Candice Marques de Lima

Especial para o Jornal Opção

“Ser negro é ser violentado de forma constante e contínua e cruel, sem pausa ou repouso, por uma dupla injunção: a de encarnar o corpo e os ideais do Ego do sujeito branco e a de recusar, negar e anular a presença do corpo negro.” — Isildinha Baptista Nogueira

Leio o livro de Isildinha Baptista Nogueira “A Cor do Inconsciente: Significações do Corpo Negro” (Perspectiva, 192 páginas) e imediatamente me recordo da série de terror “Them”. A série estadunidense tem duas temporadas e em ambas as/os protagonistas são negras/os. A narrativa de terror mostra como a experiência de ser negro em um país racista pode ser verdadeiramente assustadora.

Detenho-me na primeira temporada, que apresenta de forma explícita como uma sociedade de pessoas brancas pode aterrorizar pessoas negras, levando-as ao enlouquecimento. Trata-se de uma família negra — mãe, pai e duas filhas —, que na década de 1950 se muda para um bairro de subúrbio estadunidense, composto somente de famílias brancas de classe média.

Conforme a família Emory tenta se adaptar à nova vida e enfrentar várias formas explícitas (e violentas) de racismo, fenômenos estranhos começam a acontecer na casa. A filha mais nova é perseguida por uma mulher branca no porão; o pai vê uma entidade de um homem negro com a cara pintada de branco; e a filha mais velha tem uma amiga branca na escola que a ajuda enquanto ela tenta se adaptar, mas que depois percebemos se tratar de um delírio da garota. Por fim, em um momento extremo de angústia, a adolescente começa a pintar sua pele com tinta branca.

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Ao ler o livro de Isildinha e me recordar da série, pensei sobre as similitudes entre o que ela escreveu em sua tese de doutorado no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, há mais de 20 anos, e as histórias de violência e de terror da série. Como é possível haver esse diálogo se se trata de países diferentes? É possível considerar que, acima de culturas diferentes como a estadunidense e a brasileira, com formas de racismo variadas — uma mais explícita e outra mais velada  —, há o inconsciente que se estrutura como linguagem.

Em seu livro, Isildinha recorre ao conceito de Unheimlich, estranho familiar ou estranho inquietante, como ela prefere escrever, que é uma das formas que Freud apresenta como o recalque pode se manifestar. No texto “O Infamiliar”/Das Unheimliche (1919), Freud mostra como aquilo que é assustador também nos é familiar.

Isto é, tudo aquilo que não podemos lidar em nossa vida diurna e consciente, e que está inconsciente, não deixa de existir.

Quando o recalque, que mantém essas ideias no inconsciente, falha, há o retorno do recalcado, que aparece de várias maneiras, como atos falhos, lapsos etc., e que no caso do Unheimlich, aparece como aquilo que assusta, desorienta e angustia.

Izidilha Baptista uma intelectual múltipla e pensadora do Brasil Foto Reprodução
Izildinha Baptista Nogueira: psicanalista e doutora em Psicologia Escolar pela USP | Foto: Divulgação

Nesse caso, Isildinha nos conta: “Penso que esse movimento do estranho inquietante pode bem caracterizar o tipo de experiência que marca a relação do negro com o dia a dia no meio social. É impossível, para ele, não se perturbar com as ameaças aterradoras que lhe chegam via racismo. O racismo, contrariamente ao preconceito, é a expressão da violência, é um ato, não uma interdição que se coloca a priori, como forma de proteger seja lá o que for. Dentro desse universo de terror, mesmo que o negro acredite conscientemente que tais ameaças racistas não se cumprirão, o pavor não desaparece, porque ele traz no corpo o significado que incita e justifica, para o outro, a violência racista” (páginas 125-126).

Isildinha escreve que, mesmo que as ameaças racistas não se consumam, o terror de possíveis ataques cria angústia nas pessoas negras de maneira implacável. Dessa forma, a pessoa sucumbe ao sofrimento que pode levá-la a um processo de despersonalização.

Há “uma alternância entre perder e recuperar a sensação de ter um corpo (…) na possibilidade de uma possessão que o faria se transformar em um animal ou algo abominável” (página 124). Criam-se, dessa maneira, condições para um sofrimento psíquico que pode levar a pessoa a experiências assustadoras e angustiantes, como as descritas na série “Them”.

Experiências com o corpo negro

O que é ter um corpo negro? O que é habitar um corpo que por sua cor de pele é visto como menos merecedor de confiança, de dignidade ou, dito de outra maneira, é merecedor de toda e qualquer violência, pois se trata de um corpo considerado menos humano do que um corpo branco? São perguntas que o livro de Isildinha nos faz pensar.

