“Negar as raízes e estabelecer uma relação de ódio para alimentar sua arte é uma ideia muito forte”

Diretor e ator que interpreta o protagonista do filme goiano Dias Vazios falam sobre ser artista no interior do Brasil e sobre como adaptar a literatura para o cinema

O filme goiano “Dias Vazios” foi inteiramente rodado em Silvânia e retrata a vida trágica de jovens do interior de Goiás. O longa metragem é baseado no romance “Hoje Está Um Dia Morto”, vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2005, de André De Leones. Já foi exibido na 21ª Mostra de Tiradentes onde e no Cine PE, onde recebeu os prêmios de melhor direção de arte, melhor atriz coadjuvante (Carla Ribas) e melhor ator (Arthur Ávila).

O filme, que já foi resenhado pelo Jornal Opção, poderá ser conferido a partir do dia 30 nos cinemas Lumière, no Banana Shopping.

Duração: 103 min.

Elenco: Carla Ribas, Nayara Tavares, Natália Dantas, Arthur Ávila, Vinícius Queiroz.

Direção: Robney Bruno Almeida

Gênero: Drama

Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos

Sinopse: A trama, transformada em roteiro e dirigida por Robney Bruno Almeida, gira em torno de dois casais em linhas do tempo separadas por dois anos. Jean (Vinícius Queiroz) e Fabiana (Nayara Tavares) formam o casal que cursa o terceiro ano em colégio de ensino médio e se vê sem perspectivas para o futuro; Daniel (Arthur Ávila) e Alanis (Natália Dantas) pesquisam a dramática história do primeiro casal para a produção de um livro enquanto estudam no terceiro ano do mesmo colégio, dois mais tarde.

Italo Wolff – Este foi o primeiro longa metragem de vocês dois. O que acharam do processo?

Arthur Ávila – Já havia feito pequenas produções em teatro, mas Dias Vazios foi minha primeira experiência atuando, atuando mesmo. Antes de qualquer cena mais complicada, você fica nervoso, mas os membros da produção, o Robney e os outros atores me ajudaram muito.

Eu tinha a imagem de quem assiste, de que sai pronto e genial. Mas em uma filmagem de verdade você tem de repetir a mesma cena várias vezes. Às vezes eu pensava “que saco”, mas ao mesmo tempo enxergava como uma oportunidade de aperfeiçoar o que não estava funcionando na cena. Você tem que entender o que te pedem, o que o roteiro manda, e contribuir do seu jeito. Eu acho que a repetição ajuda muito nisso: a entender sua liberdade de testar, porque se fosse um take só, você ficaria hesitante de arriscar.

Robney Bruno Almeida – Eu já tinha feito vários curtas. Sou apaixonado por cinema desde criança, mas tinha oportunidade de assistir pouco porque morava no interior. O primeiro filme que vi foi o Superman de 1978, com o Christopher Reeve. Depois de muitos anos, fiz arquitetura porque em Goiás não havia cursos na área de cinema. Fiz arquitetura porque gostava de desenhar e sonhava em ser ilustrador de histórias em quadrinhos. Depois de dez anos trabalhando com arquitetura, minha primeira filha nasceu e eu disse “tem que ser agora”.

É muito difícil conseguir verba para fazer um filme. Foram oito anos procurando financiamento. Mas quando você consegue o dinheiro e pode começar a trabalhar, aí não existe nada melhor. Quando estou filmando é como se estivesse em estado alfa, nada me afeta, estou concentrado no que tenho de produzir.

Diretor do filme goiano Dias Vazios

Robney Bruno Almeida | Foto: Fábio Costa

Você é fã de quadrinhos, então?

Robney Bruno Almeida – Meu sonho era fazer um filme do Homem Aranha, meu personagem predileto. Esses filmes vão todos para o caminho errado: a onda é fazer retrô. Se fizessem ambientado na época em que foi concebido pelo Stan Lee, com uma Nova York característica dos anos 60, aí sim.

Arthur Ávila – No teste de elenco, o Robney me perguntou coisas como “se você pudesse ser um super-herói, qual seria?”. Eu lembro de ter respondido que seria o Flash, para tentar voltar no tempo com a super velocidade e tentar corrigir algumas coisas.

Não gosta dos filmes da Marvel?

