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Refugiados querem escapar da guerra e da miséria: só em 2015, mais de 1,5 milhão deles chegaram à Europa[/caption]
Caso houvesse um estudo que nos revelasse o vocábulo mais usado na imprensa europeia nestes últimos 15 anos, é provável que o substantivo crise estaria no topo da lista. A palavra crise serviu e continua servindo de epíteto para designar tudo que não se enquadra na rotina ou desvia da normalidade mesmo não sendo crise no sentido etimológico do latim crise ou do grego krísis.
De tanta crise, uma seguida a outra, o termo tornou-se corrente, habitual, tanto na mídia quanto em círculos políticos, em reuniões de empresas e mesmo em encontros sociais e casuais. Tornou-se inflacionário, desgastou-se, perdeu seu verdadeiro sentido para descrever uma situação real de uma fase difícil, grave, na evolução das coisas, dos fatos, das ideias.
Algumas destas crises já pertencem ao passado e outras há que, mesmo sendo recentes, já se apagaram da memória de muitos observadores. É oportuno, portanto, relembrar algumas daquelas com as quais a UE confrontou-se, direta ou indiretamente, de forma quase contínua.
Comecemos com a crise bancária oriunda dos Estados Unidos, resultado da ganância desenfreada de alguns bancos, que atingiu a Europa e levou o mundo à beira do precipício. Seguiu-se a crise do euro, a crise da Irlanda, da Islândia, de Portugal, da Espanha, da Grécia, do Chipre, da Praça Maidan em Kiev na Ucrânia e os consequentes conflitos no leste do país, do Mediterrâneo, da Somália, do Chifre da África, da Crimeia e o embargo comercial da UE contra a Rússia, a crise da Líbia, do Iraque, da Síria, do Egito, da Tunísia, a crise do juro baixo e, algumas geograficamente mais distantes que também tangem a Europa como a do Sudão, Níger, Chade, Mali, Nigéria, E como se tudo isso não bastasse, veio ainda a crise dos refugiados e a crise terrorista que, com atentados cruéis e desumanos sacrificou a vida de muitos civis inocentes em várias cidades não só europeias, mais recentemente em Paris e em Bruxelas.
A relação não é cronológica e nem completa mas confirma o quanto a UE esteve engajada para resolver crises próprias e mais ainda crises alheias que, caso não controladas, refletiriam na Europa ou, no pior dos casos, tornar-se-iam próprias. Algumas destas crises foram superadas, outras encontram-se em fase de extinção e outras mais ainda merecem controle.
Ninguém mais fala da crise da Irlanda, da Islândia, do Chipre, de Portugal que tanto alvoroço causaram mas, após estes países terem ajustado suas contas, pagaram com antecedência os empréstimos recebidos da União Europeia, do Banco Central Europeu, do Fundo Monetário Internacional e de outras fontes. A crise financeira da Grécia, acrescido de milhares de refugiados que se encontram naquele país, é um caso isolado sem sinais de estar sob controle.
Há, no entanto, duas outras questões cruciais, na Europa também denominadas de crise, embora na realidade não façam justiça a tal conceito. Ultrapassam-no em longe: uma, a questão dos refugiados, um flagelo humano, em sentido mais amplo, uma tragédia civilizatória de dimensões calamitosas sinistras não havida desde a 2ª Guerra Mundial; a outra, a barbárie do terrorismo, sob o manto do islamismo radical, entrementes, de atuação global. Ambas são questões abertas, de difícil solução que, provavelmente, preocuparão a Europa e o mundo por décadas vindouras e marcarão a história deste século XXI.
O número de refugiados é alarmante. Os que chegaram à Europa em 2015 (cerca de 1,5 milhão, a maioria à Alemanha), representam apenas uma pequena parcela dos refugiados ou deslocados de suas raízes que mais vegetam do que vivem em campos sustentados pelas Nações Unidas e por organizações caritativas e filantrópicas na Síria, Turquia, Líbano, Iraque, Jordânia, Palestina, no Paquistão, no Afeganistão e outros países. Segundo as Nações Unidas, a nível global a cifra eleva-se a 70 milhões de famintos e desesperados, à procura de simples sobrevivência ou de vida melhor.
Em 1945, após a 2ª Guerra Mundial, a Europa aniquilada encontrava-se sob escombros. Através do Plano Marshall, organizado e custeado apenas por um país, os Estados Unidos, foi possível salvar e recuperar o Continente, na época, com cerca de 350 milhões de habitantes. A comunidade internacional de hoje, pelo que se vê, demonstra pouca solidariedade para, através de um programa igual ou parecido como o Plano Marshall de então, resolver o problema de 70 milhões de desesperados!
