Aquilo que nos escapa por entre os dedos: um comentário psicanalítico sobre o final de Game Of Thrones

Me chamou atenção a estrutura do final. Algo nele se configurou para mim como um enigma que busquei responder ao longo deste texto

Sobre qual guerra de fato a série trata? | Foto: Divulgação

Henrique Lopes
Especial para o Jornal Opção

A despeito das controvérsias em torno do final de Game of Thrones, acho que merece um olhar atento. É fato que, nas duas últimas temporadas, a série caiu muito em qualidade no que diz respeito aos critérios da boa arte cinematográfica. A história que deveria ser contada em mais umas quatro temporadas foi contada em duas, tendo reduzido também a quantidade de episódios de cada temporada. Esta supressão de tempo e consequente apressamento das narrativas obviamente minguou a complexidade das personagens de modo que as atitudes de algumas delas pareceram incongruentes com o perfil que até então nos havia sido apresentado. No entanto, para além dos aspectos referentes ao conteúdo, me chamou atenção a estrutura do final. Algo nele se configurou para mim como um enigma que busquei responder ao longo deste texto. Sobre qual guerra de fato a série trata?

Bem, somos apresentados aos Caminhantes Brancos, uma espécie de zumbis no universo de Game of Thrones, logo no início do primeiro episódio da primeira temporada. A construção da narrativa em torno deles ao longo dos anos fez com que fossemos acreditando que a Grande Guerra, a maior de todas e definitiva, seria contra eles. No entanto, no que se refere aos Caminhantes Brancos não há nada de fim definitivo. Afinal de contas, se são zumbis não estão vivos, mas também não estão mortos. E o que eles pretendiam, na verdade, não era dar fim à vida, mas às histórias. O conflito entre Westeros e os Caminhantes Brancos encerra, na verdade, o drama entre memória e esquecimento e não o da vida contra a morte.

Não é à toa que o Rei da Noite, líder dos Caminhantes Brancos, pretendia matar Bran, que havia se tornado o Corvo de Três Olhos. Nada mais nada menos do que um ser que detinha em sua consciência toda a história da humanidade. Isto nos remete ao título dos livros que deram origem à série – “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Ao passo que o fogo é aquilo que deixa marcas, dizemos mesmo com o ditado popular, “marcado à ferro e fogo”, o gelo é translúcido e não carrega histórias. Os Caminhantes Brancos têm por característica principal o olhar azul gelado e seu Rei portava uma espécie de rosto de vidro. Este aspecto vítreo me remeteu à discussão de Walter Benjamim sobre a arquitetura moderna, em seu texto “Passagens”, ao pensar as consequências da utilização de ferro e vidro nas construções no lugar das pedras. O vidro é liso e a-histórico, diferente da pedra que traz em si as marcas do seu lugar de origem e das mãos que a moldaram.

Ameaça de algo pior
Dessa maneira, não é de se surpreender que seja Arya Stark a dar fim à ameaça de algo pior do que morrer, a saber, ser esquecido. Digo que não é surpreendente, porque foi Arya quem venceu o esquecimento algumas temporadas antes quando se envolveu com a irmandade dos Homens Sem Rosto. Tal irmandade composta de assassinos que abdicavam se suas identidades para servir ao Deus de Muitas Caras a seduziu por um bom tempo por vir ao encontro de seu desejo de vingança. No entanto, para gozar dos poderes advindos da irmandade e assim concretizar sua vingança contra aqueles que assassinaram ou fizeram sofrer parte de sua família, ela teria de abrir mão justamente de seu nome e suas origens, o que consequentemente esvaziaria o sentido de sua vingança. Ela não se curvou ao Deus de Muitas Caras à custa de seu nome e por isso subsistiu como Arya da casa Stark, aquela que matou o Rei da Noite.

