Reflexão sobre si mesma deixa personagem do filme “Persona”, de Bergman, em crise

Elisabeth não suporta mais manter as aparências, ser alguém que não é. Fora de seu complexo silencioso, entraria em contradição com sua essência

Eduarda Leite e Silva

No começo do filme, um livro é aberto por um menino misterioso. A obra se chama “O Herói do Nosso Tempo” (Martins Fontes, 224 páginas, tradução de Paulo Bezerra), escrito pelo russo Mikhail Liérmontov (1814-1841). A Amazon resume a obra da seguinte forma: “O herói do nosso tempo não é um romance, é uma biografia de tendência psicológica em que cada história mostra um traço característico da personalidade complexa e romântica de Pietchórin. Os tormentos e as paixões deste refletem, em parte, o estado de alma do próprio Liérmontov”. É exatamente o que acontece com os personagens em persona, isso é demais! Assistindo você até sente um ar romântico entre as duas, mas nem chega perto disso, realmente… é, como descrito, “uma biografia de tendência psicológica”. Assistindo, você conhece muito dos personagens, mas, ao mesmo tempo, não sabe nada sobre eles.

Liv Ullmann e Bibi Andersson: atriz do filme “Persona”, de Ingmar Bergman | Foto: Reprodução

O menino é filho da Elisabeth? Por que ele estava naquele lugar? Que lugar é aquele, para começar? Ele se parece com Beth… mas estava olhando aquela foto grande da Alma. E os velhos, quem eram aqueles velhos? O bezerro morrendo nas mãos de um homem representa o aborto que a enfermeira teve de fazer? Mesmo com tantas questões em aberto, ainda pude refletir sobre alguns aspectos com mais clareza.

Por exemplo, a cena em que, em uma pequena televisão, é transmitida uma cena violentíssima no leito de Elisabeth. Nos primeiros momentos do filme essa mesma cena aparece por um frame… e eu pausei. Achei muito estranha aquela imagem do homem morrendo daquela forma terrível em companhia de um outro indivíduo, sentado ao fundo, como se nada estivesse acontecendo. Essa pode ser a representação da realidade aos olhos de Elisabeth: uma sociedade caótica, sem compaixão ou justiça. Foi o medo disso que a incentivou a isolar-se? Ou foi o medo de si mesma?

Elisabeth e Alma, leitoras: personagens do filme “Persona” | Foto: Reprodução

É a personagem mais complexa que já vi. Podemos pensar em várias coisas sobre como ela perdeu a voz. Medo da realidade, de se conectar com as pessoas, talvez… mas acho que o mais provável é o medo que ela tem de si mesma. No final do filme, quando tem aquela conversa entre ela e Alma sobre o filho dela, percebemos que a mulher não suporta mais manter as aparências, ser alguém que não é. Fora de seu complexo silencioso, entraria em contradição com sua essência, ou até mesmo remoer emoções por meio de manifestações inicialmente inocentes, exatamente como aconteceu com Alma.

A crise da personagem do filme

O que mais gostei no filme envolve todo o contexto por trás dos grandes desabafos da Alma. Antes de a enfermeira ficar sozinha com Elisabeth na casa de praia, tem aquele momento com ela e o telespectador, em que ela diz com um ar meio triste e incomodado sobre como será sua vida dali a pouco tempo, com o futuro do casamento. É como se por muito tempo tivesse seguido no motor automático… mantendo as aparências? Quando ela se recolhe com Beth, não entende o poder daquele silêncio… apenas conversa para tentar incentivar sua paciente, inocentemente. O problema é que isso a faz acessar lembranças que ela tinha se forçado a esquecer: a fez pensar em si mesma, entrando em crise. Pensar em si mesma a deixou em crise… foi, com certeza, o que mais me impactou.

As atrizes suecas Bibi Andersson e Liv Ullmann com o diretor sueco Ingmar Bergman durante as filmagens de “Persona”, de 1966 | Foto: Reprodução

Gostaria de conversar sobre essas duas com o próprio diretor sueco Ingmar Bergman (1918-2007).

Na teoria de Carl Jung, a palavra persona significa uma personalidade que o indivíduo apresenta aos outros como real, mas que, na verdade, é uma variante às vezes muito diferente da verdadeira. Ao contrário do que aconteceu com Elisabeth, o outro lado da persona de Alma ficou muito claro para mim, principalmente nos momentos em que conta sobre a orgia que participou e quando não evitou que Elisabeth se machucasse nos cacos do vaso que havia quebrado anteriormente. A ação é inconsequente, mas a raiva é compreensível: por que Elisabeth escreveu aquela carta? Porém uma questão que permanecerá no escuro para mim. Mas de uma coisa sei: a imagem de mulher doce e dedicada à família que Alma se esforçava para manter era tão frágil quanto aquele vaso.

As duas são muito parecidas. O momento em que Elisabeth bebe do sangue de Alma deixou-me a pensar se esta não seria a representação dessa relação. A consagração da ambiguidade dos seres de momentos de conversas inocentes despejadas sobre o café da tarde, ou absorvida pelas plantas no jardim onde colheram flores. Os mesmos seres que se ameaçam com panelas quentes, se analisam clinicamente de um modo frio… se tornam um só.

Eduarda Leite e Silva é jornalista.

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