Um estudo clinicamente inovador no Brasil, realizado em Goiás, promete remodelar significativamente o tratamento de doenças crônicas, incluindo diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e insuficiência renal. O Jornal Opção teve acesso ao estudo conduzido pelo dr. Nelson Rassi, que atualmente busca voluntários para realizar testes com medicamentos que ainda não estão disponíveis.

O estudo está sendo realizado na Clínica Cendi (Centro Especializado em Endocrinologia e Diabetes), em Goiânia, e está conectado a uma rede global de pesquisa clínica entre países da América Latina, América do Norte, Europa e Ásia.

No Brasil, a participação ainda é restrita a um número limitado de centros e a investigação em Goiás torna-se ainda mais relevante no cenário científico nacional. Os estudos em andamento estão entrando na fase final da pesquisa clínica — a chamada fase 3 da pesquisa — que será aprovada por órgãos reguladores, como a Anvisa, informa o pesquisador.

“Todos esses estudos são fases pré-lançamento, já estão na fase 3. Quando essa etapa é alcançada, se tem uma probabilidade muito alta de sucesso”, diz Nelson Rassi em entrevista exclusiva ao Jornal Opção. Esta etapa compreende milhares de pacientes ao redor do mundo e é considerada crucial para provar a eficácia e segurança de novas opções de tratamento.

O que diferencia esta pesquisa de outros estudos convencionais é o perfil dos medicamentos estudados. Eles atuam de forma integrada no corpo, não tratando uma única condição por vez e focando em diferentes fatores de risco.

Sabemos que ajuda no controle do diabetes, perda de peso e controle da pressão arterial. Mas nossa missão é descobrir se pode prevenir um segundo ataque cardíaco, um segundo derrame ou até mesmo uma nova amputação

Este método está alinhado com uma tendência global na medicina, porque doenças metabólicas e cardiovasculares são cada vez mais consideradas parte do mesmo sistema. O diabetes, por exemplo, não é mais considerado em um nível de isolamento, mas como uma preocupação chave dentro de um grupo mais amplo de condições, como obesidade, hipertensão, inflamação crônica e alto risco vascular.

Ou seja, na prática, um medicamento pode ter uma influência direta em múltiplos desfechos clínicos.

E é exatamente isso que a pesquisa realizada em Goiás tenta testar de forma mais precisa: não apenas se os medicamentos funcionam, mas em que grau eles podem prevenir eventos graves em pacientes que já têm um histórico de doença.

Sobre uma pessoa que já teve um ataque cardíaco, queremos prevenir um segundo ataque cardíaco. Aqueles que tiveram um derrame, prevenir um novo derrame. Aqueles que já tiveram um problema vascular grave, prevenir a progressão da doença

Esta ênfase — da intervenção após o problema para a prevenção de recorrências — é amplamente reconhecida; essa forma de pensar é considerada um dos pilares da medicina moderna.

Preservação funcional dos rins

Outra área de pesquisa em investigação é a nefrologia, e serão feitas tentativas para salvar a função renal. O objetivo é retardar a trajetória de pacientes que estão se aproximando de uma forma mais grave de insuficiência renal e que podem eventualmente necessitar de diálise ou transplante.

“Medicamentos que estamos estudando para manter esses indivíduos fora da diálise. Isso transforma totalmente a vida do paciente”, explica ele. Uma inovação chave no estudo é também a estratégia que o médico está tentando atuar mesmo antes da doença começar a acontecer.

No caso do diabetes tipo 1, que tradicionalmente tem sido diagnosticado em crianças e adolescentes, a pesquisa visa identificar indivíduos de alto risco e testar intervenções que possam atrasar ou prevenir o desenvolvimento da condição.

“Hoje somos capazes de determinar quem ainda não tem diabetes, mas carrega risco”, disse Nelson Rassi, que é doutor em Ciências da Saúde.

“E estamos estudando tratamentos para prevenir ou atrasar o início da doença”. Dada a natureza crônica e irreversível do diabetes tipo 1, o impacto potencial desta linha de pesquisa é significativo.

