O Alfaiate

Reprodução/Tumblr

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Paulo Lima
Especial para o Jornal Opção

Como dizem os portugueses, visita é sempre uma coisa boa: ou quando chega, ou quando vai embora. A chegada daquele homem de terno impecável, sapato e maleta de couro preto lustroso, não cabia em nenhum dos casos.
Não havia um horário específico para realizar suas visitas rotineiras e obrigatórias, normalmente uma por mês ou bimestre, eventualmente uma a cada quinzena. Naquele dia ensolarado na cidade espanhola de Mérida, comunidade autônoma da Estremadura, ele bateu às quatro horas da tarde à porta de mais um cliente, que arregalou os olhos ao ver o estranho chegar com um sorriso simpático e sincero de quem traz uma boa notícia.
— Boa tarde. Permita que eu me apresente. Sou seu novo alfaiate!
Sua estranha rotina começara muitos anos antes, quando recebeu a incumbência de costurar um terno para um desconhecido. Sua primeira encomenda foi paga regiamente. A quantia, que lhe chegou adiantada em cédulas novas, zerou seis meses de dívidas acumuladas e ainda sobrou para o mês seguinte. “Dom Alejandro não deveria ser tão má pessoa assim.”, pensou.
Ficou demasiado surpreso quando soube do passamento repentino do favorecido, a quem chegou a se afeiçoar durante aquela semana, um dia após finalizar o que julgou ser sua melhor peça já produzida. E horrorizado ao saber que a morte fora deliberada pelo mesmo que a mandou fazer, cujas atividades criminosas eram sobejamente conhecidas na Espanha dos anos 1950.
Precisava interpelar Dom Alejandro sobre o ocorrido, mas teria que ser com jeito, pois não estava falando com qualquer um e tinha um filho para sustentar. Pediu audiência, receoso, mas foi atendido prontamente.
— Sei que o senhor é homem mui ocupado. Agradeço por me receber e me perdoe incomodá-lo com meu pedido de entrevista. É que tudo se sucedeu muito de repente e ainda estou confuso e assustado com os últimos acontecimentos…
— Entendo perfeitamente, Sr. Cortez. É um artista da costura que resolvi prestigiar, homem não plenamente acostumado ao grande mundo dos negócios.
Após breve pausa para uma baforada num charuto caro e cheiroso, seu interlocutor não demonstrava qualquer perturbação, o que o alfaiate julgou ser muito bom.
— Como sabe, não sou homem que gosta de dar explicações sobre o que faço ou deixe de fazer, mas lhe abrirei uma exceção. Serei direto e entenderá por quê.
Desta vez o costureiro permaneceu mudo, mais apavorado e ainda mais curioso do que nunca.
— Meus negócios são muito complexos e o senhor jamais entenderia como funcionam. Às vezes, tenho que tomar medidas extremas e não ouso hesitar. Isso certamente já devem ter-lhe contado. E é justamente aí que o senhor se encaixa.
A conversa começou a ganhar contornos mais temerosos.
— Desculpe. Receio não ter entendido…
— Quando alguém que decido não mais deva pertencer a este mundo, nem sempre sou movido por rancor ou vingança, como imagino que muitos pensam. Até porque existem outras maneiras de punir. Somente a necessidade absoluta me motiva, quando a medida é extrema. Em alguns casos, porém, procuro proceder de forma distinta, por respeito ao finado, à família e seu círculo de amigos. Para que entendam que o fiz porque era meu dever fazê-lo, e que o eleito teve de mim a maior consideração. Nesses casos, faço questão de que sejam velados e enterrados com impecável vestimenta. Se assim chegarão ao mundo de lá, não sei dizer. Mas me conforta patrocinar uma partida do mundo cá com toda a consideração que o momento inspira.
Sr. Cortez permanecia em silêncio. Seu comedimento se refletia até no piscar de olhos, lento e espaçado como sua respiração.
— Objetivamente, esta é a minha proposta: doravante, quero que seja meu alfaiate exclusivo. Atenderá a clientela que eu te mandar e nenhuma outra mais, por preço algum. Basta dizer sim e terá compromissos suficientes para se aposentar com abastança em poucos anos. Lembrando que o sigilo faz parte do contrato, que por isso mesmo é verbal. Tem a minha palavra e espero que ela lhe baste!
A forma direta com que Dom Alejandro lhe dirigiu a proposta o fez recostar-se na poltrona, como se seu corpo fosse jogado para trás por uma lufada repentina. Estava em visível estado de choque. Do outro lado da mesa, no entanto, seu colocutor permanecia impassível, com a atenção mais voltada para o isqueiro e o charuto. Tentando ganhar tempo, falou o que primeiro lhe veio à cabeça.
