Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Visões da poesia de Yeats (2)

Nesta segunda crônica sobre W. B. Yeats, obedeço à conclamação que o poeta faz em “O balão da Mente”: “Mãos, façam o que vos é pedido:/Tragam o balão da mente/Que intumesce e se arrasta ao vento/Para o seu estreito alpendre”

O poeta de "A segunda vinda"

W. B. Yeats (1865-1939) identificado com seu tempo e visionário

Este estreito alpendre da crônica anseia se fechar sobre um assunto bem mais amplo do que esta peça – a vida e obra do poeta irlandês, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1923. É árduo o trabalho de recensear a obra de um gigante, porque sempre uma ação ficará fora do alcance do resenhista.

O poeta e crítico Paul Mariani nos dá importante lição sobre escrever a respeito da vida de um poeta[i], recomendando ao crítico atentar para a questão da perspectiva, do ângulo (ou ângulos) do biografado”. É isso, garante Mariani, que nos levará a “alcançar a essência da obra deste poeta”.

Portanto, tomo como mandatório este preceito: sempre diante da vida (e da obra) de um poeta observar com precedência os poemas que este nos deixou. Tenho por prioridade, pois, afinal são os poemas a razão de nos aproximarmos das biografias dos poetas” e só há um critério de permanência da vida do poeta e que a tudo supera: a qualidade da poesia que este nos legou.

A lição de Mariani está conforme ao preceito de Eliot[ii], para quem “a arte é maior que o artista, e Yeats transmitia aos outros esse sentimento, pois se preocupava mais com a poesia do que com a sua própria reputação de poeta ou da imagem que dele se fazia como tal”.

Nos seus 74 anos de vida, Yeats dedicou-se à causa do nacionalismo irlandês, aprendeu pintura e a abandonou pela poesia, estudou a mitologia da Irlanda, os mitos antigos, cunhando uma visão pessoal, aproximou-se do movimento da poesia inglesa dominante na sua juventude (os pré-rafaelistas do “Rhymers’ Club” de Londres). Egresso de uma família da minoria protestante, William dedicou-se ao estudo das disciplinas esotéricas, tendo participado da Dublin Hermetic Society e  da Ordem Rosacruz Hermetic Order of the Golden Dawn.

Aproximou-se das coisas práticas da realidade, tendo conhecido e se apaixonado por Maud Gonne, revolucionária irlandesa, bem como no convívio com a própria irmã, ele como editor e ela, uma das primeiras mulheres editoras da Irlanda (Elisabeth Yeats, Lolla[iii]), foram pessoas que aproximaram o poeta da realidade do povo, mesmo ao custo de sofrer o abandono afetivo por parte das mulheres ou viver “querelas que [o] levavam ao limite”, como no caso de sua irmã Lolla.

Dedicou-se ao teatro, escrevendo, produzindo, dirigindo peças e tomando contato com as questões mais comezinhas da vida prática, às voltas com ensaios, direção de pessoal e problemas orçamentários, mas isso “também lhe proporcionou a oportunidade de trabalhar com a linguagem teatral, geralmente mais próxima da vida cotidiana”, como acentua seu biógrafo e tradutor no Brasil, sr. Paulo Vizioli. Este “fascínio pelo difícil” dia-a-dia, longe das musas e da poesia está na raiz de “O Prazer do Difícil”[iv]:

Com o Abbey Theatre veio "a linguagem teatral, geralmente mais próxima da vida cotidiana"

O Abbey Theatre deu a Yeats o prazer do difícil: “A linguagem teatral, geralmente mais próxima da vida cotidiana”

O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de sucesso que se escrevem
Com cinquenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer do teatro, afã de gente.
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

(“O Prazer do Difícil”)

O poeta casa-se com Georgie Hyde-Lees, em 1917 e alguns bons eventos se sucedem, ainda segundo Vizioli. Além do casamento, “a aquisição da torre normanda Thoor Ballylee (perto de Coole), que passou a ser sua residência e o seu ‘símbolo’, o nascimento de um casal de filhos, a indicação para senador (em 1922) e o prêmio Nobel de Literatura em 1923”.