Drama internacional
A Europa e o mundo ocidental não poderão resolver este drama de proporções preocupantes. Só uma ação conjunta da comunidade internacional poderá tomar medidas imediatas para, no mínimo, amainar a catástrofe que ameaça transformar-se em hecatombe. Isto inclui também a colaboração dos países islâmicos mais ricos como a Arábia Saudita, os Emirados e outros da Ásia Central que, até agora, têm feito pouco ou nada para amainar o sofrimento de seus irmãos em fé religiosa.
Na recente conferência das Nações Unidas sobre refugiados realizada em Genebra em fins de março passado, o secretário-geral Ban Ki-moon em discurso enfático e muito pessoal disse:
“Eu só sabia que meu estômago sentia fome”, lembrou-se ele de sua infância durante a Guerra da Coreia quando seus pais e avós, desesperados, saíam de manhã para encontrar comida para alimentar a família.
Ban Ki-moon veio a Genebra com a firme ideia de retirar 480 mil refugiados retidos nos países vizinhos da Síria como Iraque, Jordânia e Líbano aliviando aqueles países do peso que suportam há vários anos. Representantes de 170 países presentes à conferência concordaram em aceitar 178 mil refugiados, uma cifra muito abaixo da prevista por Ki-moon.
O último encontro dos chefes de Estado da UE em Bruxelas, em meados de março passado, terminou com um acordo com a Turquia que, em seu território, já abriga 2.7 milhões de refugiados, na maioria sírios.
O acordo estabelece, entre outras medidas, que todos os refugiados que chegam à Grécia ou numa de suas ilhas, serão reencaminhados à Turquia. Em contrapartida a UE assumirá, para cada refugiado devolvido à Turquia, um refugiado sírio retido num campo daquele país, inicialmente, no máximo 170 mil pessoas a serem distribuídas entre os 28 países. O governo da Turquia receberá, como ajuda de custo, um auxílio adicional de 3 bilhões de euros, somados a uma quantia igual já prometida em fins de 2016. O acordo entrou em vigor em 4 de abril passado.
Com esta medida a UE junto com a Turquia e a Grécia visam impedir o tráfego criminoso dos intermediários que, em embarcações primitivas, transportam refugiados às ilhas gregas e italianas com preços de passagens altíssimos e todo risco de vida. Em suma o acordo deverá transmitir a mensagem: “Não venham à Grécia. Nós levaremos vocês de volta à Turquia”. Há dúvidas quanto à efetividade desta medida.
Eliminação de visto
Um item adicional do acordo, uma exigência do governo turco, inclui a eliminação do visto de entrada em passaportes de cidadãos turcos à UE. As gestões acerca desta complexa temática deverão começar em junho próximo. Entre a população já agora há receios de que, com a liberação do visto para cidadãos turcos à União Europeia, o Continente teria nova onda de imigrantes.
O acordo foi mais criticado do que elogiado. Organizações de direitos humanos como a Amnesty International e mesmo várias organizações das Nações Unidas declararam-no desumano por envolver características de tráfico humano. A devolução dos refugiados da Grécia à Turquia lembra a “deportação”, um termo com o qual os europeus não simpatizam por ter sido usado durante o período nazista em relação ao extermínio de judeus.
Vários órgãos da mídia europeia criticaram o acordo por ter sido feito com um país que, no que diz respeito aos direitos humanos, deixa muito a desejar. A própria União Europeia há tempos tem criticado a falta de liberdade de imprensa na Turquia onde, de momento, há 30 jornalistas presos. O presidente Recep Tayyip Erdogan é criticado por seu comportamento autocrático não raro denominado de Sultão do Bósporo, Putin da Turquia e mesmo de Gadhafi Turco. Erdogan, por sua vez, também não é lisonjeiro em relação à União Europeia que publicamente denomina de Clube de Cristãos.
Na questão dos refugiados, a Turquia se colocou numa posição de país chave. Há indícios que a assistência dada pelo governo turco, com apoio da Europa e das Nações Unidas, não se baseia apenas em motivos humanitários. Interesses políticos, geoestratégicos e econômicos de curto, médio e longo prazo, envoltos sob um manto de filantropismo, escondem-se atrás do comportamento de aparência humanitária da Turquia, para o qual cobra um bom preço. E não são poucas as vozes que dizem que Europa deixou-se extorquir pelo governo turco.
