Rio Araguaia resiste como último grande rio livre do Cerrado e abriga peixes gigantes ameaçados (conheça as espécies)
24 maio 2026 às 13h00

COMPARTILHAR
No coração do Brasil, o Rio Araguaia corre livre há milhares de quilômetros sem a interrupção de barragens, feito raro que o torna o último grande rio livre do Cerrado brasileiro e um verdadeiro santuário da biodiversidade aquática, onde vivem gigantes lendários como a piraíba (que pode ultrapassar dois metros de comprimento), a pirarara, o jaú, a cachara, o barbado, a matrinxã, o tucunaré e a aruanã.
Entretanto, a pressão da pesca predatória, o desmatamento das margens, o assoreamento acelerado e o avanço das atividades humanas já ameaçam o equilíbrio desse ecossistema único. Além disso, uma espécie tem gerado debates acalorados entre pescadores e cientistas – o tambaqui – antes raro ou inexistente na região, agora aparece em abundância.
Para conhecer de perto a realidade da pesca no Araguaia, o Jornal Opção conversou com Sidnei Borges Lima, mais conhecido como Calango, guia de pesca em Aruanã. Calango trabalha com pesca esportiva e, com entusiasmo, descreve a temporada atual. “Atualmente eu estou fazendo umas belas pescarias aqui de várias piraíbas, pirarara, satisfazendo os clientes, e quero desejar que venha todo mundo aqui pra participar dessas aventuras maravilhosas que é pegar as piraíba, pirarara, tem vários outros peixes pequenos, maiores, e a gente faz qualquer tipo de pescaria, mas o forte aqui mesmo está sendo a piraíba e a pirarara.”
Quando perguntado sobre quais espécies estão mais raras, ele responde com o nome do peixe mandubé. “Diminuiu bastante, antigamente tinha muito.”
Em relação ao tambaqui, Calango defende que a espécie sempre esteve presente no Araguaia. “Esse peixe ele vem daqueles rios muito embaixo, então antigamente não pescavam, então que agora está mais, mas é porque estão pescando mais, eu acredito que ele já estava no Araguaia, porque eu sou nascido e criado na cidade e eu pesco desde criança e sempre ouvi o tambaqui no Araguaia, não é algo novo”, afirma.

Calango já fisgou uma piraíba de mais de 2 metros, e seu segredo é a paciência: “pescaria de paciência, piraíba você tem que vir, se você tiver paciência ela sai, é difícil não sair.”
Entretanto, a visão do pescador contrasta com o rigor das pesquisas. O professor Fabrício Barreto Teresa, doutor em biologia animal e pesquisador da Universidade Estadual de Goiás (UEG), integra o Programa de Pesquisa em Biodiversidade no Araguaia e explica por que o tambaqui é considerado uma espécie não nativa.
“O fato é que não há registro histórico do Tambaqui nas coleções científicas, não existem fotos antigas do Tambaqui”, afirma. “Não há registro histórico do Tambaqui na bacia, ele é um peixe que fica grande e fica abundante, então não tem a possibilidade de a gente não ter visto ele.”
Fabrício aponta a hipótese mais provável: escapes há cerca de 15 anos. “Muito provavelmente resultado de introduções por pisciculturas”, resume.
Além disso, o professor detalha os quatro principais impactos ecológicos que o tambaqui pode causar: primeiro, a predação “ele vai começar a comer as espécies nativas”; segundo, a competição por alimento com peixes parecidos, como a caranha; terceiro, a hibridização “o Tambaqui pode cruzar com a caranha que é nativa e formar um híbrido”, que pode ser fértil e degenerar a espécie nativa; e quarto, a transmissão de parasitas e doenças. “Tudo leva a crer que uma espécie não nativa traz problemas”, alerta. “A gente tem muito temor com o Tambaqui em causar esse risco ecológico.”
Por outro lado, Fabrício reconhece o benefício econômico de curto prazo do peixe no local. “As pessoas gostam de pescar o Tambaqui, ele é esportivo. Agora, as consequências em longo prazo a gente pode pagar um preço alto por ela também.”
Ainda assim, ele destaca que o rio sofre com ameaças mais amplas. “Nos últimos 30 anos, houve redução de cerca de 35% a 40% na superfície de água do rio”, revela, citando assoreamento, retirada ilegal de água, poluição por agrotóxicos e desmatamento da mata ciliar. “O que a gente está vendo é uma ocupação desenfreada, uma especulação imobiliária nas margens.”
Em meio a esse cenário, os próprios pescadores emergem como aliados da conservação. “Eles são os verdadeiros fiscais do rio”, elogia Fabrício. “Se eles veem alguém fazendo pesca predatória, eles denunciam. Se eles veem alguém captando água, eles denunciam.”

