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Cinco candidatos e um debate morno, que só foi visto até o fim pelos viciados em política e os apoiadores mais intrépidos. Todos os indecisos já se tinham ido deitar
Frank Wan
Especial para o Jornal Opção
O primeiro grande debate entre os cinco candidatos à presidência da França aconteceu na segunda-feira, 20 de março. Em todo mundo se questiona, cada vez mais, o formato e o alcance destes debates. De momento, vai fazendo escola a nova moda americana dos candidatos em pé, das divisões dos tempos por temas e dos famosos um minuto e meio atribuídos a cada um dos candidatos no início e no fim. Se o debate foi fraco? Foi! Se esclareceu alguém? Talvez os debates sirvam mais para mostrar certas forças e fraquezas dos candidatos do seu discurso habitual do que para “esclarecer”.
Relembro aos leitores dois aspetos que conferem importância a estas eleições. Por um lado, são as primeiras “grandes” eleições num país europeu com peso pós a vitória de Donald Trump – qual é o grau do contágio do efeito populista Trump? Até onde pode ir a direita na Europa e no mundo? Por outro lado, do ponto de vista da história das eleições presidenciais francesas, esta situação é totalmente nova: nesta altura da campanha temos cinco candidatos “vivos”, isto é, qualquer um ainda com a possibilidade de obter o “ingresso” (“ticket” na gíria política francesa) para o segundo turno.
Curiosamente, vê-se entre os analistas que acompanham o processo eleitoral um grau de unanimidade de análise que nunca foi visto. Portanto, o fenômeno é novo, complexo e com consequências graves para a história da Europa, mas é simples de acompanhar, talvez porque as figuras em jogo estejam politicamente bastante delineadas. “Vencedores” não houve e vencidos também não e, apesar de tépido, o debate foi digno.
François Fillon
Começo sempre por ele porque é figura central de todo este processo. Não fosse o “Processo Penelope” (processo judicial em que a mulher de François Fillon, Penelope Fillon, é acusada de receber dinheiro indevido fruto de trabalhos fictícios), estas eleições seriam um passeio simples para ele. Isso foi visto no debate: se Fillon estivesse à frente dos outros candidatos nas intenções de voto, não tivesse envolvido em processos judiciais e concomitante assassinato de personalidade, teria saído, calmamente, vencedor deste debate.
Muitas vezes, o debate pareceu uma aula de bom senso e técnica de governança: os quatro garotos gritavam e propunham irrealidades num tom, por vezes, colorido e François Fillon, com aquele ar de professor idôneo, num tom de voz de médico a acalmar os doentes, ia, tranquilamente, explicando às crianças, quer as de esquerda, quer as de direita que se tinham enganado no nome do imposto, que não eram aquelas as divisões administrativas ou que, somando tudo o que já tinham proposto no debate, nem o orçamento da França, Alemanha e EUA somados davam para pagar tanta irrealidade.
Num dado momento, faz mesmo o impensável: confessa que uma medida que tomou enquanto primeiro-ministro, as famosas “Casas de Saúde” (não entro em detalhes), foram um fracasso que ele não esperava. Explicou que queria aproximar os doentes dos seus familiares e que, financeiramente, a medida tem se revelado mesmo má – ainda concordo com ele que, se lhes for dada autonomia, é uma ideia excelente; a França, tal como o Brasil, é um país enorme e é uma dor terrível estar gravemente doente e ser tratado muito longe dos seus familiares.
O debate foi sempre evoluindo com um Fillon técnico, realista e inquestionável. Surpreendentemente, ou não, os adversários não trouxeram a palco os processos em que está envolvido. Falar dos processos é dar a Fillon o protagonismo e as máquinas dos candidatos não caíram nessa armadilha televisiva. Os jornalistas que conduziam o debate, manifestamente incompetentes, ignorantes e despreparados para estes pesos pesados da política mundial, só se excitavam com o eixo político-tribunal-escândalo-corrupção.
Definitivamente, Fillon, quando se trata de discurso político, debate e governança realista é o homem mais competente que a França tem ainda na corrida.
