Ático Vilas-Boas da Mota em tradução primorosa

Eis o poeta das causas possíveis. Mostra que, independentemente da língua e da formação, o homem é sempre o mesmo em todos os quadrantes do planeta

João Carlos Taveira
Especial para o Jornal Opção

Ático Vilas-Boas da Mota: professor, tradutor, filólogo, linguista, ensaísta, dicionarista, folclorista e poeta | Foto: Reprodução

Em todas as artes podem ser encontradas com certa facilidade duas vertentes categóricas: a de jovens gênios que, numa idade mais avançada, se apagam completamente para a criação, e a de artistas maduros que ignoram o passar do tempo e continuam criando obras de grande vigor estético — talvez até mais transgressoras do que aquelas do tempo de juventude. Os exemplos são muitos. E em todos os segmentos. A título de ilustração, tome-se como exemplo apenas um nome da história da música: Giuseppe Verdi, o gênio da ópera italiana que viveu 88 anos e construiu uma das obras mais altas e coerentes de que se tem notícia, produzindo verdadeiras filigranas da música lírica até o fim de sua vida.

Essas abstrações me vêm à mente a propósito de um fato e de um nome singular no campo da literatura brasileira: Ático Vilas-Boas da Mota (1928-2016), professor, tradutor, filólogo, linguista, ensaísta, dicionarista, folclorista e poeta dos mais sérios, que tive a honra de conhecer em Brasília, na década de 1980, e o privilégio de poder privar de sua amizade fraterna em mais de trinta anos de convivência. Pois bem, esse homem culto e cordial, já na casa dos 80 anos, continuava escrevendo e publicando com o mesmo ímpeto dos primeiros tempos. Aliás, em alguns casos, até com mais ousadia e coragem.

Ático Vilas-Boas da Mota: reconhecimento na Romênia | Foto: Reprodução

Depois de suas passagens por universidades brasileiras (foi um dos fundadores da Universidade Federal de Goiás, em que desenvolveu praticamente todas as suas atividades literárias e científicas) e pela Universidade de Bucareste, na Romênia, tendo residido nas capitais de alguns dos principais Estados brasileiros, este baiano de Macaúbas resolveu voltar às origens e fixar-se de vez no oeste da Bahia, mais precisamente na Chapada Diamantina Meridional, na bacia do Rio São Francisco. E ali, no aconchego do solar da família, ao lado de dona Alzira, de parentes, de fiéis assistentes e de muitos amigos, Ático Vilas-Boas viveu entre livros, discos, fitas, quadros, objetos de arte, arquivos e documentos raros da cultura brasileira, dando vazão às inquietações pessoais na criação de obras cada vez mais sérias e indispensáveis à compreensão da nossa brasilidade. E ali viveu também seus últimos dias, pois sua trajetória luminosa teve fim em 26 de março de 2016, quando contava 87 anos de vida.

O professor Ático, como foi conhecido d’aquém e d’além mar, também dirigiu com mão firme a Fundação Cultural Professor Mota, criada há mais de 40 anos para resgatar e perpetuar as ideias e iniciativas de seu pai em Macaúbas, cidade que tem sido um baluarte da baianidade e centro de apoio para diversos pesquisadores nacionais e estrangeiros. A fundação abriga biblioteca, galeria de arte, salas de pesquisas, arquivos de referência e museu.

Em 2011, o governo da Romênia, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados àquele país de língua latina pelo autor do livro “Brasil-Romênia — Pontes Culturais”, concedeu ao intelectual Ático Vilas-Boas uma alta condecoração: Ordem Nacional Romena “Serviço dedicado” em grau de comendador, que lhe foi entregue na Embaixada da Romênia em Brasília, em cerimônia presidida pelo embaixador Mihai Zamfir, com a presença do editor Victor Alegria, de quatro embaixadores, diversos representantes diplomáticos, jornalistas, professores universitários, escritores e artistas de várias outras áreas.

Pois bem. Hoje, o que motiva estas linhas acerca do autor de “Alpondras: Travessia de Bucareste” e “Ciganos” é outro livro de poesia: “Romênia, Poemário Telúrico”, edição bilíngue português/romeno, de 2010, na tradução primorosa de Micaela Ghitescu, talvez a maior especialista na língua e na cultura brasileiras e portuguesas, que assina também o prefácio “Pontes entre dois mundos”. Os poemas da coleção, todos de temática romena, descrevem lugares, paisagens e locais muito caros a Ático Vilas-Boas, que, além de ter sido “o mais romeno dos brasileiros”, conheceu bem não só a geografia do país amigo, como também os modos de ser, de ver e de sentir de sua gente. Foi um “expert” nas culturas que contribuíram para a formação daquele povo. E que, mesmo antes da chegada dos romanos, são tantas e das mais variadas etnias.

