O poeta Altino Caixeta de Castro e a coroa de sonetos

É poeta múltiplo pela variedade temática e de fontes impulsionadoras da sua obra poética e também pelas diversas experiências da forma poemática que executou

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Altino Caixeta de Castro, o Leão de Formosa, como gostava de se autodenominar, nasceu em Lagoa Formosa (MG), a 16 de agosto de 1916, e morreu em Patos de Minas em junho de 1996, aos 79 anos. Era filho de Leão Theotonio de Castro e Júlia Fernandes Caixeta. Casado com dona Alfa, teve três filhos: Ronaldo, Rosane e Rosele. Aprendeu as primeiras Letras na Fazenda Campos da Onça, município de Lagoa Formosa. Cursou o ginasial no Ginásio D. Lustosa, de Patrocínio (MG). Diplomou-se farmacêutico bioquímico pela Escola de Odontologia e Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais, tendo sido o orador da turma.

Altino Caixeta de Castro: poeta | Foto: Reprodução

Antes disso, foi redator de “O Ideal”, jornalzinho do ginásio em que publicou os seus primeiros poemas parnasianos simbolistas, já com a marca de seu lirismo persistente. Em Patos de Minas, publicou seus versos no “Jornal dos Municípios”, depois na “Folha Diocesana” e, também, no “Correio de Patos”. Esses poemas foram publicados na “Antologia Luso-Brasileira”, organizada por Wagner Ribeiro.

Altino Caixeta foi aluno do acadêmico e poeta dr. Cândido Martins de Oliveira, com quem aprendeu Gramática Histórica. Estudou Português com José Fonte-Boa, conhecido estudioso, pelo menos em terras mineiras, da obra de Luís de Camões. Quando jovem, trabalhou em uma farmácia, comerciando drogas, mas, à feição de Carlos Drummond de Andrade, ficou sempre mais drogado pela literatura. Era uma figura surpreendente, por sua irreverência. Embora de formação acadêmica, dizia-se antiacadêmico. Ainda sem livros publicados, entrou para uma academia de letras e para um grêmio de trovadores, sem convicção alguma, o que serviu para acentuar o seu antiacademicismo e sua ojeriza pela grei de subliteratos. Mas ele se orgulhava de seu quase ineditismo, com convicção. Daí, a temática da vigília na sua escritura.

Início de amizade produtiva e fraterna

Conheci o autor do soneto “O Galo de Pirapora”, em Brasília, no mês de dezembro de 1970. A parti dali, passamos a nos encontrar quase que diariamente até os anos 1990, e sempre no ambiente de livros. Eu costumava frequentar a Biblioteca da UnB e, mais amiúde, a recém-fundada Biblioteca Demonstrativa de Brasília. Esta última ficava perto da casa dele e da minha, pois, na época, ambos morávamos na mesma quadra: 707 Sul.

Devo admitir que, embora inédito em livro, eu já alimentava o desejo de ver meus versos publicados, principalmente depois de ler “Cidadela da Rosa — Com Fissão da Flor”, que Altino Caixeta acabara de lançar pela Novo Horizonte Editora, de Geraldo Vasconcelos, uma espécie de Don Quixote dos livros, à maneira de Victor Alegria, da Thesaurus, e do recém-falecido Antonio Almeida, da Kelps. Estávamos no ano de 1980. Alguns anos depois, mais precisamente em 1989, sairia seu segundo livro de versos, “Diário da Rosa Errância e Prosoemas”, este pela Escopo Editora, selo também de Brasília.

Nossas conversas, geralmente apimentadas, versavam sobre poesia e mineiridade. E ele era um crítico mordaz, não perdoava deslizes. Muitos poetas “faziam a sua cabeça”, mas eram poucos os que ele respeitava sem ressalvas. E nunca vou esquecer o quanto me foram úteis as observações que ele fez ao ler os meus poemas inéditos. Pois, assim como Cassiano Nunes e José Hélder de Souza, ele foi dos primeiros a ler a minha poesia e dar créditos a ela. Isto para um jovem iniciante tinha um importantíssimo significado. E que não era pouco.

