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Setores da oposição estão preocupadíssimos com o equilíbrio fiscal, econômico e financeiro do Estado. Os números da economia indicam uma inversão perigosa, aumento continuado das despesas de custeio e redução drástica da capacidade de investimento, que está hoje em 1,5%. Segundo os líderes, o pior é que o governo continua mascarando a realidade de falência das contas públicas do Estado em nome de interesses eleitoreiros. Os líderes estão traçando estratégias para levar esses dados ao conhecimento da opinião pública.
Pelo menos cinco ex-prefeitos que também são ex-deputados tentam voltar ao plenário da Assembleia Legislativa. São eles: José Salomão Jacobina (PT), de Dianópolis; Hider Alencar (PT), de Paraíso do Tocantins; Valuar Barros (DEM) e Paulo Sidnei (PPS), de Araguaína; e Paulo Roberto (PR), de Taguatinga. Todos têm chances. Acumulam experiência no executivo e no legislativo e têm prestígio político.
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Jornalista Luiz Armando Costa: cuidado com a veracidade da notícia | Foto: Arquivo Pessoal[/caption]
O jornalista Luiz Armando Costa propõe uma belíssima reflexão sobre os exageros cometidos por alguns sites de notícias na cobertura de pauta política em período de forte confronto de interesses. Radicalizou na exemplificação, mas conseguiu provar a sua tese.
Deu uma informação (fictícia) sobre um possível desentendimento entre Eduardo Siqueira Campos e Sandoval Cardoso, que muitos especulam quando vai acontecer. No final do texto advertiu que a notícia não era verdadeira. Muita gente embarcou só ao ler o começo do texto.
Armando tentou provar, com o exemplo, que a primeira versão sobre desentendimento entre Sandoval e Kátia, notícia divulgada por alguns sites, também não era verdadeira, assim como a segunda, que só aconteceria em decorrência da primeira. Portanto a primeira sendo falsa, a segunda não teria razão de ser.
A versão ou as versões são sempre mais importantes que os fatos, mas elas não dizem nada quando a notícia não tem nenhuma veracidade. Leitura crítica, como indica Armando, é o melhor mecanismo para se separar notícias de versões fantasiosas.
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Deputado Aragão: cadê as
obras para serem fotografadas? | Foto: Koró Rocha[/caption]
O deputado Sargento Aragão (Pros) contabiliza 53 municípios percorridos até agora como integrante da comitiva do pré-candidato ao governo do Estado pelo Pros, senador Ataídes Oliveira. Em suas andanças pelo interior o deputado revela que tem tentando fotografar alguma obra do governo feita com recursos próprios, pedindo ajuda da população para apontar a obra. Até agora não conseguiu.
Letícia Borges começou a escrever a coluna “Língua e Letras”, no jornal digital “A Redação”. “A coluna vai ser sobre o uso da língua no cotidiano. Não vai ser técnica nem didática. Vou falar sobre a adequação da linguagem ao meio, como se comunicar profissionalmente e o português na internet”, afirma a jornalista. Os textos terão o formato de crônica.
Letícia publica em agosto o livro “A Língua Camaleoa”.
Nilson Gomes, um dos mais polêmicos e ferinos jornalistas de Goiás, vai lançar um jornal-torpedo. Será um veículo popular, mas de matiz político. O pré-candidato a governador pelo PMDB, Júnior Friboi, pode esperar bombas atômicas em forma de textos críticos, duríssimos.
Gomes e sua equipe, que está sendo montada, não vão brincar em serviço, segundo uma fonte. “Será pau puro”, afirma o tucano. Até sexta-feira, 16, o nome do jornal não havia sido decidido. Falam em ‘O Arrocha’, mas parece que avaliaram como hermético. Deve ser algo mais simples e direto.
Diz o ditado popular: “Uma imagem vale mais do que mil palavras”. Parece perfeito, não é? Nem tanto.
Leia o que diz Millôr Fernandes, o filósofo do humor: “Quero ver dizer isto sem usar palavra nenhuma”.
