Por: Hugo de Oliveira Barbosa, Maisa Carvalho Vieira, Dilermando Pereira Lima Júnior, Luciano B. Lima, Ezequiel Aguiar de Oliveira, Ketilly Vitória da Silva Cunha, Paulo Vitor Santos Rabelo e Fabrício Barreto Teresa – Especial para o Jornal Opção

A bacia do rio Araguaia abriga uma das ictiofaunas mais ricas do país e desempenha papel fundamental na manutenção da biodiversidade aquática do Cerrado. Essa riqueza é facilmente percebida por quem conhece o rio, especialmente pela diversidade de peixes que atrai pescadores de várias regiões do Brasil. A pesca movimenta o turismo e a economia nas cidades ribeirinhas, com destaque para espécies emblemáticas, como a piraíba (Brachyplatystoma filamentosum) e a pirarara (Phractocephalus hemioliopterus), conhecidas pelo grande porte e pela esportividade. Além da importância ecológica, o Araguaia é fonte de alimento, renda e lazer para milhares de pessoas, o que faz com que qualquer alteração na composição das espécies tenha potencial para gerar impactos ambientais, sociais e econômicos relevantes. E é sempre bom lembrar que essa grande biodiversidade do Araguaia se mantém devido ao fato de que o rio Araguaia é o último grande rio do Cerrado brasileiro não afetado por barragens, o que permite que ele mantenha uma alta integridade do ecossistema.

Cada vez mais frequente nas pescarias esportivas no rio Araguaia, o tambaqui (Colossoma macropomum) vem chamando atenção não apenas pelo grande porte e esportividade, mas também pelos riscos ambientais que representa fora de sua área natural de ocorrência. Nativo das bacias Amazônica e do Orinoco, esse peixe é amplamente cultivado na piscicultura brasileira devido ao rápido crescimento e à alta aceitação no mercado. No entanto, sua presença em rios onde não ocorre naturalmente, como o Araguaia, desperta preocupação, já que espécies não nativas podem alterar o equilíbrio ecológico e comprometer a biodiversidade local.

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Espécie nativa da bacia Amazônica, o tambaqui vem sendo registrado com frequência crescente no rio Araguaia, despertando preocupação sobre seus impactos ecológicos | Foto: arquivo pessoal

Estudos recentes sobre a distribuição das espécies de peixes da América do Sul confirmam que o tambaqui não é nativo do rio Araguaia. A expansão do tambaqui para áreas fora de sua distribuição natural está relacionada principalmente à ação humana. Entre as principais causas estão escapes de pisciculturas, devido ao rompimento de tanques ou açudes durante períodos chuvosos, uso em pesque-pagues e solturas intencionais (“peixamentos”). No caso do rio Araguaia, a hipótese mais provável é que a introdução tenha ocorrido há mais de uma década por meio do escape de tanques de criação, permitindo que juvenis e adultos alcançassem o rio e lagos.

Desde a sua introdução, a cada ano os registros de tambaqui nas pescarias no rio Araguaia têm se tornado mais comuns, o que indica que o tambaqui já está estabelecido em partes da bacia (ou seja, estão se reproduzindo e apresentam populações viáveis). Entretanto, a espécie ainda em fase de expansão de sua área de distribuição geográfica nos ecossistemas onde foi introduzido, de modo que sua interação com as espécies nativas altera relações ecológicas históricas e desequilibra o ecossistema. Esse processo é chamado de invasão biológica.  

As invasões biológicas são a segunda causa de perda de biodiversidade no mundo, ficando apenas atrás da perda de habitat. A introdução e o estabelecimento de espécies não-nativas podem provocar alterações na estrutura das comunidades, modificar cadeias alimentares, aumentar a competição por recursos e favorecer a disseminação de parasitas e doenças. Em muitos casos, esses impactos ocorrem de forma silenciosa e gradual, tornando difícil perceber suas consequências no curto prazo. No entanto, ao longo do tempo, essas alterações podem comprometer o funcionamento ecológico do ambiente e reduzir a abundância de espécies nativas.

No caso do tambaqui, um dos principais riscos é a predação e a competição por alimento com espécies nativas que exploram recursos semelhantes. Por ser uma espécie onívora e apresentar grande plasticidade alimentar, o tambaqui consome frutos, sementes, zooplâncton e outros itens disponíveis no ambiente, podendo competir por esses recursos diretamente com espécies nativas. Essa capacidade de utilizar diferentes fontes alimentares favorece sua adaptação a novos ambientes e pode representar uma vantagem competitiva sobre espécies locais como, por exemplo, a caranha ou pirapitinga (Piaractus brachypomus).

