Por Carlos César Higa

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O encontro dos Beatles com Elvis Presley

Tem certas coisas na história que a gente fica pensando: “Por que ninguém registrou isso?” Tudo bem que tem eventos históricos que, por motivos óbvios, não se pode registrar com som e imagem. Mas no século passado, a era da tecnologia, não tem como não questionar o motivo de não se gravar um encontro, uma apresentação artística. Na década de 1980, os poetas Carlos Drummond de Andrade e Cora Coralina se tornaram amigos, trocaram cartas. Como é que ninguém pensou em fazer um encontro entre os dois? Sei lá, não custava nada propor aos poetas. Vai ver a justificativa para não terem se encontrado seja a idade avançada para os dois. Mas será que ninguém pensou nisso? Ninguém da Globo? O encontro de Drummond e Cora daria um excelente e histórico “Globo Repórter”. Ainda bem que Jackson Abrão fez a reportagem com Pedro Ludovico e Venerando de Freitas Borges andando pelas ruas de Goiânia em 1978. É um registro para a posteridade.

Eu sempre penso nisso quando me lembro que os Beatles e Elvis Presley se encontraram durante a segunda turnê da banda pelos Estados Unidos. Como é que Brian Epstein, empresário dos Beatles, e Tom Parker, empresário de Elvis, não pensaram nisso? Por não ter sido registrado, tem gente que acha que esse encontro não aconteceu. Mas aconteceu sim! Foi no dia 27 de agosto de 1965, na casa que Elvis tinha em Los Angeles. Eu imagino a empolgação de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star ao se encontrar com o ídolo. Eu imagino Elvis curioso ao receber aqueles quatro garotos que conquistaram a América. Imagino também os cinco cantando seus sucessos, contando causos, tomando uma cerveja. Ah, se esse encontro tivesse sido registrado! Elvis cantando “I want to hold your hand”. Os Beatles cantando “Heartbreak Hotel”.

Na noite daquele dia tão histórico, o portão da casa do Elvis se abriu para que a limusine que trazia os Beatles pudesse entrar. Eles se cumprimentaram e entraram na casa. Quem testemunhou esse encontro diz que os cinco conversaram sobre música e até tocaram umas músicas. Tudo durou três horas. Tem uma foto que mostra os Beatles saindo da casa e Elvis do lado de fora. A foto é tão imprevisível que foi preciso colocar umas setas para mostrar quem era quem. No dia seguinte ao encontro, John Lennon disse para um assessor enviar uma mensagem a Elvis: ““Não tive coragem de falar a ele, mas você vê essas costeletas? Eu quase fui expulso da escola por tentar parecer com ele. Diga a Elvis que se não fosse por ele, eu não estaria aqui.”

Digamos que o encontro não foi registrado porque se queria algo intimista, só entre Elvis Presley e Beatles. Pode-se dizer também que um encontro público poderia ser um caos para a polícia por causa da segurança. É compreensível, mas não responde a pergunta: Por que raios ninguém filmou ou gravou o encontro entre Beatles e Elvis Presley. Tem certos encontros que a tecnologia não consegue alcançar e esse encontro de agosto de 1965 é um deles. Benditos os olhos que viram e benditos os ouvidos que ouviram.

PERISCÓPIO
Brian Epstein profissionalizou os Beatles e os levou ao topo do mundo

Brian Epstein trabalhava na loja de discos e instrumentos musicais da família. Em 1961, um rapaz apareceu na loja perguntando se ali vendia o compacto "My Bonnie" de uma banda chamada Beatles. Brian não conhecia a banda e ficou curioso para saber quem era. O Cavern Club, pub onde os Beatles tocavam, ficava perto da loja e Brian foi lá ver quem eram esses meninos. Ao ve-los tocar, ele ficou impressionado e pediu para ser apresentado a banda. Brian se propôs a ser o empresário daquela que, em pouco tempo, seria a melhor banda do planeta.

A parceria com Brian Epstein foi fundamental para os Beatles criarem uma identidade. Ele deu um trato na aparêcia dos seus meninos e no seu comportamento no palco. As jaquetas de couro do tempo do Cavern daria lugar aos ternos e gravatas. Os cabelos cheios sim, mas no formato de cuia. Nada de beber, fumar e falar palavrões durante os shows. Ah, e nada de falar sobre política! Podemos dizer que Brian profissionalizou os Beatles.

