Ponto de Partida
Briga entre Ronaldo Caiado e Marconi Perillo mantém o clima de campanha dez meses depois de os eleitores terem decidido nas urnas

Certamente a luta contra moinhos de vento é o trecho mais conhecido do Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Lançado no século 17, a obra relata que o personagem-título enxergava, nos moinhos, gigantes com os quais deveria lutar – alertado pelo escudeiro Sancho Pança, alega que a transformação de gigantes para moinhos fora obra de feitiçaria.
O fato é que a passagem contribuiu muito para a mitologia em torno de Dom Quixote, personagem conhecido mesmo entre quem nunca leu uma linha sequer do texto de Cervantes e cuja iconografia estampa de camisetas a canecas. Sem a batalha imaginária, talvez a obra não tivesse atravessado os séculos. Ali construiu-se o arquétipo do cavaleiro da triste figura.
Na política que saiu vitoriosa das urnas em 2018, emergiu um tipo peculiar de quixotismo - sem um traço do romantismo e ingenuidade do anti-herói cervantista: aquele que faz dos moinhos de vento (reais e imaginários) o instrumento de sua prática cotidiana. Eles encontram nesses inimigos o caminho mais curto para ocupar as manchetes de jornais e os trends topics das redes sociais.
É o conflito constante que alimenta a notoriedade dos atores políticos. Jair Bolsonaro provavelmente permaneceria como verbete folclórico e político de nicho sem Lula, Maria do Rosário, Jean Willys. E esses dois últimos perderiam muito de sua “celebridade” caso não tivessem o atual presidente como antagonista. Os antagonistas desse ringue verbal não querem destruir o oponente, pois eles se retroalimentam. Em uma analogia grotesca, o que seria do Batman sem o Curinga?
Ainda hoje, já na cadeira presidencial, Bolsonaro mantém a temperatura elevada mediante a constante tensão. Não raro, seus discursos ainda buscam o embate com o PT – seus moinhos de vento. De seu lado, as esquerdas encontram no presidente a figura a ser combatida. Dessa forma, dificilmente abre-se espaço para a discussão distensionada, que não interessa aos agentes que se alimentam do conflito. Dessa forma, o clima de palanque é perene.
Já se passaram dez meses
Na última semana, a campanha que nunca acaba teve novos capítulos em Goiás. Não satisfeito com a vitória em 2018, o governador Ronaldo Caiado (DEM) parece imbuído da missão de acabar com o legado do tucano Marconi Perillo, já atingido por denúncias e pela prisão ocorrida na reta final das eleições do ano passado.
Caiado transforma Marconi no seu malvado favorito: dispende boa parte da energia para atacá-lo, mas sem feri-lo de morte. Aparentemente, alimenta-se de seu antagonista, de forma que mantenha no imaginário popular a necessidade de combatê-lo, ainda que a administração não traga os resultados esperados pelo eleitor que o escolheu governador há quase um ano.
Por seu lado, Marconi encontrou a oportunidade de retornar ao ringue político, do qual andava distante – mas não ausente – desde o resultado eleitoral devastador para si e para seu grupo. Reagiu e retornou ao debate político, amparado pela legitimidade da reação e pelos resultados ainda inexistentes do governo do democrata. Os moinhos giraram em seu favor.
Já se passaram dez meses desde que ambos se enfrentaram indiretamente nas urnas. A vitória esmagadora de Caiado representou não o triunfo diante de José Eliton (PSDB), que disputava com ele a vaga no Palácio das Esmeraldas. O democrata venceu o marconismo. Marconi, com tudo o que ele representa, foi o verdadeiro oponente. Não por acaso o PSDB e a base aliada marconista foram também atingidos pelo julgamento do eleitor – o grupo do antigo Tempo Novo atrofiou-se no Congresso e na Assembleia Legislativa.
Havia, portanto, um caminho aberto para Caiado iniciar uma nova dinastia em Goiás, talvez repetindo os feitos de Iris Rezende e do próprio Marconi. Mas, para tanto, apenas destruir a reputação do antecessor não basta. O governo precisa começar a mostrar resultados - nem parece, mas logo, logo um quarto de seu mandato terá sido cumprido.
Quem ganha?
Caiado tenta acuar o tucano. Além de investigar (corretamente) e divulgar (também corretamente) eventuais irregularidades ou casos de má-gestão dos antecessores, o que é legítimo e até obrigatório, o democrata também avança na seara criminal e pessoal. Marconi retruca e acusa o governador de que essa é uma cortina de fumaça para esconder uma suposta incapacidade administrativa de Caiado.