Um dos objetivos do presidente Recep Tayyp Erdogan é concretizar a filiação da Turquia à União Europeia. As gestões, há tempos engavetadas, deverão ser reativadas no contexto do acordo agora estabelecido. O problema interno não resolvido da Turquia com a população curda será um dos maiores entraves ao projeto da filiação. Nenhum político europeu quer ver o problema turco-curdo trasladado para o centro da Europa.
Com a acordo realizado, a Europa contribuíu para que a Turquia, um país islâmico com 80 milhões de habitantes e cerca de 15 milhões de curdos, se tornasse o verdadeiro baluarte das fronteiras externas da União Europeia com o objetivo de controlar a onda de refugiados provenientes do Oriente Médio, da África e da Ásia Central com destino à Europa.
A recente história da União Europeia (UE) é marcada por solavancos e tropeços. Feitos políticos, estratégicos e econômicos modelares não têm sido frequentes nestes últimos anos. O acordo agora estabelecido com a Turquia tem ingredientes complexos com resultados não promissores com os quais a próxima geração de políticos europeus terá que se confrontar. l
Com a iminência do impeachment, tanto o Palácio do Planalto quanto o PMDB, por intermédio do novo presidente, Romero Jucá, adotam a estratégia de oferecer cargos a parlamentares
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Paulo Maluf e Fernando Collor | Fotos: Waldemir Barreto e Leonardo Prado[/caption]
A situação do governo está tão lastimável do ponto de vista ético e moral que até o senador e ex-presidente da República Fernando Collor (sem partido-AL) e o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) se arvoram o direito de falar mal dele. Collor foi “impeachado” (na verdade, renunciou antes) da Presidência em 1992 e Maluf, se sair do Brasil, será preso pela Interpol por corrupção.
Maluf se disse “enojado” com a operação do governo Dilma de trocar votos contra o impeachment por cargos. Em entrevista à BBC Brasil, ele assumiu que vota a favor do afastamento de Dilma num posicionamento político. “Ela é correta e decente, mas voto pelo impeachment”, disse, acusando o presidente de seu partido, o senador Ciro Nogueira, de ter negociado apoio ao governo sem consultar os demais políticos de sua base.
Para Maluf, a negociação de cargos foi “espúria, para não dizer pornográfica” e Nogueira se comportaria de maneira “monocrática”, como um “ditadorzinho do Piauí”.
O deputado disse ainda considerar “uma vergonha nacional” o fato de seu partido ser o recordista de citações na Lava Jato, com mais de 30 investigados.
Ao ser perguntado por que votará pelo impeachment depois de defender o governo, Maluf disse que tem muito respeito pela pessoa física da presidente Dilma. “Entretanto, no processo de votação, o meu partido e seu presidente Ciro Nogueira negociaram de maneira espúria.
Toda negociação de partido tem que ser feita ou pela bancada, ou pelo diretório. Não pelo presidente. O presidente negociou presidência da Caixa Econômica Federal, Ministério da Saúde, Ministério das Relações Institucionais.”
Segundo o deputado, como Ciro decidiu monocraticamente, pode parecer perante a opinião pública que ele, Maluf, fez parte desta negociata. “Só tem uma maneira de provar que não fui: votar pelo impeachment. Portanto ela (Dilma) é correta e decente, mas voto pelo impeachment.”
Sem barganha
Já o senador Fernando Collor de Mello (sem partido-AL) condenou, na quinta-feira, 7, a ação do Palácio do Planalto. Na quinta-feira, 7, reportagem do Globo contou que em palestra na Confederação Nacional da Indústria (CNI), ele disse que nem no auge da crise que lhe tirou o mandato fez esse tipo de gestão.
“No meu governo, em nenhum instante houve qualquer tipo de negociação subalterna. Em nenhum momento essa barganha foi feita. Em nenhum momento, nenhum dos meus ministros se mobilizaram no sentido de terem conversas menos republicanas com quem quer que seja. Nem com a classe política, nem com a classe empresarial. Hoje, vivemos um instante em que as coisas não caminham bem assim. Preocupa-me profundamente a situação do nosso país”, disse Collor, para um público de empresários do setor da indústria.
Collor também criticou duramente a presidente Dilma Rousseff por permitir que manifestantes defendessem, dentro do Palácio do Planalto, invasão de casas e terras caso o impeachment contra ela avance na Câmara.
