A resistência e a relevância histórica e literária das tragédias gregas e da mitologia
30 maio 2026 às 21h00

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Marina Teixeira da Silva Canedo
Especial para o Jornal Opção
O tempo passa, mas a força, o poder e a imperecibilidade das tragédias gregas continuam a se manifestar de forma resiliente, dando sua contribuição ao teatro e às artes através dos tempos, e ao conhecimento da mente humana, mostrando-se como legítimas expressões da insofismável e imutável realidade do ser humano. A natureza humana tem permanecido fiel à sua própria condição, e as tragédias conseguiram sintetizar e refletir os complexos embates travados pelos homens, movidos pela paixão, amor, ódio, ciúme, inveja e pelas forças incontroláveis da fatalidade. Através do antropomorfismo deífico grego os deuses eram sujeitos às ambições humanas. Protegiam ou puniam os mortais, levados não por sentimentos de justiça, mas por suas idiossincrasias, que iam da ira às ególatras vontades.
A questão da predestinação, característica das tragédias gregas, tendo Édipo Rei como o exemplo mais relevante, extrapola o antigo mundo grego e está presente nas várias manifestações religiosas, inclusive no cristianismo e, entre outros exemplos, na história bíblica de Judas Iscariotes, discípulo de Jesus. Mas o conceito monoteístico judaico-cristão de um deus supremo, onisciente, justo e criador de todas as coisas, difere diametralmente do poder originado no Monte Olimpo, ressaltando-se que a presciência divina não está desvinculada do atributo da justiça.

Nas tragédias gregas o destino do homem estava indissoluvelmente traçado pelos deuses e deusas antropomórficos, e essa era a concepção religiosa de então.
O Teatro Grego (O Melhor do Teatro Grego, Editora Zahar, tradução de Mário da Gama Kury, 388 páginas) cresceu no século V a. C, o chamado Século de Ouro, o mesmo de Péricles e o mesmo dos grandes filósofos, como Sócrates, Platão e Aristóteles. As reflexões de Platão na República e de Aristóteles na Poética – a mais importante contribuição à arte da Antiguidade e de grande significado até os dias de hoje – iniciaram o que se poderia chamar de teoria teatral. No burburinho urbano da cidade-estado de Atenas os filósofos eram conhecidos da população, e Sócrates, uma figura popular, foi algumas vezes jocosamente mencionado nas comédias de Aristófanes.
O governo de Atenas, no Século de Ouro, criou festivais artísticos, nos quais tragediógrafos e comediógrafos concorriam a prêmios. De todos os autores que surgiram, e foram muitos, apenas quatro tiveram obras conservadas na íntegra: Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes. Poucas de suas obras resistiram ao tempo. As mais significativas são Prometeu Acorrentado, de Ésquilo; Édipo Rei, de Sófocles; Medeia, de Eurípedes, e a comédia As Nuvens, de Aristófanes.

Mas as tragédias não foram criações aleatórias, originadas a partir de tópicos próprios de seus autores e desvinculadas da cosmovisão grega. Elas eram elementos fundamentais da concepção de mundo, fato consumado na cultura grega, desde que a fúria de Aquiles e de outros valentes guerreiros da guerra com Troia deixou um lastro de sangue na história aqueia; e desde que o sofrimento impingido pelos deuses aos homens tornou-se o centro da mitologia grega. Pode-se dizer que a tragédia fez parte do pensamento e do imaginário do povo grego. Desde Homero, com a Ilíada e a Odisseia, poemas inaugurais da mitologia grega, as tragédias, fantasias e aventuras incorporaram-se à visão grega do mundo.
A representação, como espetáculo para o público, desenvolveu-se principalmente no século V, utilizando-se palco, coro, corifeu e poucos atores masculinos, que também faziam papéis de mulheres e usavam máscaras para expressar sentimentos. O recurso do deus ex machina era utilizado, com alguma frequência, em situações de difícil solução.
A mitologia grega, que teve também sua versão romana, com deuses e heróis equivalentes, mas com outra nomenclatura, foi o cerne de onde saíram os personagens, que também povoaram as grandes tragédias. Em Metamorfoses (8 d.C.) o poeta romano Ovídio (43 a. C. – 17 d. C.) reuniu os principais mitos em uma obra bastante completa (Metamorfoses, ed. bilingue, ed. 34, 2017, 909 págs.).

Pertencendo ao universo mitológico, os heróis foram utilizados na criação de tragédias diversas, em tempos diferentes e por vários autores. Assim, personagens importantes como o vidente cego de Tebas, Tirésias, aparece na Odisseia de Homero (Canto XI) e nas tragédias Édipo Rei e Antígona, de Sófocles.
O herói Teseu, fundador de Atenas, é personagem da peça Medeia, a cuja protagonista causa aborrecimentos. Aparece também em Édipo em Colono, tragédia de Sófocles, na qual protege o já velho e cego Édipo. Teseu é também o herói na luta contra o Minotauro.
Outro herói, Jasão, também passeia pela mitologia e participa da famosa tragédia do poeta grego Eurípedes, que é Medeia. Para se vingar de Jasão, que a abandonou pela filha do rei de Corinto, Medeia comete filicídio, matando seus dois filhos. É uma das mais impactantes tragédias gregas.

