Por Herbert Moraes
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Ao produzir resultados na fronteira da matemática, a inteligência artificial reabre uma pergunta sobre nossa espécie: o que acontece quando recebemos respostas que ainda precisamos aprender a compreender?
Entre a anarquia e o vandalismo existe uma distância que a desinformação insiste em ignorar. O que aconteceu na Avenida Paulista é mais um retrato de um país que confunde pensamento político com desordem e transforma a violência em espetáculo.
Há uma diferença considerável entre ser anarquista e sair pelas ruas quebrando o que encontra pela frente. A primeira condição exige, no mínimo, alguma compreensão da história das ideias políticas. A segunda pode exigir apenas uma pedra, uma dose de estupidez e a convicção de que destruir alguma coisa constitui uma manifestação de inteligência revolucionária.
O Brasil, entretanto, parece ter desenvolvido uma extraordinária capacidade de confundir as duas coisas.
No domingo, 11 de outubro, durante a dispersão de uma manifestação em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Avenida Paulista, em São Paulo, registrou episódios de tumulto, pichações e depredação. Segundo a Polícia Militar, houve danos em acessos a estações do metrô, especialmente na Consolação e na Trianon-Masp. O Metrô, em manifestação inicial, afirmou não ter registros internos de vandalismo. As imagens e os relatos policiais, contudo, colocaram novamente em circulação uma palavra utilizada com impressionante irresponsabilidade: anarquia.
Convém esclarecer uma coisa antes que a ignorância termine de destruir também o dicionário.
Anarquismo não é sinônimo de vandalismo. Anarquia, no sentido filosófico, não imprime simplesmente baderna. E anarquista não é qualquer indivíduo que decide transformar o patrimônio público em alvo da sua indignação ou frustração.
O anarquismo constitui uma tradição política e filosófica que atravessa quase dois séculos de debates sobre liberdade, autoridade, propriedade, organização social e emancipação humana. Pensadores como Pierre-Joseph Proudhon, Mikhail Bakunin e Piotr Kropotkin formularam críticas profundas ao Estado, às hierarquias e às estruturas de dominação.



Não defendiam todos as mesmas ideias, tampouco concordavam sobre os métodos de transformação social. Algumas correntes anarquistas admitiram a violência revolucionária; outras privilegiaram a educação, a organização sindical, a cooperação e a resistência não violenta.
Mas existe um ponto fundamental: o anarquismo não nasceu como uma autorização filosófica para quebrar vidraças ou pichar uma estação de metrô, mas da possibilidade, discutível ou não, de organizar uma sociedade sem a autoridade coercitiva do Estado, sustentada por associações voluntárias, solidariedade e responsabilidade coletiva.
É uma discussão complexa demais para caber numa pedra arremessada contra uma estação de metrô. E talvez seja justamente esse o problema.
Vivemos numa época em que a opinião substituiu o conhecimento, a indignação dispensou a reflexão e a militância frequentemente se contenta com a superfície das próprias convicções.
Não é necessário conhecer Marx para se declarar marxista, compreender o liberalismo para defender o mercado ou ter lido uma única página sobre anarquismo para ser chamado de anarquista.
As palavras perderam densidade. Tornaram-se etiquetas distribuídas conforme a conveniência política e o resultado é uma espécie de analfabetismo ideológico generalizado.
Na Paulista, o problema não foi a existência de uma manifestação política. Protestar é um direito democrático, inclusive quando o protesto incomoda, interrompe o trânsito ou contraria o pensamento dominante.
O problema começa quando a manifestação deixa de ser exercício de cidadania e se transforma em agressão ao espaço coletivo.
E existe uma ironia particularmente cruel em depredar uma estação de metrô durante uma manifestação que pretende representar interesses populares.
Afinal, quem utiliza diariamente o transporte público não costuma ser o banqueiro instalado nos edifícios envidraçados da avenida, mas o trabalhador.
Aquele que acorda cedo, enfrenta plataformas lotadas e depende de um sistema que já apresenta dificuldades suficientes sem precisar da contribuição destrutiva de manifestantes.
Destruir o que pertence à coletividade em nome da coletividade é uma contradição que deveria constranger qualquer pessoa minimamente comprometida com justiça social.
A violência precisa ser investigada, seus autores identificados e as responsabilidades individualizadas.
O mesmo critério deve valer para qualquer manifestação, independentemente de suas bandeiras.
Não há vandalismo progressista ou conservador que mereça absolvição automática. A legitimidade de uma causa não transforma destruição em virtude. No entanto, vê-se que a ignorância tornou-se uma ferramenta de combate político. E talvez seja essa a forma mais persistente de desordem que enfrentamos.
É possível discordar profundamente do anarquismo, considerá-lo uma utopia impraticável, uma formulação contraditória ou uma alternativa política incapaz de responder às complexidades do mundo contemporâneo.
O que não se pode é reduzir uma tradição filosófica inteira ao comportamento de indivíduos que quebram portas, danificam equipamentos públicos ou confundem agressividade com consciência política.
A Avenida Paulista não precisa de revolucionários de ocasião que descubram na destruição uma forma de protagonismo.
Precisa de cidadãos capazes de compreender que liberdade não é licença para impor prejuízos aos outros. E o Brasil precisa, com alguma urgência, recuperar o significado das palavras.
Uma deixa vidros quebrados, grades retorcidas e contas a pagar. A outra, retrata uma sociedade intelectualmente desarmada, incapaz de distinguir uma ideia de uma palavra de ordem.
E, entre os dois estragos, talvez o mais difícil de reparar não esteja na Avenida Paulista.
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