Volta e meia aparece, em minhas redes sociais, algum anúncio de curso para ensinar a escrever: as famosas oficinas de escrita literária. Nestas são prometidas técnicas, fórmulas, atalhos, segredos e até algumas gambiarras para formar escritores. Em meu rotineiro olhar atravessado para anúncio assim, me ocorre sempre uma pergunta simples: que curso fizeram os grandes autores como Shakespeare, Cervantes, Tolstói, Kafka, Exupéry, Bernardo Élis, Graciliano Ramos e tantos outros que seguem conversando com leitores muito depois de terem ido estudar a geologia dos campos santos.

Machado de Assis, maior nome da literatura brasileira e o primeiro presidente da ABL, fez apenas o primário numa escola pública | Foto: Reprodução

O Bruxo do Cosme Velho, isto é, Machado de Assis, teve apenas a instrução primária em escola pública. Filho de uma lavadeira portuguesa e de um pintor de paredes mestiço, ambos de origem humilde, construiu sua formação longe das academias, mas entre livros emprestados, tipografias e uma curiosidade intelectual insaciável. Dostoiévski frequentou escolas, todavia não obteve delas um diploma de escritor. Muito menos foi uma sala de aula que lhe ensinou a mergulhar com maestria nos abismos da alma humana. O que há de mais próprio em suas obras não foi forjado nos bancos escolares, mas na escola da vida, onde a circunspecção converte o aprendiz em professor de si mesmo.

Não estou querendo dizer, altaneiro leitor, que esses cursos são inúteis. Longe de mim tal coisa. Eles, afinal, podem organizar conhecimentos, apresentar ferramentas e corrigir vícios (principalmente os formais). O problema está em quem, ingenuamente, os procura acreditando que a sua capacidade de escrita pode surgir dali como um coelho tirado da cartola. A verdadeira matéria-prima do escritor nasce da sua alfabetização de mundo, da sua capacidade de transformar suas vivências em aprendizado e, principalmente, da sua convivência constante com os livros. Para o escritor, poeta e crítico argentino Jorge Luis Borges, enquanto muitos consideravam a água ou os pássaros indispensáveis à existência, para ele, os livros ocupavam esse mesmo lugar de necessidade vital.

Oficina de escrita não é receita de bolo. Certificado de curso e nada são a mesma titica. E há até quem, num gesto de tolice, o exiba em redes sociais e/ou o pendure na parede. A oficina verdadeira funciona quando abrimos um livro e passamos a conviver com vozes de diferentes épocas e lugares. Cada página lida nos ensina um ritmo, uma construção, o convívio com as palavras, uma forma de olhar a realidade e assim criarmos o nosso olhar peculiar de procurar as palavras apropriadas para vestirem o nosso pensamento.

Faz-se necessário salientar um porém: quantidade não é sinônimo de qualidade, como disse, em outras palavras, o crítico literário Agripino Grieco. Enfim é preciso ler bem. A leitura realmente transformadora deve ser lenta e atenta. Muitas vezes ocorre a necessidade de releitura, reflexão e espanto. Palavra com cara de paisagem, sabe bem você, altaneiro leitor, é meramente um reles ornamento; para arrebatar o leitor, a palavra precisa ter conflito, dor, descoberta… Leitura boa é aquela que nos faz parar diante de uma frase ou verso e pensar como o autor conseguiu dizer tal coisa de modo tão primoroso. Há versos e passagens de romances lidos há anos que ainda caminham comigo pelo assombro que me causaram. De alguns até gostaria de ser o autor. Queria, por exemplo, ser o autor de três versos de Manoel de Barros:

Eu tenho um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinho.
Tenho abundância de ser feliz por isso
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Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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