Nove poemas e uma canção

“Eu sou o poeta mundano/ Aquele que não é/ Arte pela arte./ Sou, sim, parte sobre parte/Plano sob plano.” Com esses versos do “Prefácio”, Alex Sugamosto estampa a força de sua dicção poética e de sua proposta artística

Alex Sugamosto, poeta, ensaísta e dramaturgo

Alex Sugamosto
Especial para o Jornal Opção

Triste figura
(Ao poeta Jorge de Lima)
Que dom, que fina ternura
Cerziram tu’armadura e teu lacônico aspecto?
Que luzes, que raios fulgentes
Tingiram, resplandecentes,
A voz do teu intelecto?
Que línguas, que povos, rebanhos,
e que oceanos estranhos
te moldaram só, circunspecto?
Morreu o bom servo e menino
Viajante, rei, peregrino
Que sondava todo mistério?
Que hemisfério, que força arredia
Lançaram nas trevas infaustas
as noites de teu cavalgar?
Que ópio, que raiva e que sono
Que rei, que trova, que musa
Ainda te prendem o olhar?
Que vida, que céu tristonho
e que destino enfadonho
sonhaste em encontrar?
Que pai, que deus, que impostura
criaram tua triste figura

Noto
O vento carrega e arrasta a loucura
das casas, bandeiras, estepes funéreas
que soem prever achegada das mudas
agora veem surdas
a imunda matéria.
As moças no campo com calos nas mãos
Mergulham nas tinas infantes sudários
Ali cerram olhos
fitando a tormenta
assim como estendem apertam as coxas:
O vento insufla, túmido e quente,
presságios e eflúvios
nas gaias urânias.
E mordem os lábios enquanto os vapores
Lhes trançam os pés
Adornados de gotas.
Os lares murados, guardando sigilos,
reviram os baús das mães ignotas.
E logo que o Noto abrasa as ramas,
Um eco abafado sibila nos campos…
Não eram os ares soprando o remanso
Mas deuses menores
Regendo a história.

Trova da ribeira
Perfuro o braço do rio
entrando na mata fechada
arrasto a alma ferida
rasgando o ventre da terra
Tangendo o rastro da vida.

Quem poderá me esquecer?
Na luz, no arrebol, no clarão
Subiram da névoa amuada
O aço singrando a força
E os dias da minha amada
– que de mim é enamorada –
Nos campos da criação.

Escarpas e vales percorro
Cantando a ira dos tempos
E a voz sibilante dos ventos
Meu eco já fez calar.
Nas águas do corso romano
Fiz relinchar o corisco
Nas trilhas de meu cavalgar.

E meu cavalo alado
Um pegaso abrilhantado
que marca o bucho do chão,
É besta, ardil, romanceiro
relincha como a Quimera.

Paisagem infinda, luzeiro
Nevoeiro bramindo gemido,
Brandindo meu golpe nos ares
Recitei e gemi meus cantares
Ao povo que tem me ouvido.

Sephira
Plúmbeo chão, palco da Vida
Ferro e fortaleza, escudo e fasto fim
Escada decadente, torre de marfim
Alento perenal que encarna a descida.

Olhos de serpente distorcida
Raio, porta luz, éden, jardim
Floral solar, arcanjo e Serafim
Visão do vácuo e memória revivida.

Céu que almejo, amplo pai do infinito.
Portal do centro, paraíso e saudade
Canto dos contos e consolo do aflito.

Sonoro fio de minh´alma em mocidade
Infância fresca – tempo e tempo tão bonito –
Etéreo espelho e pai da Eternidade.

Alvorada
Ela chegou em plena madrugada
Trazendo aroma, néctar, perfume
Nos tons do róseo despertar da alvorada.

Dissolveu-se da noite o negrume.
Subi às luzes no raiar de um novo dia
Inda era pássaro imóvel e implume.

Que cor de sonho, existiu ou existia
Em meus voares confusos e dispersos
Que tua asa suave acaricia?

E levarás para o alto os meus versos?
Tingindo o espaço de forma incolor
Na queda livre onde me encontro submerso?

Vamos voando nesse tempo indolor
– primaveril da juventude que vigora –
Em plenas plumas sem angústia ou temor.

Improviso Trágico
Poderia falar com o corpo
com danças ou toques tribais
ou ainda, digo mais:
passar como um velho louco.
Como Artaud, babar e tremer
Num fremir insano e sensato
mas prefiro o grande barato
de bailar com meu vasto dizer.
E para mostrar meu juízo
– que vem de herança paterna –
vou falar da poesia eterna
que brota de meu improviso.