É quando “Yeats sente-se pronto para tentar a síntese do sonho e da realidade”. É desta fase o poema que Paulo Francis considerava “sombrio, profético, inigualável”, “A segunda Vinda”, que com outros poemas desta época, para Vizioli são símbolos da “síntese final” de Yeats. Abaixo duas versões de “A Segunda Vinda”, nas traduções de Adriano Scandolara e Paulo Vizioli:

Gira e gira no vórtice crescente
Não escuta o falcão ao falcoeiro;
As coisas vão abaixo; o centro cede;
Mera anarquia é solta sobre o mundo,
Solta a maré de sangue turva, afoga-se
Por toda parte o rito da inocência;
Falta fé aos melhores, já os piores
Se enchem de intensidade apaixonada.

Por certo, há revelações a vir;
Por certo, há a Segunda Vinda a vir.
Segunda Vinda! Mal saem tais palavras,
E a vasta imagem do Spiritus Mundi
Perturba-me a visão: lá no deserto
Um vulto de leão com rosto de homem,
O olhar vago, impiedoso como o sol,
As lentas coxas move, tendo em torno
Sombras de iradas aves do deserto.
Cai a treva outra vez, mas ora sei
Que o pétreo sono de seus vinte séculos
Vexou-se ao pesadelo por um berço.
Que besta bruta, de hora enfim chegada,
Rasteja até Belém para nascer?

(tradução de Adriano Scandolara)

A Segunda Vinda

Girando e girando a voltas crescentes
O falcão não escuta o falcoeiro.
Tudo se parte, o centro não sustenta.
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Marés sujas de sangue em toda parte
Os ritos da inocência sufocados.
Os melhores sem suas convicções,
Os piores com as mais fortes paixões.

É certo, está perto a revelação;
É certo, está perto a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Mal digo as palavras
E a imagem vasta do Spiritus Mundi
Turva-me a vista: no pó de um deserto
Um corpo de leão de crânio humano,
O olhar vazio e duro como o sol,
Move as pernas pesadas, e ao redor
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Volta a escuridão; mas eu sei agora
Que o sono pétreo desses vinte séculos
Deu em sonho mau no embalo de um berço.
Qual besta rude, vinda enfim sua hora,
Arrasta-se a Belém para nascer?

(tradução de Paulo Vizioli).

Meu ouvido acostumado à versão de “Girando e girando num círculo que se alarga…” abre-se a outras sonoridades e possibilidades do belo poema, mas sempre ecoando o início do poema de T.S. Eliot, “Burnt Norton”, traduzido por Oswaldino Marques: “O tempo presente e o tempo passado/Estão ambos, talvez, presentes no tempo futuro,/E o futuro contido no tempo passado./Se a plenitude do tempo é eternamente presente,/O tempo, como um todo, é irredimível”. 

Image courtesy Philip Errington, and © Sotheby’s, New Bond St., London, all rights reserved.

Objetos de W.B. Yeats anunciados pela Sotheby’s de Londres | Foto: Image courtesy Philip Errington, and © Sotheby’s, New Bond St., London, all rights reserved

E tão diversos os dois gigantes da poesia de língua inglesa bailam em minha mente incapaz de memorizar – recurso por excelência para os jovens que desejam aprender a amar a poesia – descobrir o porquê e como ler poesia. Vejo em ambos os poetas aquela predominância dessa “alegria trágica que permeia a condição humana” (Vizioli, 1992), a mesma que diz a este leitor sexagenário que deve focar no prazer e na fuga para o centro de si mesmo como saída de um mundo que histericamente continua – como no tempo de Yeats – a se autodestruir. É o que pode vislumbrar em “Lápis-lazúli”:

Dizem que histéricas mulheres têm horror
A esses poetas sempre na alegria,
A violino e paleta de pintor,
Pois todo mundo sabe (ou saberia…)
Que, se nada de drástico for feito,
Zepelim e aeroplano nos invadem

E suas bombas de Rei Billy deitam
Até que arrasem a cidade.