Formado na França e nos Estados Unidos, o especialista diz que a desigualdade está aumentando em todo o mundo, que trabalhadores com altos salários são capitalistas e recomenda mais impostos para reduzir a pobreza
Os liberais americanos estão em pé de guerra contra Thomas Piketty, autor do livro “O Capital no Século 21”. No Brasil, notadamente em publicações como a revista “Veja”, os liberais rejeitam o economista francês como se fosse um marxista, e não um reformador pró-capitalismo. “Qualquer um que recomende 80% de taxação sobre os mais ricos terá sempre os aplausos dos marxistas do mundo todo”, afirma Rodrigo Constantino, autor do livro “Esquerda Caviar”, no artigo “O mercado deve ser escravo da democracia?”, publicado na revista. Para o economista brasileiro, o problema não é o capitalismo liberal, e sim o capitalismo patrimonialista, ou o capitalismo de laços, ou o capitalismo de Estado. “O inimigo é o capitalismo de Estado, o excesso de intervenção estatal na economia, os subsídios, os privilégios, as barreiras protecionistas, as taxas de juros manipuladas e artificialmente reduzidas, impostos excessivos, complexos e altamente progressivos, aquilo que gente como [Paul] Krugman costuma defender. A saída é o capitalismo liberal clássico.” Rodrigo Constantino não leu o livro e, como eu, o comenta a partir de resenhas, como uma do colega Eurípedes Alcântara, editor da “Veja”. Alcântara diz que o livro de Piketty “deseja atacar mais os ricos do que ajudar os pobres. (...) A desigualdade não é invenção capitalista. Ela foi mais profunda e cruel nas eras que precederam o capitalismo”. Rodrigo Constantino conta que o filósofo Mário Guerreiro afirma “que por trás de toda ideia absurda há um francês”. Mas o articulista da revista elogia Tocqueville, Bastiat, Jean-François Revel, Guy Sorman, Alain Peyreffite, Raymond Aron. [relacionadas artigos="4301"] O sociólogo Marcelo Medeiros, professor da UnB, apresenta críticas menos radicais do que as de Rodrigo Constantino e Alcântara, ainda que seja favorável à argumentação básica de Piketty — de que a desigualdade social está se ampliando e a concentração de riqueza está aumentando e que uma tributação mais alta e progressiva é necessária para manter ou recriar sociedades menos injustas. “A desigualdade global passa ao largo do debate do livro. O autor francês não é capaz de dar a devida atenção às pesquisas que revelam uma desigualdade entre países, tão ou mais importante que a desigualdade dentro dos países. (...) A tributação de um país retém os tributos dentro desse país e, portanto, não faz nada — ao menos diretamente — para reduzir a desigualdade entre os países. Ao tributar os ricos, o governo americano estaria tributando lucros que foram obtidos em outros países e trazidos aos Estados Unidos. Com isso, reduziria a desigualdade em seu próprio país, mas não no mundo”. A crítica de Medeiros talvez seja outra radicalização, também, mas à esquerda. Não é contra Piketty; tenta, apenas, ampliar sua teoria, apresentando uma dificuldade e uma alternativa crítica. Talvez num laivo weberiano, Medeiros avalia que o livro de Piketty “subestima a importância de se comandar a economia por meio da política e das instituições”, o que Marx, que concedia um peso decisivo à estrutura, chamava de superestrutura. O crítico sugere que, politicamente, o economista francês é comportado — tese com a qual não concorda, por exemplo, Rodrigo Constantino. “A proposta que faz para o problema da desigualdade está centrada na esfera da distribuição — tributos —, e não na esfera da produção — regulação direta.” O professor da UnB e pesquisador do Ipea afirma que Joseph Stiglitz é mais radical do que Piketty. “Tributos são uma ferramenta importante de controle da desigualdade na economia, mas o foco em tributos é muito pouco para quem escreve algo com as pretensões de grandeza de Piketty”, pontua Medeiros. O que o doutor brasileiro quer, então? Uma substituição do modo de produção capitalista? Não parece, mas ele próprio não esclarece, ao menos não inteiramente, o que propõe como alternativa à tese de Piketty. Na opinião de Medeiros, Piketty “é bom para identificar o problema, mas não para encaminhar soluções”. É provável que o economista vai estender suas análises a um segundo volume...
