Louise Glück, ganhadora do Nobel de Literatura, e sua poética sensorial

Na sua construção poética há elementos descritivos e narrativos, formando histórias que são contadas de forma fragmentada, como se fosse um quebra-cabeças

Simone Athayde

Louise Glück, a ganhadora do prêmio Nobel de Literatura de 2020, era desconhecida no Brasil. Apesar de ser uma escritora já premiada com o prêmio Pulitzer, o National Book Award e outros, não havia livros seus traduzidos no país. Após o anúncio do Nobel, a Companhia das Letras lançou “Poemas 2006-2014”, uma edição bilíngue contendo três livros da autora: “Averno”, de 2006, “Uma Vida no Interior”, de 2009, e “Noite Fiel e Virtuosa”, de 2014. Cada livro foi traduzido por uma poeta (respectivamente Heloisa Jahn, Bruna Beber e Marília Garcia) e em que pesem as dificuldades de transcrição e adaptação da linguagem poética de um idioma a outro, podemos considerar que o trabalho de tradução foi bem-sucedido.

Resenhar essa tríade de livros não é tarefa fácil. Louise Glück tem um estilo diferente de tudo o que eu já havia lido em termos de poesia (o que pode ser positivo, visto que a originalidade é um dos elementos que destaca grandes autores). Há, na sua construção poética, bastantes elementos descritivos e narrativos, formando histórias que nos são contadas de forma fragmentada no decorrer dos poemas, como se fosse um quebra-cabeças que, ao montar, percebemos que algumas peças faltam. O cenário (representado pela natureza, pelas estações do ano que se sucedem, pelos contrários como dia e noite, inverno e verão, seca e chuva) tem importância fundamental, assim como sua interação com os personagens.

No primeiro livro, “Averno”, a poeta parte do mito grego de Perséfone, mas funde esse mito com outras histórias que poderiam ocorrer em qualquer lugar do mundo (veja-se que a universalidade também é um elemento que define os clássicos). Na mitologia, Perséfone, considerada a deusa da agricultura e das estações do ano, era filha de Zeus e de Deméter. Por possuir grande beleza, passou a ser desejada por Hades, deus do mundo inferior que a sequestrou. Numa tentativa de ter a filha de volta, Deméter pede que Zeus intervenha, mas Hades usa de artimanhas e tudo o que é permitido a Perséfone é que ela passe uma parte do ano no Olimpo. Na outra parte, quando ela volta ao mundo inferior, a terra se torna gelada devido à tristeza de Deméter. Esse mito tenta explicar, assim, a origem do inverno.

Em “Averno”, a voz lírica vê a mudança das estações, sofre com a neve que endurece a terra e os corações, faz uma reflexão melancólica sobre a impermanência da vida a partir da observação dos acontecimentos da natureza, como no poema “As migrações noturnas”:

“Este é o momento em que voltamos a ver

Os frutos rubros da sorveira

E no escuro céu

As migrações noturnas das aves

Me dói pensar

Que os mortos não vão vê-los —

Essas coisas das quais dependemos

Desaparecem.”

Louise Glück: Prêmio Nobel de Literatura de 2020 | Foto: Reprodução

No longo e belo “Outubro”, a partir da constatação de que é inverno de novo, o eu-poético começa a fazer considerações sobre a rápida passagem das estações em contrapartida à estação gelada que parece muito longa e que, de certa forma, é uma alegoria das dificuldades impostas pela existência:

“a morte não pode me ferir

Mais do que você me feriu,

Minha bem-amada vida.”

Ainda nesse poema, como se fosse um anexo, uma digressão, há reflexões sobre a arte e o papel do artista:

“É verdade que não há beleza suficiente no mundo.

Também é verdade que não tenho competência para

[restaurá-la.”

“Como se fosse dever do

Artista criar esperança, mas tirar do quê? Do quê?”

Um outro poema alegórico é “Pérsefone, a andarilha”, no qual fica exposta a fragilidade feminina diante dos perigos que rodeiam nossa condição no mundo:

“A primeira residência

De Perséfone no inferno continua sendo

Esmiuçada por eruditos que debatem

As sensações da virgem:

Teria ela cooperado com seu rapto,

Ou foi drogada, violada à força,

Como acontece tantas vezes hoje com as garotas modernas?”

Os demais poemas de Averno, embora belos, são os de mais difícil interpretação da tríade, embora a poesia, em primeira instância, não necessite de ser interpretada, mas de ser sentida, apreciada.

“O Mito da Devoção” fala sobre como Hades construiu uma casa/prisão para Perséfone, e pode ser lido como a argumentação que faz um amante abusivo sobre seu relacionamento com a mulher abusada: o aprisionamento é maquiado com mensagens de falso carinho e cuidado, o fingimento serve como armadilha para capturar a confiança da presa feminina:

“Uma luz suave subindo sobre o prado raso,

Por trás da cama. Ele a toma nos braços.

Quer dizer Amo você, nada vai magoá-la

Mas pensa

Isso é mentira, então no fim diz

Você está morta, nada vai magoá-la

Que lhe parece

Um início mais promissor, mais verdadeiro.”

Na minha opinião o poema mais bonito desse livro é “Averno”, que fala de envelhecimento e da solidão que causa aos velhos: “é terrível ser sozinha./ não me refiro a viver sozinha —, / mas a ser sozinha, sem ninguém que nos ouça.”

Fala também do fato da vida não ser segura, não ser confiável aos jovens:

“Algumas garotas me perguntam

Se estarão seguras nas proximidades de Averno —

Têm frio, querem passar um tempinho no sul.