Em 1962, ele agendou um teste na gravadora Decca. Os diretores ouviram as músicas, elogiaram a performance, mas não deu certo. Um dos diretores bateu nos ombros de Brian Epstein e disse que aquele negócio de rock'n roll estava com os dias contados. Ainda bem que Brian não ouviu isso e logo conseguiu uma audiência com a EMI. O produtor George Martin ouviu, gostou e aprovou a banda. Pronto! Martin cuidaria dos Beatles nos estúdios enquanto Brian lotava a agenda da banda com shows e turnês.

Os Beatles já eram sucesso na Europa, mas o objetivo de Brian era os Estados Unidos. Com uma campanha publicitária bem feita, os americanos ficaram curiosos para ouvir de perto aquele tal de "yeah-yeah-yeah". Em 1964, os Beatles desembarcaram na terra do Tio Sam. Foi um estrondo. Até Ed Sullivan teve que se render aos garotos de Liverpool. A rotina dos Beatles era puxada. Nos próximos dois anos foi assim. Até que, em 1966, os Beatles já não aguentavam mais. O que faltava? Brian os levou até o Japão! A questão é que eles não se ouviam no palco por causa da gritaria. E o LSD já tinha aberto a mente para novas experiências.

Ainda em 1966 os Beatles pararam com os shows e as turnês. O que seria feito do Brian Epstein sem agendar shows, organizar turnês e preparar a divulgação da banda? A Beatlemania começava a ser coisa do passado. Durante as gravações do Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band, Brian apareceu no estúdio para vê-los, mas aquele ambiente não era o seu. Cada vez mais depressivo e cada dia mais usando drogas, Brian Epstein estava isolado. Enquanto os Beatles viajaram para a Índia conhecer mais sobre a música transcendental, ele foi encontrado morto em sua casa no dia 27 de agosto de 1967. Brian sofreu uma overdose.

Os Beatles voltaram imediatamente para a Inglaterra participar dos funerais. Era o fim do primeiro capítulo da história da banda. Sem Brian Epstein, os Beatles perderam aquele laço que os unia como banda. Com Brian Epstein, os Beatles se profissionalizaram, ganharam o topo do mundo e se tornaram conhecidos em todas as lojas de disco e instrumentos musicais.

PERISCÓPIO
O curto papado de João Paulo I, o “Papa Sorriso”

Ano de 1978 foi atípico para a Igreja Católica

Periscópio
Os 70 anos da morte de Getúlio Vargas

Na noite do dia 23 de agosto de 1954, Getúlio Vargas se reuniu com seus ministros no Palácio do Catete e anunciou que, no dia seguinte, pediria licença da Presidência da República. A situação estava incontrolável. A oposição falando a todo momento que o governo virou um "mar de lama". O vice presidente Café Filho propondo que ele e Getúlio renunciassem aos cargos para pacificar o país. Os quartéis a postos esperando as ordens para agir.

Benjamin Vargas informou ao seu irmão Getúlio que fora convocado para prestar depoimento no inquérito da Aeronautica sobre o atentado na rua Tonelero. Inquérito este tão poderoso que foi chamado de "República do Galeão". Já era madrugada do dia 24 quando Vargas entrou em seu quarto, vestiu o pijama e deitou em sua cama. Por volta das 8:30 escutou-se um tiro. Getúlio Dorneles Vargas atirou contra o próprio peito. Era o fim de uma era no Brasil.

A oposição comemorava o afastamento de Vargas. Não por muito tempo. Carlos Lacerda conta em seu "Depoimento", que lideranças da oposição estavam na casa de José Nabuco tomando champanhe quando o suicídio foi noticiado. Ninguém esperava aquele gesto extremo. Lacerda recordou 23 anos depois o sentimento de pena da tragédia humana, da agonia de chegar a tal situação.

