Opção cultural
Romance do escritor alemão é alta literatura, discute música e é um libelo contra o nazismo de Adolf Hitler e outros fascismos
Carlos Russo Jr.
Em 1933, os nazistas chegam ao poder na Alemanha por meio do voto democrático. Imediatamente, devotam-se à destruição da democracia e à implantação do regime totalitário mais odioso da História da humanidade.
No mesmo ano, as claques de “choque” de Hitler, atearam fogo ao Parlamento alemão, já que eram lá mais que minoritários. Thomas Mann (filho de brasileira com alemão), o maior dos escritores alemães do século 20, decidiu se exilar de seu País, onde foi o primeiro autor a ter seus livros queimados em praça pública.
Uma das mais importantes obras primas do grande mestre foi, sem dúvida, o romance “Dr. Fausto”. Escrito no exílio e publicado apenas em 1956, espelha uma visão amadurecida de todo o processo em que as liberdades e instituições da democracia foram sendo demolidas. Primeiramente pelas forças reacionárias em confronto com o crescimento do movimento operário e, posteriormente, totalmente destruídas pelas forças do lumpenzinato nazifascista, sob a bandeira do patriotismo, com apoio financeiro dos grandes monopólios econômicos, bancos, a indústria química e a armamentista.
“Os estrangeiros verdadeiros, contra os quais os bens sagrados da civilização devem ser protegidos, são eles, os nazistas! Apenas uma parte pequena e corrupta da classe superior, uma corja de traidores para quem nada é mais sagrado que o dinheiro e as vantagens, trabalham com e para eles.”
As peripécias do grande livro se desenvolvem num período histórico de aproximadamente 25 anos, entre 1920 e 1945, cobrindo desde a desagregação da República Democrática de Weimar até o esmagamento da Alemanha nazista.
O narrador, professor Serenius, anotará: “A supremacia das classes inferiores se afigura a mim, como cidadão alemão, um Estado ideal quando a comparo com o domínio da escória (nazista). Ao contrário que eu saiba jamais o bolchevismo destruiu obras de arte. A revolução russa emocionou-me profundamente e a superioridade histórica de seus princípios em confronto com os das potências que dobravam nossa nuca aos seus pés, era evidente... A verdade é que certas camadas da democracia burguesa parecem merecer o que acabo de denominar de domínio da escória, pois a ela se misturam, a fim de conservarem por mais tempo seus privilégios”.
Um patriotismo degenerado firmou-se em um Estado sanguinário, que para citar uma expressão de Lutero, “pendurou em seu pescoço” o peso de crimes incomensuráveis com seus apelos berrados, com suas proclamações aniquiladoras dos Direitos do Homem, o que provocou nas multidões arroubos de imensa felicidade.
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Thomas Mann, autor dos romances "A Montanha Mágica" e "Doutor Fausto"[/caption]
Ainda nos alerta: “Certa gente não deveria falar em liberdade, razão e humanidade, melhor que se abstivesse disso por motivos de decência”.
Para Thomas Mann, o adepto das luzes, o termo e o conceito “povo” sempre conservam qualquer traço de arcaico, inspirador de apreensões e ele sabe que basta apostrofar a multidão de povo para induzi-la à maldade reacionária. “Falo do povo, porém daqueles impulsos populares de natureza arcaica, que existem em todos nós, e para dizê-lo bem claramente, assim como penso, não considero a religião o meio mais adequado para reprimi-los com segurança. Isso se consegue, a meu ver, unicamente por meio da literatura, da ciência humanística, do ideal do homem livre e belo.”
No nazismo a violência opunha-se à verdade! Pregava-se um abismo entre a verdade e a força, a verdade e a vida, a verdade e a coletividade. Um grito de horror surge em “Dr. Fausto” sob a forma de uma composição musical do maestro dodecafônico Leverkun: “Nesse momento só uma única música pode servir-nos, somente ela corresponderá a nossas almas: a lamentação do filho do Inferno, a lamentação humana e divina, que, partindo do indivíduo, mas ampliando-se cada vez mais, e, em certo sentido, apoderando-se do Cosmo, há de ser a mais horrenda que jamais tenha sido entoada na Terra. Uma lamentação, um ‘De profundis’!”
