A literatura vibrante e densa do escritor japonês Haruki Murakami

Premiado autor japonês cria atmosferas fantásticas, de mistério e realidade, absorvendo o leitor

Valdivino Braz

Especial para o Jornal Opção

Traduzido pela primeira vez no Brasil, por Eunice Suenaga (sua versão é direta do japonês), e lançado no país ainda em 2017, com o selo da Alfaguara, o volumoso romance (767 páginas) “Crônica do Pássaro de Corda” é visto como obra clássica de Haruki Murakami, destacado como um dos principais romancistas do Japão. Está-se diante de um ambicioso romance, que, de acordo com as informações contidas na obra, “recorre a cartas, recortes de revistas, flashbacks, sonhos e transcrições de conversas na internet para construir uma atmosfera única no que é considerado pela crítica como um de seus melhores livros”. Atmosfera, num crescendo de interesse para o leitor, é uma das vigas de sustentação do romance, gerando prazerosa leitura.

Haruki Murakami: um dos mais importantes escritores japoneses | Foto: Reprodução

Alentada narrativa gira em torno do jovem Toru Okada, aos 30 anos de idade, desempregado e sem ambição na vida. É casado (à beira do fracasso) e sem filhos, levando uma vida banal em Tóquio. Ele cria um gato que, em certo dia, desaparece, e desde então tudo muda em sua vida (dele, Toru). Seu cotidiano se transforma de forma intrigante a cada estranhamento, como se num sonho com realidade. E seus fantasmas vão se delineando no mundo real, obrigando-o a enfrentar problemas arraigados ao longo de sua vida. Com estes e outros elementos marcantes de uma crônica romanesca, pontuando o desenrolar da narrativa a cada capítulo, Haruki Murakami explora, com alento e talento, a força criativa de sua arte com ideias e linguagem.

A trama envolve duas misteriosas irmãs e seus estranhos nomes, além de uma adolescente mórbida que não frequenta escola e um cunhado com duvidosas pretensões políticas. No centro de tudo, e do que mais se entranha ao seu redor, Toru Okada vê-se forçado a enfrentar as mais inusitadas situações a fim de reencontrar o rumo de sua vida e o seu gato desaparecido.

Desenrola-se o romance por fios narrativos ao longo de 41 capítulos, intitulados de forma a levar adiante o leitor absorvido pela intriga que envolve os personagens. “Crônica do Pássaro de Corda” enfoca a efemeridade do amor, com situações de maldade humana permeando a sociedade moderna e o “legado violento que o Japão trouxe de suas guerras”. A propósito de sua criativa força narrativa, Haruki Murakami é apontado como visionário (“New York Times”), “profundamente filosófico, instigante, enigmático e impossível de largar” (“Daily Telegraph”). Sem dúvida. E tudo temperado com um estilo “cativante, profético, cômico, impressionante e sem paralelo na literatura atual” (palavras da editora).

Trilogia de 1Q84: um mundo paralelo

“Haruki Murakami é como um mágico que explica o que está fazendo conforme apresenta o truque.” Isso vale para um douto crítico goiano que anda a dizer que um romance não se explica. Ora, ora, um romance é o que o autor quer que seja, até pelo viés metanarrativo e prosa com o leitor; nesse caso, prescinde-se de certos pitacos acadêmicos. Cumpre à boa crítica deslindar a trama narrativa em seus múltiplos aspectos, e quanto menos palpiteira, melhor e mais substancial a avaliação crítica de uma obra literária. O contrário de ficar-se dizendo que não é assim que se faz, mas, sim, assim e assado. Ou será que não passamos de um mero e equivocado autor? Temos em alta consideração e apreciamos a boa crítica; e aqui, abertos à crítica construtiva, não nos referimos a meros (senão gratuitos) elogios a respeito de uma obra.

Continuando sobre Murakami, nas palavras de “New York Times Book Review”: “Qualquer um pode contar uma história que se pareça com um sonho, mas é raro o artista, como ele, que nos faz sentir como se nós mesmos estivéssemos sonhando.” Tal afirmativa decorre a propósito da trilogia “1Q84” (sic), numa dimensão paralela a “1984”, de George Orwell. A trama toda ocorre em Tóquio, justamente no ano de 1984. A personagem Aomami, uma espécie de feminista e tarimbada assassina (serial killer), vingando mulheres vitimadas pelo machismo, passa de um mundo a outro (um mundo com duas luas), paulatinamente envolvendo o leitor, que não se detém enquanto não conclui a leitura da trilogia.

Vista como uma saga pós-moderna, com tradução de Lica Hashimoto, são duas histórias que se intercalam nos três volumes de “1Q84”, livro mais ambicioso de Murakami, com uma trama fantástica, de mistério e suspense. Além de Aomami e outros personagens, encontra-se o jovem Tengo, aspirante a escritor e que se vê enredado num jogo perigoso ao reescrever um romance enigmático, intitulado “Crisálida de Ar”. “Ao entrelaçar essas duas histórias, Murakami cria um épico contemporâneo, uma trilogia que fala de amor e abandono, e mistérios que desafiam o limite do real.”

De resto, há que ler as obras de Haruki Murakami. Natural de Kyoto, no Japão e graduado na Universidade Waseda, em Tóquio, durante quatro anos viveu nos Estados Unidos e ministrou aulas em Princeton, uma das mais importantes universidades da terra de William Faulkner. Sua obra foi traduzida para mais de 40 idiomas e recebeu importantes premiações, entre elas o Franz Kafka Prize. A propósito, “Kafka à Beira-Mar” está entre suas obras publicadas no Brasil.

Valdivino Braz é jornalista, escritor e colaborador do Jornal Opção.

 

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