Parthenon Center: edifício mais icônico de Goiânia sofre com o abandono do centro da capital; sabia sobre as lendas urbanas
29 maio 2026 às 11h18

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No vazio e praticamente abandonado centro de Goiânia, uma joia do modernismo brasileiro e um dos prédios mais icônicos da capital de Goiás ainda respira, mas com a ajuda de aparelhos. Trata-se do Parthenon Center. Arquitetos costumam falar assim: na região central, todos os caminhos levam ao prédio que, aqui e ali, lembra Le Corbisier e Oscar Niemeyer. Guardadas as diferenças, claro.
No início da década de 1970, o Setor Central — onde estavam os bancos, escritórios, consultórios e hotéis (alguns ainda resistem, resilientes) — enfrentava superlotação de carros e ônibus nas ruas, que disputavam espaço com os pedestres. Surgiu então a proposta da criação de um edifício-garagem: o Parthenon Center. Na época, o segundo, nesse estilo, do Brasil.
O local escolhido para erguer o prédio foi a Rua 4, na época (e ainda hoje) uma das vias mais importantes do Centro de Goiânia.
Em 1974, há 52 anos, demoliram o antigo mercado central — que ocupava um quarteirão inteiro e iniciaram as obras que duraram dois anos.
Em 1976, no estilo moderno brutalista, o edifício-garagem, com caráter de estacionamento verticalizado e moderno, foi uma inovação na cidade. No Brasil daquela época, edifício-garagem só havia em São Paulo, a “capital” econômica do país.

Obra do arquiteto Antônio Lúcio Ferrari Pinheiro, o Parthenon Center, construção icônica, é um marco do modernismo brasileiro (até global) encravado no Centro de Goiânia.
Além dos sete andares que funcionam como garagem, foi erguido sobre o estacionamento vertical um edifício de 15 andares com salas para escritórios.
No Parthenon goiano funcionam duas galerias de arte, um centro cultural, e é a casa da Orquestra Sinfônica de Goiânia. Mais grego, portanto, impossível.

O prédio que virou notícia
Na edição 42 do Jornal Opção, de 9 de outubro/1976, uma reportagem de página inteira contou a história da inauguração do Parthenon Center. A matéria relata como a obra impactou a vida dos goianienses.

Publicou o Jornal Opção, há 50 anos, sobre a construção da obra: “Os trabalhos se desenvolveram com rapidez e eficiência, dentro do cronograma da obra que logo começou a surgir acima dos tapumes. Na medida que o tempo passava o goianiense ia assistindo a grande transformação no cenário da cidade, com o surgimento de linhas suaves e arrojadas ao mesmo tempo, do novo edifício”.
A matéria conta como o prédio foi erguido e o que oferecia de novo, desde “modernos elevadores”, 980 vagas distribuídas em sete andares de garagens e um prédio de 15 andares com salas comerciais, além de restaurante panorâmico e heliporto (outra novidade da época). Ao final, a reportagem descreve o orgulho dos goianienses quando o Parthenon Center foi entregue à cidade: “O edifício é um marco na história do desenvolvimento da arquitetura e engenharia goiana, e retrata, no aspecto geral da cidade a imagem real do ritmo de progresso dos goianos”.
No próximo ano, o Parthenon Center completa 50 anos, ainda imponente e referência da cidade para muitos. Dada a sua importância arquitetônica, a data deveria ser de comemoração, mas o tempo passou, o Centro da cidade foi praticamente abandonado — apesar do comércio ser intenso, com seu camelódromo e lojas que vendem produtos fabricados na China — e as novas gerações sequer sabem que, entre as ruas 4, 17, 7 e 6, existe um prédio que é referência mundial do estilo brutalista moderno.
O fato é que o tempo passou, mas o edifício permanece moderno e, assim, a caminho de se tornar eterno. Dada a “arte” com a qual foi criado, além de sua imponência majestática, permanece como referência arquitetônica.
Lendas urbanas e um andar lacrado
Uma geração de goianienses desconhece as histórias da capital de Goiás que, em 24 de outubro, completa 93 anos. Mas certamente já ouviram falar de um prédio assombrado, no centro de Goiânia, que dá medo até mesmo de passar na calçada. Um lugar sombrio, onde vozes ecoam pelos corredores e supostamente podem ser ouvidas em outros quarteirões.

