Canetas emagrecedoras mudam hábitos e desafiam bares e restaurantes em Goiás: “É uma nova relação que está sendo estabelecida”, diz presidente da Abrasel
28 maio 2026 às 17h08

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A explosão no consumo de canetas emagrecedoras em Goiás não apenas redefine a relação das pessoas com a comida, mas também impõe uma reconfiguração ao setor gastronômico. Ao Jornal Opção, a presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes – Seccional Goiás (Abrasel-GO), Jaldete Rodrigues, disse, nesta quarta-feira, 27, que os estabelecimentos vivem um momento de adaptação diante de clientes que comem menos, permanecem menos tempo nos locais e estabelecem uma nova dinâmica de consumo.
A empresária afirmou que o cliente mudou muito e que os estabelecimentos vivem uma fase de adaptação. A prática de dividir pratos individuais tem crescido, assim como a saída de meias porções. “A preocupação é reduzir aquilo que o cliente já conhecia da casa, porque chegam famílias inteiras e fica mais complicado. O próprio cliente está se adequando, pede um prato que era para um e ele come dois”, explicou.

A presidente revelou que os bares também têm se movimentado para acompanhar essa tendência. “O aumento de venda de proteína está muito maior. O interesse pela proteína é bem maior do que antes. As massas têm caído bastante. É um novo comportamento, tanto do cliente com a casa quanto da casa com o cliente. É uma nova relação que está sendo estabelecida”, afirmou.
A empresária ressaltou que não é possível realizar mudanças sem estudo prévio. “Você tem que saber até o que representa essa parcela da clientela que está utilizando o medicamento e vai querer esses novos formatos. No meu restaurante, o Thiosti Bar e Restaurante, a clientela é diversificada. São famílias, pessoas que não estão preocupadas com isso e aqueles que estão nesse novo momento. Não tem como focar somente nesse nicho. A mudança precisa ser lenta e gradativa para não perder os clientes que gostam da mesa farta, de pratos maiores”, disse.
A presidente reforçou que as alterações internas também são necessárias. “Não dá para fazer uma mudança radical pensando só nesse nicho novo, que a gente não sabe se vai durar. Eu acredito que vá durar bastante, que não vai ter volta, mas temos que ir com cautela para não perder o segmento clássico. Vai interferir em tudo. Mudança de cardápio, compras, percentual de aumento de proteína, que é o que mais pesa em qualquer receita. Todo mundo está estudando a melhor maneira de apresentar isso para os clientes”, explicou.
A empresária destacou ainda a busca por proteínas menos calóricas. “O filé hoje é uma das proteínas mais procuradas. Não é à toa que alcançou um pico de preço significativo. É uma carne magra e saborosa que atende a esse novo modelo de mercado. A proteína pesa muito no valor do cardápio, principalmente a bovina”, afirmou.
A presidente observou que os bares precisam buscar novos sabores mais do que há 10 ou 20 anos. “O cliente busca uma experiência nova, mas também procura uma cozinha de muito sabor. Ele não se contenta mais só com a beleza. Quer beleza e sabor. Muitas releituras têm acontecido e têm sido um sucesso exatamente por isso. O goiano gosta dessa cozinha de sabor e turistas ficam apaixonados pela nossa culinária”, disse.
A empresária reconheceu que houve um período em que a experiência visual ganhou destaque, mas o sabor nunca deixou de ser essencial. “A experiência visual não se completa sem o sabor. O que fica é a experiência de uma comida saborosa que te leva para outro patamar. Nada se mantém sem sabor. Goiás absorve influências do Brasil inteiro e faz releituras com nosso tempero goiano. Temos alta gastronomia, espetinho, pit dog, tudo muito saboroso e que traz satisfação”, afirmou.
A presidente concluiu destacando o que considera fundamental para o futuro dos restaurantes diante do impacto das canetas emagrecedoras. “Para mim, é a cozinha de sabor. Quando você consegue ter uma cozinha de sabor, segura a clientela e faz adequações. Mesmo quem consome pouco quer uma cozinha de muito sabor. O goiano sabe muito bem disso e nossas casas fazem isso com primazia, que faz inveja a muitos estados”, finalizou.
Levantamento nacional
O aumento do uso de medicamentos para emagrecimento como Ozempic e Mounjaro já provoca mudanças no consumo em bares e restaurantes no Brasil, diz levantamento da Abrasel que aponta percepção de alterações por 61% dos empresários do setor. O movimento é gradual e mais intenso em estabelecimentos de menor porte, com redução moderada nos pedidos de pratos principais relatada por 56% e queda na demanda por sobremesas percebida por 65%, sendo que um em cada cinco registrou forte retração.
Há maior busca por restrição calórica, refletida em 64% dos pedidos de miniporções, mais de 70% de escolhas leves e avanço do compartilhamento de pratos principais mencionado por 64%. O consumo de bebidas também mudou, com 65% notando alterações nas alcoólicas e 53% identificando crescimento das opções sem álcool, especialmente em negócios de maior faturamento.
Quase metade dos empresários ainda não conseguiu compensar a queda no tíquete médio e 40% não têm estratégias definidas, enquanto outros adotam combos e menus estruturados em 26% dos casos, estímulo à frequência de visitas em 22%, oferta de itens de maior valor agregado em 21% e inclusão de pratos de menor valor calórico voltados a clientes que usam os remédios.
O presidente-executivo Abrasel, Paulo Solmucci, emitiu um posicionamento sobre o levantamento. Ele disse que o setor de alimentação fora do lar tem histórico de adaptação e que, com o fim da patente da semaglutida em março e a chegada de versões genéricas mais acessíveis, a tendência deve se intensificar, abrindo espaço para inovação e diversificação de público.
O consumo alimentar
Ao Jornal Opção, o nutricionista Carllos Silva apresentou uma análise sobre os efeitos das canetas emagrecedoras, como a Ozempic e a Mounjaro, na forma de se alimentar e nos hábitos de consumo. O nutricionista afirmou que “elas são inibidoras, tanto a Ozempic quanto a tirzepatida. Elas são inibidores da fome em relação ao hormônio do eixo intestino-cérebro”.
Ele explicou que o uso correto, acompanhado por profissionais, pode ajustar a relação do corpo com a alimentação. “Esse ajuste é a maneira de como a pessoa pensa que vai comer. Ela não vai ter mais medo, talvez passe a não ter mais medo de comer. O medo da comida, o medo do alimento”, apontou.

O exemplo citado foi observado em seu ambiente de trabalho. “Como eu trabalho em hospital, consegui observar isso nos trabalhadores. Antes da Mounjaro, o pão de sal acabava em dois tempos, muito rápido. Hoje, demora muito mais para acabar, porque a Mounjaro traz essa consciência também. Se antes comia dois pães, agora come apenas um, mas não deixa de comer”, relatou.
O nutricionista reforçou que “o paciente precisa procurar ajuda de um terapeuta, de um psicólogo para manter essa atitude”, destacou.
“Dependendo do paciente, pode causar náuseas, pode causar ânsia de vômito, pode causar o próprio vômito, dependendo se o paciente tem alguma patologia”, explicou o nutricionista chamou atenção para os efeitos colaterais.
Ele acrescentou que isso influencia diretamente o comportamento alimentar. “A pessoa fala que não vai comer para não passar mal”, disse.
A entrevista trouxe ainda a reflexão sobre duas formas de comer. “Existem duas formas de comer. Vamos supor que na casa da sua mãe tenha um bolo de chocolate. Você vai comer para saciar ou para ficar cheio. São duas coisas diferentes. O saciar é dizer que está satisfeito. Agora, quem quer comer por comer, vai lá, come duas, três, quatro vezes”, afirmou.
O nutricionista observou que “as canetas afetam bastante a forma de consumo, mas alguns pacientes não fazem acompanhamento profissional com endocrinologista, nutricionista, psicólogo e acabam criando transtornos alimentares”.
“Um transtorno alimentar é a anorexia, porque às vezes o paciente não se vê mais gordo e tem medo de engordar de novo. Aí, acaba tomando e aumentando a quantidade de miligramas”, explicou.
Ele acrescentou. “Ou então pode gerar futuramente uma compulsão alimentar. Seria o fato da pessoa comer emocional. Às vezes, ela não vai ter mais dinheiro para comprar a Mounjaro e acaba se perdendo nesse processo, comendo emocional mesmo sem sentir fome”, alertou.
O nutricionista exemplificou novamente. “Você acabou de almoçar meio-dia e meia, mas vai lá e uma hora da tarde está comendo um pacote de bolacha inteiro”, disse.
Ele reforçou que, além da questão comportamental, há o aspecto farmacológico. “Por ser um fármaco, a primeira função dessas canetas era para o tratamento de diabetes. Depois veio a segunda função, que foi emagrecer. Hoje, pessoas usam até de maneira errada. Uma pessoa que não tem sobrepeso, quer perder 5 kg, vai lá e usa a Mounjaro ou a Ozempic”, apontou.
O nutricionista explicou que “nós nutricionistas não podemos indicar as canetas como medicamento, somente o médico. Mas como é equipe multiprofissional, devemos avaliar como o paciente vai lidar com isso. Não sabemos se o paciente tem uma patologia já preexistente, como problema na vesícula ou no pâncreas, que é onde se gera a insulina. Por isso, sempre indico ter uma equipe multiprofissional junto, com psicólogo, médico endócrino ou nutrólogo, nutricionista”, afirmou.
O nutricionista também ressaltou a importância da atividade física. “Vale lembrar que é importante fazer academia, fazer atividade física. Não pode parar porque as canetas fazem perder gordura por massa magra também”, destacou.
Sobre a possibilidade de prejudicar a produção de insulina, Carllos esclareceu. “Até agora, pelo que vi em congresso, não foi citado que a caneta provoque isso, só se o paciente já tinha uma doença preexistente. Por isso é importante o acompanhamento multiprofissional”, explicou.
O nutricionista acrescentou outro ponto observado. “As que estavam tomando a caneta no sentido de começar um copo de 200 ml de almoço. Então isso já está gerando a necessidade de tomar um certo cuidado para não gerar outro transtorno alimentar, igual a anorexia. Tem que tomar muito cuidado. Ou então algum transtorno de imagem, o paciente se vê gordo, mas já está no peso ideal, já está na estrutura ideal, e está botando o pé no acelerador de forma desordenada”, afirmou.
“Por isso tem que ter orientação médica, nutricional, psicológica. Essas equipes têm que andar juntas. Elas têm que falar quase a mesma língua para esse paciente, porque tem coisas que o médico não pode entrar na área do nutricionista, nem o nutricionista pode estar na área do médico, nem do psicólogo. E vice-versa em todas as áreas”, completou.
O nutricionista deixou uma mensagem final de alerta. “O uso indiscriminado pode ser ruim. O uso desses análogos, dependendo da situação, pode ser uma questão promissora, um medicamento promissor para o paciente que está em um processo de emagrecimento, mas também pode ser prejudicial quando não há acompanhamento profissional para o uso desse medicamento. Lembrando que isso é um fármaco, então é um medicamento que deve ser prescrito. No mais é isso mesmo”, concluiu.
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