O resultado é um clima de eleição permanente. Ambos criam um mundo distópico circular que alimenta o noticiário político, agita as redes sociais, mobiliza os apoiadores de ambos os lados. Contudo, pela repercussão, a briga da última semana não trouxe grandes ganhos para nenhum dos lados – menos ainda para Caiado.
Nas redes sociais, o governador tem sido cobrado por ter participado ativamente do grupo marconista por um bom tempo – inclusive, foi o responsável pela indicação de José Eliton para a vice de Marconi em 2010 e 2014. Dessa forma, as críticas atuais acabam diluídas. O embate, portanto, traz novos desgastes desnecessários.
Do lado do tucano, a defesa aos ataques perde força porque a memória da prisão e das acusações ainda está muito fresca. Talvez ele preferisse continuar seu exílio voluntário, que nunca foi total, porque segue participando ativamente da política goiana. Mas é inegável que, entre perdas e ganhos, o custo-benefício da troca de farpas, nesse momento, lhe é mais favorável.
No frigir dos ovos, é difícil apontar um vencedor da peleja – Goiás é que não.
Governador aposta na queda dos índices criminais para melhorar a imagem diante da falta de investimentos decorrente da crise fiscal

A voz grave ao fundo anuncia: “Quando o governo deixa a polícia trabalhar, bandido tem de bater asa para voar. Só que agora é tarde: a gente já está na terra, céu e água”. As imagens mostram helicópteros, homens fardados, gente contando montes de dinheiro. O clima todo lembra o filme Tropa de Elite, desde a entonação do narrador, que emula a narração do ator Wagner Moura, ao texto. Na verdade, trata-se de uma peça publicitária do governo de Goiás com foco nos resultados da Secretaria da Segurança Pública.
Sem dinheiro em caixa, o que compromete qualquer programa de investimentos, o governador Ronaldo Caiado encontrou na segurança pública um porto seguro (com perdão do trocadilho pobre) para evitar o naufrágio da popularidade de seu governo. Com bons números, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) tem sido a maior fonte de boas notícias desde que o democrata assumiu o Palácio das Esmeraldas.
Segundo dados divulgados pela própria SSP, há uma diminuição significativa nas ocorrências prioritárias – aquelas com maior potencial ofensivo ou que ocorrem com maior frequência. É o caso, por exemplo, do número de homicídios, que recuou de XX para XX no primeiro semestre, em comparação com o mesmo período do ano passado. Sempre na mesma base de comparação, ocorreram menos latrocínios, menos roubos de veículo e em estabelecimentos comerciais, menos estupros.

Tendência de queda atinge novo patamar
Essa tendência de diminuição já havia sido observada em 2018, no comparativo com 2017. Mas, inegavelmente, atingiram um novo patamar em 2019. Méritos para o secretário Rodney Miranda, que, ao contrário do que fazem muitos gestores, aproveitou os avanços que foram realizados em gestões passadas, está aperfeiçoando o que considera necessário e mudou o foco, especialmente no combate ao tráfico de drogas.
As mudanças mais visíveis estão nessa ponta. Com um foco maior nos grandes fornecedores, a apreensão de drogas atinge recordes em Goiás. Só nos primeiros meses, foram 42,6 toneladas, diante de 18,6 toneladas no mesmo período de 2018.
Além da quantidade, as polícias Civil e Militar incrementaram, também, “qualidade” no combate ao tráfico. Neste ano houve destruição de plantações de maconha (fato incomum, pois Goiás sempre foi rota e não produtor) e a maior operação da história da PC, que atuou na desarticulação de uma quadrilha internacional extremamente bem estruturada logística e financeiramente.
O calcanhar de Aquiles segue sendo o sistema prisional. Neste ano, ocorreram aproximadamente 50 fugas dos presídios goianos. Além disso, o notório controle por parte de facções segue praticamente intocável. É bom salientar, entretanto, que esse não é um privilégio de Goiás. Em todo o Brasil, essa área é catastrófica. Demanda muito investimento, de dinheiro e de material humano, para mexer nesse vespeiro.
Segurança é protagonista das redes sociais do governador
Caiado aproveita para navegar nesses números. Não é incomum a presença do governador em entrevistas coletivas de apresentação de estatística ou de resultado de operações. Em suas redes sociais, o democrata também explora o bom momento da Segurança Pública. No Twitter do governador, que anda meio parado, das 32 postagens de julho, 10 eram sobre as ações no setor. No Instagram, das 24 postagens de agosto, quatro eram sobre o combate à criminalidade.