Em um golpe simples, uma facada com vidro de dragão, Arya resolve o que parecia ser a engrenagem maior que moveu a série por oito anos. Ela salva mais que seu irmão Bran, mantém resguardada a memória de todo um povo. No entanto, a forma como tudo acontece – o fato de o Rei da Noite ser derrotado ainda no meio da última temporada, deixando ainda muito por se resolver – nos aponta para o fato de que a principal guerra que se trava não é entre morte e vida, história e esquecimento, mas entre algo que está alhures ao golpe de uma espada. Isto, por sua vez, é denunciado pela escolha, por parte dos criadores, do nome da série, a saber, o título de um dos livros, o primeiro: “Game of Thrones”. Repousa neste título a chave do enigma que move as temporadas: não se trata de uma guerra entre os tronos, mas do jogo dos tronos.

Este jogo, nós o sabemos, é o jogo do poder, aquele mesmo que vemos presente em toda e qualquer forma de governo entre outras relações. O poder vai se configurar de diferentes maneiras de acordo com o regime político vigente, mas será sempre um jogo, no sentido de: ora uns mandam, outrora, aqueles que mandavam passam a obedecer. Dessa maneira, uma temporada após outra, reis assumem a coroa e regem de forma tirana sem que ninguém consiga de maneira muito simples tirar-lhes o poder. Não foi sem desvios e conspirações que Joffrey Baratheon, o maior tirano da série, foi assassinado. No entanto, essa dificuldade de tirar o poder do rei aponta para o fato de que há algo de imortal no rei, a coroa.

Pois, basta que um seja derrubado para que outro seja posto no lugar. Ainda que busquem a todo instante atingir algo do rei, quando o atingem, descobrem que isto que buscavam aniquilar não estava mais lá. Pois isto que se louva e ao mesmo tempo se quer golpear nos monarcas é o falo, o significante do poder nas relações, um objeto privilegiado de troca entre os sexos. Um objeto que entrevemos, localizamos em alguém, mas na verdade está para além desse alguém e por isso mesmo não pode ser diretamente atingido. Logo o que há de imortal no rei é seu nome, dito em termos lacanianos, o falo, dito ainda de outro modo, o poder do qual seu corpo serve de suporte. É assim que se estrutura o poder, mediante a dialética do falo – nunca está lá onde parece estar, posto que por estrutura se desloca.

Quem formula isto muito bem é Shakespeare em “Hamlet” quando diz “O corpo está com o Rei, mas o Rei não está com o corpo”. O rei é a cabeça do reino, como Cristo foi dito ser a cabeça da igreja. Aqui, portanto, tanto o reino como a igreja constituem-se como corpo simbólico daquele que suporta carregar em seu corpo físico a dignidade d’A Coisa, a Coroa, o falo. Entretanto, por vezes o Rei deixa o corpo na medida em que seu corpo físico quase sempre é assassinado e seu trono usurpado, no entanto, o significante Rei, o sobrenome de sua linhagem, perdura e passa a reger outro corpo.

Magistral
A série foi magistral para demonstrar essa dialética do poder ao longo de suas primeiras temporadas, por meio de Sansa, por exemplo. Uma personagem meio patética vai sendo forjada por seus sofrimentos em uma líder que ao final assume o governo de um dos Sete Reinos de Westeros, o Norte. Notamos bem estes jogos de poder quando ela executa um de seus maiores algozes Ramsay Bolton e um dos personagens mais espertos de toda série, Lord Petyr Baelish. Ambas as execuções fazem jus ao jogo em torno do falo, pois ela os pega precisamente em seus respectivos modos de gozo. Os faz sofrer do mesmo mal que infligiam em outros, inclusive nela mesma. Põe os cachorros famintos de Ramsay para devorá-lo e ele padece nas dentadas daqueles que tantas vezes utilizou para ferir outros.

Já Petyr é pego de surpresa ao ser julgado por Sansa em um tribunal que a principio ele pensou que serviria para julgar Arya, visto que tinha armado para as irmãs se colocarem uma contra a outra. Nesta altura da série, Sansa já aprendeu suas lições e revela saber de todos os crimes que Petyr cometeu, sobretudo de traição, inclusive o crime que originou o conflito motriz da série na primeira temporada. O interessante é que mesmo tendo boa parte da trama revelada neste momento, a série não perde o fôlego, não tem ali diante de tais revelações o seu fim. Porque os jogos continuam, o vazio da coroa pode sempre ser ocupado, contornado!