A pesquisadora Jung Chang lança livro que conta a história de Cixi, a concubina que assumiu o poder e abriu a China para o Ocidente. A ideologia comunista e Taiwan a transformaram numa “renegada”
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Fabiana Pulcineli: repórter do primeiro time de O Popular[/caption]
Fabiana Pulcineli, principal repórter de política do “Pop”, está numa encruzilhada. Pode permanecer no jornal, no qual é respeitada, apesar do salário considerado “baixo” (7 mil reais), fazer campanha política (pelo menos dois pré-candidatos gostariam de tê-la na batalha eleitoral) ou ir para o “Correio Braziliense”.
O fato é que Fabiana Pulcineli não faz leilão nem está se oferecendo no mercado. A repórter, competente e séria, é que tem sido procurada. Se depender da editora-chefe, Cileide Alves, que aprecia seu trabalho firme e preciso, fica no “Pop”.
Há pelo menos duas formas de se valorizar um profissional de qualidade, como é o caso.
Primeiro, pagando-o melhor. R$ 10 mil reais, por exemplo, não provocariam nenhum grande desfalque nas contas do “Pop”, que tem perdido excelentes repórteres, para o “Correio Braziliense” (Rodrigo Craveiro e Almiro Marcos) e para “O Globo” (Vinicius Sassine), porque adota a política, nada moderna, de nivelar os salários por baixo. Os únicos repórteres que ganham um pouco mais são os que trabalham em tempo integral (“full time”).
Segundo, valorizando-o internamente. Embora seja convocada para escrever artigos, por sinal os melhores do “Pop” — jornal que terceiriza sua opinião para Elio Gaspari, Dora Kramer e Miriam Leitão, para citar apenas três —, Fabiana Pulcineli não é chamada para editar a coluna “Giro” e para fazer parte da equipe de editores.
Na contramão do que ocorre noutros jornais e revistas, o “Pop” criou a tradição de editores que não escrevem — se tornem chefes e, com o tempo, se tornam absolutamente descartáveis —, mas avalio que com uma personalidade forte, decidida e crítica como Fabiana Pulcineli isto não aconteceria. Mas está acontecendo com duas jornalistas notáveis, Cileide Alves e Silvana Bittencourt. As duas, que escrevem muito bem e pensam pela própria cabeça, além de serem íntegras, praticamente desapareceram. Silvana Bittencourt eventualmente comparece nas páginas do jornal, com artigos bem formulados, mas é só. Ninguém, na redação do jornal, dá conta de escrever um artigo por dia?
O “Pop” precisa criar uma estrutura na qual seus editores não se tornem burocratas improdutivos. Afinal, pagar bem para os melhores cérebros ficarem apenas dando “palpites” não é um negócio rentável e inteligente. Pôr editores para escrever é muito mais pragmático e enriquecedor do que contratar repórteres que não têm o chamado texto final. O barato, ao menos em jornalismo, costuma sair caro. Uma Fabiana Pulcinelli, agressiva e produtiva, vale, quem sabe, por três repórteres lentos e desinteressados.
Há esquerdistas que dizem que Cuba é uma democracia. Trata-se de uma profissão de fé. Não à toa o filósofo britânico John Gray avalia o marxismo como uma religião teórica e politicamente meio bastarda, porque seus pais, o cristianismo e o positivismo, não aceitam “registrá-lo”. Na verdade, sabem os esquerdistas mais cerebrados, a ilha da dinastia Castro, Fidel e Raúl, é uma ditadura cruenta. Digamos que os jornalistas Rui Falcão e Franklin Martins morassem em Cuba e, de repente, decidissem: “Vamos lançar um jornal impresso”. Não publicariam. Primeiro, porque o governo não permite. Segundo, porque não teriam papel. O papel é controlado pelos comunistas. O impresso e o digital são como o rádio e a televisão: coexistem e, provavelmente, o primeiro não será o novo dinossauro. Mas em Cuba aquele indivíduo que planeja publicar alguma coisa tem de pensar em termos digitais. Por isso, a jornalista e blogueira Yoani Sánchez vai editar, a partir de quarta-feira, 21, o