Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

João Filho: o talento, a coragem e a transcendência do mundo

– O que dizer do poeta João (Fernandez) Filho e deste seu “Auto da romaria”? Bem, tenhamos como pressuposto: João Filho é poeta que deve marcar seu nome na história da poesia brasileira do século XXI. Seu lugar não está reservado apenas entre os poetas católicos, mas, com certeza entre os grandes da poesia de nossa época. E o que me leva a fazer tal aposta?

Poeta João Filho, autor de “Auto da romaria”, timbre único na poesia católica do Brasil

Ele escreve poesia com a laboriosa carga poética que a região Nordeste do Brasil legou à poesia brasileira; ele o faz com um enorme talento e com o devido respeito à Tradição, que vai de Jorge de Lima, a João Cabral de Melo Neto; parece ao cronista que os poetas do Nordeste, João Filho e Wladimir Saldanha por excelência, recitam seus poemas no falar da gente das ruas, antes de os levar ao ritmo da harpa acadêmica que exige fôrma e formas adequadas aos padrões do Cânone. E, finalmente, sob a forma de indagação: estariam, assim, esses poetas novíssimos inventando um novo cânone, em tudo respeitando o que foi, mas inovando no que respeita ao pensar único, confrontando a massa de versos repetitivos dos acadêmicos do sul-sudeste do país?

Os estudos críticos subsequentes que, certamente serão feitos pelos acadêmicos, deverão comprovar isto. Os menestréis que vêm do Nordeste parecem-se àqueles homens que vindo das regiões como o País de Gales, os poetas irlandeses por extensão, que valorizam a tensão emocional, tal como o fizera o menestrel dramático do Portugal medieval – o sr. Gil Vicente, bardo que é a influência primeira de João Fernandez Filho.

Este livro que tenho sobre a mesa e que pretendo apresentar ao leitor de “Destarte”, a professora Luciane Amato bem o resumiu, mas não com a completude que ele merece. Ela diz: “Lugar de nascimento é destino – nos diz o poeta João Filho, e livros têm o seu destino como disse um outro poeta, e este destino, dentre tantos outros, consiste em nos dar uma perspectiva que permita “ressignificar” as nossas histórias e as histórias tanto dos nossos entes queridos quanto dos não tão queridos, como faz esse livro. […] desde a perspectiva desse mundo recriado por João Filho, percebemos aquele pequeno povo de Bom Jesus da Lapa e dos romeiros que lá foram dar, envoltos e interpretados na Paixão de Nosso Senhor e, com essa percepção, recuperamos o sentido aqui, atenuamos alguns ressentimentos ali, descobrimos o que estava oculto em alguns corações acolá.”

De um livro assim, que levou dezessete anos para ser concluído, podemos inferir que há algo maior, fruto que deve ser colhido como fruto raro – afinal, “viver sempre foi esse exercício/ – do último, do último minuto”. O livro do João se inscreve como marco do “fazer no absoluto”, não como um livro a mais, senão que o mais importante na vida do leitor de poesia brasileira, seja este católico ou infiel, pois dele exala a mais fina tradição da poesia católica brasileira, mesclada à vida do século. Terá o leitor facilidade em ver que há neste “Auto da romaria” um poeta consciente de seu ofício, mesmo que aqui e ali salte a presença forte da tradição regionalista nordestina; entretanto, ele poderá ir mais além se pensar que em João nada é inconsciente.

Capa de “Auto da romaria”, de João Fernandez Filho,
Edit. Mondrongo, Itabuna (BA), 2010.

A este “Auto da romaria” poderíamos sem dificuldade aplicar aquela reflexão de Vicente Ferreira da Silva que, citando o pensamento hegeliano, para quem “tudo quanto o homem pensou de si mesmo e do mundo, a sua auto representação dependeriam de sua representação de  Deus”. E mais: o passo seguinte à esta afirmação de Hegel, a de Schelling e de Bachofen “de que o mito conforma e possibilita a História”; ou seja: estou apto a pensar que João Filho, ao criar a sua visão de sua aldeia e de nos apresentar os passos do Nosso Senhor dos Passos – de sua cidadezinha do interior do Nordeste; e de toda a mitologia que envolve a pequena Bom Jesus da Lapa, na Bahia, está ele no fundo nos colocando no centro da História do personagem mais histórico, elevando sua aldeia ao patamar de centro do mundo.

Afinal, “a imaginação mítica, poética, artística e religiosa assume um papel cada vez mais saliente na condução da História, na determinação do pensamento” – recorda-nos Ferreira da Silva.

