Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Crônicas italianas (2)

Ainda é o sol, como nas sagas mais importantes da humanidade, que dá o tom para esta viagem à Europa e o motivador da ida inicial a Trieste é o escritor James Joyce, que aponta caminhos para uma intuição que o poeta francês Henri Michaux já havia previsto: “poetas amam viagens”.

O pôr-de-sol em Chioggia

Disse na crônica anterior que o sol se põe tarde em Trieste nesta primavera nebulosa e fria, por volta das 20h30. Sigo o sol de Trieste a Eslovênia e, daí, a Chioggia (Veneza) e aqui, onde me estabeleci frente ao Adriático, a rotina é a mesma, com um pôr-de-sol bem mais exuberante.

Havia decidido ficar uma temporada em Trieste e pesquisar sobre os escritores James Joyce e Ítalo Svevo, mas o vento forte da cidade, chamado “Bora” (similar ao Minuano, no Rio Grande do Sul e ao Mistral, na França), assustou-nos e minha mulher que não resiste aos ventos, decidiu que iríamos migrar.

Os pássaros migram. Assim também os viajantes e os poetas.

Lendo a excelente biografia “James Joyce” (Richard Ellmann, 1959), que adquiri na Livraria Achiles, em Trieste, descubro esta legenda: “Poetas amam viagens”.

“James Joyce foi um viajante por natureza e por necessidade”, nos garante Ellmann. E adiciona: “quando se via complicado demais num lugar, ele [Joyce] preferia se mudar para outro, ao invés de desfazer a confusão”.

“Por que você deixou a casa de seu pai?” – pergunta Bloom a Stephen, no “Ulysses”.

A resposta é: “Pra procurar desventuras”.


Não é o meu caso. Sou o tipo “bom-moço” e faço amigos por onde passo, sem deixar dívidas, mas não foi o que fez o poeta, músico, ficcionista James Joyce, vagando de Dublin a Londres, Paris, Zurique, Pola (Pula), Trieste, Roma, Trieste novamente, até retornar à sua Dublin.

O percurso deste inventivo escritor irlandês e um dos maiores do século XX, pode ser traçado, lendo Richard Ellmann, no seu memorável “James Joyce” (1959).

Uma das mais interessantes conexões de Joyce, estabelecida em Trieste foi seu relacionamento com Dario De Tuoni.

Tuoni nos conta menos do que Svevo sobre o escritor irlandês que ficou em Trieste de 1904 a 1919 e escreveu muito na cidade, onde conviveu com muita gente do mundo literário e artístico.

Com sua natural habilidade de complicar as coisas, mesmo com uma acolhida generosa por parte dos triestinos, o talentoso irlandês lembra-se literariamente que a cidade ter-lhe-ia “comido o fígado”.

– And trieste, ah trieste ate I my liver!

Ele ecoava o poeta francês Paul Verlaine que lia com interesse e recitava para os amigos, conforme ao depoimento de De Tuoni. Depois, recriou isso em “Finnegans Wake” transformando “triste” em Trieste: “And trieste, ah trieste ate I my liver!”

Joyce recitava Verlaine para os amigos e alunos. De Tuoni diz que não se inclui entre os amigos do irlandês, mas como um aluno que conviveu mais do que outros. E ouvia Joyce recitar Verlaine:

“O triste, triste était mon âme
a cause, a cause d´une femme

E, inclinando a cabeça, sob o peso do verso desolado:

“Um grand sommeil noir
tombe sur ma vie”

E, depois, diz-nos De Tuoni, quase em segredo:

“Je suis um berceau
qu´une main balance
au creux d´um caveau…
silence, silence!

Joyce recitou várias vezes estes versos para os amigos e alunos que conviveram com ele, como Dario de Tuoni.

Há sinais dessas emoções literárias nos escritos ficcionais do irlandês.

Em “Giacomo Joyce”, livro traduzido por Paulo Leminski, há duas citações curiosas sobre a mesma época que vivo aqui.

São contraditórias como é a vida de Joyce. Socialista que gostava do convívio dos ricos, um dependente do casamento que gostava das aventuras sexuais, um católico inimigo figadal do Papa, Joyce viaja pela mesma região em que estou em busca de suas aventuras italianas.

“Um campo de arroz perto de Vercelli sob cremosa neblina de verão. As asas do seu chapéu desabado, sombra sobre seu sorriso falso. Sombras raiam seu rosto falsamente sorridente, surrado pela luz quente e cremosa, cinzentas sombras leitosas debaixo do queixo, estrias de amarelo gema nas sobrancelhas úmidas, ranço amarelo palpitando dentro da polpa fofa dos olhos.”

E em Pádua, onde se vai para rezar e bendizer as graças da Itália de Santo Antonio, Joyce se lembra das prostitutas:

“Pádua longe além do mar. A meia-idade silenciosa, noite, escuridão da história dorme na Piazza delle Erbe sob a lua. A cidade dorme. Sob os arcos nas ruas escuras perto do rio os olhos das putas catam fornicadores.
“Cinque servizi per cinque Franchi. Uma escura onda de sentido, de novo e de novo e novamente.

“Olhos meus falham na treva, falham os olhos,
Olhos meus falham na treva, amor”.
“De novo. E só. Escuro amor, escuro ansiar. E só.
“Escuridão”.

Ei-lo, Giacomo, James Augustine Aloysius Joyce, talvez o sujeito que mais influenciou a literatura do século XX, um infeliz, um “loser” que vivia viajando para fugir de encrencas – como diria um americano, mas Ellmann não o diz, porque encontra na literatura dele Joyce, toda a redenção de uma vida falha.

De minha parte, não julgo, só convivo e Joyce vai me conquistando por sua escrita e não pela biografia.

Adalberto de Queiroz, 64, Jornalista e poeta, autor de “O rio incontornável” (Poesia), 2017.

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