Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Notas de um viajante brasileiro na América (2)

Em viagem à América, especialmente à região da Nova Inglaterra e ao Québec, tracei um roteiro que inclui cinco ou seis casas-museus de importantes escritores norte-americanos

Entrada da casa-museu Frost Farm, dedicada à memória do escritor Robert Frost | Foto: Divulgação/Robert Frost Farm

A primeira parada, depois da visita a Boston e ao Museu JFK e sua coleção de Ernest Hemingway, sigo para uma cidadezinha próxima (Derry, situada no Estado de New Hampshire, entre Salem e Manchester) para a visita à Frost Farm, casa-museu dedicada à memória de Robert Frost.

Como bem resumiu Carlos Castelo em artigo recente, Robert Frost “ganhou quatro prêmios Pulitzer. Em 1949, o Senado dos Estados Unidos celebrou os seus 75 anos com pompa e circunstância. O texto-homenagem falava: Seus poemas têm ajudado a guiar o pensamento, o humor e a sabedoria americanos, promovendo em nossas mentes uma representação confiável de nós mesmos e de todos os homens”. Anos mais tarde, tornaria-se o primeiro poeta convidado a fazer uma leitura durante a posse de um presidente norte-americano. Quando John Kennedy subiu ao poder, em 1961, declamou durante a cerimônia seu poema ‘The Gift Outright'”.

O fato é que, reconhecido pelo primeiro casal, Frost gostaria de ter lido o poema inédito “Dedication”, mas por uma limitação de vista e dos reflexos no palco da posse, o autor disse de memória o poema “The Gift Outright”.

No entanto, até chegar a este grau de reconhecimento na velhice, Frost enfrentou enormes dificuldades e teve uma vida cheia de aventuras e de dificuldades até se firmar em um lugar e com uma família estável, na companhia da esposa (Elinor) e dois filhos, um dos quais morreu muito cedo e marcou decisivamente a vida do casal.

Interior da casa-museu Frost Farm| Foto: Adalberto de Queiroz

Ao visitar a casinha da Frost Farm em Derry, fiquei com aquela impressão de que a saúde mental e o ambiente favorável à produção do poeta não tinham nada de sofisticado, antes um aroma do campo com a simplicidade franciscana de uma cabana na fazenda. Ali, Frost teria escrito boa parte dos seus melhores poemas, conforme nos assegura o seu biógrafo Jay Parini em “Robert Frost, a life” (1999).

Parini nos assegura que Robert Frost fez tudo que era necessário e possível para alcançar o sucesso literário que teve, em alguns casos até colocando em risco seu próprio bem-estar e dos outros a sua volta.

A fazenda de Derry, onde viveu por cerca de uma década, é pois referência obrigatória para os leitores amantes da poesia de Frost. A interdependência criada entre os fatos de sua vida complicada (e nada convencional) e a sua poesia pode ser visto como um “complicado jogo de decepção e revelação, no qual o poeta criou máscaras, através das quais o poeta pisca para o leitor. Seus poemas e até sua vida são ambas vistas como uma elaborada construção admiravelmente interdependente” (Theodore Morrison, citado por Parini).

Sabe-se que Frost nasceu na Califórnia em 1874 e teve uma primeira infância conturbada pela marca de um pai alcoólatra que não se firmava no emprego e deixou a família em dificuldades financeiras com sua morte quando o poeta tinha 11 anos. Esses primeiros anos na Califórnia ficaram na memória de Frost como “o primeiro lugar em minha memória para onde retorno sempre em meus sonhos”.

Frost era autodidata, independente, e por isso mesmo não conseguiu terminar cursos formais em universidades por onde passou – Dartmouth e Harvard. Mas em Harvard ele deixou sua marca como um excelente aluno de grego e latim. O autor teria dito em entrevista que “provavelmente li mais em latim e grego do que [Ezra] Pound” e parece não haver exagero nisso, porque quando retornou aos estudos em Harvard, depois de ter abandonado a escola em Dartmouth, dedicou-se sobretudo ao estudo dos clássicos greco-latinos e à filosofia, tendo sido aluno (tal como seu contemporâneo Wallace Stevens) do filósofo George Santayana, bem como de William James, irmão do romancista Henry James.

Máquina usada pelo poeta | Foto: Adalberto de Queiroz

Mais tarde, Frost receberia títulos honoríficos de Oxford, Bates College e, naturalmente, de Universidades de Cambridge (Massachusetts), incluindo Harvard.

Suas maiores influências cabem mesmo a Emerson e a Emily Dickinson. Mal interpretado por alguns biógrafos, Frost teve sua vida passada do avesso pela talvez inadequada interpretação de alguns poemas como por exemplo o impacto da perda do filho Elliot na vida e na poesia de Frost. “Temos que ser cuidadosos com o uso dos poemas”, adverte Parini, para quem “estes são construtos da imaginação que não podem ser tomados como meras transcrições da experiência vivida pelo poeta e, realmente, alguns biógrafos de Frost falharam nesse aspecto”.