Marine Le Pen
É preciso não esquecer que esta mulher nasceu já acompanhando o pai em comícios, reuniões, discursos, debates, etc., e que está “nesta vida” de televisões, debates e candidaturas há muitos anos: esta mulher é uma raposa velha. Inteligente, rápida, altamente bem preparada, tem perfeita noção da linguagem de televisão, possui oratória acirrada e frases montadas umas atrás das outras. É impossível apanhá-la em qualquer hesitação. Marine Le Pen, gostem ou não dela, não perde um debate seja com quem for.
Fraqueza? Tem, tal como os comunistas, e todos os extremistas, uma espécie de playlist argumentativa e limita-se a correr os MP3 de forma célere. Podia ser substituída por um papagaio que ninguém perceberia a diferença.
Contrasta com todos os outros candidatos por propor um referendo sobre a saída do Euro – se a proposta de Marine Le Pen é extremista, a ausência de ideias dos outros candidatos sobre a posição da França na Europa também não ajuda a impedir que qualquer ideia absurda faça caminho. Num determinado momento aparece o tema “relação com a Rússia” e voltam-se a desenhar estranhas linhas de divisões entre os candidatos, daquelas que colocam extremistas de esquerda e direita do mesmo lado da barricada.
Destaco, já no fim, a propósito de uma crítica que Marine faz a Emmanuel Macron, as famosas “pantufas”, alusão a “fulanos” (Macron, evidentemente) que começaram por ser acadêmicos formados na academia francesa e acabaram a trabalhar para a Alta Finança (Rotschild) e agora querem ser presidentes. Há um carinho particular deste ataque truculento: Marine tinha a lição estudada e Macron, que estava alerta, salta ferozmente na defesa, como quase não se tinha visto – é o momento em que os analistas ouvem já o som da engrenagem das máquinas dos candidatos a se preparar para a segundo turno; foi, claramente, o primeiro ensaio de diversos frente a frente. É, de fato, provável termos estes dois no segundo turno.
Jean-Luc Mélenchon
Pareceu sempre o candidato que estava mais à vontade naquele formato: movia-se dentro da sua bancada, fazia um misto de discurso e resposta, provocava, respondia aos candidatos, dirigia os temas, fazia acusações, falava para o público no estúdio e se dirigia às câmeras. Quando vem a lume os processos judiciais tem uma expressão interessante: “quem tem processos é ele e ela (aponta para Fillon e Le Pen), não nos metam todos no mesmo saco” - de alguma forma, dando já o tom de alguma união ao centro-esquerda que, tarde ou cedo, se dará.
Mélenchon subiu dez pontos nas intenções de voto, tem a máquina de 2012 toda montada, aprendeu os truques todos, sabe que a campanha tem diversos momentos. Consegue ir animando o debate, sem nunca sair de certa linha, não cai na tentação do extremismo, vai apenas fazendo propostas que o demarcam dos outros candidatos, insiste na velha tecla da quinta república exaurida e da convocação de uma assembleia constituinte para uma sexta república. Trai sempre os sentimentos profundos da esquerda radical: odeia tanto a direita extrema, como a esquerda moderada. Faz coro com os outros três candidatos na denúncia da vacuidade, artificialidade e marquetismo de Emmanuel Macron. Todos odeiam Macron, para o bem e para o mal, ele é o único que não resulta diretamente dos partidos políticos.
Benoît Hamon
Sendo o mais “lutador” de todos os candidatos e tendo muitas contas a ajustar com muita gente, dentro e fora de seu partido, afundou-se de forma espantosa. Fica a dúvida se se resguardou, se é por cálculo ou por outro motivo. Pessoalmente, penso que acusa algum cansaço físico: é o menos experiente deste ritmo de altíssima rotação, começou demasiado forte no início da campanha, tinha todas as esperanças e tem somado dissabores. Por exemplo, o dissabor da deselegância de Manuel Valls não o ter apoiado – Valls perdeu as primárias dentro do partido, é ético o candidato do partido apoiar o vencedor depois na campanha eleitoral e Valls é uma figura que tem muito peso político. De alguma forma, como se diz, o sistema político devorou os grandes candidatos: Manuel Valls, Nicolas Sarkozy e François Hollande.