Robney Bruno Almeida – Eu gosto bastante, assisto todos. Mas cresci colecionando gibis desses heróis. Gosto do retrato da época. No Dias Vazios há um personagem que está sempre lendo quadrinhos, que no livro não tem essa fascinação.

Como foi a pré-produção do filme?

Robney Bruno Almeida – Depois de adaptar o livro “Hoje Está um Dia Morto”, do André de Leones, coloquei na cabeça que não faria um filme só por fazer, queria deixá-lo o melhor possível. Demorou cinco anos para conseguir colocar o primeiro tratamento em um laboratório de roteiro e, no mesmo ano, entrou em três. A partir daí o processo foi natural. Nos inscrevemos no Fundo Setorial do Audiovisual e fomos contemplados pelas cotas regionais do edital público da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Esse fundo foi criado em 2003, pelo Gilberto Gil, mas implementado só em 2012 depois de muita luta no Congresso. Nosso filme veio nas primeiras levas desse fundo.

Como encontrou o livro do André de Leones?

Robney Bruno Almeida – Em 2006 eu adaptei um conto do Leandro Rezende em curta. No set de gravação, ele me indicou o livro do André, que tinha ganhado prêmio de literatura pelo Sesc e ele achou que tinha a ver com a minha visão de mundo. Eu li e comecei a fazer uma adaptação despretensiosa, sem autorização nenhuma do autor. Depois de um tempo, entrei em contato com ele, que me disse que já havia uma produtora de São Paulo interessada nos direitos. Por muita insistência minha, nos encontramos em um café e eu disse a ele, “seu livro está fazendo sucesso, você vai vender para um pessoal de fora que não tem a ver com a sua história, não conhece nossa realidade? Eu sou do interior como você…” e assim o convenci a ler o que eu havia escrito. Pouquíssimo tempo depois, ele entrou em contato comigo para negociar os direitos.

O que te motivou a adaptar o livro?

Robney Bruno Almeida – O livro é uma pancada. Eu amenizei o filme porque não poderia fazer no mesmo tom, é pesado demais. Eu tinha o compromisso comigo mesmo de fazer um filme para o público de 16 anos. Em Silvânia, o pessoal diz que é um livro com classificação indicativa de 30 anos de idade. Eu me identifiquei porque são personagens do interior e tem a questão religiosa. É engraçado que vim de Jaraguá para Goiânia com dez anos de idade, e com o livro eu revivi coisas que havia esquecido.

Como foi o processo de adaptação?

Robney Bruno Almeida – Adaptar é correr riscos. Se o livro for famoso, as pessoas cobram fidelidade. Eu tinha o receio de fazer uma história próxima demais da do livro porque são linguagens diferentes. Em minhas adaptações eu procuro manter a essência da história, mas não necessariamente a trama. Uso o material original como se fosse uma fonte de pesquisa. Não é bem uma adaptação, mas uma livre inspiração. O roteiro tem muita coisa minha, que eu vivenciei; então o que ficou no filme é um diálogo meu com o autor do livro.

Ator do filme goiano Dias Vazios

Arthur Ávila | Foto: Fábio Costa

Vocês dois são do interior. Como artistas que cresceram em cidades interioranas, se identificaram de alguma forma com o personagem do Daniel?

Arthur Ávila – Com certeza. Quando assumi que queria me tornar ator, fiquei com medo porque todos meus amigos fariam direito, medicina e engenharia. Eu dizia que queria ser ator e eles riam. Ainda mais porque sempre fui muito tímido. Mas como o Daniel, eu cresci em uma cidade onde a cultura não aceita bem a individualidade dele, e ele querer fazer algo criativo para sair daquele lugar. Como ele, eu me senti preso ao lugar onde nasci. Mas minha família me apoiou muito e eu não poderia agradecer mais o que fizeram por mim.

Robney Bruno Almeida – Sim. O Daniel sou eu e o André de Leones. O André, quando escreveu o livro, vivia em Silvânia ainda. Já tinha tentado sair várias vezes da cidade, mas acabava retornando por questões financeiras. O livro foi a tábua de salvação para ele – quando ganha o prêmio de literatura, ganha a oportunidade de viajar pelo Brasil e pelo exterior.