“Isso é absolutamente inadmissível, chegar quem quer que seja dentro do palácio do governo para dizer, na frente da chefe do Executivo, que vai invadir gabinetes, propriedades, fazendas.
E a presidente ouvir e cumprimentar quem assim se pronunciou é de extrema gravidade. Ouvir de alguém dentro do palácio dizer ‘vamos pegar e sair às ruas com armas em punho’ pregando a luta armada e conflito social é inadmissível”, enfatizou.
O senador comparou o ambiente econômico em 1992 com o momento atual, em meio às duas crises políticas. Segundo Collor, seu governo era sólido e a economia estava funcionando, diferentemente de agora. Ele criticou a formação do ministério de Dilma, ressalvando “exceções honrosas”.
“Diferentemente daquele período em que, ao deixar o governo, deixei com as contas em ordem, com a economia funcionando, com um plano econômico previsível que permitiu a implementação do Plano Real, hoje não temos essa perspectiva. Hoje, não sabemos para onde estamos indo, não temos um corpo ministerial, salvo honrosas exceções, como Armando Monteiro (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), que as pessoas vejam como referência e como um esteio para que possamos ultrapassar essa fase difícil”, discursou Fernando Collor.
O senador, em função de sua “condição ímpar”, de ter sido submetido ao impeachment, informou aos empresários que não diria se é contra ou a favor do afastamento de Dilma.
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Presidente Dilma Rousseff | Foto: Lula Marques/Agência PT[/caption]
A equipe econômica de Dilma Rousseff teme que se instale um quadro de quebradeira geral de empresas brasileiras, o que já começou a ocorrer, na verdade. A coluna Painel, da “Folha”, de sexta-feira, 8, publicou que uma das maiores preocupações seria a dívida das companhias nacionais no exterior, que chegaria a R$ 500 bilhões com vencimento até 2020. Num quadro de descrédito internacional do país, elas dificilmente conseguiriam renová-la. Ou fariam isso a um custo muito alto.
Também acenderam o alerta máximo as provisões de grandes instituições financeiras, como Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Caixa e Santander, que separaram R$ 148 bilhões em seus balanços para fazer frente a eventuais calotes de empresas.
E o pior é que na avaliação do governo, a crise pode se agravar com ou sem impeachment. A vitória de Dilma Rousseff não seria suficiente para devolver a ela credibilidade e liderança. Michel Temer, ao lado de companhias como o deputado Eduardo Cunha e o senador Romero Jucá, já entraria em campo com capital político em corrosão.
Com isso, a equipe econômica procura alternativas para a superação da crise. A primeira seria a abertura de linha de crédito, com recursos do compulsório dos bancos, para que as empresas recomprassem os papéis das dívidas que têm lá fora. A segunda, afrouxar regras para que os bancos renegociem as dívidas que elas têm com eles no Brasil.
Uma terceira proposta seria destravar financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que teria se tornado extremamente conservador após a Operação Lava Jato.
Lojas fechadas
A verdade é que a crise se agrava na anomia do governo, que há anos se mostra incapaz de ditar política econômica. Com isso, o consumo cai, o desemprego aumenta, a arrecadação retrai. Na semana passada, o jornal Estadão publicou reportagem mostrando que novos shoppings abertos no País têm quase metade das lojas fechadas. Em empreendimentos inaugurados nos últimos três anos, o porcentual de lojas ociosas chega a 45% — no Centro-Oeste, é de 53%, revela o estudo do Ibope Inteligência. Em centros comerciais mais antigos a taxa é de 9,1%, o dobro da média histórica. A expansão descontrolada no setor e, principalmente, a crise econômica, levaram a essa situação.
São os shoppings “fantasmas”, com praças de alimentação vazias e tapumes no lugar de vitrines — no Shopping Bougainville, em Goiânia, várias lojas foram fechadas; as vitrines “fantasmas” são enfeitadas com mercadorias de outras lojas para dar a impressão de normalidade. Se considerados todos os 498 shoppings centers em operação, o número de unidades vagas chega a 12,2 mil. Esses pontos comerciais ociosos somam área de 1,7 milhão de metros quadrados.
Levantamento do Ibope Inteligência em parceria com a Associação dos Lojistas de Shoppings (Alshop) registra que o número de lojas vagas nos shoppings brasileiros atingiu neste ano níveis recordes e já faz empreendedores reduzirem o aluguel e até deixarem de cobrar a locação para segurar o lojista. Cada loja que se fecha, obviamente, trabalhadores ficam desempregados.