Ser candidato do partido socialista, ter como missão unir a família socialista, ganhar as eleições e “salvar” a França é um peso difícil de suportar, mas Hamon, como muitas vezes na política, pode perder e sair vencedor; esta derrota pode ser o adubo de um futuro político brilhante.
A máquina de imagem ainda não o poliu: ainda tem uns laivos de fulano que discute política na lanchonete e de partidário cego que vai quase até à fronteira da agressão. No meio dos candidatos de peso, claramente, não se destaca. Assim que saiu do estúdio, a máquina (moda mundial também) tinha preparado um teatro de recepção apoteótica no exterior, como se o herói gigante tivesse ganho uma batalha e aí, imediatamente, apareceu logo mais à vontade.
Emmanuel Macron
É puro plástico. É filho do marketing, dos grupos econômicos, da sociologia, das equipes de publicidade, da psicologia de massas, dos estudos de mercado. Manteve-se igual no figurino que a mega-equipe lhe prepara sempre: quando fala, mantém o punho esquerdo cerrado (imagem de marketing com o símbolo: estou determinado) e aponta sempre o dedo da mão direita (imagem de marketing: sei em que direção vou levar vocês), quando se cala, sorri imediatamente dando a imagem do super simpático.
Na imprensa, todos os dias há tsunamis de informações sobre Macron. Parece saído de um conto de fadas: a mulher é linda, a casa dele faz inveja às casas das telenovelas, o cachorro é fofo e ele é um deus que nos veio iluminar. Foi o último professor assistente do grande filósofo Paul Ricouer, mas agora trabalha para o banco Rothschild e tem toda uma série de trabalhos acadêmicos dedicados a Maquiavel.
Le Pen, num dado momento, diz que, ao ouvi-lo durante sete minutos, não consegue reter uma única ideia e isso é totalmente verdade: Macron tem um discurso redondo, tudo vai em direção ao futuro, à esperança, à união da França, enfim, tudo coisas que, traduzido em francês, não significam nada. Começou por ser um candidato que, no início da campanha, não era nem de esquerda, nem de direita, agora, nesta fase, passou a ser de esquerda e de direita!
Tenho a certeza que, no fim do debate, só estavam ainda acordados e entusiasmados nós, os viciados em política, e os apoiadores mais intrépidos. Todos os indecisos já se tinham ido deitar.
Frank Wan vive em Portugal. É ensaista, poeta, tradutor e professor
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Macbeth é uma criança em guerra. Uma imaginação trágica que absorve como imã gigantesco todo o seu ato monstruoso, e o interpreta monstruosamente diante do mundo inteiro
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Orson Welles e Jeanette Nolan como Macbeth e Lady Macbeth, em cena do filme "Macbeth", de 1948, dirigido pelo próprio Welles[/caption]
It is the eye of childhood that fears a painted devil.
– Macbeth, II.ii 52-53
Fernando Simões
Especial para o Jornal Opção
Quando eu estava no ensino fundamental e a defesa de algum colega fraquinho era sempre ocasião de arrumar mais uma briga, minha reação era a da mais pura felicidade. Os fracos eu os defendia sempre. Sem exceção. Houvesse um fracozito de sapatos sujos e alguém que lhes apontasse a sujeira, lá ia eu, feliz da vida, protestar com socos e pontapés aquela observação pouco gentil, pouco precisa, quase sempre insincera, que eu reputava ao malfeitor. O mundo infantil é essa repetição dolorida de uma inconsciência que se prolonga, que se quer pura, que a si reivindica, pelas caras angelicais, imberbes, e pela ignorância, o perdão generalizado do mundo adulto. Pelo menos era assim que eu fazia na sala da diretora: tinha socado o colega, minha mão doía, mas eu era puro, não vê, dona Maria Isabel, nos meus olhos?, como em mim tudo é pureza e boa vontade? Com vergonha, sem dúvidas, mas certo do perdão ligeiro, do perdão quase imediato.