“Home Burial”, por exemplo, é um poema dramático sobre a perda de um filho, um debate entre o pai e a mãe em luto. Alguém pode tomar os personagens do poema como se fossem o poeta e sua esposa Ellinor; certamente a perda do filho marcou toda a vida de Robert, tanto que 50 anos depois de ter perdido a esposa, Frost volta ao tema da perda numa peça (“Masque of Mercy”, 1947) que sugere que ele ainda era obcecado pela perda da criança. Parini nos diz que o poeta “põe o dedo na ferida e a faz queimar”.

A imagem que Parini tem para o evento é preciosa. É “como, de fato, se a dor fosse um magneto, apontando para onde a agulha de sua bússola poética deve mirar o verdadeiro norte do sentimento autêntico”.

Em resumo, no entanto, é preciso sublimar a experiência vivida para dela fazer a construção poética. É o que parece nos alertar Frost quando disse que “poemas falam do que você quer dizer tanto quanto do que não quer”. Talvez por isso mesmo Parini tenha comparado “Home Burial” como marco do modernismo de Frost e como se abre um caminho entre este poema de Frost e “Esperando Godot”, de Samuel Beckett.

Como “Home burial” é um poema longo e não encontrei tradução em português, deixo aqui o Link para meus seis leitores. “Home Burial”, por Robert Frost: https://www.poetryfoundation.org/poems/53086/home-burial

Robert Frost nasceu no dia 26 de março de 1874, em San Francisco, e faleceu em Boston, em 1963, aos 89 anos, vítima de um câncer de próstata. A obra deixada por Frost ganhou o mundo e sua poesia é hoje lida em vários países e continua sendo lida e celebrada em seu país. Era aos 89 anos o menino ligado ao ambiente rural que parecia responder a si mesmo quando propusera aos 11 anos o desafio ousado de não repetir o fracasso ocorrido com o pai, mas ao contrário “fazer algo relevante para o estado atual da literatura na América”, superando toda a ansiedade, a depressão e as tragédias sucessivas que lhe marcaram a vida inteira.

Frost sobre a fazenda em Derry em carta a Louis Mertins: “Para uma larga extensão da minha poesia, a terra de origem é a fazenda de Derry. Poemas nasceram longe dali, apesar disso, as sementes estão lá em Derry e foram criados sobre acontecimentos que se tornaram autobiográficos. Houve muitas coisas que dizem respeito à experiência em Derry que ficaram em minha mente e que se tornaram poesia nos anos seguintes”.

Biografia de Robert Frost escrita por Jay Parini | Foto: Adalberto de Queiroz

Jay Parini diz na biografia citada que muitos dos melhores poemas de Frost foram compostos nos anos (1900-1911) passados na fazenda de Derry, dos livros “A Boy’s Will” e “North of Boston”, e também outros de livros posteriores, como por exemplo de “A Witness Tree”, podem ter colhido suas sementes (inclusive seus rascunhos iniciais sido compostos) durante o fértil período passado em Derry. Até o final de sua vida, Frost trabalharia com imagens e episódios desse período, conclui Parini.

“Mowing” é um desses poemas da safra de Derry Farm. Frost teria dito a Sidney Cox que ele o considerava o seu melhor poema do livro “A Boy’s Will”. Ele o chamava de uma “talk song” e, segundo Parini, de fato “o poema pega de um modo incrível os caminhos do som da voz de alguém falando, apesar de não haver nada de casual nisso. Frost se assegurou de amarrar com um laço bem forte a voz à forma do soneto”, conclui Parini.

“There was never a sound beside the wood but one,
And that was my long scythe whispering to the ground.
What was it it whispered? I know not well myself;
Perhaps it was something about the heat of the sun,
Something perhaps, about the lack of sound— 5
And that was why it whispered and did not speak.
It was not dream of the gift of idle hours,
Or easy gold at the hand of fay or elf:
Anything more than the truth would have seemed too weak
To the earnest love that laid the swale in rows, 10
Not without feeble-pointed spikes of flowers
(Pale orchises), and scared a bright green snake.
The fact is the sweetest dream that labor knows.
My long scythe whispered and left the hay to make.”

Robert Frost mostra-nos neste poema sua mestria ao utilizar a forma fixa soneto. Por conhecer da técnica como poucos, Frost pode se dar ao luxo de inová-la, tomando um caminho pouco convencional para os padrões rítmicos. Há técnica sim, mas há sobretudo o que o próprio designou como “the sound of sense” (o som da razão), no sentido da “vitalidade do nosso discurso”, como disse Frost em carta a John Bartlett em 1913 e completava com “essa é a vitalidade abstrata do do nosso discurso”. “Ele é puro som – pura forma. Aquele que se preocupa com isso mais do que com o assunto [em si] é um artista.”

