Euler de França Belém
Euler de França Belém

Liberais atacam suposto marxismo e crítico de esquerda aponta timidez

Os liberais americanos estão em pé de guerra contra Thomas Piketty, autor do livro “O Capital no Século 21”. No Brasil, notadamente em publicações como a revista “Veja”, os liberais rejeitam o economista francês como se fosse um marxista, e não um reformador pró-capitalismo. “Qualquer um que recomende 80% de taxação sobre os mais ricos terá sempre os aplausos dos marxistas do mundo todo”, afirma Rodrigo Constantino, autor do livro “Esquerda Caviar”, no artigo “O mercado deve ser escravo da democracia?”, publicado na revista. Para o economista brasileiro, o problema não é o capitalismo liberal, e sim o capitalismo patrimonialista, ou o capitalismo de laços, ou o capitalismo de Estado. “O inimigo é o capitalismo de Estado, o excesso de intervenção estatal na economia, os subsídios, os privilégios, as barreiras protecionistas, as taxas de juros manipuladas e artificialmente reduzidas, impostos excessivos, complexos e altamente progressivos, aquilo que gente como [Paul] Krugman costuma defender. A saída é o capitalismo liberal clássico.”

Rodrigo Constantino não leu o livro e, como eu, o comenta a partir de resenhas, como uma do colega Eurípedes Alcântara, editor da “Veja”. Alcântara diz que o livro de Piketty “deseja atacar mais os ricos do que ajudar os pobres. (…) A desigualdade não é invenção capitalista. Ela foi mais profunda e cruel nas eras que precederam o capitalismo”. Rodrigo Constantino conta que o filósofo Mário Guerreiro afirma “que por trás de toda ideia absurda há um francês”. Mas o articulista da revista elogia Tocqueville, Bastiat, Jean-François Revel, Guy Sorman, Alain Peyreffite, Raymond Aron.

O sociólogo Marcelo Medeiros, professor da UnB, apresenta críticas menos radicais do que as de Rodrigo Constantino e Alcântara, ainda que seja favorável à argumentação básica de Piketty — de que a desigualdade social está se ampliando e a concentração de riqueza está aumentando e que uma tributação mais alta e progressiva é necessária para manter ou recriar sociedades menos injustas. “A desigualdade global passa ao largo do debate do livro. O autor francês não é capaz de dar a devida atenção às pesquisas que revelam uma desigualdade entre países, tão ou mais importante que a desigualdade dentro dos países. (…) A tributação de um país retém os tributos dentro desse país e, portanto, não faz nada — ao menos diretamente — para reduzir a desigualdade entre os países. Ao tributar os ricos, o governo americano estaria tributando lucros que foram obtidos em outros países e trazidos aos Estados Unidos. Com isso, reduziria a desigualdade em seu próprio país, mas não no mundo”. A crítica de Medeiros talvez seja outra radicalização, também, mas à esquerda. Não é contra Piketty; tenta, apenas, ampliar sua teoria, apresentando uma dificuldade e uma alternativa crítica.

Talvez num laivo weberiano, Medeiros avalia que o livro de Piketty “subestima a importância de se comandar a economia por meio da política e das instituições”, o que Marx, que concedia um peso decisivo à estrutura, chamava de superestrutura. O crítico sugere que, politicamente, o economista francês é comportado — tese com a qual não concorda, por exemplo, Rodrigo Constantino. “A proposta que faz para o problema da desigualdade está centrada na esfera da distribuição — tributos —, e não na esfera da produção — regulação direta.” O professor da UnB e pesquisador do Ipea afirma que Joseph Stiglitz é mais radical do que Piketty. “Tri­butos são uma ferramenta importante de controle da desigualdade na economia, mas o foco em tributos é muito pouco para quem escreve algo com as pretensões de grandeza de Piketty”, pontua Me­deiros. O que o doutor brasileiro quer, então? Uma substituição do modo de produção capitalista? Não parece, mas ele próprio não esclarece, ao menos não inteiramente, o que propõe como alternativa à tese de Piketty. Na opinião de Medeiros, Piketty “é bom para identificar o problema, mas não para encaminhar soluções”. É provável que o economista vai estender suas análises a um segundo volume…