Essa estratégia de comunicação tem todo o sentido. Um dos maiores desgastes das gestões tucanas de Marconi Perillo e José Eliton, antecessores de Caiado, foi exatamente a questão da segurança – ou a falta dela –, explorada à exaustão pela oposição de então. A melhora em 2017 e 2018 não foi suficiente para diminuir a sensação de insegurança entre os goianos. Na campanha, e após ela, o democrata bateu forte nessa tecla.
O próprio vocabulário utilizado por Caiado vem ao encontro do espírito do tempo atual. O governador não usa eufemismos. Tanto em suas próprias palavras quanto nas peças publicitárias, termos como “bandido” e “bandidagem” são recorrentes. O governador buscar mostrar força e intransigência em relação à criminalidade.
O público gosta do que vê e ouve e não é raro que cidadãos declarem que sentem uma melhora – ainda que os números estejam longe de retratarem qualquer oásis de tranquilidade em um País extremamente violento. Mesmo com o avanço inegável, 1012 pessoas foram assassinadas em Goiás nos seis primeiros meses de 2019 – 160 somente em Goiânia. A queda, em Goiás, foi de 17,9% no semestre, abaixo da média brasileira. Segundo o Ministério da Justiça, em todo o Brasil houve recuo de 21,2% no número de homicídios.
Teorias da conspiração
Adeptos de teorias da conspiração questionam os dados oficiais. Mas a acusação de manipulação, sem que aja qualquer tipo de comprovação, é só isso: uma desconfiança.
A SSP conta hoje com um Centro de Inteligência e um Observatório da Segurança equipados com ferramentas tecnológicas avançadas e profissionais capacitados para fazer tal levantamento. Os operadores de segurança têm meio para saber quem, quando e onde ocorreu cada ação criminal devidamente registrada – impossível, claro, contabilizar um assalto cuja vítima não foi a uma delegacia. Munidos dessas informações, eles têm condições de planejar suas ações, priorizando manchas quentes, por exemplo.
Há uma máxima de que obras de saneamento não dão retorno político ao gestor. Quando o trabalho do saneamento são as contas públicas (e não a água e o esgoto), a situação é ainda pior, afinal, ninguém gosta de apertar os cintos.
Diante desse quadro, a Secretaria da Segurança Pública tem sido um oásis para Caiado no deserto de resultados visíveis das demais áreas de governo.
Caiado volta a nomear comissionados e custo sobe R$ 4 milhões desde fevereiro
Olhe Goiânia como um turista: é essa cidade que queremos preservar
Geração de empregos em Goiás no primeiro semestre é uma das piores da história
De esperança das esquerdas, deputada do PDT foi rapidamente convertida em traidora por movimentos que se recusam a pensar da caixinha
Fundo Eleitoral terá aumento de mais de 85% em relação às eleições de 2018, segundo proposta incluída na Lei de Diretrizes Orçamentárias
Capital goiana tem apenas 85 anos de idade, mas enfrenta problemas que a fazem parecer muito mais velha do que realmente é

Com apenas 85 anos de idade, Goiânia é uma criança. Salvador tem 470 anos. São Luís, 406. Belém, 403. Aqui no Centro-Oeste, Cuiabá tem 200 anos e Campo Grande, 119. No Brasil, entre as capitais estaduais, apenas Palmas, com 30 anos, é mais jovem que a capital goiana. Ainda assim, a cidade fundada por Pedro Ludovico em 1933 sofre de sintomas característicos da velhice: artérias entupidas, articulações desgastadas, intervenções cirúrgicas paliativas.
É preciso reconhecer que Goiânia é uma cidade que proporciona aos moradores e visitantes locais de convivência e lazer democráticos. Os parques e atrações turísticas – sim, nós temos – são relativamente fartos e, por serem abertos ou cobrarem ingressos a preços módicos, são acessíveis a quase todos, independentemente do tamanho do bolso.
Um olhar um pouco mais detido, porém, demonstra o quanto esses lugares estão descuidados. Muitos desses espaços estão feios, a acessibilidade a eles não é a ideal e as atrações estão, trocadilho à parte, pouco atrativas.
Nesse sábado, 6, fiz um passeio com a família no Mercado Central. Instalado originalmente no Pathernon Center, na Rua 4, em 1950, o mercado está no local atual, na Rua 3, também no Centro, desde 1986 – a transferência para a sede definitiva ocorreu na gestão do prefeito Daniel Antônio.
