Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

Cena de pai e filha afogados repete a tragédia do menino sírio Alan

Oscar e Valeria tentavam chegar aos Estados Unidos e, como eles, há mais de 70 milhões de pessoas no mundo sem um lugar para chamar de lar

Há cenas de uma tristeza tão concreta que parece ser possível tocá-la, sentir o cheiro e o gosto amargo, notar o tom cinzento. Uma imagem assim circulou o mundo nos últimos dias: Oscar Ramirez e a filha Valeria, de El Salvador, inertes, à margem do Rio Grande, no México. O objetivo era chegar aos Estados Unidos, com a família.

O registro foi feito pela jornalista Júlia Le Duc. Segundo a imprensa local, Oscar havia deixado a menina na margem e voltava para buscar a esposa. Assustada, Valeria, que faria dois anos em julho, saltou de volta às águas. O pai tentou socorrê-la, mas ambos terminaram afogados.

A foto de ambos lembra outra, de 2015. Naquele ano, o corpo do menino Alan, de três anos, chegou à praia de Bodrum, na Turquia, levado pelas ondas.  De bruços, camiseta vermelha e bermuda azul, o garoto sírio tornou-se símbolo da tragédia humanitária naquela região, que leva milhares de refugiados a buscar abrigo em países europeus.

O drama dos sem-pátria é a maior crise humanitária atual. Segundo a o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, o número de deslocados rompeu, pela primeira vez na história, a marca de 70 milhões de pessoas. O órgão acompanha os dados desde 1950 – portanto, sob os escombros da Segunda Guerra.

Conflitos armados, opressão sexual, crise econômica

Para se ter uma dimensão do problema, é como se toda a população da França e da Irlanda, juntas, tivesse de sair de casa. Dentro dessa massa, estão 25,9 milhões de refugiados (aqueles, como Óscar, Valeria e Alan, que deixam seus países de origem), 3,5 milhões de solicitantes de refúgio e 41,4 milhões de descolados internos. O Ministério da Justiça reconhece 10,5 mil refugiados em território brasileiro – número que é expressivamente maior, pois a maior parte deles escapa das contagens oficiais e da burocracia estatal.

Os motivos que levam uma pessoa a pedir refúgio são variados. O mais comum são os conflitos armados. É assim, por exemplo, na Síria. Estima-se que mais de 12 milhões de sírios tiveram de deixar suas casas desde o início da guerra civil, que recentemente completou oito anos. Desde então, opositores ao regime de Bashar al-Assad travam uma guerra sangrenta que já matou mais de 500 mil pessoas.

Há ainda os refugiados impulsionados por questões econômicas. Atualmente, a vizinha Venezuela é o maior exemplo. Em apenas seis anos, o governo Nicolás Maduro mergulhou o país em uma crise econômica e social que inclui perseguições políticas e fome. De acordo com a ONU, são 3,4 milhões de venezuelanos refugiados por vários países.

Por fim, existem ainda aqueles que se refugiam por causa da orientação sexual. Só no Brasil, entre 2010 e 2016, 369 pessoas solicitam refúgio por essa questão. Normalmente, são LGBTIs que viviam em países que criminalizam a homossexualidade, como a Nigéria, maior “exportador” de refugiados em busca de liberdade sexual para o Brasil.

Além das consequências óbvias (perda do que se tem, rompimento de laços familiares e de amizade, as dificuldades de adaptação em uma nova nação), o refugiado convive com problemas menos evidentes, de cunho emocional.

Debret retratou o flagelamento dos escravos brasileiros / Ilustração: Viagem pitoresca e histórica ao Brasil – Ed. Itatiaia

Banzo matava os escravos brasileiros

Um poema do parnasiano Raimundo Correia, escrito no final do século 19, dá pistas de quão profunda pode ser a dor de quem deixa involuntariamente a terra natal. “Vai com a sombra crescendo o vulto enorme/ Do baobá…/ E cresce na alma o vulto de uma tristeza, imensa, imensamente…”.

O poeta se referia ao banzo (nome do soneto): um sentimento de saudade e melancolia tão grande que chegava a matar os africanos escravizados no Brasil. Além da própria condição de traficado, o banzo era agravado pelos maus-tratos na senzala.

Talvez a história de refugiados mais conhecida, ao menos no ocidente, seja a dos hebreus. O relato bíblico do Antigo Testamento e os registros históricos contam a trajetória de um povo que há milênios busca a sua terra prometida. O exílio na Babilônia, Pérsia e Egito impregnou a condição dos hebreus a ponto de ainda hoje o Estado de Israel conviver com essa carga.

As lembranças históricas contextualizam a situação dos atuais refugiados. São pessoas sem lar, expulsas de seus países e, muitas vezes, recebidas com desprezo, desconfiança e raiva onde buscam abrigo.

Um caso recente desse repúdio a esse tipo de imigrante ocorreu no ano passado aqui mesmo, no Brasil – que normalmente recebe com sorrisos largos aqueles que vêm com dinheiro no bolso. Em agosto do ano passado, assistimos à infame cena de brasileiros expulsando e colocando fogo em barracas de venezuelanos em Pacaraima (RR). Para completar o roteiro de horror, sob os versos do Hino Nacional. Uma vergonha.

Xenofobia no Velho Continente

Na Europa, muitos cidadãos receberam os refugiados às pedradas. A xenofobia atingiu níveis alarmantes no Velho Continente. Em uma análise desapaixonada, é possível compreender o que anaboliza esse sentimento: o medo do estrangeiro que, devido às condições, é enxergado como ameaça ao bem estar social – especialmente em períodos de letargia econômica; nos tempos de bonança, ele é bem vindo, pois se dispõe a trabalhos aos quais os demais não se submetem.

Mário Quintana escreveu que quem faz um poema salva um afogado. Para Óscar, Valeria e Alan, o que ficou foi apenas uma página em branco.

Sobre o assunto, a jornalista Elisama Ximenes escreveu um texto tocante no Jornal Opção.

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