Ana Kelly Souto

De Portugal para o Jornal Opção

Abecedário de Agostinho de Hipona: V de Vaidade

“Vaidade… definitivamente o meu pecado favorito.”

Essa é uma das falas mais marcantes de “O Advogado do Diabo” (1997). O personagem John Milton, o Diabo interpretado por Al Pacino, olha para Kevin Lomax e, com um sorriso satisfeito, diz: “Kevin, é tão básico… o amor-próprio, o ópio totalmente natural”.

C.S. Lewis, em “Cartas de um Diabo a seu Aprendiz”, explicita a eficiência dessa estratégia. O diabo experiente Maldanado ensina o sobrinho Vermelindo a explorar a vaidade porque ela abre facilmente a porta para outros vícios. Sugere fazer o paciente frequentar círculos de amigos “cultos e interessantes”, para que ele se sinta superior e, aos poucos, passe a ter vergonha da simplicidade da fé cristã. A vaidade pode ainda transformar a gula em refinamento, “seja um entendido de vinhos”, ou usar a piedade da noiva cristã para gerar sensação de superioridade espiritual, “nós somos bem mais espirituais que os outros cristãos”.

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Cena do filme “O Advogado do Diabo”, com Al Pacino e Keanu Reeves | Foto: Divulgação

Para Agostinho a vaidade não é um desvio banal ou risível, mas uma inversão radical do amor. É a soberba, definida como “o apetite de uma perversa exaltação”, na qual a alma abandona Aquele a quem deve aderir como princípio e se torna princípio para si mesma (“Cidade de Deus”, XIV, 13). Essa desordem não é apenas moral, mas ontológica — o coração passa a buscar o infinito dentro de si. Nas “Confissões”, o filósofo traduz essa desordem interior numa das frases mais contundentes de sua obra, “Eu me tornara para mim mesmo um grande problema” (IV, 4, 9). Afinal, quem nunca experimentou ser o maior problema de si mesmo?

Não deixa de ser significativo que a própria palavra “vaidade” — do latim vanitas, vanus — remeta à ideia de vazio, de algo oco e sem consistência. A soberba promete grandeza, mas frequentemente produz o contrário, um eu dependente da admiração alheia e da comparação constante.

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Santo Agostinho: calcando os pés na heresia | Pintura: Vieira Lusitano (1770)

A cura, para Agostinho, encontra-se no mistério da cruz. Aquele que é Deus não se afirmou pela exaltação, mas pelo esvaziamento — o movimento kenótico de descida à humanidade e à humildade. Esse rebaixamento não empobrece o ser, mas o abre. O vazio deixado pela renúncia ao eu torna-se espaço para acolher o transcendente. Porque copos excessivamente cheios não acolhem nada novo, no máximo transbordam sobre a mesa.

A vaidade se disfarça de virtude

No filme, Kevin Lomax acredita estar lutando por justiça, talento e liberdade. Aos poucos, percebe que tudo gira em torno do prazer de admirar a si mesmo. A vaidade é o pecado favorito do Diabo exatamente porque consegue se disfarçar de virtude. Diferente da luxúria (que constrange), da violência (que choca) ou da ganância (que parece mesquinha), ela veste máscaras de excelência, inteligência, autenticidade e até de moralidade.

Além disso, a vaidade nunca repousa, ela exige plateia, comparação e confirmação contínua. Sobrevive facilmente em ambientes religiosos e intelectuais, onde se apresenta como “realização do potencial”, quando, na verdade, o sujeito está ajoelhado diante da própria imagem.

Por isso, vale perguntar: o que eu faço, mesmo sendo algo bom, esperando que alguém note ou admire? Se ninguém jamais soubesse, eu ainda faria?

Antes que este texto termine, fingindo total imunidade à vaidade, gostaria de saber se você tem gostado desta ideia do Abecedário de Agostinho de Hipona. Pode me escrever em [email protected]. Espero que ao menos uma pessoa responda, meu lado agostinianamente vaidoso provavelmente ficará esperando alguma confirmação.

Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.