Documento emitido pelo órgão e direcionado à universidade é algo que não cabe nos tempos atuais, principalmente para um lugar onde debate e posicionamento são características intrínsecas
A informação é de um aliado do prefeito de Aparecida de Goiânia. O vereador será anunciado como postulante no fim de abril
Proposta foi enviada à Assembleia Legislativa na quarta-feira (6/4) e lida em plenário na quinta (7), para tornar a Escola Estadual Americano do Brasil em Colégio da Polícia Militar de Goiás
Ministra preferiu não responder aos questionamentos sobre possível saída do partido após rompimento com base aliada da presidente Dilma Roussef
Em ação no STF, Procuradoria Geral de Goiás consegue reduzir de 15% para 11,5% comprometimento da dívida com a União
Para maioria dos entrevistados, vice-presidente tinha consciência dos esquemas no governo e na Petrobras. Instituto também revelou intenções de voto para presidente
Na segunda audiência para discutir a proposta de Ocupação Urbana Consorciada no Jardim Botânico, plateia vê proposta como bem elaborada, mas com foco na exclusão
Colunista do Estadão escreve que, ao considerar apenas questões jurídicas para o relatório sem deixar de citar o ambiente político, goiano acertou
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Reprodução/Tumblr[/caption]
Paulo Lima
Especial para o Jornal Opção
Como dizem os portugueses, visita é sempre uma coisa boa: ou quando chega, ou quando vai embora. A chegada daquele homem de terno impecável, sapato e maleta de couro preto lustroso, não cabia em nenhum dos casos.
Não havia um horário específico para realizar suas visitas rotineiras e obrigatórias, normalmente uma por mês ou bimestre, eventualmente uma a cada quinzena. Naquele dia ensolarado na cidade espanhola de Mérida, comunidade autônoma da Estremadura, ele bateu às quatro horas da tarde à porta de mais um cliente, que arregalou os olhos ao ver o estranho chegar com um sorriso simpático e sincero de quem traz uma boa notícia.
— Boa tarde. Permita que eu me apresente. Sou seu novo alfaiate!
Sua estranha rotina começara muitos anos antes, quando recebeu a incumbência de costurar um terno para um desconhecido. Sua primeira encomenda foi paga regiamente. A quantia, que lhe chegou adiantada em cédulas novas, zerou seis meses de dívidas acumuladas e ainda sobrou para o mês seguinte. “Dom Alejandro não deveria ser tão má pessoa assim.”, pensou.
Ficou demasiado surpreso quando soube do passamento repentino do favorecido, a quem chegou a se afeiçoar durante aquela semana, um dia após finalizar o que julgou ser sua melhor peça já produzida. E horrorizado ao saber que a morte fora deliberada pelo mesmo que a mandou fazer, cujas atividades criminosas eram sobejamente conhecidas na Espanha dos anos 1950.
Precisava interpelar Dom Alejandro sobre o ocorrido, mas teria que ser com jeito, pois não estava falando com qualquer um e tinha um filho para sustentar. Pediu audiência, receoso, mas foi atendido prontamente.
— Sei que o senhor é homem mui ocupado. Agradeço por me receber e me perdoe incomodá-lo com meu pedido de entrevista. É que tudo se sucedeu muito de repente e ainda estou confuso e assustado com os últimos acontecimentos...
— Entendo perfeitamente, Sr. Cortez. É um artista da costura que resolvi prestigiar, homem não plenamente acostumado ao grande mundo dos negócios.
Após breve pausa para uma baforada num charuto caro e cheiroso, seu interlocutor não demonstrava qualquer perturbação, o que o alfaiate julgou ser muito bom.
— Como sabe, não sou homem que gosta de dar explicações sobre o que faço ou deixe de fazer, mas lhe abrirei uma exceção. Serei direto e entenderá por quê.
Desta vez o costureiro permaneceu mudo, mais apavorado e ainda mais curioso do que nunca.
— Meus negócios são muito complexos e o senhor jamais entenderia como funcionam. Às vezes, tenho que tomar medidas extremas e não ouso hesitar. Isso certamente já devem ter-lhe contado. E é justamente aí que o senhor se encaixa.
A conversa começou a ganhar contornos mais temerosos.
— Desculpe. Receio não ter entendido...