“Romênia, Poemário Telúrico” enfeixa criações as mais diversas dentro de um universo irrestrito: o olhar de sabedoria de um homem cuja espiritualidade transcendeu fronteiras físicas e culturais entre os povos. E esse olhar magnânimo percorre, no dizer de Antônio Olinto, ruas estreitas e largas avenidas com o mesmo desvelo e a mesma ternura com que vagueia pelas veredas da terra natal. É, em suma, um documento valiosíssimo de um livre-pensador que teve o coração tão grande quanto o gênio. Ático Vilas-Boas, neste livro precioso, mostra que é o poeta das causas possíveis. Mostra que, independentemente da língua, dos costumes e da formação social e política, o homem é sempre o mesmo em todos os quadrantes do planeta. A única diferença perceptível fica por conta do grau de evolução espiritual a que teve acesso e que varia de acordo com as possibilidades do meio em que está inserido. E esta lição de humanismo se circunscreve — “ad infinitum” — em cada poema do presente volume. Senão, vejamos na versão original:

Hospício

Visitando o Hospital n.º 9, de Bucareste

Os sonhos dos loucos

são pássaros assustados.

Ninguém achará os seus rastros

nem o bater de suas asas.

 

Os sonhos dos loucos

não são de ouro,

nem sequer de prata:

ferrugem que assusta,

fuligem que sufoca e mata.

 

Os sonhos dos loucos

são a sombra da saliva

e o cheiro dos remédios

que não curam, mas insistem.

 

Os sonhos dos loucos

são os passos na calçada,

cartas sem endereços,

jornada sem retorno,

gesto pela metade.

 

Por isso mesmo, agora,

no giz desta parede torta,

todas as palavras foram ceifadas

pela guilhotina da indiferença.

 

Nos mostradores dos relógios

dormem sorrisos postergados,

visitas que nunca chegam,

respostas de fantasmas.

 

Sonho é sonho,

neste delírio de navalhas.

 

Os loucos moram neste mundo

carregado de feridas abertas, em todos os lados,

sem depois, sem amanhã,

sem aviso prévio, sem recado,

sem o anúncio da felicidade

nem de sua chegada.

 

Só o abraço de urtigas,

pesadelo que nunca se desfaz…”

Após a leitura desse poema, a vontade que se tem é de transcrever outros e mais outros. Mas a tentação é contida. Afinal, os espaços de publicação estão cada vez mais exíguos e não permitem veleidades nem excessos por parte de ninguém. Dito isso, voltemos ao livro e seu conteúdo concentrado.

A presente edição de “Romênia: Poemário Telúrico” saiu em Bucareste, em 2010, pela Editura Fundatiei Culturale Memoria e traz na quarta-capa uma curiosidade: a Baía de Guanabara, sobreposta a um ramo amarelo em que um beija-flor passeia sua majestosa mestria de voo, é contemplada pelo olhar sempiterno do Cristo Redentor do alto do Corcovado. Mas por que o Cristo Redentor na capa de um livro traduzido para o romeno? É que a cabeça do Cristo foi esculpida por um romeno chamado Gheorghe Leonida (1892-1942), que trabalhou no atelier do escultor francês de origem polonesa Paul Landowski (1875-1961), responsável pela execução do trabalho que foi doado ao Brasil pelo governo da França. O monumento foi inaugurado em 12 de outubro de 1931, dia de Nossa Senhora Aparecida e fica no bairro de Santa Teresa. Essas informações preciosas de Ático Vilas-Boas encontram-se, entre outras, no já citado livro “Brasil-Romênia — Pontes Culturais”, publicado pela Thesaurus Editora também em 2010 e cuja segunda edição, revista e ampliada, continua na dependência da vontade de familiares e principalmente do editor.

Completam a bela edição ilustrada do livro “Romênia: Poemário Telúrico” um índice, notícias biobibliográficas do autor e da tradutora Micaela Ghitescu, e um elucidário, com informações precisas sobre certos nomes próprios, vocábulos e expressões romenos. Vale a pena conferir.

João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com doze livros publicados, entre os quais “Aceitação do Branco” (1991), “A Flauta em Construção” (1993), “Arquitetura do Homem” (2005), “A Arquitetura Verbal de Nilto Maciel” (2012) e “Sonetos de Bolso, Antologia Poética” (2013), em parceria com Jarbas Júnior, e “O Prisioneiro” (2014). É colaborador do Jornal Opção.

Pequena biografia de Ático Vilas-Boas da Mota

Ático Frota Vilas-Boas da Mota é o nome de batismo do escritor, folclorista, historiador, tradutor e professor universitário (aposentado em 20 de maio de 1991, por tempo de serviço), falecido em 26/03/2016 na cidade de Macaúbas. Nasceu em Livramento de Nossa Senhora (Bahia), em 11 de outubro de 1928, mas radicou-se muito cedo em Macaúbas (Bahia), terra hospitaleira que sempre considerou “o doce país da minha infância”, ou seja, o seu amor paralelo.

Fez o curso primário no Grupo Escolar Cônego Firmino Soares e o curso secundário no Liceu Salesiano de Salvador, Estado da Bahia. Viveu muitos anos em Goiás, terra de seus antepassados maternos. Foi diplomado em letras neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1957) e concluiu vários cursos de extensão e de especialização na Argentina e na Europa. Doutorou-se em Filologia Românica pela Universidade de São Paulo (1972) com a tese: “Formas de Tratamento em Português e Romeno”.

Participou do corpo diplomático extraordinário, na qualidade de assessor cultural, quando do reatamento de nossas relações diplomáticas com o Leste Europeu (Missão João Dantas — 1961). Iniciou a sua carreira universitária como professor assistente de letras hispano-americana, a convite do titular o saudoso professor Mario Camarinha da Silva, da Universidade Católica de Petrópolis-RJ. Dirigiu o departamento de Educação e Cultura da Universidade Federal de Goiás quando realizou, entre várias promoções culturais, a Primeira Exposição Internacional do Livro em Goiás (1963/1964).

Foi professor fundador e vice-diretor da então Faculdade de Filosofia da UFG, e criador e elaborador do primeiro Plano Estadual de Cultura de Goiás (1972 — Secretaria de Educação e Cultura de Goiás), que mereceu diversos elogios da Unesco (Paris). Pertenceu a várias instituições culturais e científicas do Exterior e foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, sócio-correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (2005/RJ). Também foi Membro da Sociedade Brasileira de Geografia (1983/RJ), da Academia de Letras de Brasília (DF), e Membro Correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ES), da Academia Belavistense de Letras, Artes e Ciências (GO), entre outras. Recentemente foi eleito membro da Academia de Letras do Brasil (Brasília-DF), cadeira 10, patrono Manuel Bandeira, na qual não teve tempo de tomar posse.

Ex-professor-Associado da Universidade de Bucareste (Romênia — 1999/2000) e ex-pró-reitor da Universidade Internacional de Bucareste (2000). Premiado no Concurso Nacional de Contos (Paraná), possui dezesseis livros publicados nas áreas do ensaio, do folclore, da tradução, da medicina popular em Goiás, do conto e da poesia.

Alguns dos livros de Ático Vilas-Boas da Mota: “Brasil e Romênia: Pontes Culturais”, “Queimação de Judas”, “Ciganos: Antologia de Ensaios”, “Uma Noite Tempestuosa: Comédia em Dois Atos”, “Alpondras: Travessia de Bucareste”, “Romênia: Poemário Telúrico”, entre outros. (Fontes: Google e Antônio Miranda)

6 respostas para “Ático Vilas-Boas da Mota em tradução primorosa”

  1. Daniel Barros disse:

    Belíssimo artigo. Parabéns Taveira. Muito obrigado por ter me proporcionado a oportunidade de conhecer o professor Ático Vilas-Boas em Macaúbas. Momentos de muito prazer e aprendizagem. Estava com saudades de seus textos

  2. João Carlos Taveira disse:

    Obrigado, Daniel Barros, por sua palavras generosas. Como você bem sabe, o professor Ático merece sempre a melhor homenagem. Foi e continua sendo um ícone da nossa cultura.

  3. salomão sousa disse:

    ótimo. importante ressaltar nossos valores.

  4. João Carlos Taveira disse:

    Daniel Barros, obrigado!

  5. Fernando P. Cupertino de Barros disse:

    Parabéns pela beleza e profundidade de seu artigo! Fez ainda mais vivas as lembranças e a saudade do meu querido professor e amigo…

  6. Lena Castello Branco Ferreira de Freitas disse:

    Ático Vilas Boas foi uma pessoa extraordinária, de inteligência e caráter privilegiados. Fomos amigos por mais de 40 anos ; para mim, sua morte foi como a de um irmão. Obrigada pelo excelente artigo,João Carlos Taveira.

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