Ye, de Guilherme Petreca, é um compilado de aventura, mas com uma metáfora

Título da HQ é, aparentemente, a única palavra que o protagonista é capaz de dizer, além de seu nome

A HQ “Ye”, de Guilherme Petreca, é uma verdadeira obra de arte gráfica. As ilustrações em preto e branco são inspiradíssimas ao contar a história do garoto que, aparentemente, é mudo e promete agradar, como a própria descrição diz, fãs de obras fantásticas como “O Senhor dos Anéis”, de John Ronald Reuel Tolkien, e “Harry Potter”, de J. K. Rowling.

Segundo o próprio Petreca me disse, a HQ de aventura e fantasia “nasceu de uma vontade de colocar no papel um monte de coisa que eu queria desenhar. É como um caldeirão de referências acumuladas, onde jogo o personagem no meio e vejo o que acontece. Eu senti a necessidade de fazer uma HQ com tudo que gosto de ler, desenhar, assistir, escutar. Para isso funcionar achei que seria necessário que a trama fosse a coisa mais simples que eu pudesse pensar, então daí surge: um garoto mudo, que embarca em uma jornada em busca de sua cura, e no caminho enfrenta piratas, conhece um sanfoneiro aposentado, um palhaço bêbado e uma bruxa velha, em meio a pesadelos e uma batalha interna contra um rei monstruoso”.

O título tem preço de capa de R$ 69,90, mas é possível achar promoções por aí (na Amazon, por exemplo). Em formato 27,4 x 20,4 cm, a obra lançada em 2016 tem 176 páginas de aventura.

Trama

“O rei sem cor é responsável por todas as pragas, guerras, tristezas e tragédias. É como tinta negra que mancha qualquer superfície, que sobrepõe sua cor sobre qualquer outra. O rei sem cor existe em todos nós, adormecido. Todos podemos ser um rei sem cor”, diz o texto de abertura das primeiras páginas da HQ.

Esta, na verdade, é a história de como este rei metafórico (ou não) deixou sua marca em Ye, um menino do campo que vai pra cidade em busca de cura para sua chaga. A trama começa na cidade de Esperança, com o protagonista em consulta com uma vidente. Ela é a única que pode ajudá-lo, mas este é o fim da obra, na verdade.

Desta parte, voltamos ao início. Ye é a única palavra que o protagonista consegue falar e esta se tornou seu nome.

Decorrer

Antes de chegar a vidente, conhecida como a bruxa Miranda, Ye se envolve com pirataria (na verdade como escravo em um barco), motim, nevasca, circo, viagens de balão e, enfim, a cidade Esperanza, onde vive Miranda. Tudo acontece de forma muito aventureira.

O protagonista enfrenta seus medos e cresce durante sua Odisseia pessoal, antes de se encontrar com a mulher que pode lhe ajudar. “Você sobreviveu a piratas, ao fogo, ao gelo e àquele palhaço fedorento. Do que ainda tem medo? É hora de crescer. É hora de encontrar sua voz.”

E ele encontra — aqui pode vir algum spoiler. Ye, na verdade, não é mudo. O rei, que enfrenta, esteve com ele durante o tempo todo. Mas é preciso ler para ver o confronto.

Guilherme Petreca: o ás que criou “Ye”

A metáfora

Crescer não é fácil. O mundo pode ser tão grande quanto permitimos ser, mas tão pequeno quanto o nosso próprio umbigo, se não tivermos coragem. É difícil deixar a nossa vila rumo à cidade grande, mas o amadurecimento faz parte do crescer.

A vida pode ser uma grande aventura, um livro empolgante em que somos o maior vilão a se derrotar. Claro, que isso é uma visão romântica meritocrática que só faz sentido se saímos do mesmo ponto de partida – o que não acontece em um País extremamente desigual, como o nosso.

Apesar disso, “Ye” é uma obra linda que traz elementos da Jornada do Herói em busca de uma verdade e de uma superação pessoal individual. Romantismos transpostos a realidade a parte, merece o investimento na leitura.

Autor

Guilherme Petreca vive em São Paulo e é ilustrador, artista e autor das histórias em quadrinhos “Ye” (2016), “Galho Seco” (2013) e “O Carnaval de Meus Demônios” (2015). Trabalhou com animação em longas e curtas-metragens.

Com a HQ “Ye”, Guilherme Petreca venceu o 29º Troféu HQ Mix na categoria Melhor Desenhista Nacional. A obra foi lançada pela Editora Veneta.

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