Quando sua carta testamento foi lida no rádio, o povo foi às ruas e depredou o "Tribuna da Imprensa" de Lacerda, quebrou carros do jornal "O Globo", ou seja, tudo que estava na trincheira contra o governo. Mais uma vez Samuel Wainer fez valer o apelido de "Profeta". O "Última Hora" trouxe na capa: "Ele cumpriu a palavra", recordando a edição anterior quando Vargas disse que só sairia do Catete morto. Vargas virava o jogo. O tiro no Palácio do Catete abafou os tiros da Rua Tonelero.

Getúlio Vargas colocou o Brasil no século XX. Deixamos de ser um país rural para se tornar urbano. A indústria cresceu. O operário tem carteira de trabalho, férias, descanso remunerado. Apesar do seu lado autoritário, a Era Vargas mudou o Brasil. De fato, ele saiu da vida e entrou para a História.

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PERISCÓPIO
O marechal Deodoro da Fonseca e as crises da República da Espada

O movimento republicano foi vitorioso no dia 15 de novembro de 1889, quando os militares do Exército se reuniram no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, para depor Dom Pedro II do seu trono e dar início à República no Brasil. A Monarquia se foi dando início a um novo tempo em nosso país, mas não demorou para que a esperança republicana se transformasse em uma saudade monárquica. O Marechal Deodoro do Fonseca retratado todo formoso nos quadros e painéis pós 1889 teve sua imagem borrada quando assumiu a Presidência da República. Ele foi o primeiro a assumir o poder, o primeiro a renunciar ao cargo. A República, que chegou luminosa enquanto o Império dava seu último baile na Ilha Fiscal, foi apagando sua luz a cada medida do Marechal. Tinha gente que o chamava de ditador, ou "dictador", como se escrevia na época.

Deodoro separou estado e religião, implantou os símbolos republicanos, chamou Rui Barbosa para dar um jeito na economia, convocou uma Constituinte para fazer a primeira Constituição republicana da História brasileira. Porém, ele queria mais poderes para consolidar a República. Dom Pedro II já estava em Paris e mesmo assim havia temor dos monarquistas brigarem com os republicanos e voltarem ao poder. Até a Armada resolveu entrar na briga quando viu que tinha muito Exército no governo.

O Executivo em atrito com o Legislativo. Deodoro mandou fechar o Congresso, prendeu opositores, censurou a imprensa. Não é atoa que os primeiros anos do novo regime é chamado de República da Espada. O corte feriu apoiadores do 15 de novembro e saudosos dos tempos imperiais. Quando a Armada se rebelou em 1891, Deodoro optou pela renúncia. Percebe-se que as forças terríveis já rondavam a República brasileira.

O marechal morreu em 23 de agosto de 1892. Ele pediu para ser enterrado com trajes civis, mas recebeu honras militares. Estava aberta a República brasileira com suas brigas, desilusões, arrependimentos. De 1889 até hoje, passamos por grandes transformações, mas mantemos os barracos entre os poderes vizinhos, as tentativas de golpe.

PERISCÓPIO
O povo chorou a morte do presidente Juscelino Kubitschek, que governou o Brasil com alegria

"O acidente em que morreu o presidente Juscelino repõe a verdade perante a nação. Pois recorda, brutalmente, que no Brasil, Juscelino foi a prova de que a democracia, tanto quanto necessária, é possível. Seus erros não foram maiores do que os praticados pelos que renegaram seus compromissos com a democracia. Seus acertos, sim, foram muito maiores. Na desgraça, ele cresceu. E na própria morte, deixou uma lição, a de que é impossível isso sim, substituir líderes autênticos por praticantes da arte de adular e das astúcias banais de que qualquer intrigante é capaz. (…) Combatê-lo foi difícil, precisamente porque ele em vez de se vingar, procurava compreender."

Carlos Lacerda escreveu este texto para a Folha de São Paulo um dia depois da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek em um acidente automobilístico na Via Dutra. Naquela época, os dois eram políticos cassados. A ditadura de 1964 cassou seus direitos políticos. Anos antes, Kubitschek e Lacerda se aproximaram para formar a Frente Ampla, uma aliança entre políticos que foram marginalizados pelos militares. Quem diria que, um dia, Carlos Lacerda, o “demolidor de presidentes”, seria aliado de Juscelino Kubitschek, que tanto fora alvo de suas críticas. São coisas da política.