Ao livro do poeta João Filho aplica-se o mesmo que de Gil Vicente disseram os historiadores da Cultura António José Saraiva e Óscar Lopes: “O fôlego poético, a complexidade e variedade da estrutura dramática desenvolvem-se ao longo desta fecunda carreira de 34 anos, em que se pode escalar uma série de inovações…” Tal é o caso para a carreira de pouco mais 14 anos do poeta João; ele, que estreou no gênero Conto, obtendo êxito e participando de algumas antologias, dentre elas, uma na Alemanha (2013) e outra traduzida no México (2014); depois, navegou “Encarniçado” (2004), editora Baleia. De 2008, são as “Três sibilas” (poesia e as antologias: “Os Cem Menores Contos”, Ateliê Editorial, “Contos Sobre Tela”, Edições Pinakotheke, “Terriblemente felices: Nueva narrativa brasileña”, da Emecé Editores, “35 segredos para chegar a lugar nenhum”, pela Bertrand Brasil, “Travessias singulares – Pais e filhos”, Casarão do Verbo; chegando ao magistral “Auto da romaria” com perfeito domínio da técnica e da emoção do poeta jovem, mas maduro.

Como sempre, devo ao meu interlocutor imaginário uma explicação, devida ao que me vem cochichar: – “Mas não é muito cedo para dizer de um poeta que em 2018 fará 43 anos o que se aplicaria a alguém na casa dos cinquent’anos?

– Pois bem, esta crônica serve ao propósito de convencer-me (por primeiro) e convencer o dileto Leitor, de que estamos diante de um grande poeta. João, que começou no conto, angariando alguns troféus – prêmios, como se sabe, são a forma mais explícita de uma elite dizer ao novo entrante: estás aceito!

– E por que o senhor fala de coragem no título desta crônica? dispara o interlocutor oculto.
Pois bem, primeiro, as primeiras coisas; as epígrafes – de Cecília Meireles, do Santo Padre José de Anchieta (poeta do Brasil) e de um “bendito popular”, todas convergindo para a forma de Auto que se vai ler a seguir – está dado o “Norte” (quase o cronista diz o Nordeste, vento que soprará por todo o livro denso e belo!): “Eis a estrada, eis a ponte, eis a montanha/sobre a qual se recorta a igreja branca” (Cecília); “Cordeirinha santa/de Iesu querida,/vossa santa vinda/lhe dá lume novo (Anchieta); e o bendito popular – que, secretamente, ordena o caldo cultural do poeta-cantador João Filho:

“Senhor Bom Jesus da Lapa,
aceitai a romaria,
que sou romeiro de longe,
não posso vir todo dia.”

Bem, aí está o lugar de nascimento e a origem de todas as vozes do que “sonha acordado”, o poeta: “Para o bem ou para o mal [não se vê mal nenhum!] – diz João nas “Palavras da fonte”, em modo de apresentação do livro: “…lugar de nascimento é destino. Desse modo, acredito que tudo isso não teria sido possível se eu não tivesse nascido, num fevereiro que já se distancia [1975], em Bom Jesus da Lapa.”

A coragem é definida alhures. Santo Agostinho já a definia como virtude, sabe-se.
– “A coragem da alma, como virtude, é assim chamada por semelhança com a coragem do corpo. Mas não contraria à Ideia de virtude quem, por natural temperamento, tiver natural inclinação para a virtude, como se disse.” – afirma Santo Tomás de Aquino, repetindo Agostinho.

Virtude geral ou especial, deixemos aos teólogos que a definam. – Pois, diz a Escritura: A sabedoria ensina a temperança e a prudência, a justiça e a fortaleza, significando nesse lugar, virtude, a coragem. Ora, sendo a denominação de virtude comum a todas as virtudes, parece que a coragem é uma virtude geral.

João é um poeta corajoso, pois em meio à quase afasia da voz cristã em nossas letras, ele se impõe com um livro que é todo ele um canto elaborado e deslumbrante sobre a Paixão de Cristo. Melhor seria, até, que o cronista deixasse para a quadra da Quaresma uma leitura tão imprescindível, mas se o faz agora é porque está preso ao alumbramento que João provoca no leitor.

Quando o Santo Anônimo se anuncia, no Auto da poética de João Filho, quedamo-nos extasiados:

“Molda meu coração, barro insubmisso.
Por mais que se ofereça é sempre fúria,
pois há sombrios poços que diviso,
à beira de mim mesmo, nas funduras.

Molda meu coração, ex-pedregulho,
que percorreu parábolas insanas,
atirando-se contra os próprios urros,
abrindo abismos dentro da garganta.
[…]

João, assim, vai construindo seu caminho do Calvário, descendo a esses “abismos da garganta”, mas não se dá por vencido em nenhuma estação do suplício do Cristo. Ele, um fiel, resgata o que há de precioso nesta “argila impura” que somos e se queda diante do Cristo, em meio a um mundo exangue e que cede todo dia, toda hora à mais abjeta forma de expressão descrente. João aprendeu, como Gustavo Corção, as “lições de Abismo”:

“Molda meu coração, argila impura,
com Tuas mãos de luz, em vaso d´água,
e aprendo a servir feito quem desfruta
um sopro de esperança que se alarga.”