Aqui abre-se um parêntese para dar ideia de quão irreverente era o grande poeta das Minas Gerais. Recordo de um diálogo que tivemos, pouco antes de seu retorno a Patos de Minas, onde ele viveu seus últimos anos. Aliás, lá estive com ele para uma entrevista que saiu no suplemento DF-Letras do jornal “BsB Brasil”, fundado nos anos 1990 pelo genial e controverso Ronaldo Junqueira. Numa espécie de desabafo, Altino Caixeta me expôs sua visão crítica da chamada vida literária. Disse-me ele: “Taveira, estou cansado de reuniões literárias. Se você pensa, estuda, tem talento, acaba sendo discriminado. Nada ofende mais do que o talento alheio. Por isso, amigo, preocupe com a sua obra e deixe o resto de lado. Ler e escrever é o que alimenta a necessidade de criar, para um escritor”. Eu, claro, não segui o seu conselho. Mas o avançar da idade, com o quebrantamento do corpo, sempre nos obriga a diminuir a marcha. E mais cedo do que eu imaginava, vi logo chegar o dia em que me aquietei em casa, com meus livros, meus discos (CDs e DVDs), meus quadros, meus filmes e todo o meu desassossego interior. Assim, tenho podido dedicar às artes o tempo que lhes tinha negado boa parte da minha vida. Fecha-se o parêntese.

Mais tarde, Altino Caixeta seria enredado pela poética de vanguarda, quando o poema-práxis se lhe afigura de fácil acesso. E passa a conviver bem com todos os processos de penetrar no “pathos” do poema. O curioso é que ele se preocupava muito com a poeticidade de seus poemas, com a realização da forma e a boa escrita, mas não me lembra, em nenhum momento, a sua referência à publicação de livros. Devia supor que publicar é coisa que não deve constituir-se em preocupação principal para um escritor, sobretudo no caso da poesia.

Reconhecimento crítico do poeta

No final da década de 1990, com a colaboração de Wilson Pereira, Caio Tibúrcio e da dupla musical Theófilo e Ruy, Alan Viggiano apresentou, no auditório Cyro dos Anjos da Associação Nacional de Escritores, um texto magnífico em homenagem ao Leão de Formosa, acompanhado da leitura de poemas e da execução de canções extraídas de sua poesia. Foi uma noite espetacular, uma noite memorável.

Maria Esther Maciel, escritora e professora mineira, que teve um de seus livros prefaciados por Caixeta, e com o apoio incondicional de Rosele, uma das filhas do nosso homenageado, foi quem respondeu pela organização, prefácio e edição póstuma do livro “Sementes de Sol”, que saiu em 2007 pela editora 7Letras.

A propósito, cabe salientar que a “Revista Alpha”, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Patos de Minas, no seu número 3, de 2002, publicou o “Dossiê Altino Caixeta de Castro”, que depois saiu no “Suplemento do Minas Gerais”, em que homenageia o poeta com artigos e ensaios da mais alta qualidade, além de uma antologia de poemas seus. Ali estão presentes nomes como a própria Maria Esther Maciel, Fábio Lucas, Wilson Pereira, Antonio Sergio Bueno, Carlos Roberto Silva, José Secundino da Fonseca, Moacir Manoel Felisbino, Roberto Carlos dos Santos, Rodrigo Guimarães e Sidnei Cursino Guimarães.

Altino Caixeta de Castro: o poeta experimentou a forma tradicional e a forma de vanguarda: deu-se bem em todas | Foto: Reprodução

Foi escolhido um trecho do ensaio “A Multiplicidade Poética de Altino Caixeta Castro”, de Wilson Pereira, para ilustrar as minhas palavras: “Altino Caixeta é poeta múltiplo não só pela variedade temática e de fontes impulsionadoras da sua obra poética, mas também pelas diversas experiências da forma poemática que executou. Grande parte de sua obra, é verdade, está composta em forma de soneto, em metro decassilábico. E mesmo nesta forma o poeta ousou, construindo, às vezes, sonetos modernos, com semi-rimas, com aliterações e metáforas inusitadas. À maneira de Augusto dos Anjos, ele constrói o ‘Soneto do Futuro’, sobre o tema da inseminação artificial, ou fecundação ‘in vitro’, o que mostra a familiaridade com que tratava temas científicos e como ele tinha as antenas poéticas voltadas para o futuro”. Leia-se, pois, o soneto:

Assim me vês translúcido, ferido,

Raio de sol no prisma, luz e essência,

Não há segredo não, nasci no vidro,

Sou filho da proveta e da ciência.