2 respostas para “Liberais atacam suposto marxismo e crítico de esquerda aponta timidez”

  1. Everaldo Leite disse:

    As empresas geram riqueza, o Estado oferece assistencialismo. Aliás, o dinheiro destinado a este advém também da produção do setor privado. Dinheiro não nasce em árvore, não é cacau. Um país é rico quando possui fatores de produção em eficiente combinação, conseguindo obter a produtividade necessária para gerar emprego, renda e salários melhores. Se há contínua inflação por aumento irresponsável da base monetária, se há grande endividamento por excesso de crédito subsidiado, se o governo é populista e provoca déficits por razão eleitoreira, se as instituições perdem a credibilidade, se a burocracia e o estatismo aumentam, se a carga tributária não para de crescer, tudo isto significa ingerência do Estado sobre a economia real, que não raramente resulta em baixa competitividade, baixo crescimento e falta de interesse em se investir. Governo e economia deveriam se manter o mais distante que pudessem, portanto.

    A economia, no âmbito da concorrência verdadeira, motiva melhor o desenvolvimento e a justa distribuição, sobretudo porque as decisões tomadas pelos agentes (trabalhadores, empresários, acionistas, rentistas, consumidores etc.) têm como parâmetro o comportamento dos preços e a disposição das oportunidades, um conhecimento que o Estado (técnicos, gestores etc.) não possui em sua totalidade por estar dissolvido na sociedade. Ninguém sabe mais sobre os negócios, sobre os mercados, do que aqueles que estão efetivamente envolvidos no processo, desde o pipoqueiro na Praça da Matriz até os gestores de uma gigantesca companhia internacional de produção de aço, desde um desempregado que encontrou uma atividade informal que tem melhorado a sua vida até um grande executivo que resolve abrir seu próprio empreendimento. O Estado super-estatista somente atrapalha esta ação natural e espontânea dos indivíduos, quando resolve impor regras excêntricas e forçar artificialmente a distribuição. Isto hoje está óbvio no Brasil, que continua subdesenvolvido tendo todos os fatores de produção que necessita para ser desenvolvido.

    Todavia, o Estado é importante, a política e as leis são importantes. Estes servem sim para definir os limites dos interesses econômicos e impedir um ultraliberalismo (o lado oposto do super-estatismo). A assistência social, devidamente restringida e em conformidade com programas bem formulados de redirecionamento do cidadão à vida ativa econômica, impede que o infortúnio de alguns se torne um tipo de “destino dos fracassados e oprimidos”. Ademais, o Estado precisa continuar a construir ordens jurídicas para que haja transparência nas relações sociais e econômicas, e a desconstruir leis obsoletas que suscitam discriminações, para que haja igualdade na dignidade humana – evitando políticas desnecessárias de cotas. A economia não pode ser escrava da democracia, como questiona o economista Rodrigo Constantino, mas deve continuar sob o olhar crítico do conjunto da sociedade no objetivo de impedir que os mercados ou alguns indivíduos (lobos e afins) se tornem um mal para o desenvolvimento ético e político das pessoas, mas de incentivar que se torne um bem para o desenvolvimento material dos cidadãos.

    Assim, a falha que leva à desigualdade somente pode ser combatida com o estímulo da sociedade – às vezes pela política de Estado – à geração de riqueza e não dos desdobramentos residuais de serviços assistenciais. A desigualdade, como se sabe, não é diminuída pela distribuição via tributação e sim pelo crescimento sustentável da economia, através da poupança, da baixa taxa de juro e do investimento, através também do consumo e do comércio livre entre pessoas, estados e países. Perceber tudo isto é quase uma autoevidência, entretanto, infelizmente, são muitas as cortinas de fumaça jogadas sobre os olhos dos indivíduos, advindas essencialmente do interesse pessoal de alguns políticos, acadêmicos, profissionais e empreendedores velhacos, que se não estão se beneficiando do capitalismo de compadrio, estão vivendo politicamente e economicamente à custa da pobreza (que, em público, dizem ser contrários) e da ignorância (que, em segredo, adoram que dure) de parte significativa da sociedade. Como disse antes, governo e economia deveriam se manter o mais distante que pudessem, mas…

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