jornal digital “14ymedio”. Será, afirma, “um espaço para falar de Cuba aqui dentro de Cuba”. Corajosa, pois enfrentar a famiglia Castro não é para qualquer um, a editora do blog Generación Y pretende ampliar a cobertura do que ocorre em Cuba. “Várias pessoas de nossa equipe de trabalho já receberam os primeiros avisos de advertência dos órgãos de segurança do Estado. Será um caminho difícil porque a propaganda oficial tentará nos satanizar”, diz a jornalista. Não custa lembrar que o serviço secreto cubano, o G2, foi treinado pela Stasi, da Alemanha Oriental (a história está no livro “O Homem Sem Rosto”, as memórias de Markus Wolf, da Stasi). O estranho título “14ymedio” significa, relata o Portal Imprensa, o seguinte: 14 é o número do apartamento de Yoani Sánchez, local da criação do projeto, e diz respeito a 2014. “O ‘y’ refere-se ao vocábulo que a acompanhou ao longo dos anos, enquanto ‘medio’ é por se tratar de um veículo para propagar informações.” No país em que o principal jornal, o “Granma”, é porta-voz oficial do governo e, portanto, do Partido Comunista Cubano, o jornal deveria ser chamado de “Tostão”. O “Tostão” contra o “Granma”. Uma coisa é certa: a destemida blogueira vai deixar os ditadores apavorados e os cubanos poderão, aos poucos, saborear o que é imprensa crítica, à qual não têm acesso desde 1959, há 55 anos. “14ymedio” é uma luz, ainda que tênue, que assinala que o comunismo, falido e sem autoridade (o povo é controlado pela violência institucional), não dá mais conta de segurar a rebeldia dos cubanos e esconder e maquiar a realidade.
Valdivino Braz
Noite adentro, a tosse intermitente e ele a se arrebentar em golfadas de sangue; uma dor feito estilete a trespassar-lhe os pulmões agonizantes, e umas pontadas repentinas a confranger-lhe o débil coração, arrancando-lhe, tal fossem nacos de carne, os entrecortados gemidos. Rangem as molas soltas do colchão, infestado de percevejos, toda vez que ele, ao tossir, se agita no leito. Fora, uiva o vento, ao modo de um cão agoniado, perdido na treva. Relâmpagos incendeiam os vidros da janela, clareando as áreas obscuras do quarto frio e fétido, parcialmente iluminado pela luz mortiça dum antiquado abajur.
Ratos enormes movimentam-se pelo recinto, emitindo guinchos cantantes, à semelhança de carretilha ao correr duma corda. Um deles, por mais afoito e incisivo, a roer com exaspero a tira de couro que serve de emenda a uma perna quebrada da cama, ali aos pés do moribundo. Entrecruzam-se os roedores, desassossegados, e o enfermo contempla-os com pavor e funesto pressentimento de que ali estão para devorá-lo, a qualquer momento. O pavor aumenta a cada vez que ele, numa sofrida vigília, surpreende os olhos miúdos e brilhantes a fitá-lo com sinistra insistência. Com supremo esforço, tenta soerguer-se no leito nauseabundo, afugentar o inimigo, mas o violento acesso de tosse de novo o acomete, e ele torna a estirar-se, arfante, esgotado, em seus trapos de nojo, infectados pelos bacilos de Koch.
O velho relógio-despertador, sobre o corroído criado-mudo, registra os artifícios do tempo: o cansado tique-taque, aos ouvidos de quem ali jaz e agoniza, soa como o implacável e fatal limite de sua própria resistência, frágil fôlego, dificultosa respiração. Ele sentindo-se cada vez mais próximo do fim, sobremodo quando a espiral no labirinto do relógio, em disritmia com a mecânica das engrenagens, bambeia e se descompassa, desabala-se como que estrabulega: clocloclecleclec!, em sonido de lata velha, que o sobressalta tanto mais, pois então é o seu podre coração atabalhoado por taquicardia, ao que ele se compara com o estafado relógio, sem tirar nem pôr, até mesmo — ele imagina — o giro empenado das rodas denteadas do tempo, e douradas, como do espelho o fundo fosco, que à luz do dia se entremostra ali nos úmidos e mofos da parede, carcomida pelas goteiras.
