Cenas das cidades dos cadáveres

Poemas impressionantes de Anna Świrszczyńska (1909–1984), no livro “Eu Construía a Barricada”, falam da revolta contra o exército nazista alemão, no final da Segunda Guerra Mundial, que culminou na morte de 200 mil civis

Anna Świrszczyńska (1909–1984): seus poemas são fotogramas de um filme extremamente ágil e assustador que narra a violência nazista pela perspectiva de mulheres, crianças e animais

Sérgio Medeiros
Especial para o Jornal Opção

O prêmio Nobel de Li­te­ratura Czesław Miłosz não apenas traduziu para o inglês os poemas da sua conterrânea, a poeta polonesa Anna Świrszczyńska, nascida em 1909 e falecida em 1984, mas também escreveu sobre ela, chamando-a simplificadamente de Anna Swir, como se tornou conhecida nos Estados Unidos.

Numa de suas entrevistas, Miłosz declarou: “Sim, era uma pessoa extraordinária! Como poeta, ela foi subestimada – porque era feminista, porque escreveu sobre o destino das mulheres nos seus poemas. Seus poemas eróticos chocaram as pessoas. Ela amava os homens e falou sobre isso francamente (…). Tentou depois da guerra contar suas experiências. Trabalhou como enfermeira em Varsóvia em 1944. Ela não conseguia encontrar a linguagem adequada. Finalmente, escreveu ‘Eu Construía a Barricada’”.

Essa obra citada por Miłosz, de 1974, foi recentemente publicada no Brasil pela editora Dybbuk (2017, 216 páginas), traduzida na íntegra para o português (não se conhece ou­tra edição dela em nossa língua) por Piotr Kilanowski, um polonês radicado no Brasil que ensina literatura na Universidade Federal do Paraná.

Na nota introdutória, o estudioso afirma que Anna escreveu uma obra composta de “quadros quase fotográficos”, escritos numa linguagem econômica e incisiva. Mas também se poderia afirmar que os poemas são fotogramas de um filme extremamente ágil e assustador que narra, da perspectiva das mulheres, crianças e animais, em particular, uma revolta contra o exército nazista alemão, no final da Segunda Guerra Mundial, chamada de Levante de Varsóvia, que culminou numa catástrofe (“63 dias de cruel guerra urbana”, segundo o tradutor), ao final da qual cerca de 200.000 civis morreram na cidade.

Num dos poemas finais do livro, a poeta diz: “Corro pelas ruas de cadáveres, / pulo cadáveres”, cruzando uma Varsóvia destruída que ela descreve como “cidade dos cadáveres”. E, numa nota, ela explica: “A vida na Varsóvia insurgida era infernal. A cidade foi privada de água, luz, gás e alimentos. Os esgotos geralmente não funcionavam, os hospitais não dispunham de remédios e de água limpa. Por 24 horas os aviões de bombardeio assolavam a cidade, enterrando os vivos e os mortos sob os escombros dos prédios”.

Cenas lancinantes

Ao narrar os combates do ponto de vista das mulheres, a poeta oferece cenas lancinantes como a de uma mãe desesperada que tenta agasalhar um jovem soldado de dez anos, o qual estava indo para o cativeiro sem casaco. É com impressionante distanciamento irônico que ela fala do comportamento das mulheres entre si, mostrando suas diversas e contraditórias facetas.

Esse distanciamento está presente no poema “Deus a Salvou”, que é um pequeno conto perverso: “Uma mulher agonizava num colchão no portão,/ dentro do colchão havia dó­lares./ Outra mulher estava ao seu la­do,/ esperando que morresse.// De­pois corria com os dólares pela rua,/ caíam bombas./ Rezava: me salve, meu Deus.// E Deus a salvou”.

Um dos aspectos mais curiosos da sua poesia é seu clima kafkiano, que se destaca, por exemplo, no poema “O homem e a Centopeia”. O personagem quer sobreviver à guerra e planeja encontrar um porão profundo onde possa cavar uma toca no chão, mastigando os “tijolos com os dentes”.

Embora saiba que todos vão morrer, acredita que ele próprio sairá ileso do Levante de Varsóvia, ainda que, para conseguir isso, precise estrategicamente transforma-se numa centopeia, escondendo-se dentro do muro do seu abrigo inexpugnável. O poema termina com uma espécie de mantra: “Todos vão morrer, mas eu/ vou sobreviver”, que é apenas a manifestação de um anseio irrealizável.

Franz Kafka

Parece-me que aqui dois contos famosos de Franz Kafka estão amalgamados. Um deles é “A Constru­ção”, que fala de um roedor que, pa­ra escapar do inimigo implacável, a­caba criando para si próprio um labirinto laborioso (a toca ideal) que o dei­xa, entretanto, mais vulnerável ain­da (“perdi a oportunidade de refletir realmente sobre perigos reais”); o outro conto é “A Meta­mor­fose”, em que Gregor Samsa, um caixeiro-viajante humilhado, acorda transformado num inseto desconhecido.

No poema de Anna, que não é nenhum conto de fadas róseo, muito pelo contrário, a metamorfose, que seria a solução, não se concretiza, pois não há em Varsóvia, como o leitor verifica nas páginas finais de “Eu Construía a Barricada”, uma única parede segura capaz deter o avanço nazista: “De uma casa a outra/ caminham os soldados alemães,/ incineram as casas/ que sobreviveram”. Então a poeta conclui: “Na cidade despovoada/ como se o mundo tivesse acabado/ crepita/ o fogo.”

Piotr Kilanowski, o tradutor da poesia de Anna Świrszczyńska, prepara agora uma antologia de outro grande poeta polonês, Zbigniew Herbert (1929-1998), que sairá no ano que vem pela editora Âyiné. Será a primeira amostra abrangente no Brasil da arte verbal desse que é, como a autora de “Eu Construía a Barricada”, outro mestre da ironia na literatura polonesa moderna.

Sérgio Medeiros é poeta, tradutor e ensaísta. Publicou, entre outros livros, “Trio Pagão” e “A Idolatria Poética ou A Febre de Imagens”, ambos pela editora Iluminuras

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