Ao escrever o texto, Lacerda reconhecia a importância do governo Juscelino para a democracia. De 1956 a 1960, o nosso país viveu uma fase eufórica, desenvolvendo sua indústria, abrindo estradas, conquistando o primeiro título em Copa do Mundo, exportando Bossa Nova para os Estados Unidos e construindo uma nova capital no Planalto Central. Lacerda teve a liberdade de atacar o governo tanto na Câmara dos Deputados quanto no jornal Tribuna da Imprensa. Como ele mesmo disse: “Combatê-lo foi difícil, precisamente porque ele em vez de se vingar, procurava compreender”.

Quando aconteceu o trágico acidente na Via Dutra, em 22 de agosto de 1976, Juscelino Kubitschek não estava mais na política. Ele teve seus direitos políticos cassados em junho de 1964. Presidente da República de 1956 a 1960, Kubitschek governou o país prometendo “Cinquenta anos em cinco”. Seu Plano de Metas impulsionou a economia, integrou o país de ponta a ponta e a meta-síntese desse plano fazia de Brasília a nova capital federal. O mineiro de Diamantina, filho da Professora Júlia e do caixeiro viajante João, foi Prefeito de Belo Horizonte, deputado constituinte em 1946, Governador de Minas Gerais até que, em 1955, foi eleito para o cargo mais importante do país. Seu último cargo público foi Senador por Goiás.

Juscelino governo o Brasil com sorriso no rosto. Mas esse seu sorriso incomodava os donos do poder que tomaram conta do país em 1964. Sua cassação colocou um amargo ponto final em sua trajetória política, pois ele esperava voltar à Presidência em 1966. Nos anos 1970, Juscelino se tornou fazendeiro e comprou umas terras próximo a Luziânia, em Goiás. De lá, ele poderia ver os aviões chegando à capital que ele construiu. Em 1974, o ex-presidente deu uma entrevista ao Fantástico, da Rede Globo, e mostrava as colheitas de sua fazenda. Apesar de se dizer feliz, os olhos não escondiam a tristeza de estar longe da política, longe das intensas atividades que ele tanto cumpriu enquanto foi prefeito, governador e presidente.

A morte de Juscelino Kubitschek inseriu mais um capítulo na história de que agosto é o mês do desgosto. O seu velório começou no Rio de Janeiro, na sede da Editora Bloch, do seu grande amigo Adolpho Bloch, e terminou na Catedral de Brasília. O povo chorava e aplaudia o Presidente que governou o Brasil com alegria e desenvolvimento. Pela primeira vez os militares reconheceram o seu legado, pois o Presidente Ernesto Geisel decretou luto oficial. No dia seguinte, o texto de Carlos Lacerda era publicado na Folha de São Paulo. Não se podia substituir líderes autênticos por aduladores de plantão.

PERISCÓPIO
O dia que Raul Seixas foi morar na sociedade alternativa

Marcelo Nova bem que tentou trazer Raul Seixas de volta. Os últimos shows que os dois fizeram mostraram que Raulzito não estava bem. Ele já tinha passado por várias clínicas de reabilitação para tratar do seu problema com o álcool. Apesar de um Raul estático e com a voz arrastada, o público reverenciava o legado do Maluco Beleza. Marcelo Nova trouxe Raul Seixas de volta para o estúdio pela última vez para gravar "Panela do Diabo", último disco gravado por Raulzito. Nem deu tempo de usufruir do seu último trabalho. Raul Seixas morreu em 21 de agosto de 1989, dois dias depois do lançamento.

No Netflix tem o documentário "O início, o fim e o meio", que conta a trajetória de Raul desde a Bahia, quando ficou maravilhado ao ouvir Elvis Presley cantar e tocar rock and roll, até o Rio de Janeiro, quando chegou ao estrelato cantando "Gita", "Metamorfose Ambulante", "Sociedade Alternativa". Vez ou outra surge uma voz do além berrando em nossos ouvidos: "Toca Raul!"