Na trama, um dos motivadores é o livro que o Daniel está escrevendo. A Alanis, personagem da Natália Dantas, expressa o medo de que a história do livro não seja entendida.

Arthur Ávila – Esse é um medo, não só meu como artista, mas de todo adolescente. Porém, quando estou atuando, o medo social, minha timidez e receio do julgamento somem. Eu me sinto livre para dizer o que meu instinto decidir sobre o personagem que estou interpretando. Porque veja: quando você está em cena, a sociedade é recriada de forma fictícia, você pode embarcar na situação da ficção para se libertar.

Robney deu liberdade para os atores?

Arthur Ávila – Sim. Ele mesmo usou a preparação da Fátima Toledo, e deu uma liberdade para a gente porque entendia que no fim da preparação nós já éramos aqueles personagens. Então, o que sentíamos confortável falando era o que o personagem se sentiria confortável falando.

Robney Bruno Almeida – Tudo começa com a seleção do elenco. Selecionamos os quatro protagonistas, testamos duzentos atores em sete etapas. Trabalhamos com preparação de elenco com o estúdio da Fátima Toledo, que exercitamos a percepção sensorial e a situação das cenas mais do que os diálogos especificamente. Não demos os roteiros de antemão, mas contextualizamos a história e sopramos as falas enquanto eles se preparavam.

Como foi seu relacionamento com os outros atores de Dias Vazios?

Arthur Ávila – Todo mundo lá é talentosíssimo. Eu me sentia um intruso no meio deles, o mais inexperiente. Quando o nervosismo batia, eu sabia que podia contar com eles; me ajudaram muito. Ficamos hospedados na mesma casa em Silvânia durante as gravações e criamos uma amizade que dura até hoje.

Arthur Ávila | Foto: Fábio Costa

Quanto a contracenar com a Carla Ribas, que é a única atriz conhecidíssima do elenco, eu estava muito nervoso. Mas tive uma conversa muito de igual para igual com ela, que foi muito agradável e me ajudou bastante a relaxar. A Carla Ribas é sensacional; as cenas com ela nunca precisam de mais de quatro takes porque ela está tão concentrada que você não tem outra escolha a não ser fazer o mesmo.

Vocês acham que a cidade foi bem retratada no filme?

Arthur Ávila – Silvânia é maravilhosa. Eu, que sempre gostei de cidades pequenas, achei todo mundo muito gentil e a galera do teatro de lá é muito talentosa. Eles fazem peças, canal no YouTube, enfim, são ativos e dispostos, ao contrário do que o André de Leones retrata no livro. Ao contrário dos protagonistas de “Hoje Está um Dia Morto” e de Dias Vazios, os jovens de Silvânia não parecem querer sair de lá necessariamente, mas querer ajudar a cidade a crescer culturalmente. Os personagens do filme têm o conflito de estarem condenados a ficar em uma Silvânia deprimente versus o desejo de fugir, como o André de Leones tinha; mas na realidade esse não é um problema intrínseco à cidade. Os personagens carregam a depressão consigo – a doença tem raiz na escola deles, na vida familiar, profissional, religiosa, etc.

Dá para notar no filme um rancor contra Silvânia. Por um lado achei isso bom porque é novo; cidades de interior geralmente são tratadas em tom folclórico ou romântico no cinema nacional. Mas por outro, imagino que a recepção na cidade não seja a melhor.

Robney Bruno Almeida – Negar suas raízes e estabelecer uma relação de ódio para alimentar sua arte é muito forte. O livro “Hoje Está Um Dia Morto” é muito odiado em Silvânia e o André é persona non grata lá. Quando o pessoal descobriu que nosso filme era uma adaptação do livro, as portas se fecharam totalmente. Com muito custo conseguimos as locações.

Quando começamos a produzir o filme, decidi que ia passar um tempo em Silvânia. Contratei um assistente de direção e passei um tempo vivendo lá, visitando, conversando, fotografando e conhecendo os locais. Eu me perguntava “cadê a cidade melancólica, pessimista, niilista do livro?” A cidade é ativa e os jovens são engajados.

No tempo em que vivi lá, descobri que não podia retratar a cidade real, mas a cidade do André. Uma cidade cinza. A percepção sensorial do personagem, não exatamente a da realidade. Temos vários planos da cidade vazia que causam estranhamento em quem conhece Silvânia.

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