 

Vim no tempo sem dor e sem gemido,

Vim nascido também sem violência,

É que houve além alguma inteligência

Para que eu viesse ao ventre desse vidro.

 

Em sete meses, pois, eu fui gestado,

Não sou filho da dor e do pecado,

Mas sei que existe em mim algo infeliz.

 

É o atavismo puro de meus ais,

É a falta dolorosa de meus pais,

É a saudade de mãe que não me quis.

Altino Caixeta fez também poemas de forma livre, alguns mais longos, outros curtos, até poemas-relâmpagos, e chegou mesmo a fazer incursões pelas experiências vanguardistas, compondo o poema visual, de feição neoconcretista, como este “Perspicuidade da Rosa”:

Perspícuo

é o poema

no v

á

c

u

o

 

perspícua

é a rosa

 

conspícua

no

v       o

a s

 

de

 

c       a

u i

Mas Altino Caixeta continuou ousando. Fez poemas eivados de nonsense, explorou a fundo o existencialismo e a metafísica, foi às raízes do tempo e do ser, extraiu poemas do cotidiano, da infância, da vida familiar, brincou com as palavras e com as ideias, misturou temas sérios, filosóficos, sociais, com coisas miúdas, fez graça poética, e a tudo imprimiu o caráter de poeticidade, ao seu jeito, com sua dicção de poeta original. E como lembra Maria Esther Maciel: “E mais: passeia por todos os ismos proliferados pelas estéticas de ruptura da tradição moderna, dialoga com textos bíblicos, com a prosa de grandes ficcionistas do Ocidente, relê Borges, Rosa, Barthes, Joyce e Platão, faz da sua obra uma verdadeira Biblioteca de Babel”.

A difícil tarefa do poeta

Na coroa de sonetos decassilábicos, que será apresentada abaixo, Altino Caixeta usa e abusa das metáforas insólitas, da intertextualidade e da metapoesia, rompe com o sistema clássico de rimas, mas nunca abandona a métrica. Sua coroa tem compromisso, ao que me parece, com a poesia modernista. Evoca, em alguns momentos, o estro de Jorge de Lima, outro poeta da minha predileção e estima. E não foi à toa que ele dedicou seu trabalho ao poeta e tradutor capixaba Geir Campos. Mas Altino é, na realidade, um poeta genuíno, da estirpe dos melhores da nossa língua. Se, com meus parcos recursos, consegui, neste ensaio, dar aos leitores uma ideia da grandeza da poesia dele, eu terei realizado o meu objetivo.

Passemos então à “Coroa de Sonetos para uma Cabra” do poeta de Lagoa Formosa, do Brasil e do mundo. Essa é a razão de ser deste texto.

“Coroa de sonetos para uma cabra”

 Altino Caixeta de Castro

A Geir Campos

“Ao templo de Deus traz cada um o que pode:

uns, ouro, prata e pedras preciosas; outros,

linho fino, escarlata e jacinto (zarcão);

no que nos baste oferecer

pele e pelos de cabra.”

Cf (Êxodo – 25-3)

I

Vestida assim de rosa e de alvorada

Teu riso resplandece sobre os músculos.

De Saturnini destes meus crepúsculos

Feitos de tédio e dor sobre o meu nada.

 

Sou escritor. Conheces meus opúsculos,

Os meus ensaios. Ficas encantada

Com meu lirismo doce e camarada

Feito de flor e cânticos minúsculos.

 

Ouves os poemas que te faço e ainda

Escutas os meus passos, minha linda,

Quando eu chego das musas mais sonoras.

 

És a cabra mais bela e mais estranha

Que já encontrei no cimo da montanha

Comendo sol para berrar auroras.

II

Comendo sol para berrar auroras

Topei a minha cabra deslumbrante.

Tinha na face toda luz de Dante,

Beatriz olhada pela rua afora.

 

Quando passou ardente e triunfante,

Cantou meu galo no bater de esporas,

Rostand perdido das perdidas horas

E o soneto melhor de Hermes Fontes.

 

Passou e ninguém viu, fiquei atento.

Se a concha pensa a pérola por dentro,

Fiquei pensando nesta concha quérula.