A água devorando a cal do reboco, em que pese exagerar-se a comparação, semelha uma cadela a roer o osso. E o tempo, ao moribundo ensanguentado no leito, é um cão danado a abocanhar-lhe a vida sempre que se dá o salto frouxo da mola serpentina do relógio, com olhos de rubi, da cor do sangue que ele escarra nos panos impuros em que se deita; o branco do tecido há muito maculado por repulsivos humores de um corpo em decomposição, não bastassem ali aqueles coalhos sanguinolentos e assustadores. Já o enfermo por demais debilitado, como quando se debilitam as pulsações cardíacas, a sístole-diástole oscilando num sobe-e-desce crepuscular, ao emitir-se dos bips luminosos no cardiógrafo de um hospital. Ele agora com um pé na cova e o outro ainda numa nebulosa da vida, a um passo da eternidade, from here to eternity, daqui até lá, ele só e mais ninguém — sempre solitário e tímido ao extremo com o sexo oposto, curtiu uma queda por Deborah Kherr, estrela de um filme de época, década de 50, ao qual ele gostara de assistir: um drama numa base militar, anos 40, conflitos e amantes ilícitos, com uma famosa cena de beijo, sugestivamente — entenda-se — banhado pela espuma do mar.
O tempo, agora, como se cobrasse do moribundo um ajuste de contas por sua sórdida vida pregressa, por seus atos truculentos, por seus crimes hediondos, pela tortura e morte, com requintes de sadismo, de presos políticos, por conta do livre-pensar e pensar de forma diferente. Era ele um produto e instrumento do arbítrio; era um deles, desses que resvalam para o rodapé da evolução humana, na escala natural dos símios, e desistem de ser homens, senão que regridem ao estágio dos girinos, ou ainda ao reino unicelular das amebas.
Esgotam-se, inexoráveis, impiedosos, os minutos que ainda lhe restam, e, para seu maior pavor, mais e mais se atreve a determinação dos ratos. Acelera-se a agonia ao desarranjo das horas que lhe vão esgarçando o fio de vida, para arrebentá-lo de súbito. Acossado pelos terríveis acessos de tosse e pelas fundas ferroadas no peito; cercado pelos ratos e já por conta do implacável avanço das lanças negras no relógio da morte, ele está só consigo mesmo, como jamais esteve ao longo de sua malversada vida; falto, ele, de sentimento humanista, de valores que regem o lado bom da humanidade, tomando-se por bom o oposto ao que faz sofrer, como se toma por mal o que não é por bem do outro, indo-se o bem que se quer por inerência do individual ao coletivo, e em nada recorrente ao dualismo maniqueísta do século III — entre Deus e o Diabo —, primado de um viés reducionista e retrógrado, e posto que em nada absoluto o que é relativo. Dizê-lo assim — relativizar —, todavia e certamente não justifica, em sã consciência, o torturador em questão; tanto menos quanto querer, por meio de vesgo argumento, justificar o que é mau e causa dor, contrário ao que é bom e é de foro íntimo não infligir sofrimento a outrem; já não fosse que a vida por si mesma é um sofrimento, amiúde dolorosa, amiúde alegre, mas nem sempre.
Nessa hora de sustos e punhais do tempo no peito, sombras emergem do passado e vêm assombrar ainda mais o espírito atribulado pela ideia do fim. Visões fantasmagóricas avultam-se na penumbra do quarto, dedos em riste apontam para o gemebundo tuberculoso, vozes acusadoras ressoam-lhe nos tímpanos, atordoam-lhe o cérebro, e vão num crescendo alucinante, somando-se às dores do mal que o apodrece e devora. Bolas de sangue explodem e coagulam no ensebado lençol, dimensionando-lhe o pavor do agora, tanto mais por saber-se abandonado, sozinho com os seus fantasmas e a sua morte. Sequer um cão vagabundo, o mais rabugento, o mais pustulento, o mais repulsivo que fosse, nessa hora crucial, nessa noite tenebrosa, que ele sabe derradeiras. Ah, merecesse ao menos um afeto ou afago compadecido! Mas, não. Apenas os ratos, previsíveis no seu intento, e os espectros da noite em torno de sua agonia final.