Raulzito participou várias vezes do "Fantástico", da Rede Globo. Ele gravou alguns clipes para o programa e participou do especial infantil "Plunct Plact Zoom". Hoje em dia, para ver estes vídeos, é só procurar no YouTube, mas antigamente tinha que esperar a boa vontade da Globo ou da MTV para passá-los no ar. E como era bom ver Raul Seixas em forma, cantando bem e compondo com Paulo Coelho. Foi assim que Marcelo Nova ficou fã dele e aquelas últimas apresentações, apesar da péssima forma física de Raul, foram o reconhecimento do legado para a nossa música.

PERISCÓPIO
Túnel do pasmado: por onde passam corredores e helicópteros

Este túnel aí tem História. Ele fica em Botafogo, quase na divisa com Copacabana, no Rio de Janeiro. É o Túnel do Pasmado e foi construído para desafogar o trânsito na Zona Sul. Quando eu vi que o trajeto da Meia Maratona do Rio de Janeiro de 2018 passava por ele, já pensei em fotografá-lo. Mas o que há de tão importante para o registro? Para quem é fã do Roberto Carlos como eu já deve saber o motivo.

No filme "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, de 1967, tem uma cena que Roberto estava pilotando um helicóptero e sobrevoava várias regiões do Rio de Janeiro. Começava na Zona Sul e ia até a Avenida Presidente Vargas, no Centro. Uma cena sempre me chamou atenção: o helicóptero passou por dentro do Túnel do Pasmado. É possível no filme ver a polícia segurando o trânsito e alguns curiosos olhando aquele momento tenso, mas o mais emocionante. A primeira vez que eu vi foi no site do Roberto Carlos, em 2004. Desde então eu sempre quis ver este túnel e repassar a cena na minha cabeça.

A oportunidade veio em 2018. Um pouco antes do Túnel, enquanto corria a Meia do Rio, tinha um posto de hidratação com Gatorade e, de longe, já vi o Pasmado. Apesar de estar de fone de ouvido tocando minha playlist do Spotfy, não tinha como correr dentro do túnel sem lembrar da cena e de ouvir "Namoradinha de um amigo meu", tal qual no filme. É claro que não foi o Roberto Carlos que pilotou o helicóptero. O autor da façanha se chama Antônio Nascimento.

Isso é o que acontece quando a gente que ama História corre em cidade histórica. Pensa, respira, transpira e ouve História por onde passa.

Silvio Santos: a morte do Senhor do domingo

A manhã ficou triste com a notícia. Quis o destino que nos deixasse no sábado para que celebremos a sua memória no dia que os brasileiros mais aguardavam na semana só pra cantar "Silvio Santos vem aí"

PERISCÓPIO
Precisamos levar de novo Pedro Ludovico para as ruas

Em 1978, Jackson Abrão teve uma ideia brilhante: fazer uma matéria com Pedro Ludovico Teixeira andando pelas ruas de Goiânia. A princípio, o ex-interventor recusou o convite. Sua saúde não ia bem e a condição de político cassado poderia desagradar os militares. Mas Jackson não desistiu e pediu a ajuda de alguém que iria convencer Pedro a aceitar o convite: Venerando de Freitas Borges, grande amigo e primeiro prefeito de Goiânia. Com uma ajuda dessas não tinha como manter a recusa. Eis que as câmeras da TV Anhanguera registraram o momento histórico: o fundador e o primeiro prefeito de Goiânia andando pelas ruas da capital, conversando com populares, vendo aquela cidade se tornar uma metrópole.

A reportagem levou Pedro até o Palácio das Esmeraldas. Fazia tanto tempo que ele não entrava naquele prédio. As câmeras filmaram Pedro Ludovico ao lado do seu busto feito no final dos anos 1930. Convidado para entrar no palácio, novamente a cassação dos seus direitos políticos se impôs. Não queria causar problemas para o então governador Irapuan Costa Júnior. Lúcia Vânia, primeira-dama na época, o chamou e Pedro entrou novamente naquele palácio que foi seu local de trabalho por tanto tempo. Ele viu o quadro com o rosto da sua amada Gercina. Reportagem feita, registro para a nossa história. Ainda bem que Jackson Abrão não desistiu ao ouvir o primeiro “não” de Pedro Ludovico. E foi bom para o fundador de Goiânia andar por aquelas ruas movimentadas de gente e de carros ao lado do amigo e parceiro naquela empreitada iniciada quase cinquenta anos antes. Mesmo com o avança da idade, mesmo cassado pela ditadura militar, mesmo com as dores e os pesos do passar do tempo, aquela reportagem fez Pedro olhar tudo ao seu redor e perceber que valeu a pena.

Pouco tempo depois desta matéria, Pedro Ludovico Teixeira nos deixou. Mais especificamente no dia 16 de agosto de 1979. Eram tempos da anistia, da abertura política começando a acelerar o passo (apesar de alguns freios da linha dura militar). A morte de Pedro Ludovico encerrou a trajetória de mais um político que chegou ao poder com a Revolução de 1930. O interventor nomeado por Getúlio Vargas para governar Goiás construiu uma nova capital para o seu estado, trouxe os holofotes da imprensa para o interior do país. Se Pedro Ludovico não tivesse construído Goiânia será que Juscelino Kubitschek construiria Brasília?

Hoje nós recordamos os 45 anos da sua morte. Pedro Ludovico Teixeira tem o nome escrito na história. É uma pena que o seu nome escrito nos monumentos e nas ruas esteja um pouco apagado pelo passar do tempo. Talvez seja preciso novamente levar a história do nosso interventor para as ruas da cidade que ele fundou tal qual Jackson Abrão fez em 1978.

PERISCÓPIO
A praça do bandeirante já foi palanque para Jucelino Kubitschek e palco para Carlos Galhardo

Estátua do Bandeirante é espremida pelas duas pistas do Eixo Anhanguera

PERISCÓPIO
O muro de Berlim dividiu o mundo e se tornou símbolo da Guerra Fria

Soviéticos mandaram colocar tudo quanto era tipo de vigilância e armas para evitar qualquer travessia

PERISCÓPIO
A minha história e a história do Shopping Center Sul

Este é o Shopping Center Sul. Fica na Rua 106, Setor Sul. Esse lugar faz parte da minha infância. Aí funcionava o Supermercado Cristal. Nós morávamos na Rua 5, algumas quadras para baixo, e minha mãe fazia compras no Cristal do Shopping Center Sul. Eu lembro até hoje dela me colocando naquela cadeirinha que vinha atrás do carrinho. Eram os anos 1980 e a inflação corroendo nosso salário e aumentado os preços da noite para o dia. Tínhamos que comprar hoje porque amanhã o marcador colocaria um preço maior nos produtos.

O Shopping Center Sul não era apenas o Supermercado Cristal. Tinha papelaria e outras lojas. Aliás, recentemente fiquei sabendo que a Nara Leão, a musa da Bossa Nova, se apresentou no Sancho Pança Bar, que ficava no shopping. Já pensou a Nara Leão pertinho de casa? Até hoje quando passo em frente ao Shopping Center Sul eu me recordo da minha infância. Onde era o Supermercado Cristal, hoje é o Crystal Festas. Não sei se os dois estabelecimentos tem alguma relação ou se foi só coincidência os nomes serem quase os mesmos.

Eu morei nessa região entre 1985 e 1986. Ali perto tem a Churrascaria Walmor e me recordo dos meus pais levarem algum parente ou amigo de outra cidade para almoçar lá. Lembro também da única propaganda da churrascaria na televisão. Walmor Chagas era o garoto propaganda e falou sobre o seu xará. Nessa época, a Praça Tamandaré era o point da juventude. Moças e rapazes desfilando e os carros dando cavalo de pau. Era um lugar perigoso. Fiquei sabendo faz pouco tempo que o comitê de campanha do Iris Rezende nas eleições de 1982 era na Rua 5, no mesmo quarteirão do prédio que eu morava. Ulysses Guimarães esteve ali fazendo um comício. Já imaginou o Senhor Diretas pertinho da minha casa? Com três anos de idade, para mim, era tudo barulho, tudo festa. Só depois eu fui saber o que era aquele barulho.

Como dizia o poeta Casimiro de Abreu: "Oh! Que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida". Saudades do meu tempo de criança que viveu nos arredores do Shopping Center Sul dos anos 1980 que convivia com a inflação, com o show da Nara Leão e o comício do Ulysses Guimarães.

PERISCÓPIO
Depois da ditadura, Eurico Dutra se lançou candidato presidencial e Barão de Itararé podia fazer graça

"Atarefado com a campanha política e abafado com a onda de boatos, afastou-se do Ministério da Guerra o General Gaspar Dutra, abrindo uma vaga para o seu distinto colega de armas e bagagens, o General Góis Morteiro. Já amanhã os dois militares trocarão improvisos e dirão coisas amáveis entre si, segundo o hábito que se generalizou entre os oficiais de igual patente, sobretudo generais. Deixando o Gabinete Vargas, o General Dutra vai dedicar-se aos estudos de oratória inflamada preparar-se para estafantes discursos de praça pública sem direito a copo d'água. Homem de idade média, está disposto a tudo empenhar para conseguir eleitores - o que representa espírito de sacrifício. O seu substituto, por sua vez, deixou um bom emprego em Montevidéu para dar uma mãozinha na liquidação do antigo Estado Novo. Espera-se que o General Góis Morteiro inicie, depois de amanhã, uma série de entrevistas com que costuma dar enchimento aos jornaizinhos de quarenta centavos" (A Manha, dia 8 de agosto de 1945)

O jornal "A Manha", editado por Apparício Torely, o Barão de Itararé, trazia humor ao jornalismo político brasileiro. No dia 9 de agosto de 1945, o General Eurico Gaspar Dutra deixava o Ministério da Guerra para se lançar candidato presidencial nas primeiras eleições diretas desde 1930. O General Góis Monteiro, cujo nome virou trocadilho no jornal do Barão, assumiria o ministério. O Estado Novo envelheceu e estava com os dias contados. Naquele tempo, o mundo se levantava dos escombros da Segunda Guerra Mundial e se assustava com as bombas atômicas lançadas no Japão. Aqui no Brasil, Getúlio Vargas bem que tentou ficar no poder até as eleições de dezembro de 1945, mas ele saiu pouco tempo antes, após pressão dos militares.

Os brasileiros se preparavam para viver a vida sem Vargas no poder e voltar a eleger Presidente da República pelo voto direto, secreto e fiscalizado pela Justiça Eleitoral. Dutra saiu candidato carregando consigo os eleitores varguistas. Pelo lado da oposição, a recém criada UDN também lançaria um militar como candidato: o Brigadeiro Eduardo Gomes. Aos poucos, o Brasil voltava a escolher seu presidente e a tirar um sarro dos políticos.

PERISCÓPIO
A prorrogação do mandato de Castelo Branco acabou com o sonho de Carlos Lacerda chegar à Presidência da República

O Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, escreveu uma carta para Bilac Pinto, que era Presidente da UDN em julho de 1964, sobre a emenda constitucional que iria prorrogar o mandato de Castello Branco na Presidência e de José Maria Alkmin na Vice-Presidência até 1967. "Isto é o 10 de novembro de 1937 com a aprovação do Congresso". Lacerda se referia ao golpe do Estado Novo liderado por Getúlio Vargas. A prorrogação do mandato presidencial adiou as eleições presidenciais para 1966 e não mais em 1965 como previsto.

Naquela altura do campeonato, Lacerda já não era mais um aliado imprescindível daqueles que tomaram o poder em 31 de março de 1964. O seu discurso anticonunista já não tinha mais o impacto de antes e a sua candidatura presidencial já era coisa do passado. Só lhe restavam as eleições estaduais de outubro de 1965. Fazer o seu sucessor no Governo da Guanabara lhe daria condições de lutar por um espaço político, mas isso não seria fácil.

A prorrogação do mandato de Castello foi um sinal de que os militares não sairiam do poder tão cedo. A intervenção de 1964 não seria igual as outras intervenções. Eles vieram para ficar. Não demoraria para que o adiamento das eleições presidenciais diretas se transformassem em anulação e povo fosse deixado de lado na escolha do seu Presidente.

Em julho de 1964, o movimento de 31 de março já não tinha a mesma popularidade de antes. As primeiras denúncias de tortura começavam a serem noticiadas. As cassações de mandato não se restringiram aos comunistas. A prorrogação jogou água no chopp de muita gente como Carlos Lacerda. Como diria David Nasser, "a Revolução se perdeu de si mesma".