É isso que novamente os criadores parecem querer demonstrar com o final da série, ainda que de maneira muito tacanha. É muito significativo que nenhuma das duas pessoas mais cotadas ao trono, Daenerys Targaryen e Jon Snow, tenham sequer sentado nele. Daenerys teve um fim trágico, quase shakespeariano, logo após uma vitória triunfal sobre seus inimigos na chamada Última Guerra, ao levar uma facada no coração por parte de seu amante. Ele a mata não por traição à rainha, mas por fidelidade ao reino.

Daenerys nos últimos tempos foi assumindo, ainda que na melhor das intenções, o lugar de uma tirana. Na Última Guerra, ao não se conter em dar fim à rainha considerada por ela ilegítima e tomar o trono, lança fogo em uma cidade inteira, matando até mesmo crianças inocentes e suas mães. Toda esta devastação a partir da enunciação de uma palavra: Dracarys! Essa palavra que servia de imperativo para que os dragões cuspissem fogo, parecia nomear certo modo de gozo, bastava ela dizê-la e o alvo inimigo a sua frente era reduzido às cinzas.

Louca
Entretanto, com o apressamento da narrativa já destacado, nos foi dado pouco tempo para percebê-la se tornando uma tirana efetivamente. Ainda que sempre disso tivéssemos notícias, pouco espaço lhe foi dado para por em palavras sua fúria e dar ao expectador uma explicação. Restou a ela a tonalidade de louca. E é mesmo intrigante que a loucura sempre rondou a personagem, seu pai ficou conhecido na história como o Rei Louco, e sua família, a casa Targaryen, é a Casa em que incesto é permitido, comumente irmãos se casam com irmãs.

Ora, freudianamente falando, a loucura de certa maneira é mesmo a ausência de barra ao incesto. E Daenerys na medida em que se intitula “nascida da tempestade, a quebradora de correntes”, presentifica mesmo um paradigma da loucura – a desmesura, a falta de limites, a ausência da barra simbólica ao incesto. Ainda assim, o destino da personagem pareceu injusto, na medida em que apenas pareceu representar o que fazemos diariamente com a loucura quando com elas nos deparamos, lhes furtamos a oportunidade de falar por conta própria e lhe calamos.

Jon Snow por sua vez, o bastardo que descobrimos ser na verdade o herdeiro legítimo e próximo na sucessão do trono, não queria ser rei, nem revelar o segredo sobre seu sangue real. Logo, ao matar sua rainha não lhe resta outro destino senão morrer ou retornar à Grande Muralha para servir à Patrulha da Noite nos confins do norte, uma colônia penal para onde vão os criminosos, uma espécie de “lar para bastardos e homens quebrados”. Soa patético que aquele que tem o carisma do povo, que ressuscitou dos mortos na última temporada e que se porta da maneira mais justa e digna tenha tal fim.

No entanto, parece se tratar exatamente disso, Jon está identificado ao nome de seu pai, o homem mais justo e digno que a série conheceu e que morreu justamente por isso, ainda na primeira temporada mesmo sendo um dos personagens principais. Jon é aquele que mantém a honra a qualquer custo e não perde a dignidade, por isso, assassina sua amada, guiado pelos conselhos de Tyrion, “às vezes o dever mata o amor”, cumprindo um destino cruel para um bem maior e não se furtando de suportar suas consequências.

Jogo com os expectadores
Por outro lado, os criadores também pareceram querer manter certo jogo com os expectadores, fazendo se cumprir uma série de teorias de fãs para deleite dos mesmos, mas no último minuto não deixando se cumprir a teoria maior de todas – Jon e/ou Daenerys ascendendo ao trono. É curioso terem dado o trono para Bran, o Corvo de Três Olhos. É uma figura não muito substancial na medida em que, por ser paraplégico, não pode mais ter filhos. Portanto, é incapaz de gerar sucessores para o reino. A mensagem que parece ressoar desta decisão dos roteiristas é a de que tal reinado seria mais pacífico por se dar pela tutoria de uma mente sábia e ancestral que não se distrai com os assuntos mundanos dos chacras inferiores. É como se quisessem subtrair as intrigas do sexo da equação que envolve a coroa. Ledo engano! “The show must go on!”