Atualmente não há cura, mas estratégias precoces para intervir na doença podem diminuir a agressividade da doença e ajudar no controle durante toda a vida. Como voluntário, o envolvimento no estudo será tanto uma contribuição científica quanto uma estrutura de cuidado diferenciada.

Benefícios de ser voluntário nos testes

“Eles [voluntários] vão estar usando um medicamento antes de todo mundo, gratuitamente, sob o olhar atento de uma equipe especializada, não nas salas de espera com exames e monitoramento contínuo”, diz o médico.

Este modelo, chamado de “via de mão dupla”, combina benefício individual com o avanço coletivo do conhecimento. Como resultado, mesmo com os crescentes avanços no conhecimento, o acesso à medicina e a valorização institucional das doenças permanecem desafios importantes no Brasil.

Se alguém quiser participar do estudo — particularmente pessoas com diabetes, histórico de doença cardiovascular, obesidade ou problemas renais — pode ligar para a Clínica CENDI pelo número (62) 99831-8164. Os contatos podem ser feitos até o mês de novembro.

Após um primeiro contato, a equipe avalia o paciente para inclusão na pesquisa.

Por que diabetes tipo 1 ainda não é deficiência?

Uma das questões levantadas no decorrer da entrevista é a falta de reconhecimento do diabetes tipo 1 como uma deficiência no Brasil — uma conscientização já presente em lugares como os Estados Unidos, Espanha, Alemanha e Reino Unido.

Se há algo que o especialista diz estar relacionado à falta de compreensão do real peso da doença, é a lacuna.

“Acredito que nossos legisladores ainda não conhecem totalmente o diabetes, não sabem o quanto essa doença contribui para nosso quadro macroeconômico maior”.

O impacto nas pessoas vai muito além da saúde individual, ele argumenta. Inclui custos relacionados a hospitalizações, aposentadorias precoces, ausências no trabalho e impacto direto nas famílias. É para esse reconhecimento que a falta de um benefício reconhecido, na prática, significa menor acesso a benefícios e políticas públicas específicas limitadas para a comunidade que sofre de uma doença que requer controle intensivo e contínuo.

O paciente com diabetes afeta o lar, o trabalho e a saúde. É uma doença que impõe um custo social muito pesado”, ele continua. E ainda assim, ele admite: o Brasil fez progressos substanciais como o Sistema Único de Saúde, que já é reconhecido como uma referência internacional em inúmeras dimensões.

“Nosso sistema de saúde é altamente recomendado”, disse ele, mas ainda há muitas coisas que precisam ser melhoradas. Assim, o estudo em Goiás é colocado em um contexto mais amplo — de um país que já teve suas desvantagens expostas e também opera no cenário internacional, sendo uma empresa científica de alto nível ligada às mais maduras do mundo.

Rigor do método científico

O doutor Nelson enfatizou a necessidade de compreensão em nível clínico do rigor por trás de todos esses estudos e por que é tão rigoroso na forma como esse processo é feito. Ele lembra que nem sempre foi assim.

“Medicamentos sempre existiram sem pesquisa suficiente. Isso mudou após casos muito sérios, verdadeiramente chocantes”, diz Rassi. Entre eles, ele tem o cuidado de citar pesquisas do século passado em que pacientes continuaram sem tratamento após tratamentos eficazes, o que foi usado no desenvolvimento de padrões éticos internacionais.

Hoje, qualquer medicamento precisa produzir duas coisas: eficácia, bem como segurança. Isso envolve muitas etapas diferentes, desde testes laboratoriais até estudos abrangentes em populações amplamente diferentes, maiores do que nunca.

“Cooperamos com autoridades reguladoras para garantir que esses medicamentos realmente tragam benefícios e não causem danos.” A expectativa, diz ele, é que os resultados desses estudos ajudem a ampliar as opções de tratamento, bem como a mudar a lógica do tratamento médico, para que a medicina seja mais preventiva, integrada e eficaz.

