Padre Alfredo e a caçada das capivaras
30 maio 2026 às 21h00
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Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção
O nosso já conhecido padre Alfredo, com o passar dos anos, adaptou-se bem aos usos e costumes da terra para onde fora designado como pároco. No início, talvez, ele empregasse o termo desterrado, mais que designado, porém, no convívio com a gente simples e amiga do lugar, terminou por arraigar-se definitivamente ali, de modo a ser praticamente reconhecido por todos como alguém nativo do lugarejo.
Dois novos hábitos ele adquiriu e passou a desenvolver com paixão: o da caça e o da pesca. Enturmara-se com Siô Luizão Mecânico, em cuja oficina havia uma placa com os dizeres: “Aqui reúnem-se caçadores, pescadores e outros mentirosos!”.
Assim, vira e mexe arrumava um jeito de acompanhar o amigo e outros mais em alguma incursão pelas matas dos arredores, ou pelo rio muito piscoso, não muito longe dali.
Quase sempre traziam algum belo espécime de pintado, piau ou bico-de-pato das pescarias, que Dona Onofra, a ajudante da casa paroquial, já em adiantada idade canônica, cuidava de preparar. De outras vezes, da caçada ou da espera, uma paca ou um veado eram repartidos solidariamente entre os amigos e vizinhos que, assim, reforçavam o conteúdo proteico das refeições normalmente bem singelas e desprovidas de muita variedade.
Num sábado pela manhã, enquanto se ocupava de limpar umas teias de aranha que teimavam em fixar residência permanente no presbitério, padre Alfredo recebeu a visita de Siô Luizão Mecânico:
— Siô vigário, vamo caçá amanhã cedinho? Tem um bando de capivaras lá na roça de arroz do cumpade Eustáquio fazeno um estrago danado. O jeito é dar um pulo lá pra mode afugentá as danada!
— Ah, meu amigo, quem me dera! Amanhã não posso. Tenho aqui a missa das sete da manhã e é a festa da Assunção. Mas que inveja de vocês! Quem mais vai?
— Ainda num sei direito. Vim logo chamá o amigo, mas agora vou atrás do Nhozinho e do Tião Boleiro, pra vê se eles topam de ir comigo.
— E fica muito retirada daqui essa plantação de arroz?
— Que nada! É logo ali depois da curva da estrada que vai pru Pindura Saia…
— Então é quase aqui na rua! – disse o padre, surpreso.
— É, sim sinhô. Vamo pra lá logo de manhãzinha pra mode encontrá as danada bem cedinho. Se brincá, ainda tamo de vorta inhante da missa acabá.
O padre mordia-se de vontade de participar da caçada, mas não, não havia mesmo jeito. Além da missa, havia prometido ir tomar o café-da-manhã logo depois, em casa de Dona Senhorinha, que era a mandachuva nas coisas da igreja. Era ela quem se ocupava de lavar e engomar as toalhas do altar, os corporais, sanguíneos e outras alfaias necessárias ao culto. Além disso, trazia o pobre do sacristão, o Socó, debaixo de vara. Exigia limpeza absoluta da igreja, sem o menor vestígio de pó pelos bancos e sobre os altares; o sino tinha que ser tocado às horas certas, para chamar os fiéis à missa, assim como ao meio-dia e às seis da tarde. Faltar a um compromisso assim, era o mesmo que decretar sua própria excomunhão.
Resignado, o padre procurou esquecer o assunto, mas naquela noite sonhou o tempo todo com a caçada das capivaras e com a mortandade dos bichos, abatidos por sua certeira pontaria. Tinha excelente mira, herança dos tempos do Tiro de Guerra, antes de entrar para o seminário, e, como gostava de atirar, guardava com carinho a carabina que herdara do pai. A cada semana, retirava a arma do estojo acolchoado para limpá-la e azeitá-la como era preciso. A carabina era também motivo de admiração pelos amigos de caçada, pois era mesmo uma arma magnífica.
Quando o dia começou a ser anunciado pelos galos da vizinhança, padre Alfredo despertou a contragosto daquele sonho tão bom. O repicar do sino o fez apressar-se para um cafezinho coado às pressas, antes de dirigir-se para a igreja. Dali a pouco, o foguetório comeu solto lá fora, anunciando a festa de Nossa Senhora da Assunção. Apertou o passo e num instante já estava na sacristia, onde Socó o ajudou a paramentar-se. Igreja cheia, as beatas mais idosas, com o antigo costume de cobrirem-se com um véu, ocupavam as primeiras filas, ostentando suas fitas e medalhas, como se fossem o próprio exército celeste, sob o comando resoluto de Dona Senhorinha que, pra cá e pra lá, dava as ordens necessárias para as respostas e os cânticos.
Padre Alfredo, compenetrado no seu ofício, não deixava, porém, de pensar nos amigos que, àquela altura, já estariam a se divertir na caçada. Estranho era que, até àquela hora, ainda não se tivesse escutado nenhum tiro… será que as capivaras estavam ariscas e haviam farejado a armadilha?
Os preparativos para a distribuição da comunhão afugentaram esses pensamentos por um instante; porém, quando Dona Senhorinha em pessoa apresentou-se para receber a hóstia das mãos do padre — ela nunca aceitara esses modernismos de “ministros da eucaristia” — ouviram-se então os estampidos vindos lá da roça de arroz do Eustáquio. Padre Alfredo, com a hóstia pronta para ser depositada na língua de Dona Senhorinha, não conteve a exclamação:
— Morre, capivara velha!
Acorreram as amigas mais próximas para socorrer a idosa senhora que, horrorizada, desfalecera ali mesmo, não sem antes gritar um “vade retro, Satanás!”, seguido por um “valei-me, Nossa Senhora!” para, de imediato, abrindo os braços de modo teatral, desabar nos braços das fiéis companheiras.
Fato é que naquele dia, e por muito tempo mais, não houve café com bolo de fubá para o padre Alfredo em casa de Dona Senhorinha…
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.



