Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Primeiro semestre confirma que Goiás deixou de ser grande gerador de emprego

Enquanto governo e empresários não chegam a um ponto de equilíbrio, número de novas vagas com carteira assinada é um dos piores da história

Foto: Rafael Neddermeyer / Fotos Públicas

Os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados na semana passada pelo Ministério da Economia, comprovam a tendência apontada neste espaço em maio: a geração de emprego com carteira assinada em Goiás é uma das mais fracas da história. No primeiro semestre de 2019, foram criados 27.760 postos de trabalho formais no Estado. Em uma linha histórica de 17 anos, o desempenho só é melhor que os de 2003, 2014 e 2015 (anos de extrema crise econômica).

O dado de Goiás é ainda mais preocupante quando se observa uma curva declinante nos últimos três anos. Em 2017, no mesmo período, foram geradas 39.459 vagas; em 2018, 31.725. No comparativo com o ano passado, o número de novos postos de trabalho formal foi 12% menor. É um sinal de alerta.

Em 2013, ano a partir do qual o Caged disponibiliza os dados, foram geradas 26.199 vagas. O Brasil vivia ainda a incerteza com o novo governo, após a vitória de Lula nas eleições de 2002. Havia uma forte depreciação do real. Fernando Henrique Cardoso entregou um país com taxa de emprego na casa dos 11%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Porém, apesar dos problemas econômicos internos, o mundo começava um ciclo de crescimento que logo iria empurrar o Brasil. O ciclo virtuoso do emprego ganhou impulso em 2007 e atingiu o ápice entre 2010 e 2013. Nesse intervalo, a geração de empregos em Goiás ficou sempre acima da casa dos 70 mil (75 mil em 2011, a melhor marca da história). Os números ajudam a explicar a popularidade final do governo Lula e inicial do governo Dilma Rousseff.

Em 2014, teve início a crise que muitos dizem ser a maior já vivida pelo País. A criação de vagas no Estado minguou. Ficou em 22 mil no primeiro semestre do ano seguinte e despencou para 16 mil em 2016.

O fôlego foi retomado em 2017 e 2018, mas em bases sempre inferiores aos dos anos pré-crise. Agora, no primeiro semestre de 2019, os indicadores parecem abortar o voo de galinha do emprego em Goiás.

O desempenho do primeiro semestre preocupa especialmente por causa de algumas características. Normalmente, a geração de empregos em Goiás é mais forte no primeiro semestre. Em 2017, por exemplo, enquanto foram criados 39 mil postos formais nos seis primeiros meses do ano, no segundo semestre houve fechamento de 14 mil vagas. Em 2018, das 44 mil vagas geradas em todo o ano, 31 mil foram no primeiro semestre.

Isso ocorre porque o setor agropecuário, tradicionalmente um dos maiores empregadores, concentra suas contratações no primeiro semestre. Em 2018, por exemplo, o setor fechou os seis primeiros meses com 10 mil vagas de saldo, número que caiu para 1,4 mil em dezembro.

Caso a tendência se confirme este ano, e não há nada que faça imaginar que será diferente, 2019 corre o risco de fechar como um dos anos mais anêmicos na geração de emprego formal em Goiás.

Brasil teve o melhor semestre dos últimos cinco anos

Para entender melhor o porquê de o desempenho de Goiás preocupar, é preciso observar o que está ocorrendo em nível nacional. O Estado ainda está entre os que mais geraram empregos no País. Ocupou, nessa primeira metade do ano, a sexta posição no ranking. Em 2018, era o quinto.

O que distorce a situação de Goiás em 2019 é que a geração está mais faca que a dos dois anos anteriores. No Brasil, a curva é inversa: o País criou no primeiro semestre mais empregos que em 2017 e 2018. Também teve o melhor junho dos últimos cinco anos, enquanto Goiás teve o segundo pior junho desde 2004.

O cenário político também preocupa. Buscando equilibrar as contas públicas, o governo de Goiás conseguiu liminar no Supremo Tribunal Federal (STF) para entrar no Regime de Recuperação Fiscal. O setor produtivo e parte do setor político temem que a medida engesse ainda mais a economia como um todo. Sem capacidade de investimento e sem condições de contratar obras, o setor público deixar de ser um importante ator na indução da economia goiana.

Além disso, o RRF exige novos cortes de benefícios ficais às empresas. Os empresários, claro, não gostam de ter seus bolsos mexidos. Mas o governo alega que os incentivos e benefícios ultrapassaram qualquer parâmetro aceitável.

Ao governo, é necessário mais rapidez e clareza nas decisões. Recentemente, a Comigo (uma das cinco maiores do setor agropecuário no País) sinalizou com o congelamento de investimentos na ordem de R$ 350 milhões. Segundo o presidente da cooperativa, Antônio Chavaglia, no atual cenário não vale a pena investir em Goiás.

É claro que se trata de um jogo de pressão dos dois lados. Porém, governo e empresários precisam chegar a um ponto de equilíbrio pois, sem investimento, não há emprego.

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