Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Um passeio por Goiânia nos revela uma jovem envelhecendo rápido demais

Capital goiana tem apenas 85 anos de idade, mas enfrenta problemas que a fazem parecer muito mais velha do que realmente é

Com apenas 85 anos de idade, Goiânia é uma criança. Salvador tem 470 anos. São Luís, 406. Belém, 403. Aqui no Centro-Oeste, Cuiabá tem 200 anos e Campo Grande, 119. No Brasil, entre as capitais estaduais, apenas Palmas, com 30 anos, é mais jovem que a capital goiana. Ainda assim, a cidade fundada por Pedro Ludovico em 1933 sofre de sintomas característicos da velhice: artérias entupidas, articulações desgastadas, intervenções cirúrgicas paliativas.

É preciso reconhecer que Goiânia é uma cidade que proporciona aos moradores e visitantes locais de convivência e lazer democráticos. Os parques e atrações turísticas – sim, nós temos – são relativamente fartos e, por serem abertos ou cobrarem ingressos a preços módicos, são acessíveis a quase todos, independentemente do tamanho do bolso.

Um olhar um pouco mais detido, porém, demonstra o quanto esses lugares estão descuidados. Muitos desses espaços estão feios, a acessibilidade a eles não é a ideal e as atrações estão, trocadilho à parte, pouco atrativas.

Nesse sábado, 6, fiz um passeio com a família no Mercado Central. Instalado originalmente no Pathernon Center, na Rua 4, em 1950, o mercado está no local atual, na Rua 3, também no Centro, desde 1986 – a transferência para a sede definitiva ocorreu na gestão do prefeito Daniel Antônio.

Passear pelos seus corredores é uma experiência emotiva e sensorial. Ali, encontram-se produtos típicos das roças goianas (como ovos caipira, queijo, rapadura, doce de leite e outras gostosuras). Há as insuspeitas bancas de raízes e garrafadas. Tem unha-de-gato (boa para cuidar de úlcera, inflamações articulares), barbatimão (cicatrizante), algodãozinho-do-Cerrado (ótimo para infecções do aparelho reprodutor feminino, dizem os mais velhos). Tem ainda uma garrafada chamada Cura Tudo – não sei se cura mesmo, mas as pessoas compram e saem com aquele ar de certeza.

As tradicionais empadas do Mercado Central, na Rua 3 | Foto: Rodrigo Hirose / Jornal Opção

Qual a melhor empada?

No Mercado Central, encontram-se panelas de alumínio batido, panelas de ferro (inigualáveis para fazer um bom risoto do Cerrado), peças para fogão (trempas e chapas). Carne de porco, de cordeiro, de capivara. E as imperdíveis empadas do Mário e do Alberto – uma disputa que tem torcida mais acirrada do que Vila Nova x Goiás para saber qual é a melhor.

Além das iguarias, as bandas têm história. Muitos dos comerciantes estão ali há anos, alguns desde a fundação, ainda no Pathernon Center. Com pouco apoio do poder público, são eles que se viram. A manutenção tem sido feita graças à arrecadação do estacionamento.

A maior ajuda da Prefeitura vinha de forma indireta: havia um restaurante popular no terceiro piso, fechado em 2017. Com preço módico (R$ 1), o local atraía cerca de 1 mil pessoas por dia. Movimento que se transformava em venda para os lojistas. Além disso, o terceiro andar está fechado desde então. Movimento menor, lojas fechadas, espaço público desperdiçado.

O Mercado Central é apenas um dos exemplos do envelhecimento precoce de Goiânia. Mesmo os parques, que fazem a fama da capital em outros Estados, já viveram dias melhores. Uma caminhada rápida no Parque Flamboyant, por exemplo, é o suficiente para revelar brinquedos em más condições, gramado descuidado, lixo espalhado – aí, boa parte da culpa é do próprio cidadão pois, faça-se justiça, há lixeiras disponíveis.

