Temos que admitir que vai ser bonito ver os colonizados ganhando dos colonizadores. Mesmo tendo o Brasil como time de coração, temos que ceder ao fato que a Argentina, colonizada principalmente pelo Império Espanhol a partir de 1516, prepara-se para dar um show às avessas contra a Espanha neste domingo, 19, em Nova Jersey. 

As projeções estatísticas do ‘supercomputador’ da Opta concedem aos argentinos 43,69% de probabilidade de levantar a taça, posicionando-os como a segunda força mais cotada para o título. A Espanha lidera os modelos matemáticos, porém finais de Copa do Mundo raramente se decidem pela estética. Sabemos que o vencedor é quem tem a maior capacidade de explorar brechas, administrar o caos emocional e converter meias chances em gols, uma especialidade que a atual campeã domina com maestria.

A trajetória argentina até aqui revela uma seleção que cultiva o sofrimento como método. Contra Cabo Verde, nas oitavas de final, precisou arrastar o jogo para a prorrogação e venceu por 3 a 2 em meio a decisões de arbitragem que levantaram sobrancelhas ao redor do mundo. Diante do Egito, nas quartas, protagonizou outra virada pelo mesmo placar, novamente acompanhada por lances que geraram debates sobre a imparcialidade da arbitragem. 

No entanto, Lionel Scaloni construiu uma máquina que não exige a posse de bola para impor sua personalidade. A equipe transita da defesa para o ataque com velocidade, defendendo-se em zonas média e baixa enquanto prepara o bote. Essa identidade coletiva representa uma evolução em relação à dependência messiânica de outros tempos. 

Enzo Fernández decidiu contra o Egito e empatou diante da Inglaterra; Alexis Mac Allister oferece resiliência no meio-campo; Lautaro Martínez e Julián Alvarez convertem as oportunidades que aparecem. O time aprendeu a vencer sem brilhar constantemente, qualidade que define campeões e desespera adversários.

Quanto a Lionel Messi, reconheço a genialidade sem sentir simpatia. Aos 39 anos, ostenta oito gols e quatro assistências nesta edição, participando diretamente de gols argentinos em todas as sete partidas disputadas. Seus passes para o empate e a virada contra a Inglaterra na semifinal carregam a assinatura de alguém que trata finais como rotina. 

Consciente do próprio tamanho e ocasionalmente metido, Messi declarou a jornalistas na zona mista do estádio na quarta-feira, 15: “Chegamos muito esperançosos, com muitas dúvidas, mas eu sabia que este grupo sempre compete, sempre dá o máximo (…) Viemos para ser campeões do mundo, viemos para ser os melhores do mundo nos últimos quatro anos, doa a quem doer, digam o que quiserem.” E mesmo com a soberba, não podemos anular o fato de que ele entrega exatamente o que promete. 

A Argentina persegue o bicampeonato consecutivo, feito que apenas Brasil (1958-1962) e Itália (1934-1938) alcançaram. Busca também o tetracampeonato, igualando Alemanha e Itália e posicionando-se a um título do Brasil. A cultura de vitória consolidada por Scaloni forjou uma mentalidade que resiste à desvantagem no placar, hostilidade das arquibancadas e cenários adversos. A expulsão de Embolo na prorrogação contra a Suíça mostra como os hermanos capitalizam até a sorte alheia.

Mesmo que a Espanha exiba o futebol mais harmonioso do torneio, a Argentina demonstra maior preparo para o ambiente de uma final mundial. Não escrevo com admiração, mas com o olhar de quem testemunha a eficiência superar a simpatia, a frieza competitiva vencer a beleza e os colonizados derrotarem simbolicamente seus antigos colonizadores enquanto carregam um camisa 10 que, apesar de tudo, continua decidindo partidas com regularidade.

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