Passear pelos seus corredores é uma experiência emotiva e sensorial. Ali, encontram-se produtos típicos das roças goianas (como ovos caipira, queijo, rapadura, doce de leite e outras gostosuras). Há as insuspeitas bancas de raízes e garrafadas. Tem unha-de-gato (boa para cuidar de úlcera, inflamações articulares), barbatimão (cicatrizante), algodãozinho-do-Cerrado (ótimo para infecções do aparelho reprodutor feminino, dizem os mais velhos). Tem ainda uma garrafada chamada Cura Tudo – não sei se cura mesmo, mas as pessoas compram e saem com aquele ar de certeza.

Qual a melhor empada?
No Mercado Central, encontram-se panelas de alumínio batido, panelas de ferro (inigualáveis para fazer um bom risoto do Cerrado), peças para fogão (trempas e chapas). Carne de porco, de cordeiro, de capivara. E as imperdíveis empadas do Mário e do Alberto – uma disputa que tem torcida mais acirrada do que Vila Nova x Goiás para saber qual é a melhor.
Além das iguarias, as bandas têm história. Muitos dos comerciantes estão ali há anos, alguns desde a fundação, ainda no Pathernon Center. Com pouco apoio do poder público, são eles que se viram. A manutenção tem sido feita graças à arrecadação do estacionamento.
A maior ajuda da Prefeitura vinha de forma indireta: havia um restaurante popular no terceiro piso, fechado em 2017. Com preço módico (R$ 1), o local atraía cerca de 1 mil pessoas por dia. Movimento que se transformava em venda para os lojistas. Além disso, o terceiro andar está fechado desde então. Movimento menor, lojas fechadas, espaço público desperdiçado.
O Mercado Central é apenas um dos exemplos do envelhecimento precoce de Goiânia. Mesmo os parques, que fazem a fama da capital em outros Estados, já viveram dias melhores. Uma caminhada rápida no Parque Flamboyant, por exemplo, é o suficiente para revelar brinquedos em más condições, gramado descuidado, lixo espalhado – aí, boa parte da culpa é do próprio cidadão pois, faça-se justiça, há lixeiras disponíveis.

Sem contar as ruas ao redor do parque. Com o adensamento desenfreado e a construção de verdadeiros arranha-céus, muita da água oriunda da drenagem continua escorrendo pelas vias esburacadas. Talvez não exista um local em Goiânia onde a relação do IPTU com o retorno em serviço público seja tão desfavorável ao contribuinte. Certamente, o imposto pago pelos moradores desses prédios de alto padrão não é nada módico.
Outro parque que já viveu dias melhores é o Marcos Veiga Jardim, anexo ao Autódromo Internacional de Goiânia, que é de responsabilidade do Governo do Estado. As pragas tomaram conta de boa parte dos jardins e, para realizar a limpeza, é preciso sacrificar flores e plantas ornamentais. Nas laterais da pista de corrida, o mato dá sempre as cartas. Há alguns meses, os próprios comerciantes e usuários do parque fizeram um mutirão de limpeza. As coisas melhoraram, mas é inegável que o espaço já foi muito mais agradável aos olhos.

Muito bem localizado, em pleno Setor Oeste, o Bosque dos Buritis é outro exemplo de como o que poderia ser excelente se limita ao aceitável. Ele é o mais antigo de Goiânia, por ter nascido junto da capital. A área verde, um verdadeiro pulmão no âmago da cidade, foi invadido pela Assembleia Legislativa na virada dos anos 1950 para os anos 1960, por obra do governador Ary Valadão
Sigamos o passeio até o Zoológico de Goiânia. Antes de mais nada, para muita gente o local já deveria ter fechado há muito tempo. Não sou da turma que tem ojeriza aos zoos, mas compreendo as restrições.

No caso da capital goiana, centenas de pessoas o procuram nos fins de semana. É uma opção barata de lazer, apenas R$ 5 o ingresso. Basta uma olhadinha no site Trip Advisor para notar quais são as queixas dos visitantes: manutenção precária, plantel carente.
Por ter uma localização tão privilegiada, o zoo merecia um carinho especial da Prefeitura. Atualmente, o espaço é muito mais agradável para quem faz corrida na pista em seu perímetro que para quem gosta realmente de ver animais. Mas, mesmo os atletas pedem por mais segurança.
Serra Dourada

Outro cartão postal goianiense abandonado pelo poder público é o Estádio Serra Dourada. Aos 44 anos de idade, o gigante do Cerrado recebeu em seus gramados craques como Zico e Maradona. Recebeu shows memoráveis, como o do beatle Paul MacCartney. Foi sede de jogos históricos, como Flamengo e Atlético Mineiro pela Libertadores da América em 1981. Foi ali que vivi algumas das maiores emoções da minha vida, nos clássicos entre Vila Nova e Goiás – e, certamente, milhares de pessoas já sentiram o mesmo em suas arquibancadas.