Depois crescemos. A diretora não acredita mais nas nossas boas intenções. Insiste em nos lembrar, naquela sua voz grave, naquela sua voz rouca, naquela sua voz gorda de mulher solteira, que há consequências. “Você não pode”, querendo dizer que eu não posso mais socar os colegas assim tão impunemente. Se dona Olga, a diretora do ensino médio, tivesse alguma cultura, talvez me dissesse para parar com esses trejeitos esquisitos de Dom Quixote. Dona Olga era loira, filha de poloneses, cultivava um bigodinho claro que me chamava mais atenção do que aquelas palavras que ela me dizia.
Adultos. Emprego, uniforme, etc. Macbeth tinha o seu: o militarizado, e portava lá a sua espada, a sua brandished steel, com que rasgava os inimigos do umbigo até a altura das costelas. Foi assim na guerra, que venceu, ao lado de Banquo. Macbeth já deveria ter aí os seus 35-40 anos, e portanto já havia internalizado boa parte dos mandamentos das diretoras, e mais aqueles outros do pecado, e mais ainda aqueles outros instituídos pela boa burocracia da sua época. Conhecia o crime. Conhecia a maçã. O homem era corajoso. E também era sabido dessas coisas todas.
Mas lhe vêm as bruxas. Que destino formidável e oblíquo, o seu. Com conjurações em rimas parelhas – aquelas próprias às criancinhas - as bruxas vão empurrando ao coração de Macbeth mistérios e mistérios que lhe torcem e retorcem e dele fazem pingar as gotas fúnebres da decisão assassina.
if the assassination
Could trammel up the consequence, and catch
With his surcease success. (I.vii 2-4)
(Se o golpe detivesse em suas redes
Todas as consequências, e lograsse
Triunfar com a morte dele.)
É a primeiro raciocínio de Macbeth, no começo da sétima cena do primeiro ato. Duncan, o Rei, deve ser morto para que Macbeth cumpra a profecia das bruxas. Esses três pequenos versos nos mostram a natureza infantil escondida do homem adulto que pretende agir livremente como as crianças. Do homem adulto que pretende agir livremente como as crianças. Não há diretora que lhe perdoe a má ação.
Durante a compunção, após o crime, Macbeth ele próprio vai se fazendo o papel do adulto que mostra à criança o conteúdo moral da maldade praticada. Macbeth enobrece, agiganta-se, se vê num alto de rochedo prestes a pular no infindável e negro mar de uma noite densa.
Aqui, abro parênteses, entro no assunto chato. Eu não queria, com medo de entediar o leitor. Mas concedo. Transijo. Dos críticos, há os bons (Bloom, Wilson Knight, Nuttall), há os do meio (Garber, Mack), e há o melhor, na minha opinião, e é dele que vou falar agora.
Harold Goddard. “The Meaning of Shakespeare” é o único livro em que Goddard discute todas as peças de William Shakespeare. E o melhor, nele, é seu ensaio sobre Macbeth. Goddard é pouco aclamado. Pouco aplaudido. Bloom o elogia de pé, bate palmas e o homenageia em público, mas é voz isolada numa multidão quase infinita de direções editoriais. De resto, nada. A Riverside Shakespeare o cita na bibliografia. Mas a New Cambridge, não. Vejam o seguinte, uma questão chatinha do mercado editorial: o Macbeth da New Cambridge é, hoje, a melhor edição disponível. Braunmuller, o editor, é gigante. E, no entanto, lá no fim, na lista bibliográfica, não há nada sobre o livro do Goddard.
Mas é Goddard quem sai de cima do muro e resolve a questão. Não dá tapas, não dá chutes no joelho. Não há jogos linguísticos, interpretações sobre a questão do tempo, das sucessões, etc. Macbeth é sobre o eclipse da civilidade e da masculinidade, é sobre o triunfo temporário do mal. É o que nos diz Frank Kermode no seu prefácio à edição da Riverside Shakespeare. E é assim que Harold nos vai devolvendo a peça à consciência, em quadros vermelhos e de espessura noturna. A escuridão que antecede a aurora. Há apenas um problema para Goddard: qual é a qualidade trágica de Macbeth, e o que ele nos diz de si próprio se comparado à sua esposa?