Acontece que o tipo de mundo criado pelo nazifascismo era ao mesmo tempo antigo e novo, “revolucionário” e retrógrado. Nele os valores ligados à ideia do indivíduo, verdade, liberdade, direito, razão, ficaram inteiramente debilitados e rejeitados, assumindo um significado totalmente diferente do que tiveram nos séculos precedentes. “Desarraigados da pálida teoria, seriam relativizados, abastecidos de sangue e em seguida submetidos a uma instância muito superior à da força, da autoridade, da ditadura da fé, de uma forma que igualaria uma regressão muito inovadora da Humanidade em direção a estados e condições teocráticos- medievais.”
O dogmatismo é uma forma intelectual do farisaísmo. Onde quer que haja Teologia, o Diabo também deva entrar no quadro, preservando sua autenticidade complementar à de Deus. O Inferno é tão simbólico quanto o Céu. O povo seguramente nunca fez isso. Sempre sentiu maior intimidade com a imagem brutal, obscenamente humorística, do Diabo do que com a Majestade Suprema.
A imparcialidade da pesquisa, o pensamento livre, longe de representarem o progresso, o antigo e o novo, o passado e o futuro tornar-se-iam a mesma coisa. Isso ocorreria ao mesmo tempo em que se concedia ao pensamento a licença de legitimar a força, “assim como uns seiscentos anos antes, a razão tivera liberdade para discutir a fé e demonstrar o dogma”, numa referência à Reforma Luterana.
Mitos populares, ou melhor, mitos adaptados à consciência das massas, tornar-se-iam, doravante, veículos do pensamento político: fábulas, quimeras, visões fantasmagóricas que não necessitem de base alguma de verdade, na razão, mas que se mostrassem criativas determinando o rumo da vida e da História.
A violência opunha-se à verdade! Entendia-se que através dela que o destino da verdade muito se assemelhava ao do indivíduo e até se identificava com ele, pois ambos enfrentavam a desvalorização. Abria-se ironicamente um abismo entre a verdade e a força, a verdade e a vida, a verdade e a coletividade. Esta com primazia sobre aquela, que a meta deveria ser esta, e os que quisessem se integrar à coletividade alemã teriam que despojar-se de boa parte da verdade e da ciência, preparando-se para o sacrifício do intelecto.
O pedagogo, por exemplo, sabia que, sob o nazi fascismo já existia a tendência para distanciar-se do sistema de aprender letras e soletrar. Em vez disso preferia-se o método de ensinar palavras inteiras e de ligar a escrita à visão concreta das coisas. Isso representava, em certo sentido, a abolição da escrita abstrata, universal, não associada a nenhuma língua e, de alguma forma, um retorno à ideografia dos povos primitivos. A disposição era de sacrificar sem mais as assim chamadas conquistas culturais em pró de uma simplificação reputada indispensável, assim como os tempos o exigiam, e que eventualmente pudesse ser qualificada de volta intencional à barbárie.
O professor Serenus, que se abstivera de combater o nazismo quando ele surgira, ao final do romance realizará um "mea culpa" de sua omissão, retroagindo à Advertência de 1937: “Será que voltarei a inculcar nos cérebros dos alunos a ideia de uma cultura na qual a reverência às divindades das profundezas se une ao culto ético de olímpica razão e lucidez, formando uma só piedade? Mas ai de mim, receio que nessa década selvagem se haja criado uma geração que entenda a minha linguagem tão pouco como eu a sua; a mocidade de meu país se me tornou por demais estranha para que eu possa novamente ser seu mestre. A própria Alemanha, esse país desventurado, tornou-se estranho, justamente em virtude do fato de eu ter-me abstido de seus crimes, e, seguro do fim pavoroso, haver-me abrigado na solidão.”
Serenus ainda prevê, no início da ação dos nazistas no poder, que “chegaria o dia em que se legitimasse, por razão de higiene nacional e racial, a não conservação dos elementos mórbidos, a eliminação em grande escala dos ineptos para a vida e dos débeis mentais”. “Enfatizava-se a intenção da rejeição de qualquer efeminação humana, produto da era burguesa, um esforço intensivo por tornar a Humanidade capaz de enfrentar tempos sombrios, desdenhosa de sentimentos humanitários, mais próximos daquela fase obscura que precede a origem da Idade Média”.
“Malditos, malditos os corruptores, que mandaram à escola do Diabo uma parcela do gênero humano, originalmente honrada, bem-intencionada, apenas excessivamente dócil e demasiado propensa a organizar sua vida à base de teorias!”
Finalmente, parecendo prever os tempos que vivemos no século XXI, questionará: “Será compunção mórbida perguntar como, no futuro, a Alemanha, sob qualquer aspecto, poderá atrever-se a abrir a boca em assuntos concernentes à Humanidade?”
Carlos Russo Jr. é crítico literário.
Me chamou atenção a estrutura do final. Algo nele se configurou para mim como um enigma que busquei responder ao longo deste texto
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“O Crime do Cais do Valongo” é leitura imprescindível para nos aproximar, através da imaginação estética e da pesquisa histórica, de parte do nosso passado
Alguns dias amanhecem irritados. E a gente nem imagina o motivo. Acordamos descansados, saudáveis, numa cama e, muito provavelmente, com um bom cobertor. Minha avó costumava falar que acordar vivo já era bom demais. Eu a entendo. Realmente é preciso estar vivo para acordar. Alguém que morre durante o sono, não acorda. E numa terça ou quarta-feira dessa semana passada tive uns desses dias amarelados. Igual uma pessoa com "sorriso amarelo".
Foi um dia que tentei entender demais as pessoas. E quando estamos nessa fase deixamos de, literalmente, viver o dia. Ele passa como a última volta de uma corrida de Fórmula 1. Quando o homem levanta a bandeira branca o dia acabou.
Tinha programado de levar meu filho para cortar o cabelo naquela manhã. Diferente de mim, ele estava animado.
Saindo da nossa rua, de carro, em direção ao barbeiro, ele apoia o queixo na fileta entre o vidro e a porta e presta atenção na rua. De repente me chama com uma pergunta:
- Pai, de quem é essa casa?
- Não sei.
A resposta sai ríspida. Mas ele nem liga. Sem entender porque o humor dos adultos está agradável num dia e insuportável num outro, ele já tem presciência dessas coisas da vida. Pergunta novamente, apontando para outra casa:
- De quem é aquela casa amarela?
De novo? O menino acha que eu sei o nome de todos os proprietários de casas em Goiânia. E a pergunta se repetiu inúmeras vezes no caminho de casa ao barbeiro. E no caminho de volta também.
Ele queria saber o nome das pessoas que moravam em todas as casas que ele via: verdes, amarelas, cinzas, brancas, rosas. Não entendi se ele escolhia a casa pela cor ou pelo tamanho. Talvez por saber identificar a fachada da casa da tia e da avó, de cor, ele queria saber de quem era as casas alheias.
Na rua de casa já. A pergunta torna a se repetir.
- Não sei de quem são essas casas -, respondo menos irritado. Quase abrindo um sorriso para ele. Faltava pouco. Como dizem em Goiânia: "falta um beiço de pulga". Nunca ouvi essa expressão na minha cidade natal, Brasília. Acho impressionante a engenhosidade das pessoas que inventam essas expressões tão acuradas.
- Pai, de quem é a casa mal assombrada?
Uma casa pegou fogo há uns quatro meses na nossa rua. Bem próxima à minha, umas três de lado do meu vizinho, no máximo. Desde então não mora mais ninguém lá. Na casa mal assombrada. Só o vento ladeia as paradas queimadas fazendo aquele barulho clássico de filme de terror. Não tem mais telhado. Caiu no chão. As portas também. Algumas janelas se seguraram na parede. Todas as esquadrias de ferro ficaram chamuscadas pelo fogo.
Também não sabia de quem era a casa mal assombrada. Agora, curioso sobre a necessidade em saber quem era os donos das casas, pergunto.
- E você sabe de quem são essas casas todas?
- Sei sim.
- De quem são?
- Do vizinho.
- Como assim?
- A casa amarela é do vizinho da casa verde, que é vizinho da casa mal assombrada, que é vizinho da gente.
Que raciocínio fantástico. Na verdade, o meu entendimento da pergunta estava errado. Ele era muito mais óbvio do que aparentava. A resposta foi "beiço de pulga" que faltava para o sorriso abrir. E o dia amanheceu de novo num céu azul tão lindo quanto a resposta.
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Porque "poetas amam viagens", conforme disse Henri Michaux, vou justificando esse amor com esta crônica feita no Vêneto, na Itália.
Talvez seja possível dizer que a grande intervenção do compositor e escritor no Brasil é sua arte e que ela supera qualquer apoio a Lula da Silva, ao petismo, à esquerda
Pedidos de crianças devem ser atendidos, sempre que possível. Como a vida, eles são prementes

No auge das proezas típicas dos quatro anos de idade, meu filho pede um beliscão carinhoso e beijos nas costas. Deitado na cama, de pijama com mangas e calças cumpridas, o imobilizo atendendo ao irresistível pedido.
A brincadeira foi apelidada de "boca beijadura". Uma tentativa de pronunciar corretamente "beijadora". De certa forma era "beijadura". Uma mistura de boca dura e beijadora.
Após horas de beliscões e beijos nas costas, que o levaram a falta de ar de tanto rir, a guardiã das leis que regem as nossas casas socorreu a criança de um iminente episódio de vômito.
Aos gritos, a mãe baixa um novo decreto: nada mais de "boca beijadura" naquela noite. E nas seguintes também. Talvez para sempre, vai saber.
- Você não viu que o menino podia sufocar?, questiona furiosa a mãe.
- Ele gosta. Respondo.
- De qualquer forma está na hora de dormir. Dez horas da noite não é mais hora para rir.
A criança ainda me cutuca, da cama dela para a minha.
- Pai?
- Sim.
- Quero mais boca "beijadura".
- Não pode mais. Ordens de sua mãe. Faça silêncio e durma.
- Eu estou ouvindo sua voz Bernardo. Isso significa que você não está dormindo. Interrompe a mãe antes de eu falar "durma".
O pequeno e eu nos calamos. Era preciso deixar a mãe dormir. Ela acorda mais cedo que nós dois para trabalhar. Mais cedo é bem mais mesmo: seis horas da manhã. Nós dois repousamos duas horas a mais que a mãe. E duas horas são deliciosamente incontestáveis. Para adultos e crianças.
- Pai?
- Oi?
- Já mandei ir dormir. Adverte a mãe com tom de voz aumentado. Aquele que qualquer um entende a consequência de não obedecer.
O silêncio paira no quarto novamente. Enfim, todos dormem.
Ao raiar de sol na fresta da janela, escuto:
- Pai?
- Sim.
- Quero mais boca "beijadura".
- Bom dia né.
- Bom dia não. Boca "beijadura". A mamãe já foi trabalhar.
- Vamos tomar café da manhã primeiro, fazer as tarefas da escola, arrumar o quarto, guardar os brinquedos bagunçados de ontem, arrumar o almoço e o uniforme e, depois, vemos se dá tempo para "boca beijadura".
- Mas não vai dar tempo se você fizer tudo isso. Tem que ser agora.
- Se eu fizer não. Você vai fazer. No máximo, eu ajudo.
- Mas aí a gente não vai brincar?
- Se der tempo, brincamos.
Às tarefas de casa. Arruma casa, quarto, guarda brinquedos jogados no chão, arruma uniforme de escola, lava louça, ajuda criança nas tarefas da escola.
- Pai, acabou a tarefa. Quero boca "beijadura".
Nestes momentos, depois de muito insistir sem sucesso, os pedidos começam a vir carregados de manha. E cada vez mais.
- Por favor pai -. Abraça minha perna direita. Beija minhas costas. Faz voz de choro. - Só uma vez.
- Não dá tempo filho. Ainda tenho que arrumar o almoço. Fica para depois.
O pequeno então pede para assistir desenho na televisão. Enquanto ele assiste do quarto, vigio-o da cozinha, fazendo alguma coisa. Ele fica lá, deitado na cama com carinha emburrada de quem teve o pirulito roubado pelo colega mais forte da classe.
Passados alguns poucos minutos. Nem cinco, no máximo. O menino vem da cama pedir para brincar de boca "beijadura". Adverto-o mais uma vez. Pela quinta, sexta, sétima, oitava vez, que não posso. Estou atarefado com a casa.
Mas olhando de novo aquele rosto amuado, assistindo à televisão sozinho no quarto, decido tirar uns dois minutos para não deixá-lo naquela tristeza infindável, que só as crianças sentem quando os pais dizem "não".
Para superar o trauma do "não", me preparo para uma brincadeira de boca "beijadura" mais incrementada. Penso em novos elementos, gestos, beliscões e beijos.
Com o intuito de pegá-lo de surpresa vou agachado no chão, da cozinha para o quarto, como um cobra. Silenciosa. Sorrateira.
Arrasto a barriga e o rosto no chão frio. Tremo de frio. Em Goiânia, tem feito 18º graus pela manhã cedo nestes últimos dias. Dou de cara com carrinhos no chão quase furando meus olhos. Mas nada disso importava mais. Só queria impressioná-lo com a brincadeira favorita e mais um pouco de novas emoções.
Do pé da cama, o bote de cobra o assusta.
- Tá na hora de boca "beijadura"-, grito.
Agarro, belisco, beijo, rosno, jogo para cima, deito em cima, bagunço o cabelo dele.
Ele me olha desconfiado, saindo debaixo dos meus braços com rapidez.
- Pára pai. Você lembra que a mamãe disse que posso me sentir mal?
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