Hoje, contudo, o Serra, como é carinhosamente chamado pelos torcedores, está entre os piores estádios do Brasil. O local é desconfortável, os banheiros sempre em péssimas condições, as bilheterias e catracas estão no século 20 e nunca foi instalado um placar decente. A última reforma, que foi uma espécie de maquiagem, teve de ser bancada por um ente privado: o Goiás Esporte Clube.
Goiânia ainda preserva parte de seu frescor. Mas, envelhece antes da hora. Entre as pessoas, a maturidade, se lhes rouba o viço, ao menos traz a sabedoria. Façamos nossa parte para que, no caso da capital, o avançar da idade também a torne mais sábia – sob pena de termos apenas os ônus e nenhum bônus do passar dos anos.
Oscar e Valeria tentavam chegar aos Estados Unidos e, como eles, há mais de 70 milhões de pessoas no mundo sem um lugar para chamar de lar

Há cenas de uma tristeza tão concreta que parece ser possível tocá-la, sentir o cheiro e o gosto amargo, notar o tom cinzento. Uma imagem assim circulou o mundo nos últimos dias: Oscar Ramirez e a filha Valeria, de El Salvador, inertes, à margem do Rio Grande, no México. O objetivo era chegar aos Estados Unidos, com a família.
O registro foi feito pela jornalista Júlia Le Duc. Segundo a imprensa local, Oscar havia deixado a menina na margem e voltava para buscar a esposa. Assustada, Valeria, que faria dois anos em julho, saltou de volta às águas. O pai tentou socorrê-la, mas ambos terminaram afogados.
A foto de ambos lembra outra, de 2015. Naquele ano, o corpo do menino Alan, de três anos, chegou à praia de Bodrum, na Turquia, levado pelas ondas. De bruços, camiseta vermelha e bermuda azul, o garoto sírio tornou-se símbolo da tragédia humanitária naquela região, que leva milhares de refugiados a buscar abrigo em países europeus.
O drama dos sem-pátria é a maior crise humanitária atual. Segundo a o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, o número de deslocados rompeu, pela primeira vez na história, a marca de 70 milhões de pessoas. O órgão acompanha os dados desde 1950 – portanto, sob os escombros da Segunda Guerra.
Conflitos armados, opressão sexual, crise econômica
Para se ter uma dimensão do problema, é como se toda a população da França e da Irlanda, juntas, tivesse de sair de casa. Dentro dessa massa, estão 25,9 milhões de refugiados (aqueles, como Óscar, Valeria e Alan, que deixam seus países de origem), 3,5 milhões de solicitantes de refúgio e 41,4 milhões de descolados internos. O Ministério da Justiça reconhece 10,5 mil refugiados em território brasileiro – número que é expressivamente maior, pois a maior parte deles escapa das contagens oficiais e da burocracia estatal.
Os motivos que levam uma pessoa a pedir refúgio são variados. O mais comum são os conflitos armados. É assim, por exemplo, na Síria. Estima-se que mais de 12 milhões de sírios tiveram de deixar suas casas desde o início da guerra civil, que recentemente completou oito anos. Desde então, opositores ao regime de Bashar al-Assad travam uma guerra sangrenta que já matou mais de 500 mil pessoas.
Há ainda os refugiados impulsionados por questões econômicas. Atualmente, a vizinha Venezuela é o maior exemplo. Em apenas seis anos, o governo Nicolás Maduro mergulhou o país em uma crise econômica e social que inclui perseguições políticas e fome. De acordo com a ONU, são 3,4 milhões de venezuelanos refugiados por vários países.
Por fim, existem ainda aqueles que se refugiam por causa da orientação sexual. Só no Brasil, entre 2010 e 2016, 369 pessoas solicitam refúgio por essa questão. Normalmente, são LGBTIs que viviam em países que criminalizam a homossexualidade, como a Nigéria, maior “exportador” de refugiados em busca de liberdade sexual para o Brasil.
Além das consequências óbvias (perda do que se tem, rompimento de laços familiares e de amizade, as dificuldades de adaptação em uma nova nação), o refugiado convive com problemas menos evidentes, de cunho emocional.

Banzo matava os escravos brasileiros
Um poema do parnasiano Raimundo Correia, escrito no final do século 19, dá pistas de quão profunda pode ser a dor de quem deixa involuntariamente a terra natal. “Vai com a sombra crescendo o vulto enorme/ Do baobá…/ E cresce na alma o vulto de uma tristeza, imensa, imensamente…”.
