavalesco ao olhar humano, que sem a palavra, a linguagem, a fala não pode anunciar a sua própria presença momentânea. O ser humano dominado pela perplexidade explode somente a interjeição e assusta-se no vazio instalado, jogado no mundo sem o sopro, e possivelmente retorne para o encontro de sua origem e, em busca de sua identidade, de sua expressão que é a palavra, com lucidez sintetizado por Foucault: “se a descoberta do Retorno é, realmente, o fim da filosofia, então o fim do homem é o retorno do começo da filosofia. Em nossos dias não se pode mais pensar senão no vazio do homem desaparecido” (Obras completas, p. 473)
Em suma, fugir do tempo e do espaço que lhe foi reservado, desde o dia da criação é o desafio angustiante do ser ao comprovar a sua finitude. O Retorno coloca o ser humano fixado na própria Terra, mesmo plantando Bandeiras na Lua, como no poema de Drummond:
O Homem; As Viagens
O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a lua
desce cauteloso na lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.
Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte – ordena a suas máquinas
(Andrade, 1974).
Neste poema de Drummond, o homem percorre todos os planetas demonstrando a engenhosidade científica que envolve o seu saber extraterreste, até conquistar o Sol, mas o poeta coloca um desfecho que resume todo este artigo, sintetizando os dois notáveis filósofos francês que expusemos suas revolucionárias teorias sobre o ser humano: a palavra, o instante, numa ruptura com o pensamento clássico, mas fundamentalmente preocupados com o destino do homem e da palavra.
Corroborando com o Retorno que Foucault tão bem sustentou, o poeta mineiro, poeticamente, com a palavra e sua aura que ele não deixou escapar, finaliza o poema mostrando que o retorno está na fonte do coração, na solidariedade, fraternidade, no amor ao próximo e assim, concluímos com ele, este artigo, para reflexão e alerta:
Restam outros sistemas fora
Do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.
(Andrade, p. 20-22, 1974).
Referências
ANDRADE, Carlos Drummond. As impurezas do branco, 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editoras, 1974.
ANDRADE, Carlos Drummond. Obra completa. Volume Único. Rio de Janeiro: Aguillar Editora, 1967.
BACHELARD, Gaston. A intuição do instante. 2. ed. Campinas, SP: Verus Editora, 2010.
CANGUILHEM, Georges. Michel Foucault: morte do homem ou esgotamento do Cogito? Prefácio. Prof. Dr. José Ternes. Goiânia: Edições Ricochete, 2012.
DESCARTES, René. Os Pensadores. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 2000.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. 9. ed. São Paulo, Martins Fontes, 2007.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Os Pensadores. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 2000.
TERNES, José; Modernidade e linguagem. Goiânia: Ed. da PUC GO, 2012.
Eurípedes Leôncio é mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Professor. Membro da UBE e Icebe- GO e da Academia de Letras e Artes de Brasília.