— Sinto-me honrado por haver apreciado meu trabalho, a ponto de me apresentar tão generosa oferta. Nem sei direito o que dizer…
— O sim é uma resposta — emendou o homem forte à sua frente.
— Mas, Dom Alejandro, essas pessoas…
— Não está em suas mãos! Terão o mesmo fim, passando ou não pelo seu corte primoroso. Cabe ao senhor dar o seu melhor para proporcionar-lhes um momento final de dignidade.
Não havia tempo a perder e os riscos eram muitos caso optasse por dizer não. Refletindo sobre aquelas palavras, o Sr. Cortez Javier Henrique aceitou o novo ofício, ciente de que seria o único alfaiate da província, talvez do país e do mundo, a ter um emprego tão incomum. Antes disso, Dom Alejandro aleijou qualquer tentativa de relutância por parte dele ao lhe prometer por cada trabalho um valor duas vezes maior do que havia pagado pelo primeiro serviço.
Aos poucos, o mestre-alfaiate buscou convencer-se de que, a despeito da estranheza da nova ocupação, havia nela certa honradez e alegria, além de grande responsabilidade. Procurava demonstrar isso a cada visita. Afinal, para o próximo da lista, mesmo diante do inevitável, pairava o atenuante de pertencer a um seleto grupo de pessoas que não seriam encontradas esquartejadas, com o corpo jogado em qualquer esquina e a boca cheia de formigas. Aos especiais era reservado um ritual diferenciado: uma única bala, no coração, em sinal de que havia sentimento no ato que culminaria no desfecho de sua existência.
Não era a rapidez que o diferenciava dos seus pares. Era a sensibilidade e o entendimento da profissão que abraçara desde pequeno por pura paixão. Muito além de transformar tecidos em roupas, aquele homem parecia entender a linguagem secreta do corpo humano, analisando-lhe os contornos e os movimentos, traduzindo seus desejos na forma num terno impecável, belo e único.
Focado, em não mais que uma semana dedicava todas as suas energias no que considerava sua prioridade absoluta. Tirava as medidas do cliente, riscando os moldes em seguida antes de cortar o tecido seguindo rigorosamente o traçado. Peças alinhavadas, bastava uma prova no corpo para efetuar ajustes e… Pronto! Concluía mais uma obra de arte, que reunia a personalidade do dono e o apurado senso estético do escultor.
Dom Alejandro tinha fama de afetuoso para com os seus amigos e principalmente a família. Talvez por isso mesmo era do tipo que odiava traição. Acompanhava de perto a vida dos que lhe rodeavam e gostava de recompensar a peso de ouro a lealdade. A mão ficava inversamente pesada diante da infidelidade. Acabou se afeiçoando ao seu costureiro exclusivo, como a um parente mais próximo que não lhe questionava as ordens e que, além de obedecê-lo, o fazia sem queixas, sempre com criações da mais alta qualidade. Ao tomar conhecimento de que o Sr. Cortez tinha um filho único já adolescente, procurou saber de que maneira poderia ajudá-lo.
Por motivos óbvios, era desejo do empregador que o jovem seguisse os passos do seu velho. Já este, por motivos mais óbvios ainda, lhe desejava outra coisa da vida. Nas poucas vezes que tiveram contato, desconversou, dizendo-lhe que também era seu maior desejo, mas o rapaz não levava o menor jeito para a coisa. Insistia em ser engenheiro e, portanto, achava melhor não frustrar os planos do garoto. Dom Alejandro silenciou e mudou de assunto.
A verdade, no entanto, era bem outra. Seu protegido desde cedo demonstrou não apenas interesse pelo ofício do pai, como um talento natural, além de raro. A convivência contribuiu para que nele se desenvolvesse o dom aliado à técnica apurada do genitor. Mas, diante das perspectivas de emprego no país e ciente da atemorizante possibilidade de herdar uma atividade singular como a dele, investiu seus ganhos na formação do futuro engenheiro. A contragosto, o pequeno Pablo obedecia ao pai, como lhe cumpria fazer.
Bem remunerado, pagou as melhores escolas até chegar a tão esperada data em que o mandaria para a universidade. Foi justamente naquele dia, às 10 da manhã, que cinco batidas breves na porta, acompanhada de um envelope sob a fresta, mais uma vez lhe trazia novo pedido. Era sempre um momento singular, pois temia que um nome conhecido e amigo lhe chegasse, pois que a ele cabia ser o anunciador informal e secreto de uma morte certa. Ao abrir a encomenda, empalideceu e perdeu a respiração. As letras, impressas em máquina datilográfica com tintas escuras e firmes sobre um papel alvíssimo, não deixavam margem para dúvidas:
Pablo Javier Henrique.
Calle Augusta, Barrio Córdoba.
12 horas.