Outro impacto potencial é o cruzamento com espécies nativas próximas evolutivamente, como a caranha, produzindo um híbrido conhecido por “tambatinga”, reduzindo assim a integridade genética das populações nativas. Esse processo pode comprometer a conservação das espécies locais ao longo do tempo, especialmente se os híbridos apresentarem vantagens adaptativas em relação às espécies puras. Essa possibilidade não é uma mera especulação de pesquisadores. Ela já está acontecendo em muitos locais. Por exemplo, na bacia do rio Paraná híbridos de pintado (Pseudoplatystoma corruscans) e cachara (Pseudoplatystoma reticulatum) já são encontrados em muitas partes da bacia, comprometendo a diversidade genética das populações naturais dessas espécies.

Finalmente, espécies introduzidas podem atuar como vetores de parasitas e doenças. Mesmo quando não causam mortalidade imediata, esses agentes podem reduzir a condição corporal, o sucesso reprodutivo e a resistência das espécies nativas. Em sistemas aquáticos complexos, esses efeitos podem desencadear desequilíbrios em diferentes níveis da comunidade biológica. Mas essa possibilidade novamente não é uma mera especulação de pesquisadores? A resposta é não. Há vários exemplos de efeitos negativos de parasitas invasores que nos prejudicam: para sistemas agrícolas podemos citar a ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi), um fungo nativo da Ásia; podemos citar também o vírus da dengue e seu vetor Aedes aegypti, ambos nativos da África subsariana. 

Tambaqui e a pesca esportiva

No contexto da pesca esportiva, o tambaqui tem sido um atrativo para pescadores do Araguaia. É um caso em que uma espécie não nativa gera retorno econômico positivo no curto prazo. O mesmo ocorre com o tucunaré, que não é nativo da bacia do Paraná, mas é amplamente explorado pela pesca esportiva naquela região. Alguns pescadores defendem o pesque e solte do tambaqui no Araguaia, argumentando que os impactos negativos ainda não são perceptíveis, enquanto seus benefícios, como a atração de pescadores, já são evidentes. Entretanto, o sucesso na pesca esportiva contrasta com o risco ecológico, que pode se tornar evidente apenas após muitos anos. Na Planície do Alto Paraná, por exemplo, o aumento das populações de espécies de peixes não nativas influenciou a queda de 50% do potencial pesqueiro (valor monetário da pesca) da região a longo prazo. Assim, as espécies não nativas trazem um risco silencioso e, quando os impactos aparecem, frequentemente já não é mais possível revertê-los.

As pesquisas que vêm sendo desenvolvidas

Diante desse cenário, o monitoramento científico torna-se essencial para compreender a dimensão da invasão e avaliar seus possíveis impactos sobre a biodiversidade local. Pesquisadores vêm acompanhando a ocorrência do tambaqui em diferentes regiões do rio Araguaia, avaliando aspectos como alimentação, reprodução, distribuição e interação com espécies nativas. Essas informações são fundamentais para entender o potencial de estabelecimento da espécie e orientar estratégias de manejo e conservação.

Nesse contexto, pesquisadores de diferentes instituições (UEG, UFMT, UNB, UFG, UFSCAR e UFGD) vêm desenvolvendo o projeto “O invasor do Araguaia: estudo multidisciplinar dos padrões ecológicos e genéticos do tambaqui (Colossoma macropomum)” no contexto do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Biodiversidade e Uso Sustentável de Peixes Neotropicais (INCT Peixes) em parceria com o programa “Araguaia Vivo 2030” (@araguaiavivo), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), gerenciado pela Tropical Water Research Alliance (TWRA), e PPBio Araguaia (@ppb.araguaia). O projeto tem o objetivo de compreender como a espécie vem se estabelecendo na bacia e quais riscos essa invasão pode representar para os ecossistemas aquáticos. As pesquisas abrangem diferentes trechos do rio, entre os municípios de Aruanã (GO) e São Félix do Araguaia (MT), incluindo análises sobre a dieta, a reprodução, a genética e a distribuição da espécie.

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Durante as campanhas, os indivíduos capturados passam por análises biométricas e reprodutivas para avaliar o potencial de estabelecimento da espécie na bacia | Foto: divulgação

A pesquisa ainda está em andamento, mas os resultados parciais obtidos até o momento mostram que o tambaqui apresenta elevada plasticidade alimentar, ajustando sua dieta conforme a disponibilidade de recursos ao longo das estações do ano. Foram encontrados na sua dieta, em ordem de maior importância, zooplâncton, material vegetal, insetos e peixes. O zooplâncton compõe um grupo de pequenos organismos que vivem à deriva na coluna d’água e que desempenham um papel fundamental no ecossistema. Esses organismos se alimentam das algas e por sua vez são alimento de muitos peixes, tendo grande importância na base da cadeia alimentar. O tambaqui parece estar se beneficiando dessa fonte de alimento, o que pode alterar a disponibilidade de energia disponível para as espécies nativas, influenciando a viabilidade e o tamanho das populações de peixes que são detritívoras e planctófagas (aquelas que se alimentam de pequenos organismos a deriva) e, eventualmente, os peixes piscívoros que se alimentam dessas espécies.

O tambaqui, como bom oportunista que é, também se alimenta dos itens alimentares mais comuns em cada época. É comum, por exemplo, encontrar peixes com estômagos cheios de frutos na época em que estão maduros. Pescadores também capturam tambaquis usando iscas de peixes, inclusive durante pescarias de peixes grandes como a piraíba e a pirarara. Isso mostra a capacidade da espécie de se aproveitar dos itens alimentares disponíveis no ambiente.

A plasticidade do tambaqui também reflete no seu uso do habitat. A espécie é encontrada no canal dos rios, se alimentando dos frutos nas margens, assim como nos lagos de boca franca e também nos lagos desconectados do rio no período das secas. Ao longo das coletas foram encontrados diversos lagos isolados, muitas vezes distantes vários quilômetros do rio Araguaia, com alta densidade de tambaqui. Durante a estação chuvosa, quando o rio sobe e alaga as áreas de planície, esses lagos isolados se conectam e os peixes que estavam isolados se distribuem pela área alagada, podendo ocupar novos ambientes, incluindo o canal principal. Essa capacidade de adaptação favorece sua sobrevivência em diferentes condições ambientais e aumenta as chances de estabelecimento.

Uma das evidências mais importantes de nossos estudos foi a confirmação do estabelecimento do tambaqui no Araguaia. Isso se deu principalmente por meio de registro de larvas de tambaqui no ictioplâncton (ovos e larvas de peixes). Esse resultado indica que a espécie não apenas está presente na bacia, mas já consegue completar seu ciclo reprodutivo em ambiente natural. A presença de larvas demonstra que a população pode estar se renovando no próprio rio, ampliando significativamente seu potencial invasor e os riscos associados à expansão populacional. A partir de coletas de amostras de ictioplâncton realizadas na expedição do Programa Araguaia Vivo 2030, que percorreu 150 lagos desde Aruanã, GO até o município de Caseara, TO, foi possível rastrear a presença de ovos e larvas de tambaqui ao longo de todo o percurso.

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Análises das gônadas de tambaquis coletados no rio Araguaia permitem avaliar o período reprodutivo da espécie e ajudam a identificar sinais de estabelecimento da população na bacia | Foto: divulgação

Outra linha de pesquisa, ainda em andamento, busca entender se os tambaquis presentes no Araguaia estão cruzando com espécies próximas. Quando isso acontece, podem surgir indivíduos híbridos, ou seja, peixes com características misturadas de diferentes espécies. Esse tipo de cruzamento pode levar, ao longo do tempo, à mistura dos genes entre as espécies, o que pode fazer com que as populações nativas percam suas características originais. Isso é preocupante porque essas características são resultado de adaptações ao ambiente e ajudam na sobrevivência das espécies. Além disso, a presença de híbridos pode dificultar a identificação correta das espécies, confundindo o entendimento sobre a biodiversidade e a distribuição natural dos peixes no rio. Por isso, parte da pesquisa também se dedica a identificar diferenças visíveis entre os peixes, que permitam distinguir indivíduos “puros” daqueles que são híbridos. Essa etapa ainda está em desenvolvimento e deve trazer informações importantes nos próximos anos.

O problema da introdução de espécies não nativas também é um tema que deve ser explorado no ensino a fim de conscientizar os jovens sobre os riscos para a conservação da biodiversidade. Um exemplo disso é o do professor Dr. Ezequiel Aguiar Oliveira que utiliza o tambaqui como modelo de estudos nas aulas de ciências da Escola Estadual Presidente Tancredo de Almeida Neves de São Félix do Araguaia, MT. Além de colaborar com a captura de material para a pesquisa, os peixes são usados nas aulas práticas da escola.

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Professor Dr. Ezequiel Aguiar Oliveira com seus alunos da Escola Estadual Presidente Tancredo de Almeida Neves utilizando o tambaqui como modelo de estudo sobre invasões biológicas em São Félix do Araguaia, MT | Foto: divulgação

Esses resultados das diferentes pesquisas são fundamentais para compreender o comportamento ecológico do tambaqui no Araguaia e antecipar possíveis impactos negativos sobre a fauna nativa. Ao identificar como a espécie se alimenta, se reproduz e se dispersa, a pesquisa fornece subsídios científicos importantes para orientar políticas públicas e ações de manejo voltadas à conservação da biodiversidade aquática.

Há risco de novas invasões?

O tambaqui no Araguaia também nos alerta sobre os riscos da introdução de outras espécies não nativas nessa bacia. Espécies de peixes não nativas como o bagre africano, a tilápia, a carpa e o panga são exemplos de espécies de outros países que estão sendo introduzidas em rios brasileiros e levando grande risco à fauna local. Por exemplo, o rio Meia Ponte que passa pela capital do estado está com grande população de bagre africano (Clarias gariepinus), peixe de origem africana que é predador voraz. Mas mesmo espécies brasileiras, quando presentes em bacias fora da sua área de ocorrência natural também são consideradas não nativas e trazem os mesmos riscos, como é o caso do tambaqui no Araguaia. O pirarucu e o tucunaré também foram introduzidos em várias bacias do sul do Brasil. No caso do pirarucu o Ibama publicou uma Instrução Normativa permitindo o seu abate nas bacias onde ele não é nativo (por exemplo, bacias do Paraná, Paraguai, São Francisco, alto Madeira, bacias do Atlântico).

Recomendações

Diante do avanço do tambaqui no rio Araguaia, é fundamental adotar medidas que reduzam os riscos associados à introdução e dispersão dessa espécie. Entre as ações necessárias estão o fortalecimento da fiscalização em pisciculturas, o controle de escapes acidentais e a conscientização sobre os impactos da soltura de peixes em ambientes naturais. Além disso, o monitoramento contínuo das populações invasoras e das espécies nativas é essencial para detectar alterações ecológicas e orientar respostas adequadas.

No estado de Goiás, a captura e o transporte do tambaqui já são permitidos, pois a espécie consta na lista oficial de espécies não nativas do estado e isso já está relativamente pacificado junto aos órgãos de fiscalização. É necessário que os demais estados que abrangem o Araguaia e o rio Tocantins sigam esse exemplo e atualizem suas normativas, incluindo o tambaqui entre as espécies não nativas cujo abate e transporte são permitidos. Isso dará maior segurança jurídica aos pescadores que realizam o serviço ambiental de retirar esse peixe não nativo do ambiente. Prevenir a expansão das espécies não nativas é uma medida necessária para proteger não apenas a biodiversidade aquática, mas também os serviços ecossistêmicos e as atividades econômicas que dependem do equilíbrio ecológico do rio Araguaia.

Confira quem são os autores do artigo

Hugo de Oliveira Barbosa – Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Campus Norte, Unidade Universitária de Porangatu e pesquisador do “Programa Araguaia Vivo 2030” da TWRA

Maisa Carvalho Vieira – Professora do Instituto Federal Goiano (IFGoiano) e pesquisadora voluntária do “Programa Araguaia Vivo 2030”

Dilermando Pereira Lima Junior – Professor da Universidade Federal de Mato Grosso/Campus Araguaia, pesquisador do Laboratório de Ecologia e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos do Cerrado, pesquisador associado ao Projeto Peixara, PPBio Araguaia e “Programa Araguaia Vivo 2030” da TWRA

Paulo Vitor Santos Rabelo – Doutorando em Ecologia pela Universidade de Brasília (UnB), Laboratório de Limnologia, Campus Darcy Ribeiro, Instituto de Biologia. Pesquisador voluntário do “Programa Araguaia Vivo 2030” da TWRA

Ezequiel Aguiar de Oliveira – Professor do Escola Estadual Presidente Tancredo de Almeida Neves e pesquisador colaborador do INCT Peixes.

Luciano B. Lima – Professor da Universidade do Estado de Mato Grosso, Campus Nova Xavantina e Pesquisador associado ao Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas Aquáticos (LECEA) da Universidade Federal de Mato Grosso.

Ketilly Vitória da Silva Cunha – Graduanda em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), pesquisadora voluntária do “Programa Araguaia Vivo 2030” e do INCT Peixes.

Fabrício Barreto Teresa – Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), pesquisador do INCT Peixes, coordenador da atividade de Turismo e Pesca do Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA, vice-coordenador do PELD Araguaia, pesquisador associado ao PPBio Araguaia e pesquisador do Centro de Excelência em Segurança Hídrica (CEHIDRA).