Professora goiana analisa literatura de qualidade e se torna estrela do YouTube

Helissa Soares faz sucesso na internet falando de literatura. A booktuber comenta, com  rigor, do poema “O corvo”, de Poe, à peça “A Gaivota”, de Tchekhov

Helissa Soares com livros de Hilda Hilst, poeta e prosadora | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Para atravessar Goiânia é preciso coragem. A má fama do motorista goiano ultrapassa fronteiras especulativas que vão além da compreensão de um mero navegador de quilômetros rodados. O motorista do jornal está levemente irritado. Pudera: são cinco e meia da tarde e estamos indo do Setor Bueno para a Vila Itatiaia. Hora do Rush. Marginal Botafogo. Freadas e sinais vermelhos. Paciência. Cidade Grande. Bronzeamos dentro do carro, inadvertidamente, estamos longe demais do oceano. Mergulhados em meio à poeira bruta do cerrado, onde os homens pescam durante o fim de semana, apenas pelo prazer de uma queda de braço.

Matando o tempo, o motorista questiona sobre o conteúdo da pauta, que parece ser importante, em função da distância do deslocamento. O caminho promete nos levar até uma professora de Literatura. Ela tem um canal no YouTube e fala sobre livros com uma paixão incomum para o tempo atual. Ele suspira: “Ah, achei que ia falar sobre apreensão de drogas na universidade. Encontraram alguns quilos na Casa dos Estudantes”.

Este sintoma encontra explicação na bula do cotidiano: a arte no Brasil é um “remédio” caro e pouco acessível, seus efeitos benéficos são sentidos apenas a longo prazo, e por insistência do intelecto. Temos pressa. O poder da literatura parece sutil demais frente à injustiça do nosso bairro. O país está pobre e pessimista. Onde é que foi parar aquela propaganda do brasileiro de sorriso largo e esperançoso, que dribla e acredita no amanhã? Atravessamos um paradigma da personalidade tropiniquim. Estamos à espera de um milagre, não se sabe do quê exatamente.

O sol se faz ameno e a caminhada é melancolicamente laranja. O motorista liga o rádio para amenizar o silêncio da jornada. O radialista anuncia a música como um locutor de rodeio. Um sertanejo triste e antigo lamenta a vida na estrada.

Um Fiat Uno 2007 desce a rua lentamente acendendo a seta. Lá dentro, há uma mulher jovem de cabelos relativamente longos e negros. Ela acena da janela com um sorriso largo, estaciona o carro no lote 24. Um vestido rosa e leve acompanha graciosamente o movimento de seus pés. Ela estende a mão fazendo um convite. Apresenta-se como Helissa Oliveira Soares, professora de Literatura.

— Como você pode ver, minha casa é simples — ela aponta modestamente, como se pedisse desculpas.

A casa é, de fato, “simples, mas própria”, conta com orgulho. O muro chapiscado. O carro antigo com o motor engasgando. Poucos móveis: um sofá, um rack e uma tevê, uma mesa pequena de jantar. Ela vai na frente, abrindo caminho pela sala. Adentramos um quartinho privativo do pequeno e particular universo helissiano. Ali, uma cortina invisível cravejada de estrelas de poeira e luz do sol revela um verdadeiro tesouro escondido: uma biblioteca majestosa e imponente recobre 2/4 do espaço, alongando-se do chão até o teto. Os olhos saltam de um livro para o outro. Puro deslumbre ante a confusão mental. Ali está a coleção completa da “Comédia Humana”, do escritor francês Balzac.

Edgar Allan Poe tem seu poema “O corvo” (também prosa)  comentado no YouTube pela professora Helissa | Foto: Reprodução

Mais para esquerda, podemos encontrar Tolstói, Tchekhov, Dostoiévski. Do lado direito, Anais Nïn descansa entre Sylvia Plath e Ana Cristina César. Mais adiante: Faulkner, Cortázar. Borges, entre labirintos e bibliotecas de Babel. No total, 2.500 livros. Uma tonelada de páginas a serem desbravadas durante uma vida inteira. Uma vida inteira insuficiente para toda esta sede literária. Mas não para Helissa, que não parece amedrontada. Aparentemente, há um plano e um cronograma perfeito para ler esta e outras dez bibliotecas tão grandiosas quanto.

Ela aponta uma pilha de no mínimo 30 livros que estão reservados sob um móvel ao lado da escrivaninha. São as leituras do momento. Como uma malabarista, intercala uma leitura e outra, entre trabalhos, prazer e estudos de doutorado.

— Eu não consigo ficar um dia sem ler. Meu mínimo de leitura diária é de 30 a 50 páginas. Quando deixo de fazer isso, fico angustiada, como se não tivesse feito nada durante o dia. Eu preciso ler — ela aperta o punho mostrando sua necessidade.

Paixão tardia mas para sempre

Contempla a estante com uma orgulhosa vaidade poética. Ali se encontra, se eleva, se faz, se renova, se sobrepõe, como mulher e profissional. Ao contrário do que cogitaria o senso comum, Helissa teve um encontro tardio com a literatura. Esqueça a história da criança introspectiva que esconde o rostinho entre os livros na hora do recreio. Nossa personagem sempre soube navegar entre o mundo das Exatas e Humanas. Primeiro prestou vestibular para Física. Aos 19 anos, então, encontrou-se no mundo das Letras, tinha certeza que se tornaria professora de Inglês.

“Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe: paixão à primeira vista

Foi uma paixão arrebatadora aquela, quando tudo mudou de uma hora para outra. O encontro aconteceu despretensiosamente durante uma aula na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás (UFG). O professor, e hoje diretor da faculdade, Jamesson Buarque, falava sobre Catulo (84 a.C-54 a.C), o poeta romano. A emoção das palavras do professor, a febre… a febre! Helissa ficou transtornada ante aquele sentimento inédito. “Eu quero isso para mim. Quero esse mesmo amor”, disse em voz alta para si mesma. “Essa capacidade de falar sobre literatura.”. O professor e poeta transpirava… em êxtase. Estava a sós, dançando uma valsa vienense com a poesia.

No fim da aula, a aluna confessou, encantada, que queria aprender a falar “assim”, desse mesmo jeito, sobre literatura. Mas como? Como é que se aprende a falar? O professor mais experiente, que deve ter passado pela mesma situação em algum momento da carreira, instigou a adolescente.

Anton Tchekhov: sua peça “A Gaivota” é examinada com percuciência

— A vida de todo mundo é uma poesia. Assim como a vida, ela não tem que se entregar de bandeja. Você tem que estar disposta. Enfrente.

Helissa enfrentou. Não parou mais. Quando leu, então, “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe (1749-1832), foi a gota d’água. Era amor. Simplesmente um caminho sem volta. Aquilo precisava ser declarado. Helissa tinha voz, um motor que ardia no estômago e queria saltar pela garganta.

De lá para cá, a universitária se tornou professora de Literatura. Amadureceu. Enfrentou seus demônios interiores e financeiros. Insistiu. Observou de perto a deficiência literária nas escolas. Encontrou uma necessidade. Foi em frente. Concluiu o mestrado. Agora se debruça na academia atrás do título de doutora.

Neste meio tempo, ganha a vida tentando inspirar alunos dispersos e hiperativos, disputando atenção entre o frenesi tecnológico e a demanda curricular dos colégios.

Na sala de aula, Helissa monta seu palco e faz contorcionismos teatrais. É dramática ao estilo de Robin Williams no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. “O, Captain, my Captain”, ressoa Walt Whitman. Entre um sobressalto e outro, fisga um aluno desavisado. Sua especialidade mora nas exceções. Conhece cada jovem pelo nome, sabe reconhecer suas dificuldades e aptidões. Ali, naquele livro, está escondida a resposta para algum drama pessoal de cada ser humano.

— O que acontece com o personagem de “1984” [de George Orwell) é pior do que a morte — postula Helissa apontando o dedo para o céu. — O que pode ser pior do que a morte?, questionam os alunos. Helissa é assim, provocante.

“A literatura ensina a viver e a morrer”, afirma, enquanto rodopia entre as cadeiras dos estudantes. Fecha a cara para imitar Dom Casmurro. Transforma-se em uma cabocla e bate o pé no mesmo ritmo de I-Juca-Pirama. Empolga-se. Continua apaixonada, como da primeira vez. Esse é o segredo dos professores que nunca morrem e inspiram. Só saem satisfeitos quando terminam a aula transpirando.

Helissa Soares: a paixão pelos livros a levou ao mestrado e agora a leva ao doutorado na UFG | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Instituição da não-pressa

Mas como encontrar paz mental frente à ansiedade e depressão da vida moderna, que não favorece a quietude da leitura? Como aceitar o silêncio e abdicar de tempo para o deleite de uma obra? Helissa sugere a necessidade do exercício de isolamento. Da instituição da “não-pressa”, o desligamento dos aparelhos eletrônicos. Embora também abrace o novo tempo e use a tecnologia a seu favor. Vídeos, músicas… Toda e qualquer ferramenta tecnológica capaz de favorecer a literatura.

O pano da memória se desfaz como uma trama delicada de uma bolha de sabão. Helissa está sentada em sua larga e confortável poltrona marrom. Tem 34 anos. Parece segura e orgulhosa de sua caminhada até aqui. Nem parece que teve de escalar pedras e desafiar o mundo em favor da arte. Não é uma tarefa fácil assumir a “carga” da literatura. É uma pedra limosa, escura, que escorrega de mão em mão e ninguém sabe, meu Deus, onde e se encontrará um porto seguro. Insistir é o segredo do sucesso — num sentido mais, digamos, espiritual.

De volta à biblioteca alexandrina de Helissa, a professora escolhe carinhosamente a poesia completa de Hilda Hilst para a sessão de fotos, reconhecendo na escritora um pouco de si. O traço hilstiano que deseja revelar sutilmente, como se quisesse mostrar sua personalidade forte e misteriosa, à moda da autora de “A Obscena Senhora D”.

É claro que tudo passa. E para esta passagem da vida, a jovem já planejou o destino de seu maior patrimônio. Como Marciano, em “Encontro Marcado”, romance de Fernando Sabino, Helissa pretende doar sua herança para outros jovens, possíveis e futuros leitores.

— Eu já falei para o Lino: se eu morrer antes, quero que se encarregue de fazer a doação de todos os livros para a faculdade, para que os alunos de baixa renda tenham acesso a literatura, assim como tive acesso à biblioteca quando não tinha condições financeiras. Eu não estaria aqui se não fosse a Literatura.

Lino C. Araújo, o marido, é um homem alto e esguio — um jovem de cabelos brancos. Silencioso, passa e repassa de um cômodo a outro sem querer marcar sua presença. Por Zeus, não pretende roubar o brilho da esposa. Ele é músico e, enquanto conversamos, é possível escutar a gravação de uma cantora no estúdio, nos fundos da casa.

Morando juntos há oito anos, o casal uniu suas vidas em matrimônio no ano passado. O poeta e professor Jamesson Buarque incorporou o papel do padre e celebrou a cerimônia literária. Quatro daminhas carregaram livros anunciando a chegada da noiva. A primeira entrou com “Mulheres que Correm Com os Lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, outras duas surgiram com “O Eterno Marido” e “Noites Brancas”, de Fiódor Dostoiévski. A última fechou a cena com “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez.

Gabriel García Márquez e seu romance mais celebrado | Fotos: Reproduções

Helissa não poderia escolher outra pessoa que não compreendesse seu amor pela literatura. Romanticamente os dois dividem uma paixão especial pelo centenário solitário de Gabo. “O livro que ele mais ama é o mesmo que eu escolheria se fosse o último livro que pudesse ler na vida. Se acaso me perguntassem: ‘Qual livro você leria antes de ficar cega?’ Sem dúvida: ‘Cem Anos de Solidão’. Helissa tem uma teoria de que esse é o livro dos 30 anos.  “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, está guardando para os 35 anos. Enquanto “Ulisses”, de James Joyce, aguarda ansiosamente seu aniversário de 40.

Filhos? Não estão nos planos. Ademais, está gestando mais de 2.500 livros. Há muito para criar. Tanta gente no mundo para pegar no colo e contar uma história antes de dormir. Essa é a sua missão. Falamos de amor, mas Helissa prefere o vinho seco ao doce. Evita sabiamente as altas taxas de glicose da poesia de Florbela Espanca. Nem de longe faz o papel da musa que se derrama. É firme e sólida. Lembra João Cabral de Melo Neto, o suposto anti-lírico, quando transforma o ser amado no mar, nas ondas, em uma casa.

A professora sabe e aprendeu com a vida o lugar-comum do amor. Este é o tema preferido de todos os debates, sejam ficcionais ou reais. O que determina a qualidade do assunto em uma obra é a sua materialização, a transformação do óbvio no improvável. “Ou toca ou não toca”, diria Clarice Lispector. É isso que toca Helissa.

Orides Fontela: poeta que empolgou Antonio Candido e Davi Arrigucci

As poetas: para além da “fofura”

O objeto de sua pesquisa de doutorado (na pós-graduação da Faculdade de Letras, da UFG) é a autoria feminina, com ênfase na poesia brasileira do século 20 e avante. É um trabalho de justiça social. Explicar a literatura feminina para se entender também como mulher. Mostrar que as poetas nem sempre são fofas e cor-de-rosa. Ah, não! A palavra poetisa simplesmente não encontra espaço na casa de Helissa. Por aqui, só se encontram poetas.

Que foram e continuam a ser silenciadas, apagadas. E mesmo assim, seguem a escrever. Por isso seu corpo se inclina por mulheres que entram no ringue, que não se curvam diante do soco. Poetas como Ana Cristina César (“Chora-se com a facilidade das nascentes / Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva”) e Orides Fontela (“Tudo / será difícil de dizer: / a palavra real / nunca é suave”) — que aprenderam a bater, e com força.

Secretamente, Helissa quer ser uma dessas mulheres. Quer escrever, quer imprimir no papel aquilo que está ferroado em sua alma. Escrevia contos na adolescência. Jogou todos fora. Há 20 anos não se arrisca criativamente. Tem medo de ser pueril, menor. Mas o que é escrever bem? Para ela, é dizer tudo que já foi dito, saindo do lugar comum. É um trabalho artesanal. É o corpo que sangra. É vômito. Sem glamour e flashes. É o personagem de Trepliov em “A Gaivota”, de Anton Tchekhov, quando, desesperado, diz que a vida é horrível, que está à beira da morte, e, diante dessa fatalidade, precisa escrever.

Ana Cristina César: poeta e tradutora

Helissa fala como se escrevesse. Aparentemente ainda não se deu conta de que escreve o tempo todo na cabeça. Se sua língua fosse um lápis certamente perceberia a qualidade de sua capacidade como escritora. Essa é uma doença que nasce do vírus da leitura. Deve haver uma teoria, e se não há, que seja talhada aqui, que “todo grande leitor aspira e sofre para ser um escritor”.

Para alguns, a tortura da escrita é quase uma maldição. E Helissa adora abraçar os malditos. Tatuado em sua pele, está o corvo e o busto de Edgar Allan Poe. O sinistro da vida, o tabu da morte e da violência. O horror! Aquele com técnica e estilo bem elaborado. O poder mágico da literatura, capaz de abalar nosso espírito de espanto e insegurança.

Não por acaso o terror literário foi escolhido como o abre-alas do canal da professora no YouTube, que ainda não tem nome definido e pode ser encontrado simplesmente por “Helissa, professora de Literatura”. A procura pelo nome de batismo, inclusive, se transformou em uma brincadeira entre os alunos da professora. Qual a importância de um nome? William Shakespeare diria que “aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem”. Sob qualquer outra alcunha, o conteúdo continuaria despontando como um refúgio frente à cena multiplicadora de jovens ambiciosos, e, aparentemente, habilidosos comerciantes, conhecidos como “Booktubers”, que fazem o jabá com as editoras, e vendem suas opiniões rasas a preços tabelados. A crítica agoniza, mas não morre. Helissa não deixa morrer. Despretensiosamente busca seu lugar ao sol (e solar, por sinal). Este lugar deve ser parecido a um devaneio de Arthur Rimbaud, um sonho ébrio de frente para o mar, à sombra de um coqueiro, onde há paz para a eternidade da leitura.

Helissa Soares: paixão pela palavra e pela literatura | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Que é solitária, deveras, mas não existe por si só. Depende de movimentação, da circulação sanguínea da obra. Do que serviria todos estes livros parados na estante? Eles têm vida porque Helissa os toca e os movimenta… sim, com sua fala. Conhece intimamente o cheiro e o conteúdo de cada um. Quer dividir conosco seu banquete literário. Estamos todos convidados para a ceia de Helissa. Ela acontece à meia-luz de um abajur da biblioteca de Helissa, onde mortos e vivos se encontram para questionar e celebrar a descoberta de um pensamento sobre a vida. Daqui, não saímos sem respostas ou talvez saiamos com mais perguntas. Alguma coisa, qualquer coisa, a literatura nos ensina.

A professora fica emocionada ante a riqueza acumulada. Ainda assim, há tanto para ler. Estamos em Goiânia, em um pequeno e nada banal universo da iluminação da mente. Nosso cérebro também arde de fome e pode morrer de inanição criativa. Inconscientemente, deve clamar pelo silêncio e o gozo da leitura: uma das saídas para esta crise melancólica da identidade brasileira.

Os olhos da professora marejam. A literatura ocupa e preenche sua rotina. “O conhecimento é a coisa mais importante do mundo. É um bem precioso, que ninguém pode roubar de você. Se não fosse o conhecimento não estaria nesse lugar hoje, te apresentando 2.500 livros. Esse valor daria para comprar um carro. Mas prefiro os meus livros.”

O carro descansa na garagem — com o escapamento caído. Aguenta o tranco, suporta o cotidiano, entre apreensões de drogas, violência e pessimismo. O milagre pode até não estar na leitura, mas ela é o único antídoto verdadeiro e eficiente contra a dor da ignorância. Saber é poder. Há coisa pior do que não saber? Não nesta casa, onde o tesouro é uma biblioteca mágica e o conhecimento é uma filosofia de vida.

Tchekhov e Poe são grandes mestres do conto

Conto goiano favorito?

“A enxada”, de Bernardo Élis.

Não há Fla x Flu na Literatura. Mas o conto moderno é uma invenção de Anton Tchekhov ou Guy de Maupassant?

Não diria que é uma “invenção”, até porque o conto moderno é resultado de desdobramentos na literatura, no mundo e na imprensa. Entre esses dois autores, eu poderia pensar, no entanto, qual produziu uma narrativa curta que marca esse momento crucial na história do conto moderno. Diria Tchekhov, até mesmo pelo modo como ele ressignifica a unidade de efeito, proposta por [Edgar Allan] Poe na ênfase que ele dá à ideia de “acontecimento” na narrativa do conto. Gosto também de pensar o conto moderno com importantes teóricos desse gênero, como [Julio] Cortázar e Ricardo Piglia. E, a partir deles, é possível pensar melhor a importância de Tchekhov nessa linha do tempo do conto moderno.

Guimarães Rosa: brilho em “Primeiras Estórias”

Tchekhov é mais decisivo como contista ou dramaturgo?

Tchekhov deixa um legado inegável tanto no conto quanto no drama. Essa sensação de que nada muito grandioso está acontecendo, mas que isso, por si só, já é um acontecimento é muito explorado nos enredos do escritor. Então, ele tem um papel muito importante na “modernização” do conto e do drama. Mas penso que, principalmente em nosso meio acadêmico e cultural, o conto é mais popularizado e se encaixou de forma mais confortável na contemporaneidade. Por isso, pela recepção, pelo modo como Tchekhov acaba sendo mais recorrentemente lembrado, penso que ele pode ter sido mais decisivo no conto.

“A terceira margem do rio” é o conto mais importante de Guimarães Rosa?

Tenho um pouco de dificuldade com essas veemências peremptórias. Por isso, vou tentar ponderar na resposta: não é que seja o mais importante, mas é um dos mais importantes. A obra de Guimarães Rosa é um ponto de inflexão na literatura brasileira por vários elementos explorados na sua Literatura. “A terceira margem do rio” traz alguns desses elementos que, ao lado de outros contos, dão essa estilística tão específica do Rosa. Em vez de eleger apenas um conto, diria que o livro do qual “A terceira margem” faz parte, “Primeiras Estórias”, é de uma importância fundamental por causa desse caráter primeiro, primitivo, fundante que os contos desse livro trazem.

“Dalton Trevisan não pode ser excluído de um programa que se proponha a estudar o conto brasileiro” | Foto: Reprodução

Como avalia os contos de Dalton Trevisan?

Os contos de Trevisan apontam para uma nova tônica no século 20, na modernidade, no que ficou de modernismo brasileiro. Ele traz os elementos presentes no conto desde as suas manifestações mais antigas, mas aponta pra uma cotidianidade ainda não explorada. Costuma ser muito colocado ao lado de Rubem Fonseca, já que se ocupam do baixo do baixo mesmo, não há triunfo, nem grandes heróis nas narrativas deles, são viscerais, pungentes e violentos. Fonseca é ainda mais intestinal e escatológico, mas Trevisan também gera incômodo. Os narradores de Trevisan são voyeurs, e isso é ainda mais repulsivo. Mas a prosa da vida está lá nele, e a prosa da vida não se separa da literatura. Desse modo, para mim, Trevisan é importante ao ponto de não poder ser excluído de um programa de disciplina que se proponha a estudar o conto brasileiro.

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Carlo Pires

Uau!! Fazia tempo que via um conteúdo de tamanha qualidade disponível.

E esse ser humano incrível que insiste em espalhar literatura…

Desejo muito sucesso ao canal, que por sinal, poderia ter tido o link publicado, não?