Jenifer é hino ao machismo e à grosseria contra as mulheres. Por que celebrar Gabriel Diniz?

Narrador da música sugere que, ao desrespeitar Jenifer — com quem se pode fazer tudo —, respeita a mulher oficial. Na prática, não respeita nenhuma

A morte paralisa os conflitos e transforma figuras medianas em gênios circunstanciais. Diga-me: lembra-se dos Mamonas Assassinas? É possível que se recorde do nome. No entanto, das músicas e dos nomes do cantor e dos músicos é provável que tenha olvidado. O falecimento recente de Gabriel Diniz, aos 28 anos — cantor que, nascido no Mato Grosso do Sul, consagrou-se na Paraíba e, daí, no Brasil —, levou-o às manchetes dos jornais, das emissoras de televisão e rádio e dos blogs. Resta concluir que Gabriel Diniz, que não é o Pensador — e este, diga-se, nunca pensou nada de relevante —, é um gênio brasileiro e, quem sabe, da humanidade. Mas é mesmo? Não é, claro. Sua música mais famosa é de uma pobreza franciscana. Para piorar, é eivada de preconceitos contra as mulheres, que são seres, senão desprezíveis, a serem usados e, em seguida, descartados. Por isso não deixa de surpreender a quantidade de mulheres chorando no velório e sepultamento do artista.

A música principal de Gabriel Diniz é “Jenifer”. É um hino ao machismo, ao chamamento desrespeitoso às mulheres — do começo ao fim. Numa frase de pé quebrado, o autor da letra começa assim: “Mas ela veio me xingando”. É a praxe do machismo tupiniquim: as mulheres começam “xingando” — como se não pudessem conversar. É como se dissesse: “Mas ela veio grunhindo”. Em seguida, numa grosseria tipicamente masculina, acrescenta-se: “Enchendo o saco, perguntando / Quem é essa perua aí?” Noutras palavras, quando questionam um fato, as mulheres estão “enchendo o saco”. Para piorar o quadro, o autor do texto coloca uma mulher para atacar a outra: “Quem é essa perua aí?” O que se pretende é reforçar a ideia de histeria. Mulheres não conversam; ao contrário, se atacam. E por que se atacam? Por causa de homens — os seres mais importantes da face da Terra.

Numa tentativa calamitosa de rimar “perua aí” com “peraí” — numa pobreza rítmica que impressiona o menor dos poetas —, o compositor pontua: “Mas peraí, mas pera í/ Você não paga as minhas contas”. É provável que, subliminarmente, o criador artístico esteja sugerindo que o sujeito quase oculto, o homem, é que paga as contas da mulher, ou melhor, da perua. Numa condescendência machista, o homem relata: “O nome dela é Jenifer / Eu encontrei ela no Tinder / Não é minha namorada / Mas poderia ser”. Pois bem: quem é Jenifer? Não é ninguém, exceto uma mulher que foi encontrada no Tinder. Não é a namorada do “narrador”, mas poderia ser. Na verdade, apesar da relativa sutileza, Jenifer é uma, como se diz, crush. Os dois estariam ficando? Jenifer, na verdade, é um não-ser. A rigor, nem é uma mulher, e sim uma “coisa” — reificada — que se encontrou no Tinder. Uma, digamos, “poderia ser”.

É provável que as pessoas não se apercebam do fraseado utilitarista da letra: “O nome dela é Jenifer / Eu encontrei ela no Tinder / Mas ela faz umas paradas / Que eu não faço com você”. Vamos tentar destrinchar o machismo que, embora explícito, eventualmente pode ser detectado como implícito. Com quem o “narrador”, dono da história, está dialogando — na verdade, monologando? Com uma namorada ou com a esposa — em síntese, a mulher oficial. Quer dizer, está “namorando” porque sua mulher não “faz umas paradas” que só Jenifer faz. O que será que Jenifer faz de tão diferente que levou um homem aparentemente “comprometido” ao Tinder? O letrista não esclarece, só afiança que faz “umas paradas” diferentes. Quer dizer, possivelmente sexo “sem limites” — aquilo que, em tese, a mulher oficial rejeita ou não aprecia fazer.

O machismo da letra tem mão dupla: agride as duas mulheres, com força maior contra Jenifer, a garota do Tinder que “faz umas paradas” diferentes. Em sã consciência, por aceitar que se trata de “arte” — na verdade, nada há de arte em “Jenifer”, e sim um compósito de preconceitos contra as mulheres —, as pessoas, sobretudo as mulheres, devem sair por aí vibrando com a música? Até podem, se quiserem. Mas ao menos têm consciência de que a música professa o mais visceral dos machismos e é de uma agressividade ímpar e desrespeitosa contra as mulheres e seus direitos de agir e comportar como quiserem?

Observe-se que o homem, o narrador, comporta-se como se estivesse no Olimpo, com as mulheres subordinando-se a ele. Elas têm de ceder aos seus caprichos. Com Jenifer, pode exceder, porque encontrou-a no Tinder. Portanto, trata-a não exatamente como uma mulher livre e independente, e sim como uma mulher com a qual se pode fazer qualquer coisa. Seria Jenifer, assim, uma simples usuária do Tinder, ou é vista pelo autor da letra como “prostituta”? Como está mais implícito do que explícito, não convém avançar a análise. Mas o que fica claro é que, com Jenifer, se pode fazer qualquer coisa. A esposa ou namorada deve ser preservada. A ideia de preservá-la camufla a infidelidade. Porque o narrador está sugerindo que, ao desrespeitar Jenifer — com quem se pode fazer tudo —, respeita a mulher oficial. Na prática, não respeita nenhuma. Gabriel não era, por assim dizer, nenhum anjo… Se sua morte pode e deve ser lamentada, não há motivo para celebrar sua “arte”…

Jenifer

Gabriel Diniz

Mas ela veio me xingando

Enchendo o saco, perguntando

Quem é essa perua aí?

Mas peraí, mas peraí

 

Você não paga as minhas contas

Já não é da sua conta

O que é que eu tô fazendo aqui

Mas mesmo assim, vou te explicar

 

O nome dela é Jenifer

Eu encontrei ela no Tinder

Não é minha namorada

Mas poderia ser

 

O nome dela é Jenifer

Eu encontrei ela no Tinder

Mas ela faz umas paradas

Que eu não faço com você

 

Mas ela veio me xingando

Enchendo o saco, perguntando

Quem é essa perua aí?

Mas peraí, mas peraí

 

Você não paga as minhas contas

Já não é da sua conta

O que é que eu tô fazendo aqui

Mas mesmo assim, vou te explicar

 

O nome dela é Jenifer

Eu encontrei ela no Tinder

Não é minha namorada

Mas poderia ser

 

O nome dela é Jenifer

Eu encontrei ela no Tinder

Mas ela faz umas paradas

Que eu não faço com você

 

O nome dela é Jenifer

Eu encontrei ela no Tinder

Não é minha namorada

Mas poderia ser

 

O nome dela é Jenifer

Eu encontrei ela no Tinder

Mas ela faz umas paradas

Que eu não faço com você

 

O nome dela é Jenifer

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Arthur de Lucca

Mestre Euler de França ,
Não é o caso do GD, mas…depois que o FUNK foi considerado “cultura importantíssima” no lulopetismo, Mc Serginho estourando com “eguinha pocotó” em 2004, Mc G15 arrebentando com “Deu Onda” em 2016, esperar o quê?
Um abraço do leitor
Arthur de Lucca
Goiânia. Go. 02/junho/19.