O poeta se referia ao banzo (nome do soneto): um sentimento de saudade e melancolia tão grande que chegava a matar os africanos escravizados no Brasil. Além da própria condição de traficado, o banzo era agravado pelos maus-tratos na senzala.
Talvez a história de refugiados mais conhecida, ao menos no ocidente, seja a dos hebreus. O relato bíblico do Antigo Testamento e os registros históricos contam a trajetória de um povo que há milênios busca a sua terra prometida. O exílio na Babilônia, Pérsia e Egito impregnou a condição dos hebreus a ponto de ainda hoje o Estado de Israel conviver com essa carga.
As lembranças históricas contextualizam a situação dos atuais refugiados. São pessoas sem lar, expulsas de seus países e, muitas vezes, recebidas com desprezo, desconfiança e raiva onde buscam abrigo.
Um caso recente desse repúdio a esse tipo de imigrante ocorreu no ano passado aqui mesmo, no Brasil – que normalmente recebe com sorrisos largos aqueles que vêm com dinheiro no bolso. Em agosto do ano passado, assistimos à infame cena de brasileiros expulsando e colocando fogo em barracas de venezuelanos em Pacaraima (RR). Para completar o roteiro de horror, sob os versos do Hino Nacional. Uma vergonha.
Xenofobia no Velho Continente
Na Europa, muitos cidadãos receberam os refugiados às pedradas. A xenofobia atingiu níveis alarmantes no Velho Continente. Em uma análise desapaixonada, é possível compreender o que anaboliza esse sentimento: o medo do estrangeiro que, devido às condições, é enxergado como ameaça ao bem estar social – especialmente em períodos de letargia econômica; nos tempos de bonança, ele é bem vindo, pois se dispõe a trabalhos aos quais os demais não se submetem.
Mário Quintana escreveu que quem faz um poema salva um afogado. Para Óscar, Valeria e Alan, o que ficou foi apenas uma página em branco.
Sobre o assunto, a jornalista Elisama Ximenes escreveu um texto tocante no Jornal Opção.
Passou da hora de a capital goiana ter gestores, para usar um termo da moda, disruptivos. Só assim para ela se transformar em uma cidade inteligente
Ausência de um Plano de Mobilidade e atraso na atualização do Plano Diretor revelam que a Prefeitura não pensa o município em todo seu conjunto

A conhecida Teoria das Janelas quebradas parte de uma premissa simples: se algo não recebe zelo, tudo é permitido. Pensada por pesquisadores norte-americanos, na década de 1980, a Broken Windows Theory comprova a relação entre desordem e criminalidade.
O exemplo clássico é o do edifício abandonado que tem uma das janelas quebradas. Caso nenhuma providência seja tomada (as janelas consertadas, a ocupação do prédio), em breve surgirão pichações e invasões, tornando o lugar um ambiente inóspito e propício para práticas delituosas (como uso de drogas, estupros, etc). Afinal, se ninguém se importou em reparar a janela quebrada, é sinal de que a construção não tem todo. E, se não tem dono, ali tudo pode.
A teoria tentava explicar a incidência maior de criminalidade em bairros onde a desordem era regra. Muros pichados, lâmpadas da iluminação pública queimadas, sucatas de carros abandonados nas ruas, lotes e construções vazias, escolas com péssima infraestrutura: tudo isso coincidia com altas taxas de crimes.
Na prática, é fácil observar a aplicação da teoria, especialmente em bairros mais periféricos de qualquer cidade brasileira. Se alguém despeja lixo em um terreno desocupado, sem que logo em seguida o entulho seja retirado e o responsável punido, mais e mais gente fará o mesmo e a área em pouco tempo terá se transformado em um lixão. A destruição da construção abandonada e o lote transformado em depósito de lixo dão início à degradação da vizinhança até que o ciclo culmine em um ambiente onde germinam o crime e a violência.
A premissa pode ser levada para vários campos do convívio pessoal e social. Relações amorosas cujas janelas quebradas não são reparadas estão fadadas ao fracasso. Cidades onde as regras mínimas de convívio são negligenciadas inevitavelmente sofrerão com o crescimento desordenado, os serviços básicos insuficientes, o trânsito patológico e o comprometimento da qualidade de vida.
Explosão demográfica
Goiânia sofre com todos esses sintomas. Aquela cidade com ares interioranos ficou para trás há décadas. Na virada do século, o município tinha 1,09 milhão de habitantes. Atualmente, tem quase 1,5 milhão, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). A capital está entre as 70 cidades com maior densidade demográfica do País (1,7 mil moradores em cada quilômetro quadrado).
