“Estamos fazendo uma revolução na oncologia”: exame pela cera de ouvido para detectar câncer avança para ensaio clínico e deve chegar aos hospitais
17 julho 2026 às 08h19

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A pesquisa realizada na Universidade Federal de Goiás (UFG) que permite a identificação de todos os tipos de câncer antes mesmo das fases iniciais da doença encerrou a etapa pré-clínica e começa a fase de ensaio clínico, a última antes de chegar nos hospitais e laboratórios. O pesquisador Nelson Antoniosi afirmou “A ideia é isso se tornar rotina no SUS e o Brasil economizar bilhões e bilhões com esse exame”.
O cientista detalha o nível de transformação que o exame pode trazer a ocologia “Os médicos dizem que se você consegue detectar o câncer nos estadiamentos zero e um, você consegue curar quase qualquer tipo de câncer e hoje a gente já consegue detectar no -2”. Nelson explica o que seria as etapas -1 e -2 “As mitocôndrias ficam disfuncionais e começam a produzir substâncias que elas não produziam antes. Elas começam a produzir energia no organismo por um processo fermentativo, ao invés de fazer o processo normal delas, com isso ela gera muito pouca energia”.

Então, ele afirma que a partir desse processo de disfunção da mitocôndria a célula inflama, em seguida ela começa a se modificar e produzir cada vez mais as substâncias responsáveis pela inflamação e essas substâncias sensibilizam as glândulas ceruminosas e alteram a composição da cera de ouvido, assim é possível identificar o comportamento anômalo ainda antes de se tornar câncer.
Com a identificação precoce a cura é muito mais viável, o pesquisador afirma “A gente vai causar uma economia muito grande, um conforto muito grande em processos de quimioterapia, que provavelmente talvez o indivíduo nem chegue a ter que usar. Ou se chegar a ter que usar, não vai ter que ser em tantas sessões”. Ele também diz que ainda será preciso identificar onde está o câncer, o que demandará mais exames, porém o tratamento fica bem mais simples.
Nelson conta que, inclusive, já identificou um câncer em si próprio a partir desse exame. Um médico identificou um tumor na tireoide do pesquisador, mas a biópsia identificou que era benigno, mas o exame da cera de ouvido trouxe uma conclusão oposta, então o pesquisador optou por realizar a operação e realizou a biópsia na peça completa e acabou identificando 4 pontos de câncer que estavam em estágios iniciais.
O nascimento da pesquisa
Ao ser questionado sobre como surgiu a ideia de identificar câncer pela cera de ouvido, Nelson revela que tudo começou a partir de um incômodo pessoal com a forma como eram feitos diagnósticos. Em particular, um exame de gravidez antigo que era realizado a partir da injeção de urina das mulheres com menstruação atrasada em sapas.
“Se a mulher estivesse grávida, essa sapa, ela ovulava, e o óvulo dela era visível, era facilmente visível”, compartilha. Ele também conta “Dava dó do sapo. Eu fiquei com dó do sapo o dia que eu vi esse ensaio, esse diagnóstico. Eu comecei a pensar coitado do sapo, não tem jeito melhor de fazer isso?”
Essa indignação se estendeu aos humanos, ele cita as mamografias e os exames de próstata que também o traziam reflexões sobre a possibilidade de diagnósticos menos invasivos. Com essa inquietação ele queria tornar-se médico, entretanto acabou sendo aprovado para química e, já na graduação, descobriu que queria era ser cientista e não necessariamente médico.
Ele seguiu a carreira acadêmica na química e quando terminou o doutorado em gorduras vegetais, quis estudar outras matrizes que não fossem vegetais. Nesse momento, a cera de ouvido entrou em cena, mas ainda não existia a tecnologia suficiente para realizar o exame como temos hoje.
Ele seguiu realizando pesquisas e começou uma atuação na Faculdade de Farmácia da UFG sobre análise de remédios genéricos e esse trabalho rendeu um prêmio mundial de farmacologia. Com a repercussão internacional uma mulher do egito o procurou, pois queria fazer uma pós-doc aqui no Brasil com o professor sobre a análise de plasma (sangue).
Então, ele conta “Eu falei, eu não quero trabalhar com plasma pra diagnosticar doença. Eu quero trabalhar com a cera de ouvido. Hoje ela brinca que quando eu falei isso, ela pensou assim: Alá, por que me odeias? “. Para convencê-la, ele contou:
“Fazer ciência é fazer uma coisa que 120 bilhões de pessoas que passaram por esse planeta ainda não fizeram. Então, eu tô te chamando pra fazer uma coisa que nunca ninguém fez e se der certo, se a gente conseguir ligar uma coisa que não vale nada, como a cera de ouvido, com uma coisa muito importante que é o diagnóstico de doenças, a gente vai fazer um negócio que se chama ciência disruptiva. É aquela ciência que gera novos livros, novos capítulos, novos estudos, novas fronteiras dentro do conhecimento”.
Nelson revela que , a princípio, o estudo era sobre diabetes e obteve resultados positivos. Como a diabetes é uma doença metabólica, ele pensou que seria possível realizar o mesmo com outras doenças metabólicas, e, aí, o câncer entrou em cena.
Começaram a realizar os exames em cachorros e os resultados foram robustos em relação à eficiência do exame. A egípcia se apaixonou por outro aluno do Nelson e ambos mudaram de país o que pausou a pesquisa. Mas, depois, outro aluno que tentava fazer iniciação científica com Nelson desde a graduação e nunca tinha conseguido o procurou para realizar o mestrado e a pesquisa voltou a andar, dessa vez com humanos.
Agora, o método entra na fase de ensaios clínicos, etapa que deverá avaliar sua segurança e eficácia em pacientes antes que possa ser submetido aos órgãos reguladores e, futuramente, incorporado à prática clínica. Caso os resultados sejam confirmados, a pesquisa poderá representar um avanço importante no diagnóstico precoce do câncer.