Pesquisar não é só para você. “É você contribuindo para o bem maior

A última classe de medicamentos e a situação global na pesquisa. O desenvolvimento da pesquisa do Dr. Nelson Rassi em Goiás é, nesse sentido, uma resposta direta a uma das maiores e modernas revoluções médicas desde a introdução de medicamentos como Ozempic e Mounjaro, transformando o tratamento de doenças metabólicas ao atuar através de múltiplos sistemas do corpo ao mesmo tempo.

O especialista fala especificamente sobre essa nova classe de terapêuticas no decorrer da entrevista ao notar que os medicamentos estudados compartilham a mesma fisiopatologia, mas com distinções significativas. Alguns mais comumente, administração menos frequente (com aplicação mensal em alguns casos) poderia aumentar a adesão do paciente — como acontece hoje em dia com uma única dose semanal, mas apenas uma vez por mês.

“Este medicamento tem uma vantagem sobre o Mounjaro, por exemplo, porque o uso deste medicamento é menos frequente.” Tanto o Ozempic quanto o Mounjaro pertencem à mesma classe de medicamentos que atuam sobre hormônios que governam o metabolismo.

Em particular, eles trabalham em coisas como regulação da glicose e do apetite. Na prática, esses medicamentos reduzem os níveis de açúcar no sangue, incentivam grande perda de peso e melhoram a pressão arterial e outros marcadores de inflamação.

Mas a principal conclusão da pesquisa apresentada em Goiás — e uma que ainda precisa ser totalmente explorada — é maior do que esses benefícios já conhecidos.

O objetivo agora é determinar se esses medicamentos podem reduzir de forma semelhante eventos graves em pacientes de alto risco, como ataques cardíacos, derrames e complicações vasculares que podem se traduzir em amputação.

“Estamos em uma missão para descobrir se esses benefícios terão um melhor resultado em pessoas que tiveram eventos graves no passado, ataques cardíacos, derrames”, diz o médico. Esse tipo de exploração é fundamental em grandes pesquisas globais.

Pesquisas publicadas em revistas como The Lancet, Nature e o New England Journal of Medicine provaram que essa classe de medicamentos pode prevenir substancialmente eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE) em pacientes com alto risco cardiovascular, bem como diabetes tipo 2.

Estudos recentes sugerem vantagens relacionadas, incluindo proteção da função renal e inibição do progresso da doença crônica. Esses resultados fortalecem a conclusão de que esses não são apenas compostos para controle glicêmico, mas também uma estratégia mais geral para trabalhar em diferentes aspectos da saúde metabólica. No entanto, esses tratamentos têm suas limitações, observam os especialistas. Efeitos colaterais, predominantemente gastrointestinais — incluindo náusea, vômito e dor abdominal — são comparativamente comuns no início do uso.

Outra barreira primária para o uso generalizado desses medicamentos tem sido seu alto custo após o lançamento no mercado, particularmente em nações desenvolvidas. Nesse sentido, a inclusão do Brasil — mais precisamente, de Goiás — em pesquisas clínicas de fase avançada coloca o país em uma posição estratégica de pesquisa no cenário global.

Ao integrar redes globais, programas como o de Nelson Rassi não apenas ajudam a validar esses tratamentos em populações diversas, mas também ampliam o desenvolvimento de terapias precoces. A esperança, com base nos achados deste trabalho, é que a medicina se mova para um modelo integrado em que diabetes, obesidade, doenças cardíacas e renais não sejam mais vistas apenas por conta própria, mas como componentes do mesmo processo fisiopatológico.

Se os resultados forem apoiados, essa próxima geração de medicamentos certamente não apenas melhorará a qualidade de vida dos pacientes, mas também diminuirá significativamente o efeito dessas doenças nos serviços de saúde em todo o mundo.

Quem é Nelson Rassi

Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de Goiás, doutorado em Ciências da Saúde (também pela UFG), título de especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e pela American Endocrine Society. Atualmente é Chefe da Divisão de Endocrinologia do Hospital Geral de Goiânia Dr. Alberto Rassi. Coordenador e Investigador Principal do Centro de Pesquisas Clínicas em Endocrinologia -HGG, Preceptor do Programa de Residência Médica desta Instituição. Chefe do Centro Estadual Atenção ao Diabetes (CEAD). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Endocrinologia.

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