A migração em massa faz de Goiânia a quinta cidade que mais cresce no Brasil – e uma das 100 que mais crescem no mundo, segundo a Fundação City Mayors, dedicada ao estudo de assuntos urbanos. O crescimento populacional, sem que a economia seja capaz de absorver a todos, torna a cidade a mais desigual da América Latina, de acordo com o índice Gini, elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para calcular a distribuição de renda.
Goiânia é, hoje, uma cidade com janelas quebradas. E muito se deve ao grupo que atualmente orbita ao redor do prefeito Iris Rezende. Pessoalmente, o emedebista completa em 2019 oito anos sentado no trono de ferro do Paço Municipal. Mas, em uma análise mais rigorosa, pode-se colocar na conta boa parte dos seis anos de Paulo Garcia nessa conta. Portanto, muito do que está aí é de responsabilidade de Iris Rezende – para o bem e para o mal.
Especialmente no atual ciclo de poder, Iris Rezende não tem se preocupado em reparar algumas janelas quebradas. Tomemos dois exemplos básicos: Goiânia está atrasada na revisão do Plano Diretor e não elaborou o Plano de Mobilidade Urbana, duas ferramentas essenciais para o ordenamento das cidades, de forma que seja preservada a qualidade de vida dos moradores.
Plano de mobilidade foi engavetado
O Plano Diretor de Goiânia é de 29 de maio de 2017. O Estatuto das Cidades determina que ele seja atualizado a cada dez anos. Portanto, a capital goiana está atrasada há dois anos. A Prefeitura até que se movimentou, lançou um portal, realizou algumas reuniões, mas até hoje não enviou o projeto para a Câmara de Vereadores, que deve estudá-lo e votá-lo.
É por meio do Plano Diretor que uma cidade cresce de forma mais humanizada, menos opressiva e conflituosa. Também é assim que se define a utilização de espaços urbanos, levando-se em conta as necessidades da população e a sustentabilidade ambiental.
O Plano Diretor pode definir as regiões onde será permitido construir edifícios residenciais (inclusive com limites de pavimentos), áreas comerciais, eixos de transporte, etc. O atual Plano Diretor de Goiânia prevê, por exemplo, a construção ou manutenção de 13 corredores exclusivos ou preferenciais de ônibus – boa parte deles nunca saiu do papel.
Outra prova de despreocupação com as janelas quebradas da capital goiana por parte da Prefeitura é a negligência em relação ao Plano de Mobilidade Urbana (PMU) que, a rigor, deveria ter sido desenvolvido e colocado em prática antes mesmo da revisão do Plano Diretor. O PMU ordena a convivência entre os diversos modais de transporte (bicicleta, motos, automóveis, ônibus, metrô, etc) e os deslocamentos a pé. Em síntese, a elaboração de um bom Plano de Mobilidade e sua execução podem preservar um pouco de civilidade nas cidades.

BRT anda, mas devagar
Em julho de 2016, ainda na gestão Paulo Garcia (PT), a Prefeitura anunciou a criação do Plano de Mobilidade de Goiânia. Na época, o PlanMob-Goiânia tinha prazo de 14 meses para ser implementado. Previa ações que dariam continuidade aos investimentos em corredores de ônibus, BRT e ciclovias. Três anos depois, a obra do BRT, que ganhou um fôlego nos últimos meses, segue sem conclusão. Corredores para transporte coletivo e ciclovias não ganharam um só quilômetro a mais – e não se fala mais do assunto.
Assim, Iris repete na administração o que sempre fez como gestor. Ao invés de instituir um Plano de Mobilidade, ou talvez exatamente pela falta de, a Prefeitura investe em trincheiras e viadutos ao longo das Avenidas 136 e Jamel Cecílio. Com exceção do BRT, iniciado por Paulo Garcia, um prefeito que, a despeito de todas as críticas, tinha uma visão de mobilidade inédita para Goiânia, as obras tocadas pelo Paço Municipal priorizam, mais uma vez, o transporte individual.
Viadutos são como analgésicos
São obras pontuais, que não seguem um projeto mais amplo que pense a cidade como um todo - e sua conexão e dependência mútua com todos os municípios da Região Metropolitana. Viadutos e trincheiras têm efeito muito local, não resolvem o problema. A única mágica que fazem é deslocar o congestionamento para 100 metros adiante. São como analgésicos que escondem a dor, mas não curam a causa de fundo.
