Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

A crônica do deserto particular

Um poema de Alberto da Cunha Melo vem nos alertar. É preciso enxergar dentro da casa vazia, do deserto da alma; é preciso atentar para os lugares em que, apesar de poucos frequentarem, pode estar a fonte que sacia nossa sede de poesia e de vida

Deserto da alma

Deserto | Foto: Reprodução

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos
uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas

seu deserto particular,
ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.”

  • Alberto da Cunha Melo, “Casa Vazia” – poema que faz parte de “Poesia completa” do poeta, obra recém-lançada. (*)

Reler o poema de Alberto, é como receber um alerta. É notícia que me apanha no final do domingo vazio em que preparo a coluna desta quarta-feira, 23. Os netos que se foram e deixaram a casa vazia, talvez; a missa que me falta, mas que não me atrai como antes, devido ao vazio da fé, do deserto interior; o noticiário que não finda; o mundo que segue adiante infindo.

Os desertos se manifestam de diversas formas. Os reais, enfrentam-nos os nossos primos árabes. Enfrentou-os o poeta Marco Lucchesi, como disse em outra crônica[i].
“O deserto tem seus desafios. O deserto tem seus riscos. Suas pequenas mortes. O deserto tem suas vertigens. Como suportar essas forças?” – indagou o autor de “Olhos do Deserto”.

Já superei desertos tão intensos como este. Em geral, seguem-se a eles um processo de iluminação, mas não são os desertos como realidade física e geográfica o que me ocupa agora. São os desertos espirituais. É no deserto que João Batista anuncia a missão salvadora de Cristo; é no deserto que Cristo é submetido à tentação; há, segundo o profeta Isaías: “Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, aplainai a estrada de nosso Deus.” (Isaías 40,3).

Não é difícil lembrar-me de outros, em meio ao deserto do ano 2018; em que as perspectivas se parecem todas com “a noite da alma”. Foi assim, no ano de 1972, quando anotava nas laterais do meu caderno de física os poemas de “Kilômetro Um” de Antonio José de Moura – livro publicado em 1964, com uma epígrafe de Tasso da Silveira (em meio a outras – de Drummond, Garcia Lorca, Jamil Almansur Haddad, Rimbaud, Moacyr Félix etc.).

Para o jovem candidato a físico, essa foi a grande descoberta do mundo metafísico.
Do árido natural, o estudante alçou ao sobrenatural. Era um tempo antes dos “Dias de Fogo” (Antonio José de Moura) e para o jovem leitor tempos de descoberta, de ampliação do universo para além dos teoremas e equações.

Fosse o mundo somente
o meu presente e mais nada;
fosse a vida apenas
um voo inútil de pássaro,
serviria a bomba atômica
pra matar a passarada
e suicidar uma flor,
aquela flor da calçada
de nossa inutilidade
de candelabro, e mais nada…

Já adulto, o cronista descobre o místico e poeta espanhol João da Cruz – o poeta-cronista do deserto interior, da noite da alma, quando ao fim e ao cabo se pode repetir:

Oh! noite, que me guiaste,
Oh! noite, amável mais do que a alvorada
Oh! noite, que juntaste
Amado com amada,
Amada no amado transformada!

Então, o cronista passa a descrer dos males dos desertos aterradores, para confiar que a iluminação próxima, pois anseia “já não dar ouvidos” à aridez desse período; como não se deixar tomar pela casa vazia, espaço que logo-logo poderá se encher de novo, como em “Ainda[i]”, poema da goiana Sônia Maria Santos:

No deserto
no vento

nos búzios e areais
ainda me vejo.

E ao pé da cruz,
porque preciso.

Porque não esqueço.

Por isso mesmo, finjo,
a uma tristeza

Já não dar ouvidos.

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta é Autor de “O Rio Incontornável”, Editora Mondrongo, Itabuna (BA), 2017.

[i] LUCCHESI, Marco. Autor de “Os olhos do deserto”, reportado nesta crônica: https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/leituras-de-verao-1-sob-o-sol-do-nordeste-os-olhos-do-deserto-114512/#_edn1

[ii] SANTOS, Sônia Maria. “Matéria da alma”. Goiânia, Kelps, 2011, p. 95.

(*) MELO, Alberto da Cunha. “Poesia completa”. Rio: Editora Record, 2017, p. 415.

Já disponível a

“Poesia completa” de Alberto da Cunha Melo (1942 – 2007) saiu recentemente pela Editora Record

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