Novo livro de Ramon Nunes Mello é um mergulho na vida interior

Em “Há um mar no fundo de cada sonho”, o autor carioca mostra que já pode ser considerado um dos nomes mais interessantes da poesia brasileira contemporânea

Livro nutre a alma do autor, que exala sentimentos e sensações em virtude da sua capacidade de observar o mundo com olhos de quem não se deixa tragar pelo caos efêmero da pós-modernidade

Livro nutre a alma do autor, que exala sentimentos e sensações em virtude da sua capacidade de observar o mundo com olhos de quem não se deixa tragar pelo caos efêmero da pós-modernidade

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

Amante declarado das pal­avras, o escritor, poeta e jornalista Ramon Nu­nes Mello vem apresentando através da poesia o seu gênero literário mais promissor enquanto artista. Estreando com “Vinis Mofados”, em 2009, de lá para cá publicou “Poemas tirados de notícias de jornal” (2011), e recentemente, “Há um mar no fundo de cada sonho”.

Podemos encarar seu novo trabalho como um mergulho transcendental à vida interior, exterior e metafísica, num misto de confissão e amparo, solidão, mistério e epifania. Seus versos fragmentados mostram-se livres e consistentes, expondo a personalidade vívida e harmoniosa do autor de 32 anos, que se entrelaça em questões que abarcam o amor, a espiritualidade, a comunhão, o silêncio, a natureza, a vida e a morte.

Ramon Nunes Mello já pode ser considerado um dos nomes mais interessantes da poesia brasileira contemporânea, com uma dicção própria e muito característica de seu tempo. Seus poemas são apresentados de forma concisa e direta, como uma experiência sensorial de cunho intimista. Durante a leitura, podemos nos deparar com diálogos entre interlocutores imaginários ou um monólogo entre dois eus do poeta, que pergunta nos versos de “sol em aquário, lua em câncer”:

você me ama?
(…)
ama?
(…)
eu te amo
(…)
fim

Se na sua grande estreia literária, a música popular brasileira se fez presente, em seu segundo trabalho, a inteiração com os recortes de jornal remetia a uma linha de puro experimentalismo criativo, tendo como proposta a assonância de vocábulos que congregasse a linguagem dura do jornalismo para o lirismo e a subjetividade do verso.

No mais recente, Ramon Nunes Mello se envereda em uma nova praia, nutrindo embalos cósmicos de uma alma que exala por sentimentos e sensações luminosas em virtude da sua capacidade de observar o mun­do com olhos de quem não se deixa tra­gar pelo caos efêmero da pós-modernidade. Diminui a velocidade do tempo e organiza uma íntima ba­la­da de sons e silêncios, onde: “se­melhantes curam semelhantes curam semelhantes curam semelhantes (…)”, num “veneno-curativo” prodigioso, quase feito uma prece.

Em “luz” exibe-se um achado magnífico, que radica de forma pungente a força de sua poética, ao escrever que: “existir é um grito mudo e cons­tante/aprende-se aos tombos/ a ser grato por tudo/o que dói”. Em “Há um mar no fundo de cada sonho”, a virtuosidade criativa de Ramon se concentra na serenidade das coisas simples, na essência do instante-já, no agora e na concentração meditativa do tempo. Seu trabalho com a linguagem revela também a necessidade de expor o próprio âmago do fazer literário. A palavra como matéria vital que reforça a sensação do corpo introduzido às experiências com a natureza e o mundo. “Da sensibilidade e outras percepções agudas” encontramos:


um sol
dentro de
cada palavra

todos os dias
abro janelas
para iluminar
a língua

No poema “Leme” se apresenta as linhas que nomeiam o próprio livro, com a exclusão apenas da palavra “sempre”, inserida entre parênteses: “Há (sempre) um mar no fundo de cada sonho”. Além disso, o mesmo verso assinado pelo poeta nascido em Araruama, interior do Rio de Janeiro, rememora o título do primeiro livro do escritor Mário de Andrade: “Há uma gota de sangue em cada poema” (1917). Este marcado por uma ainda tímida ousadia do futuro pai do modernismo brasileiro.

Em “a vida efêmera dos peixes de aquário”, Ramon Nunes Mello em poucas palavras preenche seus versos de pura beleza e melancolia, ao construir uma síntese dicotômica, entrelaçando o animal e o signo para subjetivar o caráter alusivo de suas linhas que revelam:

no último mergulho
nada além da
ilusão

É possível também encontrar momentos de pura descontração quando o poeta diz em “não insista”: “meus poemas são os nudes”. Já em “poema cósmico”, a falta de inteiração de duas existências protagoniza pouco a pouco o seu inexorável distanciamento: “eu que­ro/lhe apresentar meu mun­do/mas você fica olhando o espaço”. No fim, troca-se a solidão da presença para a expansão autônoma da própria essência mimetizada em luz sobre o mundo: “numa viagem sem volta/agora pretendo expandir/apenas luz”.

O poema “Das coisas vagas” se in­clina ao culto pelo mistério e pela intuição:

permaneça
no mistério da alma ignorada das coisas
organize a vida em pensamentos
abstratos

Ao declarar-se publicamente soropositivo, Ramon Nunes Mello acabou construindo a figura de um ícone literário e político, sendo porta-voz de jovens e adultos silenciados pelo medo da discriminação

Ao declarar-se publicamente soropositivo, Ramon Nunes Mello acabou construindo a figura de um ícone literário e político, sendo porta-voz de jovens e adultos silenciados pelo medo da discriminação

A vida após o HIV

Ao declarar-se publicamente soropositivo num emocionante relato ao site da revista Carta Capital, em 1º de dezembro de 2015, o poeta, também ativista dos direitos humanos, acabou por construir a figura de um ícone literário e também político, capaz de desbravar preconceitos e mitologias acerca da doença, sendo também um porta-voz de jovens e adultos brasileiros silenciados pelo medo da discriminação.

Se por um lado a sorologia pode ter influenciado em parte de sua atual produção, por outro mostra que o seu talento híbrido ou multifacetado (como poeta, escritor, jornalista literário, ator, pesquisador, produtor cultural e militante político) prevalece sobre o estigma do vírus. O HIV neste caso é apenas um mero detalhe — ou uma luta política.

Ramon Nunes Mello é uma daquelas figuras que representa a maravilhosa juventude antenada do século 21, que luta por liberdade, igualdade e justiça, trazendo aos nossos dias de cólera a poesia que nos falta (e que é necessário cultivá-la na vida). Para o poeta, é preciso que se “aprenda com as flores”, se­gundo relata em trecho de “sabedoria”: “é necessário/beleza/frente à finitude dos dias”.

Márwio Câmara é jornalista e pesquisador nas áreas de Literatura e Cinema. Mora no Rio de Janeiro.

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