Aparentemente, a administração municipal acredita que para consertar janelas basta trocar aquela parte do vidro despedaçada. Mas, na verdade, o que a teoria do cientista político James Q. Wilson e o do psicólogo criminologista George Kelling nos ensina é que essa é a apenas a primeira e emergencial providência. Para manter a casa habitável, exigem-se intervenções muito mais profundas e planejadas.
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Em meio à polêmica envolvendo o Passe Livre Estudantil, cujo número de alunos atendidos o governo estadual quer reduzir de 85 mil para 22 mil, um assunto tem passado ao largo das discussões sobre o transporte coletivo público. Em gestação nos órgãos gestores, a criação de fontes alternativas de financiamento do sistema na Região Metropolitana precisa deixar de ser tabu e deve ser debatida com clareza, coragem e com o mínimo de contaminação de interesses políticos e financeiros.
Atualmente, o sistema é quase que exclusivamente bancado pela tarifa paga pelos usuários. O governo estadual subsidia com isenção de ICMS sobre o combustível e com repasses para cobrir o déficit oriundo do Passe Livre Estudantil. As demais gratuidades (idosos, militares, funcionários dos Correios, deficientes, etc) são complementadas pelo preço da passagem – que também paga pela manutenção dos abrigos e terminais de integração. A estimativa é de que todos esses gastos representem cerca de 40% do valor final da tarifa. Ou seja, R$ 1,72 de R$ 4,30 são usados para cobrir as gratuidades e para fazer investimentos em manutenção.
De acordo com o senso comum, essa seria a lógica. Paga quem usa. Contudo, no mundo desenvolvido, não é assim que funciona. Para que a tarifa não seja tão alta e que haja recursos para melhoria do sistema, em praticamente todos os países avançados há algum tipo de fonte alternativa de financiamento do transporte coletivo público.
Conforme publicado no Jornal Opção, nas principais cidades europeias o subsídio governamental (que, em última análise, é bancado pelos tributos e taxas pagas por toda a sociedade) cobre de 46% (em Amsterdã) a 74% (em Praga) do valor total das tarifas. Isso ocorre porque existe uma visão que valoriza o coletivo sobre o individual. É assim que as sociedades avançadas funcionam.

E de onde vêm esses recursos para subsidiar o valor da passagem? As possibilidades são muitas, mas o caminho mais comum é que o transporte individual arque com esses custos, seja com parcela do valor do licenciamento anual, seja com destinação de taxas incidentes sobre estacionamentos particulares e públicos e combustíveis. Em alguns países, inclusive, há cobrança de pedágio urbano.
No caso do município de Goiânia, há duas medidas que poderiam, ao mesmo tempo, auxiliar na rotatividade das vagas de estacionamento público e servirem de fonte para melhoria do transporte coletivo: a ampliação da Área Azul, que, segundo estudo da Secretaria de Trânsito, Transporte e Mobilidade (SMT) poderia chegar a 20 mil vagas (hoje são apenas 2 mil, em Campinas e no Centro); e a adoção do parquímetros, projeto já aprovado na Câmara de Vereadores mas nunca colocado em prática.
No caso de Goiás, os técnicos que trabalham no tema calculam que seria necessário algo em torno de R$ 200 milhões por ano em fontes extratarifárias. Esse valor seria o suficiente para segurar o valor da passagem e ter algum recurso para investir em novos abrigos, na melhoria dos terminais e na frota.
Porém, esse não é um tema fácil de lidar. Ao longo do tempo, o usuário desenvolveu uma desconfiança nos gestores e nas empresas que exploram o serviço. E não sem razão. Desde que a atual concessão entrou em vigor, em 2008, a tarifa subiu de R$ 2 para R$ 4,30. É um aumento de 115% no período. Bem acima da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que foi de 77%.
Já o proprietário de automóvel particular dificilmente engoliria mais uma taxa ou aumento naquelas que já paga anualmente, como o IPVA, o licenciamento e o seguro obrigatório. Afinal, se ele não enxerga os tributos que paga anualmente retornarem em forma de ruas em boas condições e sinalização de trânsito adequada, como convencê-lo de pagar um pouco mais para que o transporte coletivo público seja beneficiado?
Os desafios para fazer uma proposta dessas vingar são muitos. Mas os benefícios também. Um transporte coletivo melhor significa um trânsito mais racional, menos perda de dinheiro em deslocamento, menos poluição. Enfim, mais qualidade de vida nas cidades.
Cabe aos gestores conquistarem a confiança da população. E cabe a toda a sociedade estabelecer uma cultura na qual o interesse coletivo seja mais importante que o individual.