A questão do mal. Da culpa. Da compunção e do arrependimento. Goddard é o fundamento da crítica do ponto de vista metafísico. Macbeth é personagem de imaginação trágica, desenvolvida. Diferentemente da esposa, vê no seu ato assassino uma monstruosidade quase metafísica. Diante do crime sanguinolento em que Duncan é apunhalado enquanto dorme, a reação de Lady Macbeth é simplória, prática, costumeira:
LADY MACBETH: A little water clears us of this deed:
How easy is it, then! (II.ii 66-67)
(Um pouco d’água limpa-nos
Deste ato: como é simples!)
Em contraposição, a reação de Macbeth só é possível em uma imaginação que abrange toda a terra, sim, mas também todo o paraíso e todo o inferno:
MACBETH: What hands are here? ha! they pluck out mine eyes.
Will all great Neptune's ocean wash this blood
Clean from my hand? No, this my hand will rather
The multitudinous seas in incarnadine,
Making the green one red. (II.ii 58-62)
(MACBETH: Que mãos são estas?
Oh, elas horrorizam-me! Me arrancam
Os olhos! Lavaria o grande oceano
De Netuno esta mão ensanguentada?
Não! Esta minha mão é que faria
Vermelho o verde mal de polo a polo!)
Goddard nos assola. É uma transcendência. Wilson Knight havia, décadas antes, no seu “The Wheel of Fire”, nos mostrado todos os detalhes da maldade. Um metafísico, sem dúvidas. Mas é Goddard quem nos revela os mecanismos psicológicos do apelo sedutor que tem o mal em nossas vidas. Macbeth, que a princípio nos parece analítico, dialético, um tipo que vai organizando pontos contrastantes um em frente ao outro para chegar a uma conclusão, como fazem as crianças diante de um jogo, depois se mostra grandioso na sua culpa. Tem medo. Sua mão, tão pequena, pode encarnar com a cor do sangue o verde vasto e infinito do oceano. Que imaginação! Que diferença com a pouca água da pia da cozinha a que reclama como suficiente a sua esposa!
Macbeth é uma criança. Eu digo. As rimas emparelhadas das bruxas, os versos livres de Macbeth, ainda que isso esteja na tradição poética de todas as épocas. Feitiço é sempre feito em rimazinhas. Um leitor desatento talvez julgasse que esse recurso das rhymed couplets (i'll drain him dry as hay / sleep shall neither night nor day, etc) fosse utilizado por Shakespeare apenas de modo inconsciente, ou, no máximo, para chamar atenção da plateia, como parte contrastante aos versos brancos, sem rima. Mas não. O discurso de Macbeth (nothing is but what is not) absorve o sickening see-saw rhythm das bruxas. Ritmo de gangorra. São versinhos próprios às crianças, usados nas escolas para facilitar a memorização.
(Sobre a relação entre rima e sangue e feitiço e sangue, deixo aqui uma nota de Arden Shakespeare 2 sobre esse assunto: Dowden comments on this parallel that Shakespeare intimated by it 'that, upon these hags, the connection is already established between his soul and them. Their spells have already wrought upon his blood.)
Macbeth foi vítima porque foi criança. E foi criança porque teve imaginação. Antes do crime, depois de pensar um pouco, Macbeth desiste de matar Duncan, mas sua esposa, num gesto, põe em dúvida a sua masculinidade, e diz, pontualmente, de forma dilacerante para um homem, que não se pode voltar atrás com uma promessa:
How tender 'tis to love the babe that milks me:
I would, while it was smiling in my face,
Have pluck'd my nipple from his boneless gums,
And dash'd the brains out, had I so sworn as you
Have done to this. (I.vii 55-58)
(Bem conheço
As Delícias de amar um terno filho
Que se amamenta: embora! Eu lhe arrancara
Às gengivas sem dente, ainda quando
Vendo-o sorrir-se para mim, o bico
De meu seio, e faria sem piedade
Saltarem-lhe os miolos, se tivesse
Jurado assim fazer, como juraste
Cumprir esta empreitada.)