Sou corisco solto no mundo
no mito, na lenda e no tempo
Seresteiro que dorme ao relento
explorando os bosques profundos.
A arte do verso me guia
nessa estrada vazia
de morrer, viver e lembrar.
A música plena do espaço
infla meu corpo de luz
transborda, brilha e reluz
em toda harmonia e compasso.
E a arte dionisíaca?
Como vim parar, nessa noite obscura e insana
que todos meus sonhos inflama
no limbo da crueldade?
Essa é insolúvel charada, cancro, buraco e ferida.
O que sei?
Que a tragédia do palco não basta:
vou transportá-la pra minha vida.

Assim falou…
Transfiram meus olhos em um agádê
Mas sigo enxergando sem rumo e sem fé
Ouvindo a alvorada do tédio da vida:
Um sóbrio Adão sem Eva mulher.

A frase perfeita lustrosa e não dita
Surge no mapa sem ser processada
Milhões de bits seguros profundos
E há nova vida? Só máscara e estrada.

Marcharam macacos em 2001
Na antiga odisseia do estranho Stanley
Zuniram as telas sem alvo algum
Conforme o Baptista pregou na poeira.

Bela sinfonia que fora composta
Em versos e flores nietzschenianas
Findaram no adeus ao trem do caipira
Ao som das bacantes e mães bachianas.

Quadras pobres, rimas novas?
O homem robô domina o Jedi
Édipo Rei e a nova era
Filosofam com Freud e examinam meu pai.

Novela sem nexo e passam circuitos
Verdade, visor que não queima o rojão
Bom dia de noite, colapso nervoso
Travou o sistema, desligue o botão.

Monarca austero através do teclado
Com Jobs e Bill só pressinto o sistema.
A era sem fim não vive, divaga.
No ócio dos sócios o fim do problema.

Dança no tempo que o tango é eterno
Conduza os cometas à perdição
Visto o que sou e vice e versa
Ao largo do mundo sem satisfação.

A fenomenologia do Espírito não está viva…
Um mote comprido que de mim se enamora.
A proa e a popa sem dor ou demora
Sob o Sol da Fortuna a cabeça estoura.

Hoje são casas, amanhã serão ruas
No lento sistema entendo o contrário.
O homem robô rebelde exilado
E eu me contento com o calendário.

Eis a marola e o remanso da vida
A trova caduca, opaca e vetusta
O alento do homem perdeu-se no tempo
Assim me contou nosso pai Zaratustra.

Martelo Alagoano
Uma força existe no universo
faz a lua no céu sempre girar
As marés se deslocam pelo mar
E o relógio no seu sentido inverso
Nesse todo o mundo vai disperso
Segue dia, semana, mês e ano
Essa força emana do oceano
Do poder que provém do verdadeiro
Sem ser tudo, era ele o primeiro
Nos dez pés de martelo alagoano.

Vim chegando na terra do estrangeiro
Sou coberto de verso e toada
Minha rima é joia trabalhada
Sou o rei nesse imenso tabuleiro
O ator do cenário seresteiro
Perpetua a justiça nesse plano
Pela lei do merecimento humano,
E o homem eterno insatisfeito
Nesse mundo nem é tudo é perfeito
Nos dez pés de martelo alagoano

Eu também sou poeta de conceito
Mas conheço a fé dessa fortuna
Luz do sol, luz de prata, luz noturna
Ilumina e elimina o preconceito.
Não sou rico e tampouco escorreito
Só venero o rei santo e soberano
Estou com ele e por isso não me engano
Vivo em pé na santa felicidade
Com amor, esperança e humildade
Nos dez pés de martelo alagoano.

Prefácio
Eu sou o poeta mundano
Aquele que não é
Arte pela arte.
Sou, sim, parte sobre parte
Plano sob plano.

Em questão de vida, ufano.
Não sou princípio
Nem sou fim também.
Estou de tudo isso além,
artesão do pó urbano.

Flores no Abismo (canção)
Olhando pra mim, veja que eu sou
Um peregrino à deriva no balanço do mar.
Se os teus medos vão aflorar, a minha presença é incerta no
tumulto secreto da multidão.
Saiba que eu colho flores no abismo
E é nos ventos que escuto as promessas do Sol.
Sei dos anseios do teu coração, mas o meu mundo é escuro
demais pra você.

Alex Sugamosto é poeta, dramaturgo e ensaísta.

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