— Quando alguém que decido não mais deva pertencer a este mundo, nem sempre sou movido por rancor ou vingança, como imagino que muitos pensam. Até porque existem outras maneiras de punir. Somente a necessidade absoluta me motiva, quando a medida é extrema. Em alguns casos, porém, procuro proceder de forma distinta, por respeito ao finado, à família e seu círculo de amigos. Para que entendam que o fiz porque era meu dever fazê-lo, e que o eleito teve de mim a maior consideração. Nesses casos, faço questão de que sejam velados e enterrados com impecável vestimenta. Se assim chegarão ao mundo de lá, não sei dizer. Mas me conforta patrocinar uma partida do mundo cá com toda a consideração que o momento inspira.
Sr. Cortez permanecia em silêncio. Seu comedimento se refletia até no piscar de olhos, lento e espaçado como sua respiração.
— Objetivamente, esta é a minha proposta: doravante, quero que seja meu alfaiate exclusivo. Atenderá a clientela que eu te mandar e nenhuma outra mais, por preço algum. Basta dizer sim e terá compromissos suficientes para se aposentar com abastança em poucos anos. Lembrando que o sigilo faz parte do contrato, que por isso mesmo é verbal. Tem a minha palavra e espero que ela lhe baste!
A forma direta com que Dom Alejandro lhe dirigiu a proposta o fez recostar-se na poltrona, como se seu corpo fosse jogado para trás por uma lufada repentina. Estava em visível estado de choque. Do outro lado da mesa, no entanto, seu colocutor permanecia impassível, com a atenção mais voltada para o isqueiro e o charuto. Tentando ganhar tempo, falou o que primeiro lhe veio à cabeça.
— Sinto-me honrado por haver apreciado meu trabalho, a ponto de me apresentar tão generosa oferta. Nem sei direito o que dizer...
— O sim é uma resposta — emendou o homem forte à sua frente.
— Mas, Dom Alejandro, essas pessoas...
— Não está em suas mãos! Terão o mesmo fim, passando ou não pelo seu corte primoroso. Cabe ao senhor dar o seu melhor para proporcionar-lhes um momento final de dignidade.
Não havia tempo a perder e os riscos eram muitos caso optasse por dizer não. Refletindo sobre aquelas palavras, o Sr. Cortez Javier Henrique aceitou o novo ofício, ciente de que seria o único alfaiate da província, talvez do país e do mundo, a ter um emprego tão incomum. Antes disso, Dom Alejandro aleijou qualquer tentativa de relutância por parte dele ao lhe prometer por cada trabalho um valor duas vezes maior do que havia pagado pelo primeiro serviço.
Aos poucos, o mestre-alfaiate buscou convencer-se de que, a despeito da estranheza da nova ocupação, havia nela certa honradez e alegria, além de grande responsabilidade. Procurava demonstrar isso a cada visita. Afinal, para o próximo da lista, mesmo diante do inevitável, pairava o atenuante de pertencer a um seleto grupo de pessoas que não seriam encontradas esquartejadas, com o corpo jogado em qualquer esquina e a boca cheia de formigas. Aos especiais era reservado um ritual diferenciado: uma única bala, no coração, em sinal de que havia sentimento no ato que culminaria no desfecho de sua existência.
Não era a rapidez que o diferenciava dos seus pares. Era a sensibilidade e o entendimento da profissão que abraçara desde pequeno por pura paixão. Muito além de transformar tecidos em roupas, aquele homem parecia entender a linguagem secreta do corpo humano, analisando-lhe os contornos e os movimentos, traduzindo seus desejos na forma num terno impecável, belo e único.
Focado, em não mais que uma semana dedicava todas as suas energias no que considerava sua prioridade absoluta. Tirava as medidas do cliente, riscando os moldes em seguida antes de cortar o tecido seguindo rigorosamente o traçado. Peças alinhavadas, bastava uma prova no corpo para efetuar ajustes e... Pronto! Concluía mais uma obra de arte, que reunia a personalidade do dono e o apurado senso estético do escultor.
Dom Alejandro tinha fama de afetuoso para com os seus amigos e principalmente a família. Talvez por isso mesmo era do tipo que odiava traição. Acompanhava de perto a vida dos que lhe rodeavam e gostava de recompensar a peso de ouro a lealdade. A mão ficava inversamente pesada diante da infidelidade. Acabou se afeiçoando ao seu costureiro exclusivo, como a um parente mais próximo que não lhe questionava as ordens e que, além de obedecê-lo, o fazia sem queixas, sempre com criações da mais alta qualidade. Ao tomar conhecimento de que o Sr. Cortez tinha um filho único já adolescente, procurou saber de que maneira poderia ajudá-lo.