Macbeth é uma criança em guerra. Uma imaginação trágica que absorve como imã gigantesco todo o seu ato monstruoso, e o interpreta monstruosamente diante do mundo inteiro. É uma escolha que lembra a reação de Hamlet após a conversa com o fantasma:
O all you host of heaven! O earth! what else?
And shall I couple hell? O, fie! Hold, hold, my heart. (I.v 92-93)
Dois exemplos.
Lady Macbeth, à espera do marido que a esta altura está cometendo o crime, conjectura as possíveis falhas, deseja o sucesso, rechaça a tentativa frustrada. Macbeth, que está num plano mais alto do palco, onde ficam os quartos dos hóspedes, vai descendo, e à mulher explica o que houve:
MACBETH: One cried, “God bless us!”, and “Amen” the other,
As they had seen me with these hangman’s hands.
List’ning their fear, I could not say “Amen”
When they did say, “God bless us!”
LADY MACBETH: Consider it not so deeply.
MACBETH: But wherefore could not I pronounce “Amen”?
I had most need of blessing, and “Amen”
Stuck in my throat. (II.ii 26-32)
(MACBETH: Um deles gritou: “Valha-nos
Deus!” E o outro: “Amém!”, como se houvessem visto
Estas mãos de carrasco. E eu, a ouvir-lhes
O medo, não podia repetir
“Amém” quando disseram: “Deus nos valha!”.
LADY MACBETH: Não o leves tanto a sério
MACBETH: Que motivos
Me impediu de proferir “Amém”, se tanto
Me era graça divina necessária?
O “Amém” colou-se-me à garganta)
Macbeth está ali com as adagas sujas de sangue. As mãos sujas de sangue. E se perturba com o “Amém” que não pôde dizer! É um maravilhamento que parece lhe cair dos céus como um presente divino. Não é cogitação verdadeira que acometesse a um assassino, é perturbação interior de alguém que se vê espantado diante de um mistério. Macbeth, a criança assassina, procurando por trás da porta o verdadeiro significado metafísico da sua ação. Qualquer sombra lhe assalta. Qualquer ruído lhe é inimigo. O inferno do crime é o espelho onipresente em que se reflete seu coração.
Logo após, batem à porta. Macbeth diz:
Whence is that knocking?
How is’t with me, when every noise appalls me?
What hands are here? (II.ii 57-59)
(Quem será que bate?
O que há comigo, que qualquer ruído
Me sobressalta assim?)
Lady Macbeth, sabendo do crime, responde às batidas de outras forma:
I hear a knocking
At the South entry. (II.ii 64-65)
(Estão batendo à porta
Do lado sul.)
Macduff e Lennox estão batendo à porta. As batidas ressoam em mundos diferentes.
Crianças não têm memória, por isso esta lagartixa no jardim, que tenta se esconder atrás da luz fixada à parede, pode ser um dragão, pode ser um jacaré, pode ser o monstro que lhes devorará os sonhos ou o filhinho da fada que lhes visita à noite. Tudo é dúvida. Só existem perguntas. As breves certezas, quando surgem, são logo desviadas pelos córregos adjacentes, cheios de mato, galhos de árvore e peixes esquisitos, hostis; dentro de pouco, pelo assombro, as certezas voltam a ser dúvidas. Cada objeto irradia uma perspectiva que se alarga e se torna nova. Nada é o que é. O que não é, na verdade, é mais do que aquilo que é, porque a literalidade e os sentidos são apenas portas para um mundo independente cujo soberano é a Imaginação.
NOTA: As traduções dos trechos de “Macbeth” são de Manuel Bandeira (São Paulo: COSACNAIFY, 2009).
Fernando Simões é ensaísta e cursa Direito na Faculdade Dom Bosco.