 

Fiquei comendo azul para balir

Ovelhas, muito fáceis de parir

Balidos cor de neve como a pérola.

III

Balidos cor de neve como as pérolas

São fáceis de fazer para as cabrinhas.

Às vezes, elas, às vezes, são doidinhas

Para balir lá fora dentro delas.

 

Gosto de ouvi-las, às vezes, pelas vinhas

Atrás dos muros altos e das cancelas.

São quando as cabras belas são mais belas

Do que meus tropos pelas odes minhas.

 

Pastor de estrelas, meu ouvido atento,

Escuta o coração do pensamento,

Escuta a luz luciluzir estranha.

 

Mas não me esqueço nunca nem de leve

Destes balidos pérolas de neve

Da cabra que galgou minha montanha.

IV

Da cabra que galgou minha montanha

Guardo vislumbres, dores e gemidos,

Guardo combates, lobos mal feridos,

Guardo o teu sangue de quem vence e apanha.

 

Da cabra que galgou os meus sentidos

Guardo os teus guizos no alto da campanha,

Guardo os teus saltos, guardo a tua manha,

Guardo até mesmo, às vezes, os teus balidos.

 

Só não guardei, cabrinha, os teus berros,

Também sabes, amor, não sou de ferro

Para agüentar assim a berbalir.

 

Trago comigo um pensamento estranho:

Quero perder-te para o meu rebanho

Para salvar as cabras do porvir.

V

Para salvar as cabras do porvir

Do leite em pó que vem das tuas tetas

Urge agarrar os anjos e os capetas

Que vivem a chegar, vivem a fugir.

 

As cabras pretas pelas noites pretas

Mamam estrelas fáceis de luzir.

A minha cabra é branca de balir

As açucenas, os lírios, as violetas.

 

Gosto de vê-la, ao longe, encabritada

Pelas moitas de sol de uma ramada,

Pelas sombras dos montes de arrebol.

 

Gosto de vê-la ruminando à-toa

Etérea, leve, ardente, fresca e boa

As rosas que comeu ao pôr-do-sol.

VI

As rosas que comeu ao pôr-do-sol

Vão dar aquelas pílulas de sândalo

Que nestes tropos já me cheiram escândalo

Das tintas imortais do girassol.

 

Quem fez a arte e a cabra foi um vândalo

Que já gostava de fazer farol,

Um conto de Daudet ou de Gogol,

Depois um Maupassant de quando em quando.

 

E a cabra esplende cada vez mais minha.

Seu berro desabrocha e se esfarinha

Nas minhas mãos de mó de meu moinho.

 

A tarde azul comeu rosa amarela

Perfume que ficou lá dentro dela

Cabra de dor e cabra cor de vinho.

VII

Cabra de dor e cabra cor de vinho.

Tu eras branca de balir e agora

Estás berrante de beber a aurora

Que foi chegando para o meu caminho.

 

A tua mágoa amara come a amora

Dos meus quintais e eu, pastor sozinho,

Pastoreio os teus prantos cor de linho

Pelas escarpas da montanha afora.

 

Bebo do orvalho dos teus olhos.

Canto A rosa ruminada de teu pranto,

A que floresce os cimos dos ciprestes.

 

Recolho o teu perfume mais lascivo

Na certeza maior que ainda vivo

Nos balidos que um dia (vós me destes).

VIII

Nos balidos que um dia (vós me destes),

Firo a sintaxe sem saber de nada.

A minha cabra pula uma alvorada

Como quem traz as asas mais celestes.

 

Cabra-quimera feita em bronze e alada

Comendo a flor um dia todo alpestre,

Vós me pedistes a linguagem agreste

Da portuguesa língua mal falada.

 

De vós e tu, ó cabra, os teus balidos

Ficaram-me bailando nos ouvidos

Medrosos de canônicos furores.

 

É proibido à cabra saltar frases.

É proibido à cabra andar nos ares.

É proibido à cabra comer flores.

IX

É proibido à cabra comer flores

Nestes jardins da língua duvidosa.

Do cimo da montanha a minha rosa

Floresce auroras sombras e palores.

 

A minha cabra come a minha prosa

Feita de frases chilras sem fulgores.

A minha cabra come os meus amores

E engorda, e fica grávida e viçosa.

 

Depois encanta a fúria dos cabritos,

Depois lambe estrelas no infinito,

Depois baba na luz que não vem dela.