Mas a tragédia mais universal e mais conhecida é Édipo Rei. Sófocles leva a cabo uma história na qual o incesto involuntário de Édipo com sua mãe Jocasta, acarreta tão grande tragédia que leva toda a família a um destino cruel. Édipo, sendo um cidadão de Corinto, é feito rei em Tebas, depois de ter decifrado o enigma da Esfinge. Assim, é instado por Creonte a se casar com a rainha Jocasta, então viúva, com a qual acaba tendo quatro filhos. Sem saber que era filho de Laio e Jocasta e que foi abandonado para morrer quando bebê, mas foi achado e criado pelo rei de Corinto, ele cumpre involuntariamente a profecia de que mataria seu próprio pai e se casaria com sua mãe. A impossibilidade de se contrapor aos desígnios do deus Apolo leva Édipo a cumprir a inexorabilidade da predestinação aos desígnios do poderoso e apolíneo deus do sol.
O grande dramaturgo Sófocles continua a saga de Édipo Rei formando uma trilogia, seguindo-se Édipo em Colono e terminando com Antígona. É a chamada Trilogia Tebana (A Trilogia Tebana, ed. Zahar, 261 págs). O destino de todos os familiares de Édipo está descrito nessa trilogia; a morte de Laio e Jocasta, e o triste destino dos filhos Polinices, Antígona, Ismene e Etéocles. À sina irreversível de Édipo ajunta-se a ambição e as lutas pelo poder e domínio de Tebas por Creonte, irmão de Jocasta, como o grande usurpador.

Quando Freud nomeia o Complexo de Édipo para identificar a atração que os meninos sentem transitoriamente pela mãe, ele não é de todo correspondente ao mito, pois na interpretação sofocliana é a ignorância e não o inconsciente que leva à união de Édipo e Jocasta. Mesmo assim, a famosa tragédia serviu de paradigma à psicanálise, com maestria.
Prometeu Acorrentado, tragédia atribuída a Ésquilo, não foge à mitologia. Ao contrário, o autor busca nos escritos do poeta Hesíodo (séc. VIII a. C), Teogonia e O Trabalho e os Dias, o mito de Prometeu. Prometeu Acorrentado narra o castigo infligido a esse deus por Zeus, por ele ter se apiedado dos mortais e dado a eles o conhecimento do fogo, com o qual construiriam a civilização. Prometeu é um herói civilizador. Seu nome significa “aquele que sabe”, e seu destino e o da humanidade eram conhecidos por ele. Novamente a predestinação é afirmada quando ele diz: “dor nenhuma, ou desventura cairá sobre mim sem que eu tenha previsto”, ou quando o deus Cratos diz a Prometeu que “todos temos a sorte predeterminada, a única exceção é Zeus.”
O fatalismo constante da religião dos antigos gregos é, talvez, sua mais forte característica, e uma doutrina salvífica não existiu entre eles, a não ser com os ensinamentos filosóficos que vieram depois. A relação íntima e umbilical que uniu as tragédias à mitologia, uniu também a mitologia às demais manifestações culturais do povo argivo e posteriormente também do helênico, dando à cultura grega uma unicidade absoluta. A mitologia, sem dúvida, regeu o pensamento grego até à consolidação do pensamento lógico- filosófico. A filosofia grega exerceu o poder de desmitificar o pensamento, e esse processo teve seu final no século IV d. C, quando a força do cristianismo, aliada ao pensamento lógico, transformou a cosmovisão grega.

O apóstolo Paulo foi o grande divulgador do evangelho no primeiro século, na Europa e na Ásia Menor, fato registrado no Novo Testamento, onde constam sua obra missionária e as epístolas aos Romanos, aos Coríntios, aos Filipenses, aos Tessalonicenses, aos Efésios e aos Colossenses. É famoso o seu discurso no Areópago de Atenas, relatado no livro de Atos dos Apóstolos, onde, em meio a inúmeros altares dedicados a diversos deuses, Paulo encontra o altar ao Deus Desconhecido, diante do qual anuncia o seu Deus, que não habita em santuários feitos por mãos humanas. Seu pronunciamento corajoso, em meio a tanta diversidade, desperta a curiosidade dos presentes.
Coube ao cristianismo colocar uma pedra sobre as crenças mitológicas politeístas e dar aos gregos fundamentos para uma visão monoteísta. A mitologia, porém, continuou ocupando espaços e exercendo enorme fascínio sobre as artes e o imaginário ocidental, principalmente com o advento do Renascimento, que conduziu à redescoberta da cultura clássica. Ela foi a grande fonte de inspiração artística, que levou Sandro Botticelli, Rubens, Rafael Sanzio, Michelangelo Buonarroti, Lorenzo Bernini, e outros tantos artistas a eternizarem os mitos através da arte. A literatura também tomou de empréstimo a mitologia durante a Renascença e o período Barroco. E ela continua viva, através de suas histórias incríveis, revisitadas pela literatura e pelo cinema.
Marina Teixeira da Silva Canedo, poeta e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.