O vento vergasta, furiosamente, a janela, querendo entrar, e línguas de fogo lambem a vidraça a todo momento. Guincham os ratos, histéricos com o manifesto das forças naturais, e, atraídos pelo cheiro do sangue, começam a subir no leito infecto, tantos, que o miserável homem ali se sente como um deles, um rato abjeto ao desprezo da família humana, apartado do calor solidário que, ao fim, e apesar de tudo, movimenta as rodas do mundo. Atacam-no, afinal, os sinistros. Cravam-lhe os dentes, mordem, mordem e dilaceram a carne. Ele grita, e tosse, golfando os pavorosos coágulos. Tenta levantar-se e não consegue, dezenas de mãos o impedem, subjugam-no, como garras de ferro. Em vão ele se debate. Rostos antigos bailam diante de seus olhos turvos, olhos furiosos o fitam, dedos o apontam, vozes o acusam. Ele grita, e tosse, e vomita sangue e se estertora e se entrega, vencido, à sanha dos dentes pontiagudos. Talvez jamais tenha pensado nisto, mas tem a vida seus próprios ditames e caprichos, tem suas represálias à revelia de quaisquer outros mecanismos, por vontades do homem. Ao giro das rodas do mundo, tem a vida suas sábias e higiênicas providências.
Roído pelos ratos famintos, vai-se o enfermo pelo ermo de seu inferno. Sentenciado por seus atos de culpa, ele ainda respira entre os claros finais de lucidez e a febre do delírio; mas é tarde, muito tarde, e tempo não há mais para nada. Negros (co)lapsos de tempo são a grafite finita no lápis da vida, acabou-se a escrita. Ali os panos encardidos de sua cama, com eles o asqueroso lençol, sudário aos fluidos humorais. O suor, a linfa, a urina, o sangue, as nódoas de toda a sua podridão. Putrefato o banquete dos ratos, posto que o corpo ali se furta ao repasto dos abutres, mas não lhe escapam, de resto, as sobras aos benditos vermes da Criação, que se arrastam, embolados e nojentos, pela terra de todos e de ninguém. A terra dos homens. O berço e o caixão. A terra abençoada em que jaz a humana pequenez da pretensa e presumida grandeza humana. A mísera suposição de ser o que de fato não é; e presumida porque iludida e ensimesmada, convencida de si mesma. A terra e nela o homem em seu devido lugar. Pó ao pó, a arrogância do saber de reizinhos atarracados, pançudos, e o poder de gigantes empertigados, uns e outros reclusos na empáfia de suas poses, supostamente sábios e poderosos em suas bobas ilusões de ser e vida efêmera.
O trovão estronda e a tudo estremece. Leclecleclec... — o relógio para de pulsar. E assim o torturador ele só em sua noite, sem a sua turma e longe da putíssima — leia-se digníssima — senhora sua mãe, coitada, não tem culpa — salvo que involuntária — de tê-lo parido, de ter posto no mundo esse tipo de homem, um estrupício, uma aberração como essa, em figura de gente. E Deus criou o homem, está escrito. E o homem arvorou-se em imagem e semelhança de Deus. Durma-se com essa. Pelo amor de Deus!
Com água do dilúvio, a terra se purifica de algumas impurezas. O dia amanhece limpo e calmo, claro e cristalino, como se a justiça, afinal, saísse a passeio pelo mundo, se bem que a justiça sempre leva no bolso a conveniência de alguma impunidade, a conivência sob o surrado manto da injustiça.
Aos poucos, ao esquentar-se do sol, as coisas se consolidam em seus contornos, e o admirável mundo novo segundo Huxley retoma sua rotina. Também as víboras saem para o cotidiano e tomam seu matinal banho de sol. E agora a sombra do urubu se recorta e faz sua ronda no ilusório azul do céu. Enquanto isso, espessos volumes, calhamaços em papel-ofício, mil vezes carimbados e rubricados, mais e mais se recolhem aos aposentos da morosa Justiça. Justiça para quem? Às traças os processos arquivados, prescritos os crimes contra os civis, anistiados os culpados, inclusive a parte podre da sociedade civil, e toda a impunidade aos generais. E não se fala mais nisso. Não se repisa esse assunto. Não se alimente, pois, o ranço do ressentimento, nem o desejo de revanche. Os generais são inocentes. Agiram e mataram no cumprimento do dever. Reféns do refrão da obediência. Para todos os efeitos, e de uma vez por todas, revogam-se as disposições em contrário. Para que reprisar os tristes fatos, reabrir cicatrizes? Afinal, cinismo à parte, não doeu tanto assim, doeu? Então para que falar-se em nódoas da história? Os uniformes dos generais estão limpos, lavados e bem-passados. Polidas, livres do zinabre do tempo, brilham as medalhas no peito dos heróis da Pátria. E não lhes venham com ironias baratas, querendo conspurcar-lhes o verde-oliva das fardas, denegri-los por conta delas, a eles, conspícuos bastiões da soberania nacional. Os generais não são assassinos. As estátuas nas praças da República são regularmente limpas de suas impurezas, removido pelas chuvas o cocô dos pombos, embora resista, renitente, a nódoa comprometedora da pátina esverdeada, cor de biles, de vômito.