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Não tenho condições de falar sobre essa experiência, visto que sou uma mulher branca. Posso apenas me lembrar das inúmeras situações em que sou bem tratada, das vezes que entrei em um ônibus e me ofereceram lugar para me sentar, da maneira simpática que as pessoas respondem a uma pergunta minha ou a um sorriso.

Todas essas situações que vivenciei ao longo da vida começaram a ter um sentido diferente para mim quando li Frantz Fanon, Grada Kilomba, quando percebi pessoas ao meu redor que não foram bem tratadas como eu, por não serem brancas, e quando leio Isildinha escrever que a brancura é o parâmetro de “pureza artística, nobreza estética, majestade moral, sabedoria científica etc.” (página 117).

Em seu livro, Isildinha busca responder à pergunta de pesquisa: “como se dá, para o sujeito negro, a elaboração, no plano psíquico, dos sentidos que o racismo traz consigo?”

Para isso, ela trata sobre a constituição subjetiva das pessoas negras e como elas são sonhadas por sua família. Ela discorre que a criança da mãe negra não é representada em seu corpo negro, pois essa mãe deseja o bebê branco como deseja a brancura para si mesma. E acrescenta que “a mãe negra (…) ama o seu bebê, mas nega, ao mesmo tempo, o que a pele negra representa simbolicamente” (página 123).

Como desejar que a filha ou filho seja negra ou negro em um mundo extremamente racista e violento? O que Isildinha demonstra é como uma sociedade racista impõe um ideal do que é considerado bom e sobretudo humano: a brancura.

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Izildinha Baptista Nogueira fez formação em psicanálise nos Ateliers de Psycanalise em Paris com Radmila Zygouris. É psicanalista, pesquisadora e professora no Instituto Sedes Sapientae | Foto: Divulgação

Também as crianças e filhas/os de pessoas negras veem seus pais como pessoas fragilizadas por não serem brancas. Ela discorre que essa fragilização é devido a um imaginário que representa ser negro como falta de saber, de poder e “é decorrente do medo e da desconfiança que as experiências de discriminação produziram para seus pais” (página 140).

Inclusão da pessoa negra na sociedade racista

A pessoa negra luta por sua inclusão, embora seja uma luta eterna, pois o corpo negro carrega a marca da exclusão. Isildinha relata como uma pessoa negra se sente quando é chamada de macaco, pois essa associação despossui o sujeito de sua identidade e de sua humanidade. Quem não viu o jogador de futebol Vini Jr. chorar ou se enfurecer ao ser chamado de macaco em uma partida de futebol?

Isildinha aponta que a tentativa de inclusão falha e assim “o negro acaba por se excluir, como única alternativa para eliminar aquilo que é impossível de ser eliminado. Somente os processos destrutivos podem significar, para ele, a eliminação daquilo que exclui seu próprio corpo, sua própria condição de sujeito” (página 131).

O livro “A Cor do Inconsciente”, de Isildinha Baptista Nogueira, é uma denúncia de como o sofrimento psíquico das pessoas negras se constitui a partir de suas experiências de vida, em um contexto sócio-histórico de escravização que ainda não foi superado. É também uma aula (ou várias) de psicanálise, articulando conceitos freudianos e lacanianos complexos em uma escrita que, longe de perder a complexidade teórica, discorre e articula tais conceitos com a constituição da subjetividade das pessoas negras e suas experiências no mundo.

Isildinha Baptista Nogueira é mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Doutora em Psicologia Escolar em Desenvolvimento Humano pela USP. Fez formação em psicanálise nos Ateliers de Psycanalise em Paris com Radmila Zygouris. É psicanalista, pesquisadora e professora no Instituto Sedes Sapientae. Foi indicada ao prêmio Jabuti de Literatura, na categoria ciência, pelo livro “A Cor do Inconsciente: Significações do Corpo Negro”.

Candice Marques de Lima é professora na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás. Pesquisadora de psicanálise e educação.

Serviço: palestra de Isildinha Baptista

No sábado, 6 de junho, Isildinha Baptista Nogueira dará uma palestra no Instituto e Clínica Dimensão em Goiânia com o tema: “Dimensão simbólica dos corpos negros e o ideal de brancura. Efeito do racismo no narcisismo do sujeito negro”.

Horário: 9h às 12h e 14 às 17h.

Valor: 150,00

Haverá emissão de certificados.

Inscrição pelo Whatsapp: 62-9 9162-7587.

Instituto Dimensão: Rua 1121, n. 249, Setor Marista, em Goiânia.