Duas horas depois, seu filho chega mais alegre do que nunca. Apesar de não estar a caminho do curso dos sonhos, a mudança para a capital lhe abriria muitas oportunidades que uma cidade menor jamais ofereceria. Jovens gostam de desafios e ele era um deles. De tão animado, não percebeu a figura empalidecida e estacada na poltrona, olhar distante, com expressão moribunda. Nem parecia estar ali.
— Olá, meu pai! Que cara é essa? O trem só sai ao final da tarde. Deixe essa cara de tristeza pra depois! Vamos almoçar juntos pela última vez e não quero choro. Não era o que o senhor tanto queria?
Voltando a si, como quem retorna do mundo dos mortos, levantou-se subitamente do móvel de curvim marrom, numa reação quase mecânica.
— Claro, claro… Tem toda razão!
Não querendo encarar o próprio filho e a realidade por trás daqueles últimos momentos, foi para a mesa posta que ele nem viu que a empregada preparara. Enquanto o jovem soltava a língua, falando sem parar de planos e expectativas, ele ouvia em absoluto silêncio tentando não deixar transparecer o que se passava intimamente. Precisava manter a calma, a compostura. O que sempre fez, aliás. Com muito custo, terminou a refeição dizendo em voz baixa:
— Tudo vai dar certo, Pablito. Tudo vai dar certo…
Passados quinze dias, cinco a mais do que o tempo máximo que gastava para compor um novo traje, martelava-lhe o espírito a premência de dar a resposta de sempre: jogar um envelope por sobre a mureta de uma casa discreta a duas quadras da sua, sem nenhuma escrita por fora e, dentro, apenas uma amostra do tecido utilizado. No próprio invólucro lhe chegariam as notas de cem pesetas sempre novas como pagamento. Mas desta vez não o fizera. Optou por mandar o filho para Madri, mantendo o plano original.
Teria que ir se explicar pessoalmente ao seu empregador, o que não significava muita coisa. Poderia nem ser recebido. E, mesmo sendo, sua atitude seria interpretada como traição e ele bem sabia o significado prático dessa palavra. Com o passar dos dias, passou a temer pelo filho longe. Os braços de Dom Alejandro eram longos e poderiam alcançá-lo em qualquer lugar do país. Um pensamento que não o deixava dormir.
Naquela manhã, ignorando uma vez mais o desjejum, abatido e já delirante, começou a pensar em voz alta. “Tenho certeza de que ele está me testando… Só pode ser! Sim, claro, Deus fez o mesmo com Abraão, pedindo a vida de Isaque. Bom, entre Deus e Dom Alejandro existe uma diferença enorme, mas… Ambos têm poder para abusar, quer dizer, que Deus me perdoe, não quero dizer com isso que ela seja abusado, é que…”.
Seus delírios foram interrompidos por cinco toques estalados sobre a madeira na entrada da casa. Como num ritual, outro envelope é passado por baixo, com a discrição característica. Ele corre, se agacha, rasga de uma vez a borda lateral. Respira fundo. Retira o papel branco, onde se lê a sequencia de frases com a secura de sempre:
Carlos Suarez Ibaña.
Calle Rulfo di Aquino, Barrio Aguero.
17 horas.