Por motivos óbvios, era desejo do empregador que o jovem seguisse os passos do seu velho. Já este, por motivos mais óbvios ainda, lhe desejava outra coisa da vida. Nas poucas vezes que tiveram contato, desconversou, dizendo-lhe que também era seu maior desejo, mas o rapaz não levava o menor jeito para a coisa. Insistia em ser engenheiro e, portanto, achava melhor não frustrar os planos do garoto. Dom Alejandro silenciou e mudou de assunto.
A verdade, no entanto, era bem outra. Seu protegido desde cedo demonstrou não apenas interesse pelo ofício do pai, como um talento natural, além de raro. A convivência contribuiu para que nele se desenvolvesse o dom aliado à técnica apurada do genitor. Mas, diante das perspectivas de emprego no país e ciente da atemorizante possibilidade de herdar uma atividade singular como a dele, investiu seus ganhos na formação do futuro engenheiro. A contragosto, o pequeno Pablo obedecia ao pai, como lhe cumpria fazer.
Bem remunerado, pagou as melhores escolas até chegar a tão esperada data em que o mandaria para a universidade. Foi justamente naquele dia, às 10 da manhã, que cinco batidas breves na porta, acompanhada de um envelope sob a fresta, mais uma vez lhe trazia novo pedido. Era sempre um momento singular, pois temia que um nome conhecido e amigo lhe chegasse, pois que a ele cabia ser o anunciador informal e secreto de uma morte certa. Ao abrir a encomenda, empalideceu e perdeu a respiração. As letras, impressas em máquina datilográfica com tintas escuras e firmes sobre um papel alvíssimo, não deixavam margem para dúvidas:
Pablo Javier Henrique.
Calle Augusta, Barrio Córdoba.
12 horas.
Duas horas depois, seu filho chega mais alegre do que nunca. Apesar de não estar a caminho do curso dos sonhos, a mudança para a capital lhe abriria muitas oportunidades que uma cidade menor jamais ofereceria. Jovens gostam de desafios e ele era um deles. De tão animado, não percebeu a figura empalidecida e estacada na poltrona, olhar distante, com expressão moribunda. Nem parecia estar ali.
— Olá, meu pai! Que cara é essa? O trem só sai ao final da tarde. Deixe essa cara de tristeza pra depois! Vamos almoçar juntos pela última vez e não quero choro. Não era o que o senhor tanto queria?
Voltando a si, como quem retorna do mundo dos mortos, levantou-se subitamente do móvel de curvim marrom, numa reação quase mecânica.
— Claro, claro... Tem toda razão!
Não querendo encarar o próprio filho e a realidade por trás daqueles últimos momentos, foi para a mesa posta que ele nem viu que a empregada preparara. Enquanto o jovem soltava a língua, falando sem parar de planos e expectativas, ele ouvia em absoluto silêncio tentando não deixar transparecer o que se passava intimamente. Precisava manter a calma, a compostura. O que sempre fez, aliás. Com muito custo, terminou a refeição dizendo em voz baixa:
— Tudo vai dar certo, Pablito. Tudo vai dar certo...
Passados quinze dias, cinco a mais do que o tempo máximo que gastava para compor um novo traje, martelava-lhe o espírito a premência de dar a resposta de sempre: jogar um envelope por sobre a mureta de uma casa discreta a duas quadras da sua, sem nenhuma escrita por fora e, dentro, apenas uma amostra do tecido utilizado. No próprio invólucro lhe chegariam as notas de cem pesetas sempre novas como pagamento. Mas desta vez não o fizera. Optou por mandar o filho para Madri, mantendo o plano original.
Teria que ir se explicar pessoalmente ao seu empregador, o que não significava muita coisa. Poderia nem ser recebido. E, mesmo sendo, sua atitude seria interpretada como traição e ele bem sabia o significado prático dessa palavra. Com o passar dos dias, passou a temer pelo filho longe. Os braços de Dom Alejandro eram longos e poderiam alcançá-lo em qualquer lugar do país. Um pensamento que não o deixava dormir.
Naquela manhã, ignorando uma vez mais o desjejum, abatido e já delirante, começou a pensar em voz alta. “Tenho certeza de que ele está me testando... Só pode ser! Sim, claro, Deus fez o mesmo com Abraão, pedindo a vida de Isaque. Bom, entre Deus e Dom Alejandro existe uma diferença enorme, mas... Ambos têm poder para abusar, quer dizer, que Deus me perdoe, não quero dizer com isso que ela seja abusado, é que...”.