Balanço no Parque Flamboyant: alguns brinquedos precisam de manutenção | Foto: Rodrigo Hirose / Jornal Opção

Sem contar as ruas ao redor do parque. Com o adensamento desenfreado e a construção de verdadeiros arranha-céus, muita da água oriunda da drenagem continua escorrendo pelas vias esburacadas. Talvez não exista um local em Goiânia onde a relação do IPTU com o retorno em serviço público seja tão desfavorável ao contribuinte. Certamente, o imposto pago pelos moradores desses prédios de alto padrão não é nada módico.

Outro parque que já viveu dias melhores é o Marcos Veiga Jardim, anexo ao Autódromo Internacional de Goiânia, que é de responsabilidade do Governo do Estado. As pragas tomaram conta de boa parte dos jardins e, para realizar a limpeza, é preciso sacrificar flores e plantas ornamentais. Nas laterais da pista de corrida, o mato dá sempre as cartas. Há alguns meses, os próprios comerciantes e usuários do parque fizeram um mutirão de limpeza. As coisas melhoraram, mas é inegável que o espaço já foi muito mais agradável aos olhos.

Parque Marcos Veiga Jardim: o lugar já foi bem mais bonito | Foto: Rodrigo Hirose / Jornal Opção

Muito bem localizado, em pleno Setor Oeste, o Bosque dos Buritis é outro exemplo de como o que poderia ser excelente se limita ao aceitável. Ele é o mais antigo de Goiânia, por ter nascido junto da capital. A área verde, um verdadeiro pulmão no âmago da cidade, foi invadido pela Assembleia Legislativa na virada dos anos 1950 para os anos 1960, por obra do governador Ary Valadão

Sigamos o passeio até o Zoológico de Goiânia. Antes de mais nada, para muita gente o local já deveria ter fechado há muito tempo. Não sou da turma que tem ojeriza aos zoos, mas compreendo as restrições.

Lago das Rosas, ao lado do Zoológico: críticas no Trip Advisor | Foto: Rodrigo Hirose / Jornal Opção

No caso da capital goiana, centenas de pessoas o procuram nos fins de semana. É uma opção barata de lazer, apenas R$ 5 o ingresso. Basta uma olhadinha no site Trip Advisor para notar quais são as queixas dos visitantes: manutenção precária, plantel carente.

Por ter uma localização tão privilegiada, o zoo merecia um carinho especial da Prefeitura. Atualmente, o espaço é muito mais agradável para quem faz corrida na pista em seu perímetro que para quem gosta realmente de ver animais. Mas,  mesmo os atletas pedem por mais segurança.

Serra Dourada

Estádio Serra Dourada: palco de grande emoções está decadente | Foto: Rodrigo Hirose / Jornal Opção

Outro cartão postal goianiense abandonado pelo poder público é o Estádio Serra Dourada. Aos 44 anos de idade, o gigante do Cerrado recebeu em seus gramados craques como Zico e Maradona. Recebeu shows memoráveis, como o do beatle Paul MacCartney. Foi sede de jogos históricos, como Flamengo e Atlético Mineiro pela Libertadores da América em 1981. Foi ali que vivi algumas das maiores emoções da minha vida, nos clássicos entre Vila Nova e Goiás – e, certamente, milhares de pessoas já sentiram o mesmo em suas arquibancadas.

Hoje, contudo, o Serra, como é carinhosamente chamado pelos torcedores, está entre os piores estádios do Brasil. O local é desconfortável, os banheiros sempre em péssimas condições, as bilheterias e catracas estão no século 20 e nunca foi instalado um placar decente. A última reforma, que foi uma espécie de maquiagem, teve de ser bancada por um ente privado: o Goiás Esporte Clube.

Goiânia ainda preserva parte de seu frescor. Mas, envelhece antes da hora. Entre as pessoas, a maturidade, se lhes rouba o viço, ao menos traz a sabedoria. Façamos nossa parte para que, no caso da capital, o avançar da idade também a torne mais sábia – sob pena de termos apenas os ônus e nenhum bônus do passar dos anos.

1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Gasparina

Concordo com tudo que foi dito sou goiana e tenho a mesma preocupação, vejo Goiânia se envelhecer antes do tempo. Medidas urgentes devem ser tomadas para melhorar nossa cidade.