Que espécie de poeta é este? O que, em lugar de uma “Deusa branca” – a musa que Robert Graves diz ser o centro da poética que move a Tradição, move-se em direção à Cruz? Que espécie de poeta é este, inconcebível quase, o que parece não ter lugar num mundo ateu?
É o que encontra Jesus com sua mãe: “A dimensão do Cristo na parede,/da casa pobre que é o coração”. É João, o joão entre os muitos joões que se expressam na “Canção do João”:

“Lá vem joão-de-joão,
lá vai joão-sem-fim,
compõe seu brasão
paládio e capim.”

Diante de um livro assim, de um João que se supera supernaturalmente, a partir de sua aldeia – “situada à margem direita do médio São Francisco, oeste da Bahia”, o que sai da gruta do Senhor Bom Jesus da Lapa” para refazer, romeiro da renovação que reescreve a história da poesia católica do Brasil.

Este livro, pois, conectado a dois mil anos da história do personagem mais histórico – o Jesus crucificado, o Jesus que não é revolucionário ou revoltado contra Herodes, mas o eleito, Deus Encarnado que João Filho recoloca no centro da Poesia, de onde Ele nunca saiu – o centro da História do Ocidente.

Ora, sabemos, pela advertência do próprio autor que “para o bem ou para o mal, e em que pese uma dose de determinismo e outra de livre-arbítrio” que “lugar de nascimento é destino” e João fez de sua Bom Jesus da Lapa (Bahia) o lugar em que uma estrela aponta não a morte de Jesus, mas sua ressurreição sob a forma da mais elevada poesia.
Por tudo isso, dileto leitor, é que entusiasticamente recomendo que leia, que descubra por si mesmo, o encanto que representa a poesia de João Filho, neste “Auto da romaria”, encanto que ele, humildemente, resgata das palhas da sua infância, certo de que como seu (dele) mestre Olavo de Carvalho: “O menino é o juiz do homem, porque aquilo que vem depois é a realização, ou o fracasso, das expectativas e sonhos de antes.”

Jorge de Lima, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Tasso da Silveira e Cecília Meireles – a mesma da epígrafe primeira do livro, todos, exultantes devem de seu panteão, saudar como este velho cronista saúda o João poeta, o João, “balconista” que deixou “os lajedos” para inscrever seu nome no lugar mais alto (entanto, o mais humilde) dos poetas de Deus no Brasil do incrédulo século mau numerado XXI.

“Presença perene,
minh´alma menina,
coração infrene
a descoberta infinda.

Ele que escreve “O aéreo testamento” (dedicado ao amigo Wladimir Saldanha), como prova anti-Proustiana e cabal do resgate de uma infância que se viu livre, libérrima do “curral dos adultos” (cf. Alberto da Costa e Silva):
“Como pode ser tão densa,
e girar seu giro dentro,
essa luz da luz imensa
descendo assim do sem tempo?

Forço o menino imanente,
preso eterno do seu eixo?
Não termina o que vai sendo,
nesse espanto, então, o deixo?

Ele escapa do desenho,
que o deseja permanente, e
me lê enquanto vou lendo
seu aéreo testamento.”

Por tudo isso, faz absoluto sentido que tenha dito ao abrir seu “Auto…” o poeta João, repetindo Cecília Meireles:
“Eis a estrada, eis a ponte, eis a montanha
sobre a qual se recorta a igreja branca.”

E muito mais há de se descobrir nesta romaria, o leitor atento a fôrma e forma, se à sensibilidade e à razão poética quedar-se nesta imersão. Saberá que vem do mais fundo do coração do poeta esse “bendito popular” aposto à portada da estrada: “Senhor Bom Jesus da Lapa/aceitai a romaria, /que sou romeiro de longe, /não posso vir todo dia”. O talento mais destacado de João Filho é, na verdade, proveniente das menores coisas, como em Hölderlin, “o divino é não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo!” E da pequena Bom Jesus da Lapa, vem a voz do João nos lembrar que “alguém passa, seu gesto se realiza/ na luz imposta – /assombro que atravessa a minha vida, / e me transporta.” Boa leitura, e que o embevecimento o conduza, Leitor!

(*) Adalberto de Queiroz, 62, é jornalista e poeta. Autor de “Frágil armação”, 2a. ed., Goiânia, Caminhos, 2017. Email para [email protected]

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Fontes desta crônica: “Auto da romaria”, 1a. ed., Itabuna (BA), Ed. Mondrongo, 2016; SARAIVA, António José (e Óscar Lopes). “História da literatura portuguesa”, 6a. ed. corrigida e atualizada, Porto Editora, Porto (Portugal), s/data.; DA SILVA, Vicente Ferreira. “Transcendência do mundo”, São Paulo, É Real., 2010.

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Maravilha, Adalberto!