Seus delírios foram interrompidos por cinco toques estalados sobre a madeira na entrada da casa. Como num ritual, outro envelope é passado por baixo, com a discrição característica. Ele corre, se agacha, rasga de uma vez a borda lateral. Respira fundo. Retira o papel branco, onde se lê a sequencia de frases com a secura de sempre:
Carlos Suarez Ibaña.
Calle Rulfo di Aquino, Barrio Aguero.
17 horas.
Primeiro o nome, depois o endereço, por fim a hora da visita que haveria de fazer pontualmente, sem protelação. Não precisava perguntar qual data. Era sempre para o mesmo dia. Não havia necessidade de confirmação, porque era sabido que o dedicado ordenança não o exigiria.
Alívio! “Devia mesmo ser um teste!”, concluiu.
Nunca se dedicara tanto a uma peça como àquela. Da tomada das medidas ao corte, preparo e ultimação do conjunto, com esmero e rigor descarregou toda sua experiência nas pensas e bolsos, enquartando frentes, ilhargas e mangas. Caprichou nos acabamentos internos, acolchoando entretelas, lapelas e baixo de gola. Queria a perfeição, pois aquela poderia ser literalmente a última peça. Talvez para ambos: ele e o cliente. Como de costume, fazia tudo sozinho, inclusive o papel de passador. Quando finalizou, sentiu-se tremendamente feliz.
...
Passaram-se dois anos desde que recebera a última carta do filho, postada na agência dos correios da Universidade de Madri, bem próximo do tempo em que findaria o curso. Relia todos os dias, tamanha a saudade. Já não ansiava pelo diploma, mas por qualquer notícia do ser mais amado. Estaria ele bem? E, principalmente, vivo?
De todas as frases da longa carta, duas ficaram gravadas na memória: “Ainda farei com que tenha orgulho de mim”. Por quê? Ele já tinha tanto... Não precisava se preocupar com aquilo: seu filho agora já deveria ser um engenheiro! “Estou a caminho da realização de um antigo sonho, meu e seu.”. Que sonho seria? Por que nunca lhe contou? Um pai merece ouvir esse tipo de coisa, e os filhos têm o dever de compartilhar com quem os gerou o que vai no coração.
Lembrou-se então da mãe que Pablo não teve. Quando nasceu, ela ainda pode vê-lo pela última vez nos braços, antes de partir definitivamente. Não resistira ao parto. Ficou por sua conta fazer o papel de ambos e se culpava por não ter encontrado alguém com quem dividir a missão. Uma genitora teria sido importante na educação do seu Pablito, mas o ainda moçoilo Cortez Javier Henrique não conseguiu dividir seu amor com outra que não fosse sua preciosa Maria. Desde o momento da despedida, sonhava revê-la, onde quer que estivesse. O menino cresceu ouvindo isso.
Nova batida à porta. Estranho. “Carteiros não costumam chegar a essa hora.”, lembrou-se ele da única pessoa que lhe visitava, e ainda assim raramente, após a sesta.
Ao abrir, arregalou os olhos como quem vê um estranho. Seria ele mesmo? Claro que sim: era sua cópia fiel. Como o tempo passou! E ainda tinha o indisfarçável sorriso simpático e sincero de quem traz uma boa notícia, característico da família. Coração ansioso, gritou estendendo-lhe os braços:
— Filho! Meu filho!
De tão emocionado, o costureiro aposentado não percebeu que, com seu abraço forte, o já homem feito, deixara cair uma maleta de couro preto lustroso.
— Serei breve, meu pai. Permita que eu me apresente. Sou seu novo alfaiate!
Paulo Lima é redator publicitário desde 1988, caminhando para 26 anos de atividades ininterruptas. Contista por natureza, vocação ou sina, escreve desde mini contos a contos maiores. Nesse balaio, inclui algumas crônicas.
Bora descobrir as músicas mais escutadas pela equipe do Jornal Opção, nesta semana? É só dar play! Cassiane – 500 Graus Cazuza – Faz parte do meu show Chico Buarque e Nara Leão – Com açúcar, com afeto Clarice Falcão – Oitavo Andar Comeback Kid – Wake the Dead Disturbed – The Sound Of Silence Iron Maiden – The Trooper Janis Joplin – Mercedes Benz Paul Rodgers – Simple Man Sabotage – Um Bom Lugar Vintage “Bluegrass Barn Dance” – Blurred Lines (Robin Thicke Cover)
Matéria da semanal baseada em documentos da Ditadura Militar afirma que ex-deputado federal recebeu 500 milhões em propina da Odebrecht