 

Mas depois, e que sonho e que deleite,

A minha cabra apenas vai dar leite

Àquela filha estranhamente bela.

X

Aquela filha, estranhamente bela,

Peônia rubra da montanha ardente,

Varava o sol que vinha do Oriente,

Fogoso de morar lá dentro dela.

 

Você já ouviu a dor que dá semente?

Você já ouviu o canto da cancela?

Você conhece a mágoa que atropela

Um punhado de flor dentro da gente?

 

Aquela filha, estranhamente linda,

Era a marca da fábrica que não finda,

Que continua séculos além.

 

A procissão da raça da esperteza,

Um punhado de sonho e de beleza

Ajoelhada sobre o seu amém.

XI

Ajoelhada sobre o seu amém,

Minha cabrinha, a prece do sorriso,

Floria a graça maior do paraíso

Que a gente pensa que não vem e vem.

 

Brumas no sol e manchas no granizo,

Sombras no sol e glórias no desdém,

Auroras do porvir que não convém,

Perguntas sem respostas no juízo.

 

Tudo passou e ela ficou ferida,

Ficou balindo entre a morte e a vida,

Saudades de subir, galgar cansaços.

 

Foi quando exausta aqui, último sopro,

Fez o alpinismo puro do meu corpo,

Subiu pelas montanhas de meus braços.

XII

Subiu pelas montanhas de meus braços,

Mas para quê? Olhar além o ensejo?

Sorrir alturas e ficar com pejo

Das escaladas puras dos seus passos?

 

Vencer a pedra e o vento no revoejo

Das palavras que vingam embaraços?

Transfigurar a última flor do Lácio

No entrelaçar do verso para o beijo?

 

Eis tudo: a minha cabra é furiosa,

Come espinhos e, às vezes, come rosa

Para sonhar o sangue da alvorada.

 

E, lá de cima, bate o sol e bate

Na ardência do fulgor de seu combate

As luzes de meu ser e de meu nada.

XIII

As luzes de meu ser e de meu nada,

Truísmo e tropo que não quero e topo,

A própria cabra é sombra no meu corpo,

Coisa que berra e bale misturada.

 

Coisa assim, penso e existo, como um sopro

Ardendo-me na pele suspirada

Conhece-te a ti mesmo, camarada,

Sem fim, sem meio e fim, sem meio escopo.

 

Ninguém sabia do a priori dela,

Só se sabia da braveza bela,

Do jeito de ser livre, e era tudo.

 

Por isso agora piso neste estrume,

Levo pra casa o lúrido volume

Feito de couro para meu estudo.

XIV

Feito de couro para meu estudo,

Broquéis de luz que o tempo não consagra,

Um dia, pois, topei a minha cabra,

Lendo e relendo um livro de veludo.

 

Criei ciúmes e gritei: não abra

Vigésima quinta página de tudo!

Mas ela abriu e leu, e, eu fiquei mudo

De ver o livre arbítrio desta cabra.

 

Criei estimas só por ela e, um dia,

Quando eu pensava que a cabrinha lia,

Comeu meu livro, comeu-o de uma vez.

 

Lambia os beiços para mim agora,

Foi quando resplendeu na minha aurora

A melhor coisa que uma cabra fez.

XV

Comendo sol para berrar auroras

Balidos cor de neve como a pérola

Da cabra que galgou minha montanha

Para salvar as cabras do porvir.

 

As rosas que comeu ao pôr-do-sol

Cabra de dor e cabra cor de vinho

Nos balidos que um dia (vós me destes)

É proibido à cabra comer flores.

 

Aquela filha estranhamente bela

Ajoelhada sobre o seu amém

Subiu pelas montanhas de meus braços

 

As luzes de meu ser e de meu nada

Feito de couro para meu estudo

A melhor coisa que uma cabra fez.

João Carlos Taveira, poeta e crítico literário, nasceu em Caratinga, Minas Gerais, e reside em Brasília desde 1969. É colaborador do Jornal Opção.

Uma resposta para “O poeta Altino Caixeta de Castro e a coroa de sonetos”

  1. Parabéns!!!

    Crítica feita por quem domina o assunto !!!

    Do céus, o Altino está abençoado o Taveira.

    Obrigado pela citação!

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