Ali, segundo um experiente vereador, a temperatura é mais fria e arrepia a espinha. Dizem que o prédio é amaldiçoado — frise: trata-se de um mito — porque foi o palco de tragédias. Quase todas teriam acontecido no mesmo andar. Motivo que o levou a ser bloqueado.
Lá, os ditos fantasmas não permitem a presença de humanos, sustenta o vereador (que, por receio dos supostos espectros, pediu a omissão de seu nome).
No elevador do Parthenon Center, o botão do oitavo andar não existe. Do sétimo vai para o nono andar. O vereador insiste: “O oitavo pavimento é assombrado há décadas e foi fechado com grades e cadeados para evitar a presença de curiosos e que outras tragédias pudessem acontecer a partir dali, onde, segundo a lenda, o mal habita”.

As histórias de terror do Parthenon Center começaram logo depois de sua inauguração quando um casal morreu quando o carro em que estavam despencou do sétimo andar, o último do edifício garagem. Logo em seguida, no mesmo ano, um homem se jogou do oitavo andar. A partir daí, as tragédias se repetiram sucessivamente no prédio.
Anos depois, a mulher do dono do empreendimento também se jogou do mesmo andar e foi então que ele foi fechado. Em 2017, um homem conseguiu entrar no pavimento bloqueado e se jogou, caindo em cima de um carro.
No mesmo andar, no início dos anos 1980, dois homens se mataram atirando um no outro. Conta a lenda urbana que o duelo teria sido mediado por um fantasma: “Ouvi isto, mas nem sei se acredito. Mas, quando andava pelo prédio, eu sempre me benzia, pois sentia calafrios ao passar pela região do oito andar”, contou um advogado que teve um escritório no nono andar do Parthenon. “Uma vez, desci no elevador com uma pessoa, inteiramente calada, e, quando chegou ao térreo, não havia ninguém, só eu. Nunca mais voltei ali”, conta o advogado.
Mas é fake news a história de que Stephen King teria dito que visitaria Goiânia só para conhecer o Parthenon Center. O mais provável é que o escritor de livros de terror pense que Goiânia é localizada na Argentina. Afinal, até o falecido presidente Ronald Reagan confundiu o Brasil com a Bolívia.

O retrato do vazio e uma provável ressureição
Assim como as capitais de outros Estados brasileiros e grandes cidades do país, em Goiânia não é diferente. A região central do município sofre com décadas de abandono e descaso do poder público e da população que migrou para outros bairros à medida que a cidade foi se expandindo.

Mas assim como acontece em São Paulo, que finalmente resolveu fazer do centro uma área habitável, desde o ano passado, um projeto parecido está em andamento em Goiânia. A capital de Goiás, primeira cidade planejada do país, foi erguida, inicialmente, no estilo art déco. Goiânia só perde para Miami em quantidade prédios nesse estilo modernista que, no ano passado, completou cem anos.
A importância é tão grande que, em 1999, o Iphan tombou 22 prédios e monumentos como Patrimônio Histórico Nacional, mas boa parte deles está em péssimas condições. E com a fachada escondidas pelas placas com os nomes das lojas.
Goiânia, hoje, é uma das cidades mais prósperas do Brasil. O valor de seu metro quadrado só perde para o São Paulo.
Prédios luxuosos, com mais de 50 andares, se espalham pela cidade, além dos condomínios horizontais. Recuperar o centro neste momento é trazer de volta a história de uma cidade bem nascida e devolver à população o valor do pertencimento.
A restauração do Parthenon Center passa por este caminho. É o que afirma o arquiteto e urbanista Antônio Manuel Fernandes, professor da Faculdade de Arquitetura da PUC de Goiás. “O centro está renascendo vagarosamente e o edifício vai continuar sendo aquilo a que se propôs, ou seja, é múltiplo. A situação no centro da cidade está começando a melhorar. Essa reocupação prevê planos de investimentos com alguns estímulos para que a região seja reocupada com uma multiplação, principalmente habitação, que é o que dá vida ao conjunto e a recuperação do Parthenon Center passa por aí”, sublinha.
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