E uma diz, brincando, mas não tão ao sul —

 

Eu digo, tão seguras quanto em qualquer lugar,

O que as deixa felizes.

O significado é: nada é seguro.

No segundo livro, “Uma Vida no Interior”, temos um apanhado de narrativas poéticas, cujos eus-líricos configuram diferentes personagens que lidam, cada um a seu modo, com a vida na terra e suas dificuldades, desafios e belezas. Nos poemas são retratadas: as passagens das estações, como o verão com os calores e os insetos, o inverno com a neve que enterra toda a vida e a primavera na qual tudo volta a desabrochar; as estações da vida: a infância com suas brincadeiras, a adolescência e o despertar do interesse pelos namoros, os anos iniciais apaixonados do casamento e o amadurecer das relações com seus desgastes. Também nesse livro há a presença das antíteses: inverno/verão, dia/ noite, campo/ cidade, passado/futuro, como no trecho do poema “Solstício de Verão”, no qual o eu-lírico relembra os tempos de juventude na cidade do interior e sente a melancolia pela saída do campo na busca por melhores perspectivas de vida na cidade.

“Você vai deixar a cidadezinha onde nasceu

E vai enriquecer em outro lugar, vai conhecer o poder,

Mas para sempre lamentará algo que ficou para trás, mesmo

[que não saiba o quê,

E por fim voltará para buscá-lo.”

Nesse livro, Glück nos presenteia com retratos de um tempo que não volta mais, com cenários e personagens que, embora americanos, são universais em essência. Ficamos com saudades das comidas da vó, de passeios em fazendas de parentes, dos cheiros e das brincadeiras da infância.

No poema “Meio-dia” temos a descrição bucólica de uma amizade entre adolescentes que se desenvolve em amor e desejo, a narrativa poética apresentada com sutilezas e elegância num cenário de piquenique:

“O que vem depois — ensejo para que duas pessoas se deitem

[na manta —

Eles sabem do que se trata, mas ainda não estão preparados.

Conhecem quem já tenha feito algo assim, numa espécie de

jogo ou desafio –

Então dizem, não, não está na hora, prefiro continuar sendo

[criança.”

A presença forte da natureza nesses dois primeiros livros, que atua como extensão dos personagens, seja como fonte de alegria, de assombro ou de tormentos, se repete no terceiro, Noite Virtuosa, no qual temos as memórias fragmentadas e de cronologia aleatória de um eu-lírico que ora relembra sua infância, ora sente seu processo de envelhecimento e solidão, ora está à beira da morte. Desse eu-lírico, conforme vamos costurando suas memórias, descobrimos que é um artista plástico que nunca conseguiu desvencilhar-se da perda dos pais num acidente. Criado pela abnegada tia, teve no irmão mais velho, que lia histórias sobre o rei Arthur, o fio-condutor de sua existência, um companheiro que, mesmo à distância, era quase uma continuação de seu próprio ser. Destaque para o poema homônimo ao título, belíssimo.

Nesse livro, somos tocados por essas ausências que a vida impõe sem avisos e sem pena, por essas dores e tristezas que persistem por toda uma existência, por destinos que poderiam ter sido mais felizes, como se fossem histórias reais, que já vivemos ou que outras pessoas que conhecemos já viveram, e a autora, ao criar essas narrativas, as faz de forma bela e comovente. Vejamos por exemplo o trecho do poema “A série branca” em que o eu-lírico nos conta de uma viagem que faz, maduro e falido, para a casa do irmão que o acolhe:

“Por quase todo o trajeto, ficamos em silêncio.

A sensação era de recuperamos

Uma configuração de nossa infância:

As pernas encostadas, o volante

Agora substituía o livro.

 

Num sentindo mais fundo, os elementos eram permutáveis:

Será que meu irmão não esteve mesmo sempre dirigindo,

Conduzindo nós dois para fora do quarto sombrio

Na direção de uma noite cheia de pedras e lagos,

Com algumas espadas erguidas aqui e ali –

 

O céu estava negro. A terra, branca e fria.”

Como características da poética dessa obra-tríade de Louise Glück poderíamos citar a criação de narrativas desmembradas ao longo de poemas, a presença da natureza enquanto construtora de destinos, a presença das memórias, de confissões e reflexões dos eus-líricos/ personagens, a predileção por poemas longos e por repetições de temas e elementos que se interligam para a construção das narrativas poéticas. Pode-se dizer que nessa obra temos uma poesia sensorial, no sentido de que as descrições envolvem os sentidos, como a visão das paisagens: “Lá embaixo, o rio resplandecia. Como eu disse,/ tudo brilhava – as estrelas, as luzes na ponte, os imponentes prédios iluminados que eram cortados para dar passagem ao rio e retornavam adiante, / o trabalho humano / interrompido pela natureza.”; a audição, com os barulhos da natureza: “é a voz da minha mãe que você está ouvindo/ ou será apenas o som que fazem as árvores /quando o ar atravessa”; o olfato com os cheiros evocados: “Sinto o cheiro. Cheiro de pinheiro/ ainda mais intenso quando o vento/ o atravessa e produz um som estranho, / feito sopro de vento num filme”.

Embora sua poética possa ser considerada um tanto hermética, para quem aprecia a poesia vale a pena conhecer os três livros (editados num só volume) de Louise Glück. A Companhia das Letras promete outros de sua lavra.

Simone Athayde, crítica literária e escritora, é colaboradora do Jornal Opção.

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