Rodrigo Hirose
Rodrigo Hirose

O maior pecado de Tabata Amaral é não seguir cegamente a cartilha ideológica

De esperança das esquerdas, deputada do PDT foi rapidamente convertida em traidora por movimentos que se recusam a pensar da caixinha

Ataques a Tabata Amaral

Tabata Amaral, a deputada do PDT, é uma das mais gratas novidades na política brasileira. Jovem, tem apenas 25 anos de idade, com uma história de superação comovente, formação em uma das melhores universidades do mundo, focada na educação, carismática e muito chão ainda a percorrer até desenvolver todo o potencial que traz consigo. Está em seu primeiro mandato. E já incomoda muita gente.

Nascida e criada na periferia de São Paulo, filha de mãe diarista e vendedora de flores e de pai cobrador de ônibus – que perdeu para as drogas –, eleita com 264 mil votos e representante da geração millenniun,Tabata Amaral protagonizou, no início do ano, um daqueles raros momentos em que a pessoa certa está no lugar certo na hora certa.

Era o dia 27 de março. O então ministro da Educação Ricardo Vélez participava de uma sessão na Comissão da Educação da Câmara dos Deputados, da qual a pedetista é integrante. A questioná-lo, Tabata emparedou Vélez. O embate entre a jovem deputada e o filósofo e teólogo de 75 anos, para muitos, foi a gota d´água para a demissão do agora ex-ministro e a senha para Tabata alcançar a notoriedade.

Símbolo

Dali em diante, a pedetista tornou-se uma espécie de símbolo contra o Governo Federal, especialmente na área da educação. Ao contrário de Maria do Rosário, Gleice Hoffmann e Jandira Fegalli, ela não carregava o simbolismo dos desgastados governos do PT – repudiados nas urnas em 2018. Ao contrário, Tabata Amaral carrega o frescor em suas ideias.

Por isso, incomoda muita gente. Desde o início de sua atuação, recebia críticas de gente da esquerda. A socióloga marxista Sabrina Fernandes, por exemplo, disse, em post publicado no Twitter em março, que a deputada representa a pós-política, “um dos fenômenos que mais abomino”, escreveu, para alertar: “Informem-se sobre o que estão comprando”.

Post de Sabrina Fernandes criticando Tabata Amaral
Post da socióloga Sabrina Fernandes

Ciro Gomes, que em 2018 rejeitou o papel de Dom Sebastião das esquerdas, esteve de braços dados com Tabata Amaral até bem pouco tempo. Hoje, entrou na turba dos que querem fritá-la. Acusou a deputada de “servir a dois senhores” e sugeriu que ela se filie ao MBL. “Não queremos neoliberais”, diz Ciro, que lavou as mãos no segundo turno no ano passado e agora cobra a parlamentar por ter tido coragem de se posicionar diante da questão da reforma da Previdência.

Mais perigosa que Manuela D´Avila

Entre aqueles que se declaram de direita no Brasil, tampouco Tabata tem gozado de muita simpatia. Colunista da Gazeta do Povo, o economista Rodrigo Constantino diz que ela é mais perigosa que Manuela D´Avila, por ter, segundo ele, uma forma mais palatável e moderada. “Alerta” semelhante é feita no blog Senso Incomum, que traz um artigo com o sugestivo título “Pare de se enganar com Tabata Amaral”.

Senso Incomum ataca Tabata Amaral
Post do site Senso Incomum

Graduada em Harvard em Ciências Políticas e Astrofísica, formada pelo Renova Brasil, movimento patrocinado pelo empresário Eduardo Mufarej e que busca novos rostos para a política brasileira, Tabata pensa fora da caixinha. Muito antes da votação da PEC da Previdência, ela já dava sinais de como votaria, citando as questões demográficas e a insustentabilidade do atual sistema. Votou pelo texto principal, mas também por destaques que beneficiaram mulheres e professores, por exemplo.

Para a esquerda, porém, isso não basta. É preciso fechar os olhos, ignorar os fatos e levar como verdade absoluta apenas suas cartilhas que têm cheiro de mofo. A reforma que sairá do Congresso não é a melhor para todos, faltou atacar verdadeiramente alguns privilégios, mas foi a possível. Sabedora disso, Tabata não se comportou como as esquerdas que tentaram boicotar o Plano Real e a Lei da Responsabilidade Fiscal (LRF).

Menos 400 mil seguidores no Twitter

Decepcionados, os setores mais radicais acionaram a máquina de moer gente nas redes sociais. A hashtag #tabatatraidora alcançou os primeiros lugares entre os assuntos mais comentados no Twitter. Ela é acusada de ser agente infiltrada da direita e vendida. Também é chamada por termos impublicáveis.

O fogo centrado dos dois lados surtiu efeito na imagem da, até agora, pedetista. Em menos de uma semana, entre a votação em primeiro turno da PEC da Previdência e a quarta-feira, 17, ela perdeu mais de 60% de seus seguidores no Twitter. O perfil da parlamentar, que tinha 657 mil seguidores, contava com 253 mil.

A maioria desses seguidores que abandonaram o barco era de náufragos da esquerda derrotada em 2018 que projetavam nela o bote salva-vidas de suas convicções. Ocorre que só se surpreendeu com seu posicionamento quem não prestou muita atenção em seus passos desde o início do mandato.

Os ataques lembram os desferidos contra o vereador Fernando Holiday (DEM-SP). Por ser homossexual e negro, seus detratores não aceitam que ele defenda pautas mais liberais. Chegou a ser chamado de capitão do mato pelo próprio Ciro Gomes, para surpresa de ninguém.

O que essa tentativa de assassinato de reputação contra Tabata Amaral revela é a intolerância a quem pensa fora da caixinha e não se prende à patrulha ideológica. O massacre parte de grupos que, travestidos de democratas, revelam seu autoritarismo.

O Brasil precisa de muitas Tabatas, de todos os espectros ideológicos. A tentativa de empastelar esse sopro de renovação boicota o próprio futuro do País, condenando-o às mesmas práticas políticas que perpetuam nosso atraso. Afinal, como diz a sabedoria popular, não se pode chegar a um resultado diferente fazendo sempre as mesmas coisas.

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