Valdivino Braz é jornalista e escritor, autor do premiado romance “O Gado de Deus”.
Na última sexta-feira a Justiça acatou duas ações movidas pela Rápido Araguaia e o Setransp. Juiz da 9ª Vara do Trabalho da capital proibiu qualquer aproximação de grevistas a garagens e terminais
Nas suas celebradas memórias, “Código da Vida”, o advogado Saulo Ramos conta histórias deliciosas (as informações sobre Jânio Quadros são reveladoras). Relato uma delas.
No comício pelas Diretas Já realizado em Goiânia, os comunistas compareceram com bandeiras vermelhas que incluíam as indefectíveis foice e o martelo. Os comunistas e os petistas atacavam duramente os militares, apontados como bestas feras. A versão de Saulo Ramos: “Não deu outra: nova conspiração de altas patentes. ‘Vinte anos não foram suficientes! É preciso mais!’. Fomos salvos, por incrível que pareça, porque o Congresso Nacional derrotou a emenda das diretas. Diante disso, os militares passaram a acreditar que poderiam ganhar as eleições naquele eleitorado encurralado e medroso”.
Nos bastidores, o presidente João Figueiredo dizia, segundo Saulo Ramos: “Tancredo, never!”. Eleito Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, “as fotos do comício de Goiânia, bandeiras vermelhas com foice e martelo, voltaram a circular nos quartéis. O PT agitando o máximo, com viseiras e sem visão. Quase faz os militares retomarem o poder por mais de 20 anos”, conta Saulo Ramos.
Quando souberam que José Sarney seria empossado no lugar de Tancredo, os militares tentaram um golpe, garante Saulo Ramos: “Walter Pires, então ministro do Exército, ao ter conhecimento de que seria empossado Sarney, avisou: ‘Então vou agora mesmo para o ministério mobilizar nosso dispositivo’. O doutor Leitão de Abreu calmamente ponderou: ‘General Walter Pires, o senhor não é mais ministro. Nos quartéis, quem já está dando ordens é o general Leônidas’ [Pires Gonçalves]. A nomeação dele para ministro do Exército, naquele momento, não era válida. Leitão de Abreu blefou. E ninguém pagou para ver”.
Saulo Ramos assegura que, se os militares leais a João Figueiredo tivesse tentando um golpe, haveria reação nas Forças Armadas. O advogado e poeta Saulo Ramos foi jornalista, trabalhou para Jânio Quadros e foi consultor-geral da República, no governo Sarney.
Erros do livro de Saulo Ramos
O título das memórias de Saulo Ramos, “Código da Vida” (Planeta, 467 páginas), é uma referência explícita ao “Código da Vinci”, de Dan Brown, citado no livro do advogado brasileiro.
O livro é delicioso e deveria ser lido pelo menos por advogados e jornalistas (Saulo Ramos foi jornalista). Os erros, poucos e sem importância, não atrapalham a leitura.
Uma listinha desatenta das falhas de Saulo Ramos:
1 — “Enfarto”. Infarto e enfarte são mais apropriados.
2 — Mario Quintana e Mário Quintana. Saulo Ramos escreve o prenome do poeta gaúcho com e sem acento. No caso, Mario não tem acento.
3 — O nome do escritor turco Orhan Pamuk é reinventado por Saulo Ramos: “Orthan” Pamuk.
4 — “Blá-blá-blá.” O certo (ou mais usual) é blablablá.
5 — O ministro do Superior Tribunal de Justiça William Páterson ganha dois prenomes: “William” e “Willian”.
6 — O livro “A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira”, de Engel Paschoal, não foi publicado pela Companhia das Letras, e sim pelas editoras Mega Brasil e, em seguida, Publifolha.
7 — “O senhor não sabe o que rooming?”. Falta uma palavra: “O senhor não sabe o que é rooming?”
8 — “Sua filha, Dra. Ana Drummond, trabalhou em meu escritória.” (Saulo inventa o feminino de escritório.)