Cada qual desempenha a sua tragédia:
Lá vai Lear, aqui Hamlet se empertiga;
Aquela é Ofélia, esta é Cordélia.
Quando, porém, a última cena chega,
Quando a cortina está para tombar,
Só quem o seu papel não avalia
Corta a declamação para chorar.
Existe em Lear e Hamlet alegria,
E essa alegria ao medo transfigura.
Todos nós encontramos e perdemos;
Vão-se as luzes; na mente o Céu fulgura:
É a tragédia levada a seus extremos.
Embora Hamlet rosne e Lear se irrite
E o pano caia sobre todo drama
Que há nesses palcos todos sem limite,
Não cresce ela um milímetro ou um grama.

(“Lápis-lazúli”)

E assim o poeta se mostrou ao mundo – do trágico ao limite, evoluindo como numa espiral – para lembrar suas próprias teorias em “Uma Visão”, Yeats, o “velho perverso” ou desenfreado (The wild old wicked man) foi sempre e acima de tudo um poeta lírico que nos proporciona o prazer da leitura até hoje, 153 anos após seu nascimento, alguém que pode ser lembrado como poeta “que nos proporciona experiência e prazer”.

Mas Yeats também pode ser visto como “um dos poucos cuja história é a história de seu próprio tempo”. Um daqueles que, segundo Eliot, “fazem parte da consciência de uma época que não pode ser compreendida sem eles. Essa a altíssima posição que lhe atribuo…”.

Por todos esses atributos, talvez, é que a morte de Yeats (em 1939) tenha sido celebrada por W. B. Auden com este “Em memória de W. B. Yeats”[v]:

Ele se foi bem no rigor do inverno:
Os riachos estavam congelados, os aeroportos quase desertos,
E a neve desfigurava as estátuas públicas;
O mercúrio baixava na boca do dia agonizante.
Os instrumentos que temos concordam, eles todos,
Em que o dia da sua morte era um dia frio e torvo.
[…]
Terra, acolhe um hóspede famoso:
William Yeats, e dá-lhe repouso.
Fique a taça da Irlanda vazia
Do que continha de poesia.

Lavra com o teu verso, e que do
Chão da praga nasça um vinhedo.
Celebra o malogro do humano intento
Num arroubo de sofrimento.

Abre, nos ermos do coração,
As fontes da consolação;
No cárcere dos dias que vive,
Ensina o louvor ao homem livre.

(“Em memória de W. B. Yeats”)

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta, autor de “O Rio Incontornável” (Editora Mondrongo, Itabuna-BA, 2017).

[i] MARIANI, Paul. “God and the Imagination”. Athens, Georgia (USA): University of Georgia Press, 2002, pág. 113 et passim.

[ii] ELIOT, T. S. “De Poesia e Poetas”. São Paulo: Brasiliense, 1991, pág. 337.

[iii] Conforme artigo do jornal Independent (1995), cf. link consultado em 17/07/2018: https://www.independent.co.uk/news/uk/home-news/yeatss-debt-to-sisters-he-chose-to-forget-1538544.html

[iv] YEATS, W. B. in: “Via Linguagem”, de Augusto de Campos. Companhia das Letras, 1987. O poema de William, Butler Yeats (1865-1939) é de 1910. Página 175.

[v] AUDEN, W. H. “Poemas”. Seleção: João Moura Jr.; tradução e introdução José Paulo Paes, João Moura Jr. 1ª. ed. – S. Paulo: Companhia das Letras, 2013, pág. 91 e seguintes.

1
Deixe um comentário

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
Luciana Zani

Meu mundo poético hoje se alarga. Não conhecia Yats. E, claro, o artigo me aguça a aventura de conhecer o que me adoça na amostragem. ” …descobrir o porquê e como ler poesia. Vejo em ambos os poetas aquela predominância dessa “alegria trágica que permeia a condição humana” (Vizioli, 1992), a mesma que diz a este leitor sexagenário que deve focar no prazer e na fuga para o centro de si mesmo como saída de um mundo que histericamente continua”.