Estreia literária de Pedro Manzke é uma grande surpresa

Trata-se de uma história bem urdida e bem-acabada, que apresenta uma novidade em termos narrativos, pois transita entre o real, o surreal e o onírico

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Acabo de ler, com indisfarçável entusiasmo, o livro de estreia de Pedro Manzke, “A Irmandade dos Cavaleiros Probos” (Editora Escrituras). Trata-se de uma história bem urdida e bem-acabada, que apresenta uma novidade em termos narrativos, pois transita entre o real, o surreal e o onírico. Ao descrever a vida de três rapazes (Pedro, Maximiliano e Aleixo), o autor nomeia uma voz feminina para acompanhar as aventuras e desventuras dos jovens colegas de escola, num período que vai do início do ensino médio até o ingresso na faculdade, embora os dois primeiros se conhecessem desde a primeira infância. E entrega a essa jovem “sem nome” o destino de personagens díspares e tão contraditórios. Esse narrador feminino, por sinal, tem vida abundante no percurso da história e, de certa forma, compõe o quarto elemento da irmandade proposta, ainda que de maneira onisciente.

A narrativa, na primeira pessoa, foi construída em 27 capítulos curtos, e todos eles apresentam um título, além da numeração tradicional. A linguagem, simples e direta, às vezes alcança um tom coloquial propício ao relato autobiográfico, mas só na aparência, pois o Pedro da história nada tem a ver com o Pedro que assina o livro. (Talvez a medicina seja o único ponto comum entre autor e personagem.) E assim, em ziguezague, os fatos descritos vão ganhando contornos cada vez mais dramáticos e surreais.

“Embora ofereça uma leitura não linear, o texto em nenhum momento deixa o fio condutor obscuro ou imperceptível; e a narradora utiliza-se da fala dos personagens para criar e expor um arcabouço psicológico e afetivo, e dar-lhe verossimilhança enquanto expressão dramática”

Embora ofereça uma leitura não linear, o texto em nenhum momento deixa o fio condutor obscuro ou imperceptível; e a narradora utiliza-se da fala dos personagens para criar e expor um arcabouço psicológico e afetivo, e dar-lhe verossimilhança enquanto expressão dramática. Mas todos eles estão condenados à dilaceração ou ao isolamento, e isso se manifesta claramente nas ações coletivas e nos monólogos interiores.

Pedro Manzke: sua ficção enriquece o momento atual da literatura brasileira, por sua inventividade e ousadia | Foto: Divulgação

Assim, “A Irmandade dos Cavaleiros Probos” vai aos poucos unindo o real e o onírico num mesmo espaço físico e geográfico. O tempo passa e a aranha vai tecendo a sua teia, inexoravelmente. Os jovens adolescentes agora são adultos e cada qual com seu problema pessoal e intransferível; todos com suas vitórias e alegrias e também com suas aflições e desesperanças. Estão diante de um novo mundo em construção e, ao mesmo tempo, fadados à aceitação do caos que a vida lhes impõe. Para Pedro, a vida é um sopro; por isso precisa ser vivida intensamente. Maximiliano, materialista convicto, procura viver o instante sem medir consequências; quase um hedonista. Já Aleixo, de origem bizantina, cultiva o conhecimento intelectual e mantém-se calado até quando bêbado; mesmo diante de situações adversas, nunca perde o ar contemplativo e absorto. Nem o controle da situação.

Leia um trecho da obra

“No terceiro dia de vigília, estava frio e Max, sonolento, tremia em um banco de frente para o hospital. Quando recém-amanhecia, um sujeito estranhíssimo passou por ele. Em meio à névoa, surgiu este ser longilíneo, de chapéu e bengala. Deparando-se com meu colega trêmulo, o desconhecido retirou um terno cafona de listras lilás que vestia e envolveu-o em Max. ‘No fim, vai dar tudo certo’, disse o estranho, com uma voz calma e reconfortante, apertando seus ombros. Foi embora, deixou o terno. Pasmo, Max acreditou tratar-se de um profeta de tempos indeterminados, sabe-se lá se do passado ou do futuro, emergindo da névoa para tranquilizá-lo. Coincidência ou não, neste mesmo dia, a menina teve alta da enfermaria.”

Retomando os fios da meada

Por sua vez, a narradora, ao descrever-se, deixa bem claro: ela nunca foi uma “menina linda, invejada detentora das notas mais altas e, de quebra, boa em todos os esportes”. Noutro trecho, assim se manifesta: “Estou com trinta e dois anos, recém completados, casei-me, tenho dois filhos e utilizo remédio para depressão diariamente. O príncipe encantado não apareceu. Contentei-me com a realidade.” E conclui: “Minha vida esteve e está longe de ser a de uma Madame Bovary.” (…) “Fora isso, porém, não tenho muito do que reclamar. Estou ciente do meu devido lugar como mera coadjuvante — os astros da história são Pedro e Max.” Nega, assim, a importância de Aleixo e a de seu cachorrinho Lulu, que tem incontestável participação na trama. E essa contradição nos oferece a princípio a chave do mistério: para ela, Pedro e Maximiliano representam o verdadeiro ideal do amor romântico, mas tanto um quanto o outro não chegou a ser um típico candidato a marido; nunca puderam lhe oferecer mais que o puro sentimento de amizade.

No prefácio, o escritor Ronaldo Cagiano destaca: “É natural que se estabeleça logo uma conexão com os romances de mistério, aventura, magia e lendas medievais, no entanto, essa filiação é apenas aparente. É que, no fundo, a opção por um universo ou ambiente narrativo em que o absurdo e o inusitado emulam a trama, é apenas um recurso de que se vale para falar da realidade presente com uma mirada não convencional, uma atitude estética que mistura crítica e irreverência, ironia e nonsense.”

Entretanto, o livro não é de fácil classificação. Romance? Novela? Pode filiar-se aos dois gêneros e a nenhum deles. Tudo vai depender do leitor. Ou do próprio autor, segundo afirmação do escritor mineiro Fernando Sabino. Mas isso pouco importa. O certo é que a ficção de Pedro Manzke, jovem médico e escritor gaúcho-brasiliense, vem enriquecer o momento atual da literatura brasileira, por sua inventividade e ousadia.

Dados biobibliográficos de Pedro Manzke

Nasceu em Porto Alegre, aos 12 de dezembro de 1986, e se mudou ainda criança para o Planalto Central. Formou-se em Medicina pela Universidade de Brasília (UnB) e se especializou em neurologia na Universidade de São Paulo. Sempre foi um leitor ávido, especialmente de literatura russa e romances históricos. “A Decadência de Tudo” (Penalux) é seu segundo romance publicado, sendo o terceiro “Escola Nacional de Escritores” (desta vez um e-book da Amazon). Seu quarto livro, “Sobre a Pandemia que nos Atingiu” saiu também pela Amazon em formato digital. Escreveu e publicou vários contos e poemas. É membro da Associação Nacional de Escritores e reside em Brasília, onde exerce a medicina em hospitais públicos.

João Carlos Taveira, poeta, crítico e melômano, trabalhou na extinta Brasília Super Rádio FM, onde levava ao ar o programa Vesperal Lírica (sobre óperas), ao lado de Sérgio Luís Gaio, Marcos Nardon e Ulisses Papa. É colaborador do Jornal Opção.

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