O pesquisador conta que o projeto Araguaia Vivo, uma parceria que reúne cerca de 200 cientistas e que começou em 2023, já implantou um monitoramento participativo da pesca, no qual os guias registram tamanhos e espécies. “A gente está aproveitando o grande conhecimento que eles têm”, diz. “Já publicamos livros sobre frutas consumidas por peixes, e os co-autores são guias de pesca.”
Curiosidades à parte, Fabrício revela um dado que impressiona por si só. “Na Bacia do Araguaia a gente tem uma espécie que tem a maior descarga elétrica no reino animal. É o Poraquê, o peixe elétrico. Ele só ocorre no Araguaia e nenhum lugar mais. E tem a maior descarga elétrica do reino animal: 850 volts.”
Ele também explica o drama da piraíba: “É um peixe migrador de longa distância. Durante a reprodução, ela desloca centenas de quilômetros subindo o rio para desovar. Ela vai enfrentar todos esses desafios, pesca predatória, poluição, assoreamento.”
“A gente tem que ter um esforço coletivo das pessoas, dos políticos, para manter o rio conservado”, conclui Fabrício. “Porque a pesca, o turismo de natureza, as praias, tudo isso só vai ser sustentável se o rio estiver saudável.”
Espécies emblemáticas do Araguaia
Além da importância ecológica do Rio Araguaia, sua fama também está ligada à impressionante diversidade de peixes que habitam suas águas. Muitas dessas espécies são consideradas símbolos da pesca esportiva e da biodiversidade do Cerrado brasileiro.
Piraíba
Conhecida como um dos maiores peixes de água doce da América do Sul, a piraíba pode ultrapassar dois metros de comprimento e pesar mais de 100 quilos. É um peixe migrador de longa distância, capaz de percorrer centenas de quilômetros durante o período reprodutivo. Sua captura é considerada um troféu entre pescadores esportivos, principalmente pela força e resistência durante a briga.
Pirarara
A pirarara chama atenção pela coloração marcante, com tons avermelhados na cauda e nas nadadeiras. É um grande bagre carnívoro, muito valorizado na pesca esportiva pela agressividade e tamanho. Diferentemente da piraíba, costuma habitar áreas mais profundas e com troncos submersos.
Jaú
O jaú é outro gigante dos rios brasileiros. Pode atingir grandes proporções e vive principalmente em poços profundos. Trata-se de um predador noturno, alimentando-se de peixes menores e outros animais aquáticos. A espécie sofre pressão da pesca predatória e da degradação dos rios.
Cachara
Muito apreciada tanto na culinária quanto na pesca esportiva, a cachara pertence ao grupo dos surubins. Seu corpo apresenta manchas características que ajudam na camuflagem. É uma espécie importante para o equilíbrio ecológico por ocupar posição intermediária na cadeia alimentar.
Barbado
O barbado é um peixe de couro bastante comum em grandes rios do Centro-Oeste. Recebe esse nome pelos longos barbilhões sensoriais usados para localizar alimento em águas turvas. É resistente e adaptado a ambientes de correnteza.
Matrinxã
A matrinxã é conhecida pela velocidade e pelos saltos impressionantes quando fisgada. Alimenta-se de frutos, sementes e pequenos animais, desempenhando papel importante na dispersão de sementes nas áreas alagadas. É considerada uma das espécies mais esportivas da pesca continental brasileira.
Tucunaré
O tucunaré é um predador extremamente agressivo e territorial. Famoso pelos ataques explosivos às iscas artificiais, tornou-se um dos peixes preferidos da pesca esportiva no Brasil. Apesar de muito valorizado, sua introdução em alguns rios fora da área original também gerou impactos ambientais.
Aruanã
A aruanã possui comportamento curioso e elegante, nadando próxima à superfície. É conhecida pela capacidade de saltar para capturar insetos e pequenos animais acima da água. Sua aparência alongada e os movimentos suaves fazem dela uma das espécies mais icônicas dos rios brasileiros.
Leia também:



