Resultados do marcador: Crítica
A obra é povoada de emoção criativa, intensidade semântica e linguagem poética, na qual percebe-se um puzzle narrativo a partir do núcleo temático dos deslocamentos
Ronaldo Cagiano
Especial para o Jornal Opção
De Lisboa, Portugal — Em seu novo romance “Querida Cidade” (Record, 432 páginas), que surge após um interregno de quinze anos sem publicar, Antônio Torres dá continuidade a uma cartografia peculiar dos sertões geográficos e psicológicos e do seu interior territorial e emocional a partir de sua ancestral Junco, atual Sátiro Dias. Instância real e ao mesmo tempo mitológica de suas escrevivências, daí recolhe matéria para uma escritura que vem marcando a literatura brasileira, sobretudo por retratar as os movimentos migratórios e os choques por eles provocados na vida de seus personagens. Trata-se de uma obra densamente povoada de emoção criativa, intensidade semântica e linguagem poética, na qual percebe-se um puzzle narrativo a partir do núcleo temático dos deslocamentos que tem caracterizado sua vasta bibliografia. As histórias albergadas em seus romances e contos constituem o repositório dessa realidade tantas vezes cáustica e desafiadora, da qual não conseguem fugir as personagens, tantas vezes fragilizadas pela compulsoriedade de seus destinos, mas que por isso mesmo traduzem a sua dimensão essencial e humana.
É a partir da conversa com a mãe sobre o sumiço do pai que o gatilho da memória é deflagrado e deslinda-se o fio do romance, ao tentar desatar os nós de um passado pouco esclarecido e confuso para o filho. Ao sair de seu pequeno burgo nos idos de 1950, o protagonista – um menino de dez anos que sonha em descortinar mistérios e paragens – vai viver com um tio noutra cidade, na esperança de galgar escalas na vida, tendo o parente como exemplo de ascensão social. Esse sonho é interrompido pelo desaparecimento do seu novo protetor e seus planos de estudar e se progredir são frustrados.
Adolescente, sem em quem mais se apoiar, o menino precisa trabalhar pagar seu sustento e aluga um quarto. Aqueles efervescentes anos mudancistas, de bossa nova, de construção de Brasília, de vitória na copa do mundo e um otimismo sem fronteiras a la JK, servem de pano de fundo para que Torres como sua inegável maestria e num viés catártico, explore os rumos e percalços do próprio País.
“Querida Cidade” rastreia um imaginário social, político e coletivo, em que os totens e referencialidades de uma geração – a música, a arquitetura, o cinema, o teatro, a literatura, o futebol – vão compondo, em rica intertextualidade, um enredo híbrido em sua forma, mas com uma temática subjacente. Num ritmo fragmentário, em que o fluxo de consciência e de memória culminam num rico caleidoscópio de uma época de profundas transformações, acaba por metaforizar não apenas o desejo íntimo do personagem de não perder o bonde da história, mas de um país cujas ambições vanguardistas e modernizadoras em curso serão frustradas.
[caption id="attachment_372784" align="aligncenter" width="620"]
Antônio Torres, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras | Foto: Reprodução[/caption]
Como o Brasil, o personagem depara-se com atropelos, paradoxos e impossibilidades e a melancolia da interdição vai percorrendo toda narrativa, dando a senha para um mergulho em universos e ambientes distópicos. Entre o real e o onírico, há momentos de pura epifania, em que a expertise de Torres se projeta com toda potência e carga simbólica nos recursos e planos de que se vale para o desenvolvimento da trama. Ao criar outras atmosferas dentro desse mundo, o vivido e ao sonhado, o desejo, as fantasias e o delírio se entrelaçam em simbiótica relação, sensação que nos remete a Ana Hatherly, autora portuguesa, para quem “em arte a realidade verdadeiramente possível é a que nós inventamos”.
Passado e presente do personagem avultam numa sequência vertiginosa de relatos e situações às vezes insólitas ou suprarreais, ressonância dos melhores ecos do realismo mágico, valendo ressaltar as cenas em que do alto de um prédio ilhado por água, o narrador se vê na torrente do rio existencial, lá onde seus fantasmas e obsessões emergem sem pudor e acabam por afogá-lo no rio tumultuário da solidão e no caudal caótico e espantoso das ilusões.
“Querida Cidade” vem confirmar o percurso literário de um autor cujas obras transitam por nosso passado recente e que desnuda a realidade não apenas com a responsabilidade estética que toda arte demanda, mas com o compromisso ético de um escritor fiel ao seu mundo, ao seu tempo, às suas contradições e aos seus dilemas. Ao ler esse romance pungente, percebe-se estreita convergência da ficção de Antônio Torres com o que disse James Wood, crítico e ensaísta inglês em “A Máquina da Ficção”: “A literatura faz de nós melhores observadores da vida; e permite-nos exercitar o dom da própria vida; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na literatura; que por sua vez nos torna mais atentos ao detalhe na vida”.
Ronaldo Cagiano, escritor brasileiro, vive em Lisboa.
É o Borat saindo do Cazaquistão do ano 22. É menos debochado, mais moderno e bem trabalhado. É o “Bacurau” bem-feito, coroado com Leonardo DiCaprio e Meryl Streep
Neste não-romance, a grande façanha talvez seja o poder de síntese com que está revestida a sua concepção, a sua estranha arquitetura
Trata-se de obra concisa, sobretudo, dotada de um teor poético tocante, intelectual e susceptível, aos preceitos de uma lírica imponente
Na sua construção poética há elementos descritivos e narrativos, formando histórias que são contadas de forma fragmentada, como se fosse um quebra-cabeças
O eu poético comunica ao leitor a chamada emoção estética, tratando de transmitir um sentimento vago e pouco confortável que é a aproximação do fim de tudo
Adelto Gonçalves
A precariedade da vida ou a dor da partida — este é o tema de um longo poema de Iacyr Anderson Freitas que se lê em “Ar de Arestas” (Escrituras Editora, Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage-Funalfa, 2013), livro finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Portugal Telecom. Em quadras rimadas, com versos heptassílabos, trata-se de um peça que medita sobre a precariedade iminente do ser, sobrepujado pela manifestação da dor, que lhe é transfigurada “através da exploração sistemática de um sistema de símiles e metáforas”, como observou o crítico, contista, ensaísta e tradutor Paulo Henriques Britto em enriquecedor posfácio que escreveu para este livro.
É um poema que diz muito a quem já chegou perto daquela idade a que chamam de provecta, ainda que o seu autor esteja a certa distância dela, mas, como se sabe, tudo é uma questão de tempo, que passa implacavelmente. De fato, o “eu poético” se expressa e procura comunicar ao leitor a chamada emoção estética, tratando de transmitir um sentimento vago e pouco confortável que é a aproximação do fim de tudo, que vem com a chegada da serpente, aqui significando a morte. E do qual, portanto, o leitor não sai ileso. Leia-se, por exemplo, este trecho:
É também um poema do qual se pode dizer “que se fecha em si mesmo, universo autossuficiente e no qual o fim é também um princípio que volta, se repete e se recria”, repetindo-se aqui uma frase do poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (1914-1998) que está em “O Arco e a Lira” (1956). Tanto que, ao final do poema, o poeta recorre à imagem do ouroboros ou uróboro, símbolo antigo que representa a cobra comendo sua própria cauda, ou seja, do grego oura ou a cauda, e boros, de comer. [caption id="attachment_353038" align="aligncenter" width="620"]“Desse gênero de dor / – que é quando todas as lentes / voltam-se ao corpo, no ardor / de exterminar as serpentes / que o feriram sem perdão –, / desse gênero, dizendo / melhor, tipo ou modo, então, / não há margem nem adendo: / dele nada se transforma, / nada se cria, apenas / o corpo conhece a norma / de assumir as próprias penas, / de mirar-se num espelho / fraturado, eternamente. Ao centro, um ponto vermelho: o lugar onde a serpente / derramou toda peçonha. / Só tal lugar interessa, / o da dor, da dor medonha, / que ao corpo impõe sua pressa. / Como foi escrito acima: / dessa dor nada se cria. / Mesmo a morte se aproxima, / abatendo mais um dia.”
Iacyr Anderson Freitas, poeta | Foto: Reprodução[/caption]
Assim, a imagem daquele que come a cauda procura significar a renovação perpétua da vida e do infinito, a eternidade e o eterno retorno ou a morte e o renascimento, a exemplo da fênix, a ave da mitologia grega que, quando morria, entrava em autocombustão e, passado algum tempo, ressurgia das próprias cinzas.
Eis o epílogo do poema:
“Tudo retorna ao início, / a serpente engole a cauda / e, em suma, este exercício / correrá de lauda em lauda / sem ter fim. Antes fechar / a conta: ceifar o clero. / Nada sobrou no alguidar / – lida noves fora zero. / Quando a tortura termina, / eis que o tempo recomeça / a colher em cada esquina / os venenos da promessa. / Tal colheita quer que tudo / tenha na dor vida nova, / que a própria vida – seu ludo – / fique onde a dor se renova.”Iacyr Anderson Freitas (1963), nascido em Patrocínio do Muriaé-MG, é engenheiro civil e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)-MG. Fez sua estreia na poesia em 1982, com a obra “Verso e palavra”. Desde então, publicou mais de vinte obras, tendo afirmado sua voz no cenário do Brasil contemporâneo, já com várias premiações, inclusive no exterior. Está presente em mais de 20 antologias publicadas no Brasil e no exterior, incluindo Argentina, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Espanha, França, Itália, Malta e Portugal. Com “Quaradouro” (2007), foi semifinalista do Prêmio Portugal Telecom), e com “Viavária” (2010), primeiro lugar no Prêmio Literário Nacional do PEN Clube do Brasil. Publicou três livros de ensaio literário: “Heidegger e a Origem da Arte” (1993), “Quatro Estudos” (1998) e “As Perdas Luminosas: Uma Análise da Poesia de Ruy Espinheira Filho” (2001). E dois livros de ficção: “O Artista e a Cidade”, álbum comemorativo dos 150 anos de emancipação política de Juiz de Fora (2000), e “Trinca dos Traídos” (2003). Em 2016, publicou “Estação das Clínicas”. Publicou ainda três livros de poemas para o público infanto-juvenil. Para enriquecer ainda mais a obra, este livro traz fotografias do jornalista, poeta e fotógrafo Ozias Filho, que foram obtidas em 6 de fevereiro de 2012, quando as cenas do poema foram traduzidas para a linguagem corporal do Laboratório de Movimento e Performance l'Mmoving, na Universidade de Lisboa, pela coreógrafa Marina Frangioia. E que foram registradas a uma época em que aqueles versos ainda eram inéditos. [caption id="attachment_353041" align="aligncenter" width="225"]
Ozias Filho: jornalista e fotógrafo | Foto: Facebook[/caption]
Para ajudar a penetrar nas sutilezas das imagens de Ozias Filho, há ainda um posfácio escrito pela fotógrafa moçambicana Susana Paiva, coordenadora da revista digital Flânerie e editora da coleção Reflex, dedicada à publicação de ensaios sobre fotografia.
Ozias Filho (1962), carioca, é formado em Jornalismo pela Faculdade Hélio Alonso e em Fotografia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), do Rio de Janeiro, e pós-graduado em Edição e Novos Suportes Digitais, pela Universidade Católica Portuguesa. Vive em Portugal há três décadas, tendo trabalhado no jornal “O Primeiro de Janeiro”, do Porto. Foi de 1999 até 2011 o responsável pela Editora Vozes, em Lisboa. Em 2005, lançou, por Edições Pasárgada, o livro “Páginas Despidas”.
Em 2006, participou da coletânea de contos “Con-to-Con-ti-go”, da Livro do Dia Editores e, em 2008, publicou, pela mesma editora, o livro de fotografias “Santa Cruz”, com poemas de Luís Filipe Cristóvão. Em 2010, integrou a coletânea de contos “Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai” e, no ano seguinte, publicou o livro de poemas “O Relógio Avariado de Deus”, ambos por Edições Pasárgada. Produziu fotografias para capas de livros de diversos autores, tendo publicado também em várias revistas internacionais de cultura.
Lançou em 2001, pela Editora Alma Azul, o livro “Poemas do Dilúvio”. Idealizou e protagonizou na Casa da América Latina, em Lisboa, vários projetos: Uma hora com os poetas, Noites em Pasárgada e Neruda com amor. Expôs recentemente no projeto português On the Wall (de fotografias feitas por smartfones). É editor do blogue O relógio avariado de Deus. Tem uma página profissional em Ozias Filho Photographer.
Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Im esp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br.
Trata-se de uma história bem urdida e bem-acabada, que apresenta uma novidade em termos narrativos, pois transita entre o real, o surreal e o onírico
“Escobar", romance de estreia do carioca Márwio Câmara, traz escrita inovadora com elementos semiautobiográficos
Elisabeth não suporta mais manter as aparências, ser alguém que não é. Fora de seu complexo silencioso, entraria em contradição com sua essência
Cecília Meireles teve de ir à delegacia, debaixo de humilhações, para prestar esclarecimentos. Mas não foi “presa” pela tradução de um livro de Mark Twain
O escritor francês relata a história de duas mulheres diferentes no romance “Madame Bovary” e no conto “Uma alma simples”
O livro de poesia “Roda-Gigante” é uma obra que se mostra renovadora na linguagem
A par da subjetividade do gosto e da sensibilidade pessoais, há neste poema vários efeitos de estilo próprios da poesia de Cora aliados a uma belíssima narrativa alegórica
É poeta múltiplo pela variedade temática e de fontes impulsionadoras da sua obra poética e também pelas diversas experiências da forma poemática que executou
Premiado autor japonês cria atmosferas fantásticas, de mistério e realidade, absorvendo o leitor