Primeiro o nome, depois o endereço, por fim a hora da visita que haveria de fazer pontualmente, sem protelação. Não precisava perguntar qual data. Era sempre para o mesmo dia. Não havia necessidade de confirmação, porque era sabido que o dedicado ordenança não o exigiria.
Alívio! “Devia mesmo ser um teste!”, concluiu.
Nunca se dedicara tanto a uma peça como àquela. Da tomada das medidas ao corte, preparo e ultimação do conjunto, com esmero e rigor descarregou toda sua experiência nas pensas e bolsos, enquartando frentes, ilhargas e mangas. Caprichou nos acabamentos internos, acolchoando entretelas, lapelas e baixo de gola. Queria a perfeição, pois aquela poderia ser literalmente a última peça. Talvez para ambos: ele e o cliente. Como de costume, fazia tudo sozinho, inclusive o papel de passador. Quando finalizou, sentiu-se tremendamente feliz.

Passaram-se dois anos desde que recebera a última carta do filho, postada na agência dos correios da Universidade de Madri, bem próximo do tempo em que findaria o curso. Relia todos os dias, tamanha a saudade. Já não ansiava pelo diploma, mas por qualquer notícia do ser mais amado. Estaria ele bem? E, principalmente, vivo?
De todas as frases da longa carta, duas ficaram gravadas na memória: “Ainda farei com que tenha orgulho de mim”. Por quê? Ele já tinha tanto… Não precisava se preocupar com aquilo: seu filho agora já deveria ser um engenheiro! “Estou a caminho da realização de um antigo sonho, meu e seu.”. Que sonho seria? Por que nunca lhe contou? Um pai merece ouvir esse tipo de coisa, e os filhos têm o dever de compartilhar com quem os gerou o que vai no coração.
Lembrou-se então da mãe que Pablo não teve. Quando nasceu, ela ainda pode vê-lo pela última vez nos braços, antes de partir definitivamente. Não resistira ao parto. Ficou por sua conta fazer o papel de ambos e se culpava por não ter encontrado alguém com quem dividir a missão. Uma genitora teria sido importante na educação do seu Pablito, mas o ainda moçoilo Cortez Javier Henrique não conseguiu dividir seu amor com outra que não fosse sua preciosa Maria. Desde o momento da despedida, sonhava revê-la, onde quer que estivesse. O menino cresceu ouvindo isso.
Nova batida à porta. Estranho. “Carteiros não costumam chegar a essa hora.”, lembrou-se ele da única pessoa que lhe visitava, e ainda assim raramente, após a sesta.
Ao abrir, arregalou os olhos como quem vê um estranho. Seria ele mesmo? Claro que sim: era sua cópia fiel. Como o tempo passou! E ainda tinha o indisfarçável sorriso simpático e sincero de quem traz uma boa notícia, característico da família. Coração ansioso, gritou estendendo-lhe os braços:
— Filho! Meu filho!
De tão emocionado, o costureiro aposentado não percebeu que, com seu abraço forte, o já homem feito, deixara cair uma maleta de couro preto lustroso.
— Serei breve, meu pai. Permita que eu me apresente. Sou seu novo alfaiate!

Paulo Lima é redator publicitário desde 1988, caminhando para 26 anos de atividades ininterruptas. Contista por natureza, vocação ou sina, escreve desde mini contos a contos maiores. Nesse balaio, inclui algumas crônicas.

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