O biógrafo de Frost afirma sobre esse tópico que Frost argumentava que “um ouvido e um apetite para estes sons da razão são a primeira das qualidades de um escritor, tanto em prosa quanto em verso. E mais: “Se alguém quer se tornar um poeta deve aprender a achar essas cadências e quebrando, habilmente, esses ‘sons da razão’ com todas suas irregularidades de tom, mantendo a batida regular da métrica escolhida”. É o caso do soneto acima, para o qual, infelizmente, ainda não encontrei uma tradução em português.

Esse poema “Mowing” (Ceifando) pode ser tomado como um exemplo significativo da “essência da teoria da poesia de Frost”, que, ainda segundo Parini, é poema onde o escritor estabelece um embate com a possibilidade abstrata da linha do verso e não perde o ritmo da batida dos cinco pés em cada linha do verso, alternando sílabas átonas e tônicas, numa constante de dee-dum, dee-dum, dee-dum, dee-dum, dee-dum…

Distante dos meus livros, recorro ao meu editor Euler Belém para deixar-lhes poemas de Frost em vernáculo. O primeiro é “Lugares Desertos” e o segundo é “Telefone”. Sobre este, uma pequena observação cômica foi feita por nossa guia na casa-museu Frost Farm ao nos mostrar o telefone dos Frosts e dizer que este ficava ouvindo conferências dos vizinhos (o que era possível nos primeiros anos do telefone!) para aprender o sotaque diferente da região em que o poeta havia fixado residência, ele que passara a infância na Califórnia. E isso até hoje parece bem indicado ao turista não nativo do inglês que queira  entender o falar específico de New Hampshire… Eu o testemunho aqui no final desta crônica.

Guia do museu mostra telefone que os Frosts usavam para ouvir os vizinhos | Foto: Adalberto de Queiroz

Lugares Desertos

Neve caindo e a Noite tão depressa,
Tão depressa, no campo onde passei,
Quase coberto de macia neve,
Algum restolho só a distinguir-se.
Os circundantes bosques têm-na — é deles.
Os animais se encolhem pelas tocas.
Vago demais eu vou para contar;
A solidão me inclui sem que eu o saiba.

Solitária como é tão solidão
Sê-lo-á bem mais, por menos que antes seja
— Alva brancura, sem nada que exprimir.
Sem expressão, sem nada que exprimir.

Ninguém me assusta com o vazio espaço
Entre as estrelas sem humanidade.
Tenho dentro de mim, e bem mais perto
Com que assustar-me: o meu próprio deserto.

(Tradução de Jorge Senna. Do livro “Obras-Primas da Poesia Universal”, com seleção e notas de Sérgio Milliet, Livraria Martins Editora, 439 páginas. Ver página 265. 1957).

***

Telefone

E quando me afastei o quanto pude
Hoje daqui,
Houve uma hora
Tranquila,
Em que, ao me inclinar sobre uma flor,
Te ouvi falar.
Não me digas que não porque te ouvi dizer…
Falaste daquela flor no parapeito da janela —
Lembra-te do que disseste?”
“Primeiro dize-me o que julgaste ter ouvido.”

“Tendo encontrado a flor e afugentado uma abelha,
Inclinei a cabeça
E segurando a haste
Escutei e julguei ter captado a palavra —
Qual era? Chamaste-me pelo nome?
Ou disseste…
Alguém disse ‘Vem’ — ouvi ao debruçar-me.”

Talvez o tenha pensado, mas não falei.”

“Pois vem, então eu vim.”

[Do livro “Videntes e Sonâmbulos — Coletânea de Poemas Norte-Americanos” (Ministério da Educação e Cultura/Serviço de Documentação, 300 páginas, 1955), organização de Oswaldino Marques. O poema foi traduzido por Willy Lewin. Página 129.] – Willy Lewin, ensaísta e poeta, nasceu em Recife (PE). Formado em Direito, era especialista em literatura de língua inglesa. João Cabral de Melo Neto diz que foi um de seus mentores.

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta. Autor, entre outros de “O Rio Incontornável” (Poemas, Edit. Mondrongo, 2017).

O poema “Mowing” pode ser ouvido neste link do YouTube: https://youtu.be/tIVqg8uD8rk

Recomendo a leitura do capítulo sobre Frost no “Canône Americano” (H. Bloom), onde o leitor poderá encontrar poemas de Frost traduzidos por Denise Bottmann.

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Nelson Castro

Excelente matéria!!