Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Guache em azul, cinza e sombrio

Consciente de que certas formas de ginástica e de exercícios passionais são restritos aos jovens, contento-me com este exercício semanal da crítica – que me cobra muito, mas me devolve em dobro na satisfação pessoal

Além de incapaz de pular, saltar, atirar ou praticar artes marciais mistas (MMA), sinto-me 99% imune à paixão, aquele estado febril que costuma com mais frequência abater-nos quando jovens. Sinto-me também livre para levar a cabo uma tarefa que deveria ter feito antes, quando mais moço, mas as circunstâncias não me permitiram.

No meu poema “Passado[i]” a musa me avisara que “Ele, na Vila Jaiara, vira a fábrica de tecidos/onde trabalhavam tantos e próximos; sim. / E os porcos no meio da rua e seu relógio / no bolso do morto – o defunto, sim – / com quem uma gambira havia urdido…”

Eu sou esse menino no corpo do velho d´agora.
Sou o que vi; novas terras seriam anunciadas;
com o brilho do luar, terras a conquistar.

E porque vivo num país de instabilidades e turbulências constantes, onde o céu de brigadeiro surge apenas de tempos em tempos, no meu aniversário de 61 anos optei por tomar o caminho de uma vida mais pacata, sem os desafios e os troféus de uma vida inteira dedicada “às agruras do comércio” – expressão tomada de empréstimo a São Tomás de Aquino para definir o que foi minha vida por mais de trinta anos.

Pois é na condição de um idoso jovem que o cronista procura manter essa questão bem resolvida e não se dispõe senão a buscar o melhor na senectude, descobrindo o que há de bom na arte de envelhecer em lições antigas sobre o tema.

A mais famosa é a de Marco Túlio Cícero[ii], senador romano que teria escrito “De Senectude” (A arte de envelhecer) com a idade que tem hoje o cronista: 63 anos.

No ensaio intitulado “O Autor aos Sessenta[iii]”, o crítico norte-americano Edmund Wilson confessa ter-se recolhido ao campo, onde vivia a maior parte do tempo – em cidades do interior, como um americano do século XIX no febril século XX, mas distante do burburinho da vida cotidiana do país:

“Não quero mais aborrecer-me com a espécie de conflitos contemporâneos que eu outrora buscava analisar. Não faço empenho algum de manter-me em dia com os autores americanos mais jovens, e espero tão-só ter tempo bastante para conhecer alguns dos clássicos que nunca li. A caturrice dos velhos se avizinha confortadoramente.”

Diferentemente de Wilson, vi uma série de coisas adiadas, além de uns clássicos não lidos, por isso, aceitei o desafio de escrever uma coluna semanal no Opção Cultural online. É uma forma de manter o espírito ativo, exercitando a leitura crítica e o compartilhamento de experiências com os mais jovens e, quem sabe com os de minha geração, que ainda queiram ouvir o contraditório.

Sigo o exemplo de Cícero: não me arremeto contra a idade passada; busco, sim, na atual seguir o curso do rio da vida, como adverte o romano:

Acaso os adolescentes deveriam lamentar a infância e depois, tendo amadurecido, chorar a adolescência? A vida segue um curso muito preciso e a natureza dota cada idade de qualidades próprias. Por isso a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo”.

As diferenças de opinião surgem ao longo da vida em todas as idades, geram dissensões, como diz o tribuno romano, mas em outro opúsculo (“Da Amizade”) ele nos alerta que estas aparecem “quando se exige de um amigo algo de inconveniente, como ajudar a saciar uma paixão ou ser cúmplice de uma injustiça”.

Bom é, pois, recordar aos leitores que não estou interessado em querelas nacionais, em pontuar sobre autores vivos como se fosse um Temístocles Linhares ou um Agripino Grieco do século XXI, pois considero isso muito acima dos meus parcos recursos. Aqui, encontrará o(a) leitor(a) um comentário leve e fundado na pura leitura de um velho, cotejando experiências e buscando uma cor em guache azul para o cinza e o sombrio da vida cotidiana.

Ora, pois foi este mesmo o mote inicial da empreitada: externar a paixão pela leitura e fazer que este exercício sirva como uma bancada de convite à leitura, deixando aos leitores a aventura da crônica como o exercício de um ex-poeta bissexto, ainda que de menor talento ou talante, não importa…

Afinal, o que pode ser esperar aqui é a voz do que sou: “… esse menino no velho de agora”.

É assim, dileto leitor, não espere incursão nenhuma na arena política, pois a paixão pela política está descartada, desde que contra essa espécie de afecção da alma a vida me vacinou tempos atrás.

Se “…a irreflexão é própria da idade em flor, e a sabedoria, da maturidade”, a meta razoável para o que envelhece seria a busca da Sabedoria. Isso devemos ter como alvo desejável de um maratonista do espírito; pois, afinal, este é um caminho que merece ser trilhado em busca das “…melhores armas para a velhice: o conhecimento e a prática das virtudes”.

Com Cícero aprendemos que ao velho está interditado “atacar, pular, saltar, lançar o dardo ou brandir sua espada no corpo a corpo”, em compensação,todos os que o rodeiam poderiam se servir de sua “reflexão e de seu julgamento”; não é pois gratuito que os sábios romanos tenham dado ao conselho supremo (do) Senado o título de “assembleia dos anciãos”.

Portanto, confundem-se os que pensam que os idosos estão indisponíveis para a ação. Grandes estadistas se valeram da experiência da idade para se impor na política, como o inglês Winston Churchill que chegou ao cargo de primeiro-ministro aos 65 anos de idade.

O próprio Cícero dá o exemplo de muitos cidadãos romanos que, mesmo não podendo participar das batalhas do dia-a-dia da política e da guerra, podem planejá-las e contar com a “loucura dos jovens” para executá-las.

A mim, nem um nem outro caminhos estão postos como hipóteses. Resta-me viver a vida com meu lema de férias: “Eat, Sleep & Read (Comer, Dormir & Ler)”, além de tentar praticar a boa vizinhança, a amizade, o respeito ao Outro e de fazer o Bem no domínio do possível.

Basta a cada cidadão o seu fardo individual imposto pelo coletivo. A mim, é bastante cumprir as obrigações com que o Estado nos vergasta com seus inúmeros impostos e taxas várias e o voto não-facultativo. O fascínio do real não se exercerá como canto de sereia para este cronista.

O aviso da velhice, no escritor mineiro Lúcio Cardoso, tem um certo amargo que vem do tom de fundo de tudo que escrevia – principalmente, nos seus “Diários” íntimos, onde indaga sobre o futuro do homem na terra: “Quem somos nós que assim passamos como espuma, e nada deixamos do que construímos, senão um punhado de cinza e de sombra?“.

O grande poeta alagoano Lêdo Ivo em suas “Confissões de um Poeta” dilata o coração para observar que jovens poetas mostram-se “queixosos, lamurientos e até rancorosos porque não dispõem de editor nem de público, e são desdenhados pelos olímpicos diretores dos segundos cadernos de nossos jornais” – mas isso não deve impedir-nos de forjar nosso punhado de cinza, feitos que fomos de diáfana matéria: afinal, “Somos o sonho de um sonho na sombra” – conforme ao feliz verso de Augusto Meyer.

Ainda Lêdo Ivo. Recordamo-nos do “passado de recusas, decepções e dificuldades de quase todos nós, grandes ou pequenos, célebres ou obscuros” – como se este fosse uma espécie de “paliçadas de obstáculos, que se levantam diante do jovem poeta ou do prosador em semente”. Ora, conclui o poeta-confidente:

“…talvez essas barreiras se constituam em prova de fogo, para testar as vocações legítimas, a fidelidade a um sonho de infância ou à ambição da juventude. Apesar de tantas provações e cicatrizes, e da fanfarra eventual ou inevitável que saúda as rugas e os cabelos brancos desses soldados do Absoluto, muitos deles haverão de lembrar, com saudade e fervor, aqueles dias perdidos em que os seus poemas não logravam passagem na cidadela das letras e o concurso literário negava o prêmio almejado ao romance e aos contos inéditos”.

Nunca rompi barreiras que fossem além da leitura carinhosa e quase devocional dos amigos. Tenho, pois, por bem assentado que não devo me calar e nem recuar diante das “paliçadas” que ainda se me opõem, nem tão pouco ter medo do eventual silêncio dos pares – que é doloroso sem dúvida para este e tantos outros “soldados do Absoluto” – mas jamais cederei à tentação de deixar o sombrio e o cinza dominar-me a alma, tampouco o sangrento e o abjeto do real invadirem a mente livre deste livre pensador.

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta, autor entre outros de “O Rio Incontornável”, Editora Mondrongo, 2017.

[i] QUEIROZ, Adalberto. “Destino Palavra”. Goiânia: Edição do Autor, Gráfica PUC/GO, 2016, p.15.

[ii] CÍCERO, Marco Túlio, 103-43 a.C. “Saber Envelhecer e A Amizade / Marco Túlio Cícero; tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L& PM, 2006.

[iii] WILSON, Edmund. Onze Ensaios: Literatura, Política, História. Seleção e prefácio Paulo Francis; Trad. José Paulo Paes. – São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 314.

3
Deixe um comentário

3 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
2 Comment authors
Luciana Zani

Gostei. Excelente nível de explanação e escrita. Conteúdo relevante te notório. Com certeza merecerá meu acompanhamento semanal.

Caio

Boa.

Caio

Bom