A música de Paulo Guicheney: imagens do mundo que flutua

O compositor Paulo Costa Lima diz que “a obra de Guicheney pode ser tomada como fresta para esse grande tema da relação entre a invenção e suas referências”

Gyovana Carneiro

“O não visto se chama invisível. Não podendo ouvi-lo será inaudível.”

Vamos ouvir música contemporânea? Convido-o a conhecer o premiado compositor goiano Paulo Guicheney (1975).

O músico e compositor Paulo Guicheney | Foto: Dennis Melo

Guicheney escreve para várias formações instrumentais, foi premiado na 17ª Bienal de Música do Rio de Janeiro com a obra “Anjos são mulheres que escolheram a noite” e na 19ª Bienal com a obra “Musik Nach W.”

Sua obra, que vai muito além das fronteiras de Goiás, tem sido executada em diferentes países — Argentina, Brasil, Canadá, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, Uruguai e México.

Atualmente, Guicheney está cursando o doutoramento em Musicologia na Universidade Nova de Lisboa, em Portugal. Ele é professor efetivo de composição da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás — além de escritor e autor do livro “Tempo de Atirar Pedras e Dançar” (Martelo Casa Editorial, no prelo).

Segundo o compositor brasileiro Paulo Costa Lima, membro da Academia Brasileira de Música, “a obra de Guicheney pode ser tomada como fresta para esse grande tema da relação entre a invenção e suas referências”.

Hiroshige

A mais nova composição de Guicheney, Suíte “7 Ukiyo-e” — para ensemble (11 músicos) —, é uma leitura sonora de sete imagens: três gravuras de Hiroshige, três de Hokusai e uma pintura de Van Gogh. Segundo Guicheney, não é uma peça programática, mas pode-se dizer que elas são reverberações sonoras das imagens. Ukiyo-e, também, segundo o compositor, pode ser traduzido como imagens do mundo que flutua.

Para entendermos a inspiração de Guicheney, lembramos o pintor e gravador japonês Hiroshige (1797-1858) — conhecido sobretudo por suas gravuras de paisagens. Como o último grande professor de Ukiyo-e (escola de gravura popular), Hiroshige converteu as paisagens cotidianas em cenas de grande intimismo.

Paulo Guicheney: o músico vem trabalhando desde 2017 com taças de cristal.

O outro artista que o inspirou, Katsushika Hokusai (1760-1849), por sua vez, fez mais de 30 mil desenhos em toda a vida, criando aos 70 anos “A Grande Onda”. Com esta obra, o artista japonês inspirou nada menos que o pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890).

A três referências artísticas resultaram na Suíte “7 Ukiyo-e” (em sete movimentos) I. Plum Park in Kameido – Hiroshige; II. The Spirit of the Servant Okiku – Hokusai; III. Sudden Shower over Shin-Ohashi Bridge and Atake – Hiroshige; IV. Fireworks at Ryogoku Bridge – Hiroshige; V. The Amida Waterfall on the Road to Kiso – Hokusai; VI. The Ghost of Oiwa – Hokusai e VII. Bridge in the Rain, after Hiroshige – Van Gogh.

Imagens dos sete movimentos

A estreia mundial da obra foi em fevereiro deste ano em Morelia, México, no Conservatório de las Rosas. O ensemble teve a participação de professores e alunos do Conservatório e regência de Sergio Ortíz. Disponível em:

Na percussão Guicheney utiliza diferente instrumentação, como taças de cristal e enxadas — além de um gongo e uma mola de carro. O músico vem trabalhando desde 2017 com taças de cristal.

A obra de Guicheney é instigante. Ouse: permita-se aventurar no novo.

Gyovana Carneiro, doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa (Portugal) e mestre em Música Brasileira na Contemporaneidade, é professora da Escola de Música e Artes Cênicas (Emac) da Universidade Federal de Goiás (UFG) e presidente da Sociedade Goiana de Música.

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