Neste ponto, me recordo e cito um dos diálogos que mais me marcaram na série, uma conversa entre Lord Petyr Baelish e Lord Varys sobre o reino. Varys diz que tudo que fazia (fofocas, intrigas e assassínios), ele o fazia pelo bem do reino! Ao que Petyr lhe questiona: “O reino? Você sabe o que o reino é? São as mil lâminas dos inimigos de Aegon. Uma história que concordamos em contar repetidas vezes até esquecermos que é mentira”. As mil lâminas são na verdade menos de 200 espadas a partir das quais foi forjado o trono de ferro sobre o qual se sentava o rei dos sete reinos.

A mentira acerca da quantidade de espadas era passada de geração em geração como sinal de poder e glória. Mas diante disso, Varys retruca à altura: “Mas o que nos resta quando abandonamos a mentira? Caos. Um precipício esperando para engolir todos”. Ao que Pyter arremata de forma pungente: “O caos não é um precipício. Ele é uma escada. Muitos que tentam subi-la fracassam e nunca podem tentar escalá-la novamente. A queda os derrota. E alguns recebem a chance de subir mas se recusam. Prendem-se ao reino. Ou aos deuses. Ou ao amor. Ilusões. Apenas a escada é real. A subida é tudo que existe”.

O final da série trata não do fim de uma escalada, mas do fim de mais alguns degraus. Um deles, um degrau um tanto emocionante, o final dos três irmãos restantes da Casa Stark, com Arya partindo para desbravar regiões desconhecidas, Sansa como Rainha do Norte, o único reino que restou independente e Jon servindo à honra. Já o outro degrau, o que diz respeito ao jogo dos tronos, foi um final mais tragicômico que dramático. Um novo conselho está se formando em torno do novo rei, um tanto atrapalhado, visto que ironicamente quem assume o título de Mestre da Moeda é um mercenário que tem mais interesse em aplicar sua fortuna na reconstrução de bordéis do que nos portos destruídos.

Ao passo que o rei, por sua vez, se retira da reunião em que os conselheiros se dedicam a discutir a reconstrução do reino, com o pressuposto de ir caçar o último dragão vivo. Um ato cujas motivações não ficam claras, o que faz sua atitude parecer mais com certa ambição aventureira de uma criança que assuntos oficiais da coroa cuja função caberia ao rei cumprir.

Nos escapa por entre os dedos
Mudam-se os escaladores, mas permanece a escalada. É uma mentira o que se diz que podemos alcançar ao atingirmos o topo, uma vez que se trata do que sempre nos escapa por entre os dedos. Mas como diria Lacan, não se trata de mera mentira, e sim de uma verdade com estrutura de ficção. Como bem sublinhou Tyrion diante dos Lordes das grandes casas no momento de escolher o novo rei, “não há nada mais poderoso no mundo que uma boa história!”. São elas que sustentam a vida, que mantêm a roda girando. E o que se revela para nós no coração da nova administração do reino com esse conselho bufão é que a roda continua mesmo girando. Ainda que o show tenha acabado, “the show go on”.

Percebemos nos diálogos fiapos de intrigas que se puxados podem descosturar o fim e dar abertura a uma eternidade de acontecimentos futuros e outras guerras em torno do poder. Diante de um final insatisfatório para a maioria dos telespectadores como se verifica nas diversas resenhas em toda internet, o que fica para nós como resto é isso, bem ou mal: a série acabou. No entanto, o jogo de poder que ela engendra jamais tem fim!

Henrique Lopes é psicanalista. Formado em Psicologia (PUC-GO) e especialista em Docência do Ensino Superior (Fabec). Na clínica, atende crianças, adolescentes e adultos. Integra o Coletivo e/ou e a diretoria da Casa da Cultura Digital. Publicou contos na antologia “As Dores de Josefa” (Nega Lilu Editora), a fotozine independente “Veludo Azul” e a zine na garrafa “Agite Antes de